sábado, 3 de maio de 2014

RELATIONS BETWEEN SUBJECT, PREDICATE, AND OBJECT IN THE GREEK MEDIUM VOICE - RELAÇÕES SUJEITO-PREDICADO-OBJETO NA VOZ MÉDIA


* Este artigo foi apresentado originalmente no VIII CELSUL - CÍRCULO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS DO SUL - realizado na UFRGS - em Porto Alegre, de 29 a 31 de outubro de 2008 e publicado nos anais do mesmo congresso.

AS RELAÇÕES SUJEITO–PREDICADO–OBJETO NA VOZ MÉDIA
Relations between subject, predicate and object  in the Greek medium voice,
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara, e  Profª. MSc. Rossana Dutra Tasso

Resumo. O objetivo deste trabalho é, ao mesmo tempo, analisar as relações enunciativas entre sujeito, predicado e objeto na voz média grega e Demonstrar a presença dessa voz na língua portuguesa. Não tem, a voz média, Um correspondente formal em nossa língua, como, de modo geral, não o tem Nas línguas modernas. É expressa perifrasticamente, mais comumente com um Verbo na voz ativa e um pronome reflexivo. Em português, “curar a doença” e “curar-se da doença” seriam exemplos respectivamente da voz ativa e da voz média. Na voz média, o processo verbal tem efeito sobre o sujeito, porém vai além da reflexiva portuguesa. O que caracteriza o médio é o fato de ele definir o sujeito como interior ao processo, junto com o objeto.
Palavras-chave: voz média; voz ativa; sujeito; enunciação.  

Abstract. The goal of this assignment is, at the same time, to analyze the Enunciatively relations between subject, predicate and object  in the Greek medium voice, and to demonstrate its presence in the Portuguese language. The medium voice does not have a formal correspondent in our language, just like, in a general way, in any modern language. It is periphrastically expressed, more commonly with an active voice verb and a reflexive pronoun. In Portuguese, “to heal from the sickness” and to “to heal oneself from the sickness” would be respectively examples of both active and medium voice. In the medium voice, the verbal process has effect over the subject; however it goes beyond the reflexive from the Portuguese language. What characterizes the medium voice is the fact that it defines the subject as a being inside the process, together with the object.

1.Introdução
         Poucos são os estudiosos da linguagem hoje que se dedicam ao estudo da voz média. Mesmo os que se debruçam sobre a gramática da língua grega clássica, quando abordam O tema, geralmente permanecem no nível morfológico-sintático. Porém, depois que os filósofos e, de modo especial, os psicanalistas dedicaram muitos estudos ao assunto, passa-se a dar-lhe maior importância.
         Este estudo tem por finalidade abordar as elações sujeito–predicado–objeto a partir das relações sintáticas de voz média. Para tanto, julgamos necessário retomar os conceitos fundamentais aqui implicados, bem como, pelo menos de modo superficial, as bases filosóficas que fundamentam as concepções inerentes a este tema.
2. As origens da voz média
         As vozes, ativa e passiva, sob o nome de ação e paixão, já  ao mencionadas no Órganon de Aristóteles, no livro das Categorias (Kathgori/ai), azendo parte as dez categorias fundamentais propostas pelo filósofo clássico – assim discriminadas, em português e, nos parênteses, em grego e latim, respectivamente: substância (οσία, substantia), quantidade (ποσόν, quantitas), qualidade (ποιόν, qualitas), relação (πρός τι, relatio), lugar (τοποs, ubi), tempo (ποτέ, quando), estado (κεσθαι, situs), hábito (χειν, habere), ação (ποιεν, actio) e paixão (πάσχειν, passio). Algumas vezes, essas categorias são também chamadas de classes.
         O nosso termo ação provém do verbo latino ago (ago, egi, actum, agere), que significa conduzir, levar, coagir, fazer, agir, etc. Do tempo supino actum, originou-se o termo ato e seu correlato ação. Daí surge a relação ativa entre o verbo e o sujeito. Aparece a manifestação e o conceito de sujeito com dupla significação: o sujeito sintático, regendo o predicado, e o sujeito empírico, agindo sobre o mundo e sobre o outro. Nessa voz, o sujeito empírico assume a consciência de sua ação sobre o mundo.
         O termo passivo/a provém do verbo  atino patior (patior, passus sum, pati), que significa sofrer, suportar, tolerar,  admitir. Desse verbo originaram-se os termos paixão e passivo. Dele deriva-se a concepção de voz passiva, em que o sujeito suporta, sofre a ação verbal. Por outro lado, nesta voz aparece a manifestação da ação do mundo ou do outro sobre o sujeito sintático: aparece a consciência da ação do mundo ou do outro sobre o indivíduo, sujeito empírico.
         Essa voz, a passiva, no entanto, tem surgimento posterior na maioria das línguas. Em se tratando das línguas do Oriente, essa voz somente surgiu após contatos mais efetivos com as línguas ocidentais, como se pode constatar pela citação abaixo:
Curiosamente, a voz passiva é tardia. Se comparamos com o caso De línguas como o chinês, vemos que a voz passiva é inexistente e só foi Adotada – muito tardiamente, digamos, nos sécs. XVIII e XIX – por contatos com o Ocidente (SPROVIERO, 1997, p.2).

         No processo de recuperação do conceito de voz média, há estudiosos que afirmam hoje que, no surgimento da linguagem humana, ela foi a voz original (que dá origem às demais), e fundamentam seus postulados nos estudos e análises do surgimento da linguagem na criança, realizados pela Psicologia  Experimental. A criança inicia sua inserção no uso da linguagem não se distinguindo do mundo que a cerca: nem dos objetos, nem dos outros seres humanos. A voz característica dessa fase da aquisição da linguagem seria a voz média.
         Essa voz era a fundamental nos primórdios do surgimento da linguagem no homem. Na infância da humanidade, o homem não tinha ainda consciência de si e do universo como ontologicamente distintos. Nesse sentido, sobre a voz média, Sproviero afirma:
E o ponto fundamental é a tese desenvolvida pelo pensador alemão Schöfer. Ele é de opinião de que houve uma fase em que havia somente o médio: ativo e passivo seriam análises do médio. O médio indicaria portanto  a fase da consciência não destacada do mundo, isto é, o homem e o mundo não se separavam, integravam o mesmo todo e a linguagem exprimia essa relação integral (Idem, ibidem, 1997, p.3).

         O termo análise provém da palavra grega lu/siv, cujo significado é solução, dissolução, ação de dissolver, desatar etc. Essa etimologia presta-se para o entendimento do termo análise, empregado por Sproviero na citação acima. Assim, o termo médio ter-se-ia dissolvido, analisado em ativo, passivo e médio no sânscrito e no Grego clássico.
         Dessa forma, o conceito de voz média está relacionado com a própria evolução do homem e ligado à própria formação da consciência do indivíduo acerca de si próprio, do mundo que o cerca e de suas relações intersubjetivas de alteridade.
         Acontece que o desenvolvimento do latim e do sânscrito, por caminhos semelhantes, motivou o apagamento da marca morfológico-sintática de voz média na maioria das línguas naturais em uso atualmente. O sânscrito, por motivos religiosos, e o latim, por motivos político-religiosos, fizeram dessas línguas, línguas artificiais. A Partir da gramática grega de Dionísio (Dionu/siov Qra/c), as gramáticas escritas Não passaram a não corresponder a línguas naturais.
         As gramáticas não eram descritivas. A primeira gramática do sânscrito, escrita pelo religioso indiano Panini, não refletia a língua realmente falada pelos usuários do idioma: visava a efeitos sobrenaturais do ritual sagrado e buscava aproximar-se da língua primitiva em que os textos do culto haviam sido redigidos. Essa gramática criou uma língua que passou a ser usada nos templos de toda a Índia por muitos séculos. Tal formalização gramatical serviu  e base para a criação das gramáticas escolares desde então usadas nas escolas como instrumento de ensino.
         O latim medieval se desenvolveu de modo semelhante. Também ele não foi uma língua falada. Os gramáticos romanos tomaram uma língua artificial criada por influência dos gramáticos gregos clássicos, o latim clássico, promoveram algumas mudanças que o momento exigia, impuseram normas que as fixassem, dogmatizaram seu uso e criaram um vocabulário filosófico. Então, essa língua consagrou-se (do verbo latino sacrare, por sua vez ligado ao substantivo sacer, sacerdos, que significa sacerdote) como veículo de cultura. Assim, todo o texto que não seguisse as normas da gramática, tornada oficial dos estados, não era considerado científico.
         As gramáticas escolares foram elaboradas a partir dessas normas e impostas aos alunos que quisessem utilizar a norma culta. Não eram gramáticas descritivas de línguas naturais. É lógico que essa imposição contribuiu para originar as novas línguas naturais, não por seguirem esses parâmetros impostos, mas exatamente por se fundarem em princípios de outra natureza, a das relações sociais naturais.
         A gramática clássica grega, assim como a temos hoje, reduz a voz média ou a uma simples reflexiva ou, na melhor das hipóteses, apresenta-a como expressão de uma ação que o sujeito pratica particularmente interessado em seu efeito, ou em seu próprio interesse. Veja-se o seguinte exemplo do verbo  tomado primeiramente na voz ativa: αρέω (eu tomo). Passado para a voz média, fica: αρέοµαι (eu escolho), isto é, tomo de acordo com meu interesse.
         Nesse emprego, a voz média perdeu sua dimensão primeira, isto é, a de ser uma marca primordial de indiferenciação do indivíduo com o universo e com a própria divindade que caracterizava os tempos míticos. Aparece apenas como manifestando uma ação verbal em que o sujeito age de acordo com seus próprios interesses.
         Há, também, ainda hoje, forte preocupação com a mudança,  com o que se chama de “corrupção” ou “perdas” de dimensões da língua. As citações acima foram iradas de uma entrevista feita a Mário Bruno  Sproviero, professor de filosofia da USP, sobre um artigo publicado por ele a respeito da linguagem, em que destacara o desaparecimento morfológico-sintático da voz média nas línguas naturais em uso atualmente. Valemo-nos de afirmativas dele e de seu entrevistador para expressarmos nosso ponto de vista sobre o tema.
         Afirma o entrevistador:

Antes de tratarmos da voz média e para tomar um caso ligado diretamente às transformações do português realmente falado no Brasil de hoje (sobretudo pelo jovem...), ocorre-me que um dos exemplos mais fortes dessa ligação pensamento/linguagem está acontecendo com o atual processo de supressão (fática) do subjuntivo (ou da distinção subjuntivo/indicativo) O que se ouve é: "Se você quer que eu vou, eu vou...". Parece-me que esta supressão (gramatical) corresponde a uma supressão de distinção de categorias mentais: a abolição da distinção entre o real em ato e o simplesmente possível ou desejado... (Idem,  ibidem, 1997, p.1)

         Em sua resposta, o entrevistado concorda com o posicionamento do entrevistador, dizendo:

Exatamente. O exemplo é muito bom. E mostra como um empobrecimento de linguagem corresponde a um estreitamento de horizontes mentais. Isto é mais nítido ainda no alemão, cujo subjuntivo é ainda mais detalhado do que o nosso (quanto a modos de possibilidade, desejo etc.) (Idem, ibidem, p.1).

         Esses posicionamentos em relação ao uso linguístico estão intimamente relacionados com os de Dionísio Trácio, no século II a. C., em relação à língua grega. Vivendo em Alexandria, portanto  ora da Grécia, e num período em que, por força do imperialismo, não mais do estado grego, mas ainda da cultura helênica, não mais no período helênico, mas no período helenístico, o humanista da Trácia elaborou sua gramática.
         Ocorre que no período helênico, cujo apogeu se dá no século V a. C., os literatos, mormente os poetas, empregavam uma  linguagem altamente rebuscada na produção de suas obras de indiscutível qualidade literária.
         Dionísio, vendo a produção literária de seu tempo, o período helenístico, em que a língua e cultura grega se disseminavam por todos os países do Mediterrâneo, encontrando o emprego da língua grega pelos seus contemporâneos arvorados em homens de cultura, ficou extremamente preocupado com as diferenças entre os textos em grego produzidos pelos coetâneos dele e os das obras clássicas da Grécia, produzidos no ápice da cultura dessa nação. Isso o levou a redigir sua gramática, que nada mais é do que um conjunto de regras de escrever, orientadas pelos textos da literatura grega (rotulada hoje de clássica) produzidos no período helênico. Ora, nenhum grego empregava essa linguagem para a comunicação diária, muito menos em seu uso coloquial.
         No entanto, a gramática de Dionísio serviu de base para a elaboração das gramáticas  latinas e de todas as gramáticas prescritivas que e elaboraram depois de então. Esta breve reflexão servirá de base para nossos posicionamentos neste artigo.
         Discordando do ponto de vista de Sproviero e de seu entrevistador, no que se refere à mudança linguística, e fundados na concepção de que gramáticas prescritivas são calcadas em modelos políticos autoritários, fazemos os comentários que se seguem.
         As línguas não se regem por normas impostas por quem quer que seja. As regras que orientam suas mudanças são as mesmas que regem as transformações sociais. E nessas transformações linguísticas não há enriquecimento, empobrecimento ou corrupção: surgem termos que têm orientação filosófico-sociológica de outra ordem e natureza, ora ligadas à moral e à religião, ora a interesses menos nobres. E o sujeito passa a conceber a realidade de outra maneira. São diferentes estratégias discursivas eleitas pelos falantes para se manifestarem em seu idioma que se revestem de outra roupagem para expressar um olhar próprio, ao mesmo tempo igual e novo, sobre si mesmos e a realidade que os cerca. Não é nada melhor nem pior: é diferente.
         Na mesma direção em relação à mudança, Sproviero comenta ainda o apagamento da marca formal do subjuntivo e, a seguir, da voz média:

Da mesma maneira que, como você dizia, nós estamos, hoje, numa fase de perda do subjuntivo e, com ele, da distinção entre realidade e possibilidade; no caso do grego, as gramáticas foram escritas numa época em que a voz média já não era mais empregada e ela foi objeto de uma teorização que não compreendia o alcance e o sentido dessa voz (Idem, ibidem, p. 3).

         Em nosso ponto de vista, não ouve perda nenhuma na ausência a marca de subjuntivo. Não podemos concordar com esse modo de ver. Fato de não empregar uma marca linguística para distinguir realidade e possibilidade não significa que os usuários da língua hoje não a percebam e não sejam capazes de manifestá-la, quer oralmente quer em textos. Trata-se do que concebemos aqui como diferença de estratégia linguística sem determinação qualitativa de melhor ou pior.
         Voltando à voz média, seu uso vai desaparecendo, historicamente, entre o século IX a. C., período homérico, auge do seu uso e início do declínio; e o século II a. C., período do gramático Dionísio já citado anteriormente, em que seu emprego se reduz ao que aparece na gramática grega também já mencionado.
         O período homérico é pós-guerra de Tróia, que ocorreu no século II a. C., portanto, início do imperialismo grego. Até então, desenvolviam-se as pequenas comunidades das cidades-estado, em que o indivíduo era apenas um cidadão, não se diferenciando dos demais.

 O médio é muito mais a consciência da comunidade, uma comunidade da qual o sujeito não se distingue; numa sociedade complexa, a forma média vai se extinguindo numa estrutura cada vez mais complexa e tendendo ao Império (Idem, ibidem, p. 5).

         Desse ponto histórico em diante, cada vez mais o indivíduo passou a pertencer menos à comunidade e mais ao universo, ao império:
O que foi a filosofia, senão um esforço constante para consumar a ponte homem-mundo. Tanto é assim que sempre encontramos uma dificuldade de distinguir homem-mundo e, na dimensão epistemológica, a distinção sujeito/objeto, não excluímos do objeto o próprio eu do sujeito, que está presente em todos os atos do conhecimento: eu me conheço ao conhecer... Já o eu, enquanto sujeito ontológico, se distingue do mundo...(Idem, ibidem, p. 5).

         A partir do desaparecimento desse elo homem–mundo expresso por marcas linguísticas, o ser humano, com muitos pensadores, buscou essa ponte. É o caso de Kant em Crítica da Razão Prática. Já  Sidarta Gautama, Buda, no século VI a..C., buscavam a ligação entre o mundo mítico e a nova realidade.
         Essa marca de relação sujeito–objeto na ação, segundo algumas correntes da psicologia, desapareceu como uma forma fixa, morfológica, na linguagem, mas permanece no inconsciente e se manifesta na enunciação.
3. Os estudos de Benvensite sobre a voz média
         A contribuição dos estudos enunciativos acerca da voz medial vem através de Émile Benveniste. Em Problemas de Linguística Geral, tomo I, há um capítulo intitulado Ativo e médio no verbo, datado de 1950, no qual o autor examina a particularidade da distinção entre voz ativa e voz medial nas línguas indo-europeias, valendo-se do conceito de diátese:

Toda forma verbal finita pertence necessariamente a uma ou outra diátese, e mesmo certas formas nominais do verbo (infinitos, particípios) igualmente se submetem. Equivale a dizer que tempo, modo, pessoa, número têm uma expressão diferente no ativo e no médio (BENVENISTE, 1976, p.184).

         O conceito de diátese não aparece explicitamente definido por Benveniste. No entanto, é possível inferir, por aproximação ao campo a Medicina, que o termo diátese é empregado para referir-se a uma predisposição, uma característica imanente dos verbos, que os faz selecionar argumentos de tal forma que, no caso específico da voz média, veicule-se a informação de que o agente verbal efetua algo se afetando direta e concomitantemente. Assim, tem-se como exemplo nascer, verbo cujo significado vai além do espectro ativo: nascer é, para o sujeito, passar a integrar o mundo e interagir com ele; ainda que, em uma primeira instância, ele não pratique a ação ou controle-a, nascer é uma ação que afeta o sujeito em sua relação com a realidade, no dar-se conta da própria existência.
         Como se pode observar, ao tomar como exemplo o verbo nascer, destaca-se o caráter filosófico na re-ligação do homem com o mundo. A categoria “voz” é “a diátese fundamental do sujeito no verbo”, conforme Benveniste. O homem transforma, modifica o mundo no mesmo instante em que transforma a si próprio: eis o princípio intrínseco à compreensão da voz média. “O homem cumpre algo que se cumpre nele” (idem, ibidem, p.188).
         Em seu estudo, Benveniste dedica-se a extinguir as relações entre sujeito e processo na voz média por oposição à voz ativa. Desse modo, o linguista e filósofo ressalta que, na voz ativa, os verbos marcam processos que se efetuam a partir do sujeito e fora dele, como em soprar. Tendência distinta se marca na voz média, uma vez que os verbos apontam a processos dos quais o sujeito é a sede e fica, portanto, no interior do processo. Será a transitividade verbal o elemento indispensável à conversão do médio ao ativo.
         A voz passiva é compreendida por Benveniste como uma transformação histórica da voz média. O sujeito que primeiramente era visto como atuando no mundo pela intenção de atuar sobre si próprio passa, na voz passiva, a ser atuado pelo mundo. O agente converte-se em paciente.
         Uma diferenciação entre duas modalidades de diátese é examinada ao final de Ativo e médio no verbo. Considerando-se a posição ocupada pelo sujeito quanto ao processo expresso pelo verbo, haveria para a voz ativa uma noção de diátese externa, enquanto que para a voz média haveria uma diátese interna. Por conseguinte, a diátese soma-se, na proposta de Benveniste, às categorias de pessoa e de número para delimitar o que chama de “campo posicional do sujeito”, isto é, o modo como o sujeito situa-se em relação ao processo verbal.
         A contribuição deste trabalho de Benveniste está, parece-nos, no fato de que são apresentadas evidências linguísticas para a compreensão da voz média, ainda que muitos gramáticos tenham-na associado a uma mera marca do interesse do sujeito quanto ao processo.
         Suportada pela língua, a marca medial supostamente tem seu valor na oposição à voz ativa – oposição esta que fragiliza o princípio de que a voz média se explica pela intervenção de fatores extralinguísticos. O homem está na língua e, assim sendo, o estudo da voz média é mais uma comprovação disso.
4. A presença da voz média na língua portuguesa: a relação sujeito–
predicado–objeto

         Pesquisas recentes propõem-se a discutir a repercussão da voz média na língua portuguesa em seu estado atual. Em artigo de 2002, Camacho objetiva distinguir construções médias de construções reflexivo-recíprocas, buscando “evidências formais, semânticas e tipológicas”. Para tanto, vale-se das considerações de Câmara Jr. (1972),

para quem o medial corresponde morfossintaticamente a uma construção em que à forma do verbo na voz ativa se acrescenta um pronome adverbal átono, referente à pessoa do sujeito, e a função semântica que veicula é a de uma integração no estado de coisas que dele parte (CAMACHO, 2002, p. 2).

         Camacho afirma que há, no português, itens lexicais determinados, todos eles verbos inerentemente pronominais, para sinalizar a voz média. A partir disso, declara que “a voz média é uma categoria linguística potencial, capaz de manifestar-se gramaticalmente”. Mais adiante, ressalta que

O português dispõe de um elenco considerável de verbos intransitivos em que iniciador e entidade afetada convergem no  sujeito, como desaparecer, evoluir etc. por um lado, e cair, morrer etc. por outro. Mesmo assim, esses predicados não se enquadram no sistema de diátese medial, não só por serem destituídos de marcação formal, mas também por não apresentarem contraparte transitiva, que permita algum tipo de seleção. (idem, ibidem, p.5).[grifos nossos].

         Destaquemos aqui nossa discordância em relação à posição assumida por Camacho nesta última citação. Se, como já postulado por Benveniste, a voz média deve ser compreendida como o processo em que o agente efetue algo se afetando, a marca formal torna-se secundária, ou até mesmo redundante. Para fins de classificação, relevante deve ser a presença da diátese interna no processo desencadeado pelo verbo. A voz média, portanto, é perceptível inclusive em formas verbais desprovidas de marcação pronominal. O critério de transitividade verbal somente se justifica na contraposição à voz ativa, já que o signo linguístico é configurado pelas oposições que ele desencadeia no interior do sistema.
         Além disso, os pronomes átonos são os marcadores tanto da voz média quanto da voz reflexiva, o que obscurece a distinção entre uma e outra simplesmente pelo critério morfossintático. O fator situacional, como determinante do uso que o sujeito faz do sistema (ou melhor, do aparelho formal da enunciação, trazendo Benveniste), não pode ser descartado.
         Parece-nos, portanto, que o olhar conferido pelos estudos enunciativos à linguagem impede-nos de cercar a compreensão da voz media à marcação clítica, ou mesmo à transitividade verbal. É inegável que no enfoque medial há traços da voz reflexiva, tal como a concebemos hoje, semântica e sintaticamente, inclusive.
         Entretanto, insistimos que os pressupostos benvenisteanos, seja quanto aos planos semiótico e semântico – que marcam a intervenção do homem na língua –, seja quanto à descrição do conceito de diátese –, em especial a interna, que situa o sujeito no interior do processo verbal, como agente diretamente interessado e afetado –, possibilitam a percepção da voz média sob um ponto de vista abrangente e mais próximo à sua noção primeira, aquela anterior à gramática de Dionísio.
         A Gramática da Língua Portuguesa (2003), de Maria Helena Mira Mateus et al., reserva algumas páginas ao estudo da voz média. No capítulo A família das construções inacusativas, há uma seção intitulada Construções médias,. após os exemplos “(a) A tua letra lê-se  bem”, “(b) Esse tipo de tecido lava-se facilmente” e “(c) Os trabalhos bons corrigem-se com mais prazer”, as construções médias são assim descritas:
Estas construções partilham propriedades que caracterizam a variante inacusativa dos verbos de alternância causativa e as passivas sintácticas e de -se. Com efeito,  os verbos que nelas ocorrem são verbos transitivos, que seleccionam um argumento externo e um argumento interno directo, mas nestas construções apenas ocorre o argumento nominal com o papel temático interno[...] (MIRA MATEUS et al., 2003, p. 536).

         Conforme se percebe, as considerações de Mira Mateus et al. Retornam à marcação morfossintática como critério obrigatório para a caracterização de uma construção medial. O princípio de que há um argumento nominal com papel temático interno ao processo desencadeado pela forma verbal medial reaparece, mas não se fazem notar na definição acima exposta nem o interesse do sujeito no processo de que é agente (um tecido não teria a intenção de lavar-se a si próprio, por exemplo), nem mesmo a indissociabilidade sujeito/mundo, principal marca da voz média das línguas naturais da Antiguidade.
         Ao final da referida seção, os autores atentam para o fato de que “alguns verbos aceitam a construção média sem exigirem morfologia média explícita através do clítico –se” (Idem,ibidem, p. 538). Citam, logo após,os seguintes exemplos para uma “morfologia média abstracta”: “(a) Estas calças vestem bem”,“(b) Esta tinta seca rapidamente” e “(c) Este pavio queima mal”. Mais uma vez comprova-se que a definição de voz média, tal como a estamos pensando neste artigo, não é contemplada pelos estudos desses autores. Realmente, vimos insistindo na proposição de que a marca morfossintática é dispensável à caracterização da voz média, uma vez que a particularidade medial está no significado do processo desencadeado por alguns verbos e na diátese interna própria deles. Porém, não nos parece coerente,  pelo menos segundo entendemos, considerar que em um exemplo como “Este pavio queima mal” se observa um interesse do sujeito no processo, muito menos sua re-ligação com o mundo ao se deixar afetar pelo processo do qual se põe como agente.
         Voltando à nossa posição inicial, as línguas, desde as antigas, mantêm algumas formas que marcam a voz média, preservando laços dessa relação sujeito-mundo.      Exemplo claro e rico dessa voz havia já no latim, nas formas dos verbos depoentes. O interessante é que muitos desses verbos chegaram ao português e fazem-se presentes ainda, embora nosso idioma não tenha, para isso, uma marca morfológica. Vejamos alguns exemplos.
         Verbo depoente é aquele que tem uma forma passiva e significado ativo. Um dos mais usados é loquor, falar. Sempre que falo, falo também para mim mesmo. Ao mesmo tempo em que falo para o outro, sou também destinatário da minha própria fala.
         Outro verbo depoente é patior, sofrer, padecer. Há uma profunda dimensão de relação sujeito-verbo-objeto expressa por esse verbo, pois a  ação de sofrer recai sempre sobre o sujeito que sofre. E sofrer não é sempre sinônimo de padecer, embora essa dimensão sempre acompanhe o processo em sua profundidade. Sofrer transformação pode conter muito de positivo, mas é sempre desalojar-se. Há uma ideia de perda também, portanto.
         O verbo patior liga-se também à ideia de paixão através do pretérito perfeito (passus sum). Daí provém o adjetivo passional que evoca duplicidade de apego e dor. Além disso, traz uma dimensão relacional entre sujeito, predicado e duplo objeto, enquanto o sujeito, quando sofre pela dor alheia, tem o outro como objeto indireto (quem sofre, sofre por alguém) e a si mesmo como objeto reflexivo do próprio sofrer, o que faz parte da dimensão depoente do verbo e que na tem marca morfológica na língua portuguesa.
         Há certos verbos em que se pode perceber melhor a presença da voz média, mesmo não havendo uma marca morfológica para expressá-la. Etimologicamente, educar forma-se do verbo latino duco (duco, duxi, ductum, ducere), que significa conduzir, precedido da preposição ex, que significa para fora. Essa preposição, em forma prefixal, se junta à forma verbal para que o novo verbo perca seu sentido físico e assuma um outro, metafórico. No entanto, mantém o sentido físico de estar junto, preso a si, de tal forma que só é possível educar, educando-se. Observe-se a presença de sujeito, verbo e duplo objeto: o educando e o próprio educador estão implicados no mesmo processo, o que compreendemos sob a ótica do conceito de diátese.
         Há nessa concepção de educação toda uma riqueza a explorar, que cabe muito mais ao pedagogo e menos ao linguista, no que tange ao sentido desse movimento para fora. Porém, dele também deve dar conta o estudioso da linguagem, uma vez que está na posição daquele que revela o desvela o processo encoberto nos meandros da linguagem, meio em que educador e educando simultaneamente se ensinam, pois caminham juntos.
         Na metáfora platônica da caverna, tateiam educando e educador nas trevas, à busca da luz que nunca é completa, pois o ser humano está em constante fazer-se e descobrir-se, descobrindo-se no outro e como outro de si mesmo, como objeto da própria investigação.
         Meditari é um verbo de forma morfológica passiva, mas com dimensão média. Não se trata da forma ativa meditare, que já contém uma dimensão média, mas a passiva meditari manifesta uma relação medial mais intensa, pois a voz média não está penas no meio entre a passiva e a ativa, mas está no meio entre o sujeito e o mundo. A predicação de meditari é meditar-se a si mesmo enquanto inserido no mundo.
         Estas formas de manifestação  a voz média não permanecem exclusivas à linguagem filosófica, nem são características apenas das línguas clássicas. Pelo contrário, estão presentes na linguagem de  todo dia, em muitos tipos de expressões, como também fazem parte dos textos literários.
         Um exemplo claro do português do Brasil, na linguagem  coloquial, é o dativo ético, em que aparecem expressões como Me morreu o gato, Agora me acontece mais essa ou Não é que ela me foi embora? Essas expressões mostram claramente a presença da voz média em nosso idioma. A diátese verbal, na mesma medida em que atinge o objeto, afeta concomitantemente o sujeito.
         Em Me morreu o  gato, como nos demais exemplos, está clara a afetação do sujeito pela relação do predicado com o objeto. Não são, porém, apenas marcas negativas de perda. Podem ocorrer situações em que o sujeito recebe, da relação verbo objeto, uma afetação de carga positiva, como é o caso do exemplo a seguir: Não é que ele me ganha o prêmio?!
         Como afirmamos anteriormente, em português, podem-se encontrar exemplos da voz  média também  nos textos  literários, como acontece no poema abaixo, de Cecília Meireles.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada. (Cecília Meireles)

         Nos fragmentos “não sinto gozo nem tormento.(...) Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, (...) Não sei se fico ou passo. (...) E um dia sei que estarei mudo: – mais nada”, o poeta vive essa integração com o universo de que faz parte. Em sinto... gozo estão presente simultaneamente o sujeito que sente e goza integrado no mundo em que se realiza a ação verbal. Em edifico, permaneço, desfaço e fico, passo e estarei, ao mesmo tempo em que edifico, me edifico; em que faço, me faço; em que fico, fico eu mesmo no mundo a que pertenço indissociavelmente; e estarei, com sua dimensão  presente e futura, situando o sujeito no universo com o substantivo mundo.

5. Considerações finais
         Pensar a voz média é estabelecer outros padrões para a compreensão da relação sujeito–predicado–objeto. Tentamos ressaltar neste trabalho que considerar a perspectiva medial na linguagem vai além de situar o sujeito no interior do processo verbal de que é agente, ou simplesmente avaliar seu interesse quanto ao resultado do processo. Sujeito e objeto tornam-se indissociáveis na voz média. Por consequência, através dessa categoria, pontua-se a re-ligação do homem com o mundo, do homem com a realidade que dele não se pode separar.          O homem, igual à linguagem,  só em razão de existir pelo princípio da relação.
         A diátese interna manifesta a própria essência epistemológica do ser humano que não se pode distanciar do mundo que observa, descreve e analisa, pois é  indissociável dele. Essa separação é apenas ontológica: olhar para o homem sujeito dissociado do universo, objeto da observação, é apenas um processo didático. Homem, universo e linguagem fazem arte de um todo que só pode ser concebido numa visão apodítica universal. Estes estudos são apenas parciais, exigindo  de nós, pesquisadores, um aprofundamento teórico e uma observação mais aguçada do emprego da língua.
6. Referências e Citações
BENVENISTE, Émile. Ativo e médio no verbo. In: Problemas de Linguística Geral. São Paulo: Ed. Nacional, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1976. Tomo I, p. 183-189.
CAMACHO, Roberto Gomes. Em defesa da categoria de voz média no português. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010244502003000100004&l ng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 10 ago. 2008.
MEIRELES, Cecília. Motivo. Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/ceciliameireles01.html>Acesso em: 11 set. 2008.
MIRA MATEUS, Maria Helena et. al. Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho, 2003.

SPROVIERO, Mário Bruno. Linguagem e consciência: a voz média. Disponível em:<http://www.hottopos.com/mirand3/linguage.htm.>Acesso em: 10 ago. 2008.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

THE AGRARIAN REFORMATION IN THE ANCIENT ROME - A REFORMA AGRÁRIA NA ROMA ANTIGA

* Este artigo foi publicado originalmente na REVISTA DA UCPEL - Universidade Católica de Pelotas, em 01 de junho de 1997- volume 7 - n 1 - EDUCAT - ISSN 0103-8788
 
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
RESUMO: O presente trabalho aborda a longa caminhada dos pequenos agricultores da Roma antiga, na busca da posse da terra e na luta por um processo de financiamento e distribuição dos produtos agrícolas mais justo e viável. Aborda suas conquistas e revezes durante mais de 500 anos da República Romana.
PALAVRAS-CHAVE: reforma agrária, República, justiça social.

ABSTRACT: This article tells about the ancient Rome’s small agriculturist, in pursuit of the possession of lands and in fighting for a more equitable and practicable financial process and agricultural products distribution. It focuses their conquests and failures during more than 500 years of the Roman Republic.
KAY WORDS: agrarian reformation, Republic, social justice.

            O problema agrário tem-se repetido de civilização em civilização. De um lado, está o latifúndio, muitas vezes pouco explorado e improdutivo, garantindo poder e dinheiro para seus proprietários; de outro, as pequenas propriedades rurais e os empregados do campo, com seus problemas característicos de financiamento da produção, de comercialização e mesmo de exploração frente aos setores mais aquinhoados da sociedade, como banqueiros, comerciantes e latifundiários.
         O presente artigo visa a abordar este problema que, à primeira vista, parece ser próprio dos nossos tempos, em outra realidade histórica e geográfica. Abordará as lutas pela posse da terra, os problemas de financiamento e comercialização dos produtos agrícolas, as estratégias empregadas pelos pretendentes a uma gleba rural, e as manobras políticas das elites para manter os privilégios no setor agrícola.
         A luta pela posse da terra e seus processos de exploração fazem parte de um conjunto muito mais amplo de lutas populares, iniciado com a implantação do sistema republicano de governo na antiga Roma.
         Limitados pela brevidade deste artigo, não nos ateremos a todo o sistema de mudança jurídico-administrativa ocorrida a partir do século VI a. C., nos primórdios da República Romana. Também para sermos didáticos, apenas abordaremos os elementos que nos parecem essenciais ao entendimento do tema alvo desta pesquisa.
         Os romanos implantaram um sistema de governo ao qual denominaram de República, que consistia basicamente no seguinte: o poder executivo era exercido por dois cônsules, com poderes iguais, cujo mandato era de apenas um ano, reelegíveis singularmente por mais um ano, eleitos pela Assembleia das Tribos.
         Nos primórdios, somente a classe dos patrícios poderia participar do processo, tanto como candidatos quanto como eleitores. Gradativamente, esse direito foi-se expandindo. Primeiramente foi estendido aos “equites”, ricos cidadãos que não pertenciam ao grupo dos fundadores da cidade e, por fim, a todo o cidadão livre, mesmo pertencente à plebe.
         Ao lado desse poder executivo, permanecia outra entidade mais antiga, criada junto com a monarquia, o Senado, cujos membros eram vitalícios, não eleitos, provenientes por herança dos cabeças de tribo dos fundadores da cidade.
         Como se pode perceber pela exposição acima, tratava-se de uma República excludente que foi, paulatinamente, por pressão das massas, incluindo mais e mais cidadãos, chegando a acolher membros dos povos conquistados. Privilegiava uma classe protegida por leis consuetudinárias, fundadas em remota tradição, cuja guarda e interpretação cabia às confrarias sacerdotais, formadas, exclusivamente por força de lei, por cidadãos patrícios.
         Porém, um crescente clima de insatisfação, que permeava todos os grupos sociais, crescia entre os excluídos desse processo. Desde os “equites”, ricos homens de negócios, que se ressentiam de não participarem do Consulado e do Senado, passando pelos plebeus ricos, alijados das regalias dos “equites” e atingindo a plebe geral que se ressentia de sua pobreza, que não raras vezes os levava à escravidão por dívidas, conforme previa a legislação romana.
         Devido a isso, como afirma Will Durant:

Em 494 a. C., grandes massas de plebeus se aglomeraram no Monte Sagrado, junto ao rio Ânio, a três milhas de Roma e declararam que não mais lutariam, não voltariam ao trabalho, antes que suas exigências não fossem atendidas. O Senado lançou mão de todos os recursos diplomáticos e religiosos para atrair os rebeldes; depois, receando que ao levante fora da cidade se somasse um levante intramuros, concordou com cancelar ou reduzir as dívidas, e em admitir dois tribunos e três edis como representantes eleitos da plebe. Os paredistas, então, voltaram... (Will Durant, 1957, p. 29).

         Esse primeiro movimento popular grevista marcou a abertura da luta expressa de classes que vai até a destruição da República. O passo imediato na conquista dos direitos pela plebe deu-se com a exigência de um código de leis escritas. Até então, eram os sacerdotes os guardiães e intérpretes da lei. Conservavam em segredo e monopólio os registros, as exigências e rituais da lei para usá-los como armas contra qualquer tentativa de mudança social.
         Passou-se o tempo e muitas mudanças se deram nas classes urbanas como conquistas das lutas sociais. Porém, os agricultores tiveram uma luta muito mais árdua, sempre apoiados por alguns tribunos da plebe e por alguns magistrados da elite patrícia, como é o caso dos irmãos Gracos, Tibério e Caio.
         Muitas reformas exigidas pela plebe acabaram acontecendo por efeito de manobras das elites. Ocorreu que muitos políticos plebeus não puderam prosseguir em suas carreiras devido à sua pobreza, uma vez que os mais elevados cargos administrativos não eram remunerados e exigiam grandes recursos dos seus detentores para cumprir suas funções.
         No ano 376 a. C., sentindo a problemática da plebe no que se refere ao processo agrário, dois tribunos, Sexto e Licínio, propuseram uma lei agrária, incluída num conjunto de reformas políticas. Essa foi a primeira tentativa concreta de reforma agrária na antiga Roma.
         As principais propostas dessa lei eram as seguintes:
a)    Os juros já pagos pelos pequenos agricultores referentes aos empréstimos para o plantio agrícola deveriam ser abatidos do principal, com balanço final fechado em três anos;
b)   Nenhum homem poderia possuir mais de 500 iugera de terra (cerca de 121 hectares, mais ou menos 300 acres).
         A lei também regulava o uso de escravos e trabalhadores livres no campo. O Senado, durante dez anos, resistiu em atender a essas propostas, fomentando guerras e dissensões. Por fim, sob ameaça de novo movimento grevista, o Senado aprovou as Leis Licínias.
         Correram os anos e as reformas não foram implantadas. As Leis Licínias caíram no esquecimento e o problema fundiário agravou-se. Aumentaram os latifúndios, os ricos apossavam-se também de terras em províncias conquistadas, impedindo que fossem distribuídas entre os sem terras.
         Os pequenos agricultores que ainda resitiam no campo com tantas adversidades encontravam-se em situação financeira lamentável, inadimplentes junto aos bancos. Enfrentavam ainda a concorrência do trigo provindo da Sicília, da Sardenha, da Espanha e do Egito, e do produzido nos latifúndios, por mão-de-obra escrava. Some-se a esses problemas a manipulação do Senado, cujos agentes aguardavam o período de safra local para fazerem importações estrangeiras.
         Os agricultores romanos necessitavam cobrir seus empréstimos feitos junto aos bancos de Roma, o que os obrigava a venderem sua produção de imediato. Essa superoferta aviltava os preços do produto. Tal processo arruinou muitos pequenos e médios agricultores, pois o produto importado reduzia o preço dos produtos locais a valores abaixo dos custos.
         Outro problema para os pequenos produtores rurais foi a proibição aos senadores de aplicarem seus capitais no comércio. Os poderosos comerciantes conseguiram fazer com que o Senado proibisse os que não fossem do ramo de entrarem no comércio, concorrendo com suas atividades. Enriquecidos com os despojos de campanhas militares, muitos senadores e homens ricos passaram a adquirir enormes latifúndios que exploravam com mão-de-obra escrava.
         Para concorrer com esses latifúndios e com o produto importado, empobrecidos pelo processo e sem capital para o plantio, tinham os pequenos agricultores de levantar empréstimos a juros escravizantes junto aos bancos de Roma, e, lentamente, mergulhavam na miséria.
         Depois da bancarrota, passavam a viver nos cortiços da periferia da capital, onde caíam no crime e na prostituição. Passavam à situação de miséria, dependendo, em grande parte, da distribuição gratuita de trigo. Também se tornavam clientes dos poderosos que os socorriam em situações extremas, em troca de voto e apoio político. Eram as massas que assistiam aos espetáculos públicos de circo patrocinados pelo Estado.
         Nos latifúndios, preferiam-se os escravos, pois não estavam sujeitos ao serviço militar. Provinham, muitos desses escravos, das inúmeras conquistas militares, outros tantos eram capturados pelos piratas. Havia também um grande número deles que se originavam de verdadeiras caçadas humanas que alguns mercadores promoviam, para prover o crescente mercado romano de mão-de-obra.
         A essa época, dois jovens da aristocracia romana, Tibério e Caio Graco, filhos de Semprônio Graco, que fora duas vezes cônsul, e Cornélia, da ilustre família dos Cipiões, surgiram no cenário político. Cornélia era irmã do famoso general Cipião Africano, vencedor do poderoso Aníbal.
         Haviam, esses jovens, estudado filosofia e política em Atenas e dedicavam-se à construção civil, como empreiteiros, realizando obras públicas por contrato com o poder estabelecido. Eram ambiciosos, orgulhosos e, ao que parece, sinceros. Perguntavam-se em suas reuniões políticas, como poderia manter-se a nação romana e sua democracia, com uma imensidão de escravos, um proletariado urbano chagado pela miséria, em vez de uma população orgulhosa de homens do campo, livres e donos de terras que eles mesmos cultivavam, como o fora nos primórdios de sua formação.
         A distribuição de terras entre os cidadãos livres pareceu-lhes a solução óbvia e natural para os problemas de Roma. Tibério elegeu-se tribuno da plebe em 133 a. C. e apresentou à Assembleia das Tribos as três seguintes propostas:
a)    Nenhum cidadão romano poderia possuir mais de 333 acres de terra (134,76 hectares) ou 667, se tivesse dois filhos;
b)   Todas as terras já vendidas ou arrematadas a particulares deveriam voltar ao Estado mediante compra e indenização do custo das benfeitorias;
c)    As terras assim obtidas deveriam ser divididas em lotes de 20 acres e entregues a cidadãos pobres, com a condição de nunca as venderem e de pagarem anualmente uma taxa ao tesouro.
         Não se tratava de nenhum plano utópico. Era, pelo contrário, uma forma de pôr em prática as Leis Licínias de 367 a. C., que nunca foram aplicadas, porém jamais haviam sido revogadas. Era necessária uma comissão agrária que dividisse os latifúndios. Desde o século IV a. C., ninguém ousara tocar nos sagrados latifúndios, pertencentes, em grande parte, a ricos senadores ou a cidadãos ilustres e intocáveis, embora, desde as Leis Licínias, estivessem em situação irregular e, portanto, ilegal.
         Em discurso aos plebeus pobres, Tibério afirmou:

Os animais das florestas e os pássaros do ar têm suas tocas e pousos; mas o homem que luta pela Itália só dispõe da luz e do ar. Nossos generais estimulam seus soldados a lutarem pelos túmulos e relicários de seus antepassados. Esse estímulo é falso e vão. Onde o vosso altar paterno? Onde o vosso túmulo ancestral? Lutais e morreis para que outros tenham riquezas e luxo. Sois chamados os senhores do mundo, mas não há um palmo de chão que seja vosso. (Will Durant, 1957, p. 138/9).

         Tibério foi acusado de visar à ditadura e suas propostas foram denunciadas como confiscatórias. Otávio, outro tribuno, iria vetar, como lhe permitia a legislação, as medidas propostas pelo jovem idealista. Estimulados pela ameaça da plebe de depor qualquer tribuno, representante legítimo do povo, que vetasse a lei, os litores de Tibério forçaram Otávio a abandonar a Assembleia.
         Pela violência de suas atitudes, perdeu Tibério o apoio da parte do Senado que estava a seu lado. Voltou-se, então, exclusivamente à plebe. No dia da votação, apareceu no fórum em trajes de luto e trouxe uma enorme guarda pessoal. De ambos os lados, irrompeu a violência. Porém, os plebeus que apoiavam o seu líder, recuaram diante da toga senatorial e Tibério foi assassinado e sua cabeça jogada ao Tibre. No entanto, para amainar os ânimos da plebe, o Senado aprovou as reformas na lei agrária.
         A Comissão Agrária que Tibério havia formado teve imensas dificuldades em implantar a reforma aprovada. Havia terras adquiridas há gerações e seus proprietários evocavam direitos sagrados e consagrados pelo tempo.
         Caio, irmão mais jovem do tribuno assassinado, tomou os projetos a seu encargo. Fora bravo soldado em diversas campanhas militares, era excelente orador, e apesar dos apelos de sua mãe para que desistisse da questão agrária, concorreu ao tribunato em 124 a. C., sendo eleito com elevado apoio popular.
         Com extrema habilidade e menor impulsividade do que o irmão, procedeu à divisão das terras. Paralelamente, tomou outras medidas que agradaram a plebe. Também promoveu muitas obras públicas que agradaram ambas as classes: os empreiteiros lucravam e a plebe tinha abundantes oportunidades de trabalho.
         Ocorre que, tendo Caio viajado a Cartago, o Senado aproveitou sua ausência para promover outro tribuno da plebe, Marco Lívio Druso, que propôs a eliminação da taxa agrária anual criada pela lei dos Gracos às pequenas propriedades. Aprovada a medida, a plebe passou, em grande parte, a apoiar Druso.
         Ao retornar à cidade, Caio é derrotado na eleição ao terceiro mandato para o cargo de tribuno. Segundo os amigos do magistrado, houve fraude no processo. Instaurou-se a violência entre os partidários do PO (Partido dos Optimates), que reunia os membros da elite conservadora e do PP (Partido Popular), partido da plebe, ao qual se haviam filiado os Gracos e outros patrícios ilustres.
         Num combate de rua, Caio é cercado pelos Optimates e salvo por seus partidários, com grandes perdas humanas de ambas as partes. Joga-se ao Tibre com o intuito de afogar-se. Seus partidários tiram-no das águas, salvando-o. Ordena, então, que um de seus servos o execute. Diante da recusa do subordinado, suicidou-se com a própria espada.
         Como o Senado havia oferecido o peso de sua cabeça em ouro, um de seus partidários decepou-a e encheu-a de chumbo e levou-a aos senadores.
         Com a morte de Caio, os senadores procuraram reverter o processo agrário que ele e o irmão haviam promovido. Foram tão hábeis no modo de sua proposição que o retrocesso pareceu um avanço nos direitos de propriedade.
         A lei dos Gracos previa que, se algum cidadão que houvesse recebido terras do Estado não mais desejasse dedicar-se ao cultivo dos campos, não poderia vender sua propriedade. Deveria devolvê-la ao Estado que o indenizaria pelas benfeitorias eventualmente ali realizadas e entregaria a gleba a outro cidadão que desejasse dedicar-se à agricultura.
         Os tribunos, apoiados pelo Senado, propuseram a revogação dessa cláusula, argumentando que nada mais plenificaria o direito de posse da terra do que o arbítrio de o proprietário fazer dela o que bem entendesse. A Assembleia das Tribos aprovou essa medida, que imediatamente foi ratificada pelo Senado.
         Aprovada a emenda às vésperas das colheitas, o poder público promoveu importação de exagerada quantidade de trigo, vinho e azeite, produtos básicos da agricultura romana. Com essas medidas públicas, o preço aviltou-se de tal maneira que sequer havia compradores para o produto nacional.
         Os agricultores tinham contraído empréstimos bancários mediante a penhora das terras. Para cumprir esses compromissos, tiveram os agricultores de desfazerem-se de suas propriedades. Como havia excesso de oferta de imóveis rurais, aviltaram-se os preços. Dessa maneira, os latifundiários, que haviam sido indenizados, na reforma agrária dos Gracos, por preços justos, refizeram suas propriedades por valores irrisórios.
         O processo histórico aqui abordado demonstra que a civilização desenvolve-se em círculos. O que nos parece peculiar apenas à nossa época, já foi vivenciado em outros tempos e lugares. A civilização romana antiga parece-nos ter sido o cadinho em que se forjaram a maioria das experiências de cunho social.  Essa é mais uma lição da história que serve de alerta para todos os agentes envolvidos nas ações políticas e sociais.
BIBLIOGRAFIA
1.   DURANT, Will. História da Civilização 3ª Parte. César e Cristo Tomo I. Tradução de Monteiro Lobato. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional,1957.
 ROMA - ARCO DE CONSTANTINO
 ROMA - MARGEM DO TIBRE

 ROMA - - Piazza Venezia, à esquerda Chiesa Santa Maria di Loreto e à direita Chiesa
del Santissimo Nome di Maria
ROMA - LA CORDONATA - MUSEI CAPITOLINI