SOBRE O AUTOR

Sobre o autor de Sancta Lucrezia dei Cattanei 

Prefácio do livro Sancta Lucrezia dei Cattanei
Aldyr Garcia Schlee

Oscar Luiz Brisolara, o autor deste romance, é um respeitado e conceituado professor que se distinguiu por trinta anos nas áreas de Latim, Linguística, Literatura e Língua Portuguesa da Universidade Católica de Pelotas e que agora atua no Instituto de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio Grande.

Ao nos apresentar seu livro de estreia, que tenho aqui a satisfação e a honra de prefaciar, Oscar Brisolara afirma-se também como ficcionista, aproveitando-se de um importante lastro cultural que, incluindo o domínio da língua portuguesa e do latim, adquiriu em aprofundados estudos feitos quando seminarista – e que o fizeram sempre interessado em temas como os que tão bem romanceia neste seu Sancta Lucrezia dei Cattanei, uma surpreendente, inquietante e original história de Lucrécia Bórgia, sublinhada muito apropriadamente com a frase "solatio est miseris habere communis malorum".

De Lucrécia Bórgia muito se soube, como também de sua família e do tanto que se atribuiu a ela e à família; mas já se sabe pouco ou quase nada, na medida em que o tempo foi se encarregando de borrar e apagar o que se sabia – e toda a documentação, todos os textos, todas as imagens, todos os registros artísticos quedaram-se como que perdidos num passado cada vez mais remoto e inacessível. Nem mesmo a literatura ou o cinema – nem a televisão recente – incursionando pela vida dos Bórgia, têm conseguido recuperar o que já (ainda) não sabemos antes de ler Sancta Lucrezia dei Cattanei.

A História conta – e consta em qualquer anotação vulgar – que Lucrécia Bórgia era filha do Papa Alexandre VI. Nascera em 1480 e morreria com apenas 39 anos de idade, tendo casado três vezes para satisfazer interesses políticos do pai. Aos 13 anos, fizeram-na esposar João Sforza, mas o casamento seria anulado por Alexandre VI para ela que casasse com Afonso de Aragão, assassinado depois por interesses da família; finalmente, seria feita esposa de Afonso d'Este, Duque de Ferrara – e se tornaria Duquesa de Ferrara.

As notas biográficas de Lucrécia Bórgia geralmente não dizem que a mãe dela, Rosa Giovanna dei Cattanei, era uma prostituta conhecida por Vanoza dei Cattanei. Também não revelam que "Orlando Furioso", a obra prima do grande poeta Ariosto, era dedicada a Lucrécia; e que César Bórgia, irmão dela, fora tomado como modelo por Maquiavel em "O Príncipe". E não dizem, ainda, que ela seria e foi Sancta Lucrezia dei Cattanei, eternizada numa pintura de Bartolomeu Veneziano, na qual aparece com um seio à mostra, um enigmático e desafiante olhar enviesado e algo na mão direita – talvez um punhal sangrento, em forma de crucifixo, que o leitor verá na capa deste romance.

A imagem de Santa Lucrécia, aliás Sancta Lucrezia dei Cattanei, na capa deste livro, é bem a imagem da protagonista do romance, muito mais próxima da literariedade com que foi construída por Oscar Brisolara do que da obscura e multifacetada realidade com que terá sido vista, retratada e esquecida por seus coevos. Já por aí começa a se distinguir, por sua singularidade, esta obra de ficção posta desafiadoramente sobre a História.

É assim que, tratando de História, Brisolara faz Literatura. Faz Literatura, trabalhando predominantemente com e a partir da memória de Lucrécia Bórgia, personagem histórica transformada em figura literária.

A memória de Lucrécia, com a qual o escritor trabalha neste livro, recuperando-a entre muitas e reveladoras vozes, insuspeitadas confidências, disparatados delírios, imprevisíveis horrores e confessados suplícios, é contraponteada aqui e – de certa maneira – reposta no tempo por uma sucessão de diálogos entre dois personagens vivendo no presente: um, crente; e, um outro, ateu.

O livro, desenvolvido em torno de cinquenta aparentes capítulos, compõe-se na verdade em um bem elaborado e muito adequado arranjo dessas partes em conjuntos que nos remetem ao desenvolvimento da trama ficcional, a qual se alterna num crescendo entre vozes do passado (principalmente de Lucrécia) e vozes do presente (muito especialmente as do bancário Pio Sguelti, crente, e do professor Demétrio da Silva, ateu).

O leitor perceberá, no andamento da leitura de Sancta Lucrezia dei Cattanei, que o autor, muito habilmente o prenderá numa teia de interesse, dúvida e mistério, construída e desenvolvida em pelo menos três grandes tempos (ou grandes partes) do livro. Uma, inicial, compreendendo vozes, confidências, delírios e horrores, com mínima ocorrência de diálogos entre o crente e o ateu; outra, final, predominantemente ocupada por nove trechos atribuídos a Sancta Lucrezia dei Cattanei e outros nove, de diálogos presentes entre o bancário e o professor. Intermediando esses grandes tempos da história (memória) de Lucrécia, há um desfilar dos marcantes "suplícios de Savonarola" e das pungentes vozes de "uma prostituta romana" (sem interferência do professor ateu e do bancário crente).

A tensão da leitura (escritura) constitui marca preponderante e característica desta obra de estreia de Brisolara que, tendo sua temática voltada para o velho, inscreve-se desde logo e por isso mesmo, como algo de novo no plano geral da narrativa literária brasileira.
O novo, finalmente, apresenta-se aqui como forma de assediar, de invadir, de conquistar e de incorporar o velho. O novo que aproveita e recupera o ontem esquecido, o passado oculto, o decorrido inimaginável – e alcança no velho uma nova dimensão estritamente literária, criativa e original.

Oscar Luiz Brisolara estreia, assim, com um romance cujo fascínio e novidade estão em não ser necessariamente um romance histórico nem uma biografia de Lucrécia Bórgia; mas em ser a reconstrução ficcional da história de uma certa Sancta Lucrezia dei Cattanei, sempre e sempre posta diante do leitor como uma protagonista literária de bem urdida e cativante trama.

O autor assume-se, assim, como um escritor pronto e acabado como seu próprio romance. Recuperando a memória de Lucrécia Bórgia e legando-nos com seu rememorar a lembrança de Lucrécia, ele alcança já no seu primeiro livro, a condição de um escritor que sabe o que quer, sabe o que faz e sabe o legado de que é capaz, no desenvolvimento de sua atividade literária.

(Com um grande abraço o os cumprimentos do Schlee, em 01/FEV/2013)