domingo, 8 de março de 2015

DAS RAPOSAS, SEUS MISTÉRIOS, MITOS E FÁBULAS


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara 
A raposa, em textos literários, desde remota antiguidade, é apresentada, na literatura, como símbolo de esperteza e perspicácia. Desde o antigo literato grego Esopo, com sua fábula “A Raposa e as Uvas”, reproduzido magistralmente por Jean de La Fontaine, ela aparece como a interesseira frustrada, justificando o dito popular: “Quem desdenha quer comprar.”
raposa vermelha europeia

Porém, é preciso fazer uma diferença entre o animal que os europeus denominam de raposa e o que entendemos aqui por esse nome simbólico.
A raposa europeia pertence à família canidae, enquadrada no gênero Vulpes e espécie vulpes. Existem variedades de raposa de acordo com diferentes ambientes em que vivem. A raposa europeia, também conhecida geralmente como raposa vermelha,  devido  à cor de sua pelagem avermelhada, é um mamífero onívoro.
No entanto, em rfegiões desédrticas, desenvolve-se uma espécie conhecida como fenecos. Habitam os desertos do norte da África e da Arábia. Sua família é ainda dos canidae, mas o gênero é fennecus
fennecus - raposa do deserto

Há ainda outras variedades de raposa em outros ambientes. Trata-se, no mais das vezes, de um mamífero carnívoro, que se alimenta de pequenos animais. Existe um tipo de raposa completamente alva, que habita as regiões geladas próximas do polo norte, a  Alopex lagopus. 
raposa polar

As raposas sul-americanas, entre elas as nossas brasileiras, muito variadas e numerosas, são conhecidas como falsas raposas, pois, embora pertencendo a família dos canidae, não pertencem ao gênero vulpes. Seu gênero é o pseudoalopex (do grego ψευδός, falso e άλλόπεξ, raposa).
Algumas raposas sul-americanas são marsupiais, ou seja, carregam seus filhotes, nos primeiros dias após o nascimento, numa bolsa que possuem no ventre, semelhante à dos cangurus. São conhecidas também como gambás, ou seja, ventre oco, por seu ventre marsupial. Além do que, os gambás exalam forte cheiro desagradável, cuja finalidade é afastar seus predadores. 
gambá

Na América do Sul, no entanto, há muitos tipos de animais conhecidos pelo nome genérico de raposa. Há a conhecida raposa dos pampas, Lycalopex gimnocercus, conhecida também como graxaim-do-campo.
Todos esses animais são de hábitos noturnos, tanto as raposas europeias, quanto todas as outras. Do hábito de sair nas caladas da noite, talvez se origine sua fama de astúcia e esperteza.
O que as torna misteriosas, talvez sejam alguns hábitos comuns, como atacar animais domésticos à noite, como acontece geralmente com as galinhas. Outra característica de sua estranheza é a falta de agressividade. Atacam sorrateiramente. Muitas de suas espécies, ao serem apanhadas, figem-se de mortas, preservando, muitas vezes, a própria vida com esse ardil.
Suas peles são muito apreciadas para o vestuário. Por essa razão, foram caçadas impiedosamente. Houve épocas em que, usar uma pele de raposa ao redor do pescoço feminino era sinal de elegância e riqueza.
Seus hábitos instigaram a curiosodade dos poetas e inspiraram criativas narrativas com as quais se estimulou a educação da infância e da juventude.


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quinta-feira, 5 de março de 2015

FEMINISMO E DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara 
Há quem afirme que o primeiro sistema coletivo de organização das sociedades humanas começou por um processo de matriarcado. Tanto a sucessão quanto o poder estavam vinculados à mãe. Assim, as divindades primitivas gregas mais antigas relacionavam-se com Gaia, Geia, Gea (Γαα, γ). Gaia é a mãe-terra, que gera e nutre todos os seres vivos, protege-os enquanto vivos, abençoa todas as gestações e, por fim, acolhe as cinzas de todos os mortos,  Gé (γ), a terra física, é a mãe da geografia e dos astros. .
O homem, o macho da espécie, cultuava a mulher como aquela que tinha o dom de gerar, de reproduzir a vida, sem suspeitar de que tinha papel fundamental nesse processo. Por isso, sujeitava-se às suas ordens e leis, protegia-a, e lutava para prover-lhe o sustento, juntamente com a prole.
Somente com a domesticação dos animais foram desvendandos os mistérios da vida e da existência. Como os machos, para ele, não se reproduziam, passou a devorá-los todos. Então, chegou a descobrir o papel do macho na reprodução, processo que incluía ele mesmo no sistema. Rebanho em que não havia machos não se reproduzia.
Até esse momento, as sociedades eram matriarcais: como entre as abelhas, as formigas e os cupins, havia uma rainha que exercia o poder absoluto, sendo que a transmissão de bens e nomes se dava pelo lado feminino.
Com o desvendar de seu papel no processo reprodutivo, o homem depôs a mulher de sua função de poder nas comunidades e, gradativamente, se foram criando os patriarcados, com todas as consequências sociais daí decorrentes, originando o machismo que impera nos grupos sociais humanos.
Até meados do século XX, o homem, macho da espécie, era geralmente quem provia as necessidades materiais do grupo familiar. Isso lhe conferia poder sobre a mulher e os filhos. Desde as comunidades gregas até a sociedade romana, com seu paterfamílias, ou chefe do clã,  até todas as sociedades medievais, e mesmo, depois, as feudalistas, os grupos humanos seguiam esse molde patriarcal, que se reproduzia em toda parte.
No século XIX, com o surgimento da sociedade industrial, a multiplicação das fábricas exigiu cada vez mais braços para o trabalho. Primeiramente, houve modificação na legislação feudalista, que agregava o cidadão à gleba em que trabalhava. Houve uma enorme liberação de servos da gleba que, abandonando os campos, juntavam-se aos aglomerados industriais, criando enormes cortiços, nos arredores das grandes cidades.
Assim mesmo, com a necessidade do aumento de produção, essa mão-de-obra não era suficiente para atender à voracidade do novo sistema. Com a escassez de braços, intensificaram-se as exigências por maiores salários e se criaram cada vez mais leis trabalhistas, conferindo direitos aos trabalhadores, como limitações na quantidade de horas diárias de trabalho, benefícios aos filhos, segurança contra acidentes e tantos outros. Era uma questão de baixa oferta de operários e alta demanda de vagas novas a cada dia.
Foi então que se descobriu o filão da mão-de-obra feminina. Mas havia uma gama enorme de preconceitos em relação à mulher. Era considerado um ser menos capaz, fisicamente mais fraco, portanto, menos apto ao trabalho. Além do mais, havia toda uma perspectiva machista em relação aos maridos. Enciumados, não desejavam que suas esposas trabalhassem em ambientes onde estivessem expostas a outros homens.
Os mentores da nova proposta valeram-se do crescente desejo de emancipação da mulher. Juntaram-se aos movimentos feministas. A publicidade foi minando as resistências de grupos mais conservadores. Aos poucos, foram criando áreas específicas de atuação feminina. O processo foi-se expandindo.
Havia imensas vantagens na presença da mulher no processo produtivo. Primeiramente, como não era provedora do lar, aceitava trabalhar por salários muito inferiores aos dos homens. Isso diminuía a pressão masculina por aumentos salariais.
Gradativamente, a participação da mulher no processo produtivo se intensificou de tal maneira, que atingiu a todas as profissões e a todas as áreas, os salários se foram uniformizando mais, sendo, hoje, quase impossível haver uma mulher que não trabalhe fora de sua residência ou não almeje a uma profissão.
Em nossos dias, criaram-se tantas necessidades, muitas delas supérfluas, que a imprensa e a publicidade reforçaram tanto, o que exige cada vez mais disponibilidade financeira dos indivíduos e das famílias. Desenvolveram-se, por outro lado, formas de dar conta dos filhos, como creches e escolas de funcionamento integral.
É lógico que todo esse processo teve sérias influências no feminismo. Por um lado, com a independência financeira, deixou a mulher muito menos dependente de seu companheiro. Por outro lado, para o aprimoramento profissional, houve a necessidade de um aumento considerável da escolaridade feminina, o que teve uma profunda influência também em suas concepções da existência e da si mesma, como de seu papel nos grupos sociais. Isso tornou-a menos influenciável, menos manipulável.
O que surgiu como um processo de manipulação, acabou por beneficiar, de modo geral, as mulheres. Não é mais possível retornar ao que era há um século atrás. A transformação é irreversível.

A mulher é hoje muito mais senhora de si, muito mais independente, tanto em relação ao marido, quanto no que tange à própria comunidade humana. Há males que vêm para bem. Feliz dia internacional da mulher!

terça-feira, 3 de março de 2015

ZEUS E GANIMEDES - A HOMOAFETIVIDADE MASCULINA NA MITOLOGIA GREGA


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara 
O mito e suas funções entre os gregos é uma temática fascinante. Esse termo origina-se do da palavra grega Μύθος (mythos), que constitui uma narrativa de sentido simbólico-imagético. Estabelece relações entre fatos narrados como ocorridos em um tempo primordial, anterior ao nosso, em que as coisas se davam de outro modo.
Os mitos explicam, de maneira figurativa, a origem de todas as coisas: do mundo; dos homens; dos animais; das doenças; dos objetos; do amor; do ódio; da mentira e das relações, seja entre homens e homens, homens e mulheres e mulheres e mulheres, humanos e animais; enfim, de todos os elementos por mais fantasiosos que sejam.
Os mitos associam-se a ritos específicos, em função dos quais sua materialização se concretiza ou não. Os ritos são as ações que se desenvolvem na atualização de um mito. Constituem-se de danças, preces, cantos e sacrifícios, cruentos, quando envolvem derramamento de sangue e incruentos, quando não exigem.
O mito de Zeus e Ganimedes (Γανυμήδης) tem larga difusão, especialmente nas sociedades homoafetivas, desde a mais arcaica sociedade grega.
Ganimedes - Rubens
Zeus (Ζεύς), o supremo mandatário da terceira geração dos deuses olímpicos, era filho de Cronos (Κρόνος) e Reia (Ρέα). É conhecido, na mitologia grega, como πατρ νδρν τε θεν τε (patēr andrōn te theōn te) pai dos deuses e dos homens. Exercia autoridade suprema sobre divindades e demais seres, incluindo os humanos. Tinha por esposa sua também irmã Hera (ρα) que se pronuncia como Hēra, com o agá aspirado ao modo da língua inglesa. Esses casamentos entre irmãos, muito comuns nas fases primitivas da própria humanidade, são conhecidos como adelfogamias.
São símbolos divinos de Zeus o carvalho, o raio, o touro e a águia. Tratava-se de uma divindade muito promíscua, mantendo relações com muitas divindades e muitos humanos também.
Pierre-et-Gilles - Zeus et Ganymede
É famoso o mito de Zeus e Leda, esposa de Tíndaro, rei de Esparta. Havia, diante do palácio real, um grande lago. Zeus, transformado em cisne, aproximava-se da margem e mantinha relações com a rainha. Assim, ela teve quatro filhos, dois humanos e dois divinos. Das duas filhas mulheres, Helena (λένη) que se transcreve como Helénē, era filha de Zeus e Clitemnestra (Κλυταιμνήστρα) (Clitaimnestra), filha de Tíndaro. Dos meninos, Pólux (Πολυδεύκης), em grego, mais conhecido pela forma latina Pollux, era filho de Zeus e Castor (Κάστωρ) (Cástor), de Tíndaro.
Pois o promíscuo Zeus, conheceu Ganimedes, pastor das montanhas troianas. O jovem troiano era um lindo príncipe que cuidava os rebanhos da família. Quando Zeus o avistou, ficou deslumbrado com tanta beleza em um ser humano.
O poderoso chefe dos deuses metamorfoseou-se em enorme águia, arrebatou o jovem e o possuiu ainda em pleno voo. Depois disso, Zeus transportou seu novo tesouro para o Olimpo, morada dos deuses, sob os protestos veementes de sua esposa Hera.
Sem dar importância aos apelos da esposa, encarregou o jovem de substituir Hebe (Ήβη), a deusa da juventude, e filha legítima de Zeus e Hera, em sua função de servir néctar e ambrosia aos deuses. Em homenagem ao belíssimo jovem, Zeus inseriu-o na Constelação de Aquarius.

HOMERO E A PAIDEIA GREGA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Na cidade de Atenas, em 2008
Homero (μηρος) é o grande responsável pela paideia que teve como resultado a magnificente sociedade grega clássica. O termo paideia emerge de πας, παιδός (pais, paidós) termo do grego clássico que significa criança. Portanto, a paideia trata da formação de um povo a partir da criança. As obras do notável aedo, que compunha seus magistrais poemas e os cantava pelas cidades da Grécia, nas reuniões noturnas que os nobres promoviam em seus palácios, foram o fundamento da educação grega até o período helênico. Na Odisseia, há um exemplo clássico de um desses saraus oferecido por Alcínoo, rei dos feáceos, em honra de δυσσεύς (Odusseus), Ulisses, em português.
A Ilíada (λιάς) e a Odisseia (δύσσεια) tornaram-se os textos práticos de aula para os alunos de toda a Grécia, como ocorreria depois com a Eneida (Aeneis) de Virgílio, entre os romanos, para o ensino do latim. Porém, esses textos não veiculavam apenas a gramática de um idioma, mas toda uma filosofia e uma específica concepção da existência. Assim, por mais de quinhentos anos, a elite grega foi educada por Homero.
Mesmo havendo quem discuta o papel de Homero como personagem histórica, resta o conjunto da abra atribuída a ele, que tem uma unidade mítica e filosófica, em si mesma.
Para Homero e os sábios de seu tempo, a literatura tem um múnus educador, como vai afirmar Aristóteles séculos depois. Tem uma função catártica, visa a melhorar o mundo e os homens.
Esses saberes (πιστήμαι) podem ser classificados de três modos: há um primeiro modo de saber que nos vem pelo estudo e pela observação, é o que se pode classificar como erudição (πολυμάθεια); há outro saber que podemos identificar como cultura (ςκεσις) que adquirimos pela reflexão e pela síntese; mas há um último e mais importante modo de conhecimento que se denomina sabedoria (σοφα), que é puro dom. Quem a tem é porque a recebeu. Não está ao alcance de ninguém. Esforço algum pode conduzir a ela.
Os não teístas acreditam que ela é dom. Os religiosos creem ser, a sabedoria, uma dádiva divina. Assim criam Homero, Sócrates e depois Platão.
O poeta português Fernando Pessoa em Nota Preliminar, anexa à sua obra “Mensagem”, afirma, sobre a condição essencial para o entendimento dos símbolos, que classificaríamos como sabedoria: “Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.”
Também o filósofo alemão Martin Heidegger, em seu texto poético-filosófico intitulado “O Caminho do Campo”, (Der Feldweg) afirma a respeito da sabedoria, concebendo-a como dom: “Esta gaia ciência é uma sageza sutil. Ninguém a obtém sem que já a possua. Os que a têm, receberam-na do caminho do campo. Em sua senda cruzam-se a tormenta do inverno e o dia da messe, a irrupção turbulenta da primavera e o ocaso tranquilo do outono; a alegria da juventude e a sabedoria da maturidade nela surpreendem-se mutuamente. Tudo, porém, se insere placidamente numa única harmonia, cujo eco o caminho do campo em seu silêncio leva de um para outro lado. A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um dia com os enigmas da existência.”[1]
Homero, visitado por essa sabedoria insondável, tece, em sua “Ilíada”, os versos primorosos, que apresento mais adiante. O poeta grego, em sua apreensão do modus organizandi universal, narra a intervenção das divindades sobre as ações humanas. Aquiles, perdera seu grande amigo Pátroclo, morto, em combate, por Heitor, filho de Príamo, rei de Troia. Há mesmo quem veja traços de homoafetividade masculina na extremada amizade que ligava Aquiles e Pátroclo.
Seja como for, Aquiles vingou o amigo, enfrentando e abatendo Heitor, comandante das tropas troianas, num memorável combate singular, descrito magistralmente por Homero.
Ocorre que os heróis, no mito grego, deveriam estar muito acima da condição humana, de tal forma que, os homens, em os imitando, chegassem ao máximo permitido à nossa natureza, porém jamais atingindo a perfeição, própria dos sublimes heróis, que participavam da natureza divina.
Aquiles atrelara o corpo do príncipe inimigo à sua biga, fizera inúmeras manobras, arrastando-o, primeiramene em torno das muralhas da cidsde, e, posteriormente ao redor da sepultura de Pátroclo, durante o cerimonial de exéquias do amigo. Enquanto isso ocorria, Príamo, a corte troiana  e toda a população presenciavam a humilhação de seu general, impotentes e abatidos.
Prostra-se o idoso diante do inimigo e oscula-lhe as mãos, suplicante pelo cadáver do malfadado filho. Vejam-se os versos do magnífico Homero, que narram a cena mais consternadora da tragédia:
“[...] Respeita os numes;
Por teu bom pai, de um velho te apiades:
Mais infeliz do que ele, estou fazendo
O que nunca mortal fez sobre a terra:
Esta mão beijo que matou meus filhos.”
Príamo solicitando a Aquiles o cadáver de Heitor - Vernant

O humilhado rei pede ao vencedor que, por respeito às divindades, depois pela honra de Peleu, falecido pai de Aquiles, lhe entregue o corpo morto de Heitor amado. Vejam-se os termos como que o faz: “O que nunca mortal fez sobre a terra...”, isto é, o cúmulo da humilhação humana. E prossegue: “Esta mão beijo que matou meus filhos.” Pode haver dramaticidade mais vigorosa do que esta? Este, a meu ver, é o ápice do drama da Ilíada. A imagem de um pai, velho, octogenário já, despido de toda a vaidade e orgulho pessoais, prostrado diante do algoz de seus filhos, suplicando apenas os restos mortais daquele que ele havia gerado, agora morto em combate e desonrado, é a cena mais trágica de toda a literatura grega, quiçá de toda a literatura universal.
Trata-se do sentido pleno na tragédia. Príamo é o rei. Heitor, seu filho general. Representam Troia. A humilhação deles é a tragédia do povo troiano que está prestes a cair em irreparável desgraça. Afirma o pintor Jean-Pierre Vernant, autor da tela acima: Do corpo efêmero à glória imorredora.

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