terça-feira, 8 de julho de 2014

SAUDOSISMO




  


     Nasci no campo. Meu corpo cresceu no campo. Mais... minha alma cresceu no campo. Fui crescendo com as coisas do campo... com a gente do campo. Tenho os campos e os campesinos para sempre na alma. Meus olhos, muitas vezes verdejam...
     ... a água fresca que nasce nas pedras... a fruta do pé... o leite gostoso... manteiga... e tantas coisas boas... o sol lindo da manhã... os pores de sol por dias sem conta entre as montanhas... e a chuva de verão... as enxurradas... as flores do tempo... a geada... tudo branco... o riacho descendo entre as pedras... 
      Porém, a dualidade da vida permeia tudo: criam-se pintinhos lindos... com amor... borreguinhos brancos e bezerros dóceis... ordenham-se as cabras e as vacas... as galinhas cacarejando... o canto saudoso dos galos pelas madrugadas... os leitõezinhos... grunhindo... 
     Depois... vinha a morte... frango... ainda guardo na retina os incontáveis tantos frangos pulando com o pescoço quebrado para o almoço de domingo... patos e gansos degolados... nunca se apagaram dos meus ouvidos os urros finos, horríveis, dos porcos com o peito aberto por um cutelo afiado... depois o boi... a veia do pescoço... o sangue pingando... aos poucos... silêncio... até que tombava calado e então se abria, esfolava e carneava...

domingo, 6 de julho de 2014

BASTOS TIGRE - POETA IDEALISTA



A VITÓRIA DA VIDA

Bastos Tigre

Pobre de ti se pensas ser vencido!
Tua derrota é caso decidido.
Queres vencer, mas como em ti não crês,
Tua descrença esmaga-te de vez.
Se imaginas perder, perdido estás.
Quem não confia em si, marcha pra trás.
A força que te impele para a frente
É a decisão firmada em tua mente.
Muita empresa esboroa-se em fracasso
Inda muito antes do primeiro passo;
Muito covarde tem capitulado
Antes de haver a luta começado.
Pensa em grande, e os teus feitos crescerão;
pensa em pequeno, e irás depressa ao chão;
O querer é o poder arquipotente.
É a decisão firmada em tua mente.
Fraco é aquele que fraco se imagina;
Olha ao alto o que ao alto se destina;
A confiança em si mesmo é a trajetória
Que leva aos altos cimos da Vitória.

Nem sempre o que mais corre a meta alcança,
Nem mais longe o mais forte o disco lança,
Mas o que, certo em si, vai firme e em frente,
Com a decisão firmada em sua mente.
Pobre de ti se pensas ser vencido!
Tua derrota é caso decidido.Queres vencer, mas como em ti não crês,
Tua descrença esmaga-te de vez.
Se imaginas perder, perdido estás.
Quem não confia em si, marcha pra trás;
A força que te impele para a frente
É a decisão firmada em tua mente.
Muita empresa esboroa-se em fracasso
Inda muito antes do primeiro passo;
Muito covarde tem capitulado
Antes de haver a luta começado;
Pensa em grande, e os teus feitos crescerão;
pensa em pequeno, e irás depressa ao chão;
O querer é o poder arquipotente.
É a decisão firmada em tua mente.
Fraco é aquele que fraco se imagina;
Olha ao alto o que ao alto se destina;
A confiança em si mesmo é a trajetória
Que leva aos altos cimos da Vitória.
Nem sempre o que mais corre a meta alcança,
Nem mais longe o mais forte o disco lança,
Mas o que, certo em si, vai firme e em frente,
Com a decisão firmada em sua mente.


      Manuel Bastos Tigre - Conhecido como Bastos Tigre é um poeta um pouco esquecido hoje. Nasceu no Recife em 1882 e morreu no Rio de Janeiro em 1957. Seus textos e poemas foram muito empregados em sala de aula. Escreveu poemas encantadores, cujo conteúdo é de aplicação para a vida prática. Homem de pensamento positivo, foi muito útil à educação da juventude.
     Estudou no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia. Diplomou-se pela Escola Politécnica, em 1906. Trabalhou como engenheiro da General Electric e depois foi ajudante de geólogo nas Obras Contra as Secas, no Ceará.
      Foi homem de múltiplos talentos, pois foi jornalista, poeta, compositor, teatrólogo, humorista, publicitário, além de engenheiro e bibliotecário. E em todas as áreas obteve sucesso, especialmente como publicitário. "É dele, por exemplo, o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos daquela empresa: "Se é Bayer é bom". Foi ele ainda quem fez a letra para Ary Barroso musicar e Orlando Silva cantar, em 1934, o "Chopp em Garrafa", inspirado no produto que a Brahma passou a engarrafar naquele ano, e veio a constituir-se no primeiro jingle publicitário, entre nós." (As vidas..., p. 16).
     Prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional (1915) com tese sobre a Classificação Decimal. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos. Exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos, é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil.

ANACREÔNTICAS

    

ANACREÔNTICAS

     São poemas ao modo de Anacreonte, produzidos em diversas literaturas. Na literatura portuguesa, Bocage (Manuel Maria Barboza du Bocage) é um dos grandes poetas anacreônticos.


ANACREONTE – BIOGRAFIA

     Anacreonte (Άνακρέων) Anakréōn foi poeta grego nascido em Teos, perto da cidade atual Esmirna, na Turquia, em 563 a. C., onde também faleceu em 478. Foi o período mágico da literatura grega, especialmente da poesia lírica e da tragédia clássica. 

     Viveu algum tempo em Abdera, Samos e também em Atenas. Foi poeta popular. Compôs canções simples, agradáveis e espirituosas. 
     Segundo o site Greantiga citado abaixo, “A principal fonte do texto grego é o Codex Palatinus 23 (o mesmo da Antologia Palatina), do século X, conservado atualmente na Biblioteca de Heidelberg, Alemanha.”
     “A mais antiga edição é a de Estienne, de 1554, mas as 55 odes "anacreônticas" foram incluídas como obras do próprio Anacreonte. Ele não mencionou os manuscritos utilizados. Depois disso, os fragmentos genuínos e as "odes anacreônticas" foram editado muitas vezes. As edições mais notáveis são a de Brunck (1786), Fischer (1793), Mehlhorn (1825) e Bergk (1834, 41882), Edmonds (1931), Diehl (1949/1952), Gentili (1958). As mais modernas e mais usadas no momento são a de West (1972) e a de Campbell (1989).” 
      “Várias traduções para o português de Anacreonte e das "odes anacreônticas" foram já realizadas. António Ferreira traduziu apenas uma ode, em (1598); depois dele Francisco Manuel S. Malhão (1804), António Teixeira de Magalhães (1819), António Feliciano de Castilho (1866), Luiz Calado Nunes (1917), José Anastácio da Cunha (1930) e Almeida Cousin (1948). Mais recentemente, diversas odes foram traduzidas por Maria Helena da Rocha Pereira (1959) e por Daisi Malhadas e Maria Helena Moura Neves (1976).”(http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0675)
      Anacreôntica de Bocage:

A Rosa

Tu, flor de Vênus,
Corada rosa
Leda fragrante,
Pura, mimosa,

Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores.

Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a noturna
Lua inconstante,

Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.

O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor;

Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos;

Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favônio
Te dá mil beijos.

Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve, e suspira.

A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera;

Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.

Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela;

Que diga Vênus...
Ela aí vem...
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem.
Bocage, in 'A Rosa (Cançoneta Anacreôntica)'


sexta-feira, 4 de julho de 2014

ANACREONTE - ODE



"Um dia, lá pela meia-noite,
Quando a Ursa se deita nos braços do Boieiro,
E a raça dos mortais, toda ela, jaz, domada pelo sono,
Foi que Eros apareceu e bateu à minha porta
"Quem bate à minha porta,
E rasga meus sonhos?"
Respondeu Eros: "Abre, ordenou ele;
Eu sou uma criancinha, não tenhas medo.
Estou encharcado, errante
Numa noite sem lua".
Ouvindo-o, tive pena;
De imediato, acendendo o candeeiro,
Abri a porta e vi um garotinho:
Tinha um arco, asas e uma aljava.
Coloquei-o junto ao fogo
E suas mãos nas minhas aqueci-o,
Espremendo a água úmida que lhe escorria dos cabelos.
Eros, depois que se libertou do frio,
"Vamos, disse ele, experimentemos este arco,
Vejamos se a corda molhada não sofreu prejuízo".
Retesa o arco e fere-me no fígado,
Bem no meio, como se fora um aguilhão"
Depois, começa a saltar, às gargalhadas:
“Hospedeiro”, acrescentou, “alegra-te”,
Meu arco está inteiro, teu coração, porém, ficará partido.”

quarta-feira, 2 de julho de 2014

DIÁLOGOS DOS MORTOS - LUCIANO - SÁTIRA MENIPEIA





     É uma obra satírica do escritor Luciano de Samósata, que viveu entre 125 e 181 d. C. em Samósata, na província romana da Síria. Escreveu em grego, durante o reinado do imperador Marco Aurélio. 

Suas obras mais importantes são: 
1) O Asno de Ouro; 
2) Diálogos dos Mortos. 

     Os Diálogos dos Mortos compõem-se de 30 diálogos curtos em que interagem, além do deus grego de Hades (Plutão para os romanos), senhor do mundo subterrâneo, também Hermes (Mercúrio para os romanos), o deus que conduz os mortos ao reino de Hades e Caronte, o barqueiro que transporta os mortos através do rio Estiges, algumas das figuras mais importantes e famosas da mitologia da história da Grécia Antiga. 

Os diálogos giram em torno de Diógenes e de Menipo, dois falecidos filósofos da escola cínica, que constantemente questionam os outros mortos e expõem com corrosiva ironia a inconsistência de suas ideias e atitudes durante a vida. Menipo não poupa ninguém. 

     Segundo a sátira de Luciano, todos devem entrar despidos no Hades, fazendo com que os ricos como castigo por conta de sua riqueza tenham que se desfazer dela. A riqueza, entende Luciano, só se entende como tal a partir do olhar do outro, da ostentação perante um outro, de classe e riqueza inferior. 

     A condição imposta pela pobreza é, de fato, dura e amarga, acarretando uma vida árdua de trabalhos que não é capaz, ao menos, de garantir a sobrevivência. É uma vida de tristeza e desânimo, mas que, no entender de Luciano, poderia ser melhor, mais suportável, se os ricos não ostentassem sua riqueza, sua felicidade, sua vida de fartura. De fato, essa visão ostensiva da riqueza de poucos oposta à pobreza da maioria é que torna a situação absurda. 

     Nesse contexto, Luciano procura fazer a crítica à riqueza, desejando atingir as classes abastadas. Ele enfatiza, em suas obras, a falta de sentido das diferenças de fortuna, sublinhando como no Hades reina a isotimia, ou seja, todos são iguais diante da fortuna, como fica evidente nos Diálogos dos mortos. 

     Veja o seguinte diálogo entre Hermes e Lampico enquanto o primeiro conduz o segundo ao Hades (Hades era o deus dos mortos e ao mesmo tempo o lugar onde os mortos viviam debaixo do solo): 

     - “Hermes – Então, Lampico, apresentas-te com tanta coisa? 

     - Lampico – O quê? Devia chegar nu, ó Hermes, um homem com funções de governante? 

     - Hermes – Governante, coisa nenhuma, mas morto, sim! Portanto, jogue fora tudo isso! 

     - Lampico – Veja, lá vai a riqueza! 

     - Hermes – Jogue fora também a vaidade, ó Lampico, e a altivez. Caindo aqui dentro, elas farão peso no barco. 

     - Lampico – Então, deixe-me ao menos ficar com o diadema e o manto. 

     - Hermes – De modo nenhum, mas jogue fora isso também! 

     - Lampico – Que seja! O que mais ainda? Lancei tudo fora, como vês. 

     - Hermes – E a crueldade e a insensatez e a insolência e a cólera, lança tudo isso fora também! 

     - Lampico – Veja bem, estou despido”. 

     Os tiranos (governantes) devem se desfazer de tudo, da glória, do poder, da ostentação, da riqueza, enfim, de tudo. Enquanto isso acontece aos ricos, com os pobres, despossuídos de qualquer coisa, resta apenas entrar na barca e pagar um óbolo ao barqueiro Caronte. A morte, em Luciano, funciona, então, como algo nivelador. Todos ficam absolutamente iguais, até mesmo as pessoas bonitas ficam com a mesma aparência dos outros: todos são esqueletos carecas, com furo no lugar dos olhos e o nariz achatado, tornando-se praticamente impossível a diferenciação estética. 

     O que ocorre com os ricos também deve suceder com os filósofos e sábios, envaidecidos de seus saberes: 

     - “Hermes – (…) E este, grave, a julgar pela postura, arrogante, de semblante carregado, metido nas suas reflexões, quem é ele, que assim deixou crescer a barba? 

     - Menipo – Um filósofo, ó Hermes, ou antes, um impostor, pleno de charlatanice. Assim, fá-lo despir-se também! Verás muitas coisas, e bem risíveis, que ele esconde sob o manto. 

Hermes – Põe à parte a postura, em primeiro lugar, e depois tudo isso mais! Ó Zeus, quanta fanfarronice ele transporta, e quanta cretinice, astúcia, glória vã, perguntas insolúveis, discursos espinhosos e conjecturas intrincadas. E ainda a grande quantidade de esforço vão, a grande tagarelice, as ninharias, a pequenez de espírito, e, por Zeus, todo esse ouro que está à vista e a vida regalada, o descaro, a preguiça, o gozo sensual e a moleza. Nada disso me passou despercebido, por melhor que o escondas. Jogue fora também a mentira, a presunção e a crença que és melhor do que os outros, por que se embarcares com tudo isso, qual o navio de cinquenta remadores, capaz de te receber?” 

     Os próprios filósofos precisam se desfazer de sua riqueza, puramente intelectual e sem sentido no Hades. A isotimia na morte é completa, ninguém pode se sentir superior ao outro. A morte não procura vingar-se de ninguém, tornando felizes os infelizes e infelizes os felizes. Ela, apesar de ser indesejável, tem sobre a vida, segundo Luciano, a vantagem de tratar todos de modo equânime. Se há alguma mudança no destino das pessoas, isso só acontece com os ricos e os homens de cultura, obrigados a se desfazerem de tudo. 

     A sátira menipeia a que Luciano se dedica critica atitudes mentais ao invés de criticar indivíduos específicos. Teria sido criada por Menipo, escritor grego antigo cujas obras não chegaram até nós.