HISTÓRIA


SAGA DO POVO JUDEU PELA HISTÓRIA E PELOS CAMINHOS DAS NAÇÕES - SAGA OF THE JEWISH PEOPLE AND HISTORY BY WAYS OF NATIONS

BANCA - RIO DE JANEIRO
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
 O povo judeu tem uma saga histórica e geográfica milenar, envolvendo laços com praticamente todos os povos e países. Segundo a vertente mais consensual, o povo judeu, mais especificamente o povo hebreu, origina-se de Abraão, um migrante da Mesopotâmia. O termo judeu origina-se de Judá, um dos filhos de José, que dava nome a um dos reinos em que esse povo se dividiu na antiguidade: o Reino de Judá e o Reino de Israel, como se verá melhor mais adiante.
Hebreu etnônimo possivelmente oriundo do nome próprio Héber. Segundo o Livro do Gênesis, capítulo 10, versículo 21: “ Noé gerou a Sem; este gerou a Arfaxade, que gerou Salá, que gerou Héber; este gerou a Pelegue, que gerou Reú, que gerou Serugue, que gerou Naor, que gerou Tera, que então gerou a Abrão...” (Gen. 10: 21 e seg.).
Segundo diversos outros textos antigos, alguns deles bíblicos, Abraão teria migrado de Ur da Caldeia, na Mesopotâmia, atualmente Iraque. Ur situa-se ao sul da cidade da Babilônia, na margem direita do Rio Eufrates, nas proximidades do Golfo Pérsico. Vide mapa abaixo: 
MAPA DA MESOPOTÂMIA
Diz o livro do Gênesis ainda: “Taré tomou seu filho Abraão, sua nora (...) e partiu com eles de Ur da Caldeia (...)”. (Gen. 11: 30-32) Isso mostra que os antigos hebreus consideravam-se de origem caldaica, da cidade-estado de Ur.
Segundo ainda o texto bíblico, Abraão parte para Canaã: “... partindo de Ur da Caldeia, indo para a terra de Canaan.” (Gen. 11: 31).



ROTA DE ABRAÃO

Este lugar corresponde ao território onde hoje se situa Israel, vale do Rio Jordão. Observando o mapa acima, percebe-se que Abraão faz um longo trajeto, tendo de ir para o norte e depois voltar para o sul, porque era impossível atravessar o Deserto da Arábia.
No mapa abaixo, veja-se o tamanho de Israel em relação aos demais países do Oriente Médio:





ORIENTE MÉ
Veja-se agora apenas Israel, a faixa de gaza, o vale do rio Jordão e a Jordânia, com o Egito (região do monte Sinai) antes do rio Nilo abaixo:

ISRAEL, GAZA, EGITO












      
Abraão saiu da Mesopotâmia, de terras férteis entre o rio Tigre e o Eufrates, sobe para o norte para evitar o Deserto da Arábia, atravessa parte da Síria, descendo depois para Canaã, que vai se chamar de “terra onde corre leite e mel”, evidente metáfora da abundância de alimentos.
Por que essa metáfora? Observe-se que, entre tantos desertos, há uma terra que tem um rio que nasce no norte, desce até o sul do país. No meio, vai formar um grande lago (grande para a região), que têm em torno de 19 km de comprimento e uma largura máxima de 13 km, chamado por uns de Mar da Galileia, por outros de Mar de Tiberíades e ainda de Lago de Genesaré.
LAGO DE GENESARÉ
Cidade bíblica de Caná às margens do Mar da Galileia:
Esse mesmo rio segue até o sul do país, desaguando na maior depressão geográfica da Terra, formando o Mar Morto, que se situa a mais de 400 m abaixo do nível do mar. Como esse mar não tem saída e a região é muito quente suas águas através dos milênios se foram tornando tão densas e pesadas que o banhista flutua sem afundar.





BANHISTA FLUTUANDO
Antes de voltar-me para a palestina pré-cristã, vou fazer um intervalo para me situar em duas regiões atualmente importantes nos conflitos do Oriente Médio: a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. A Faixa de Gaza, que recebe essa denominação por estar situada nela a cidade histórica de Gaza, também conhecida como Palestina.
A Palestina, na antiguidade era conhecida como Filistina ou Terra dos Filisteus, inimigos constantes dos hebreus. Continua hoje como região de conflito. Situa-se na fronteira como o Egito, às margens do Mar Mediterrâneo.
A Cisjordânia é uma faixa de terra pertencente à Jordânia que se situa na margem direita do Rio Jordão no sentido em que ele desce para o Mar Morto.
O País de Israel pré-romano situava-se de ambas as margens do Jordão. Porém, Israel moderno, criado pela ONU a partir do pós-guerra mundial de 1939/45, restringe-se à margem esquerda do Jordão. Mas ainda assim, contém, próximo a Jerusalém, uma porção de terras do lado direito do rio, pertencentes à Jordânia, conhecidas como Cisjordânia, de cis (do lado de cá) do Jordão. Logicamente, esse posicionamento do lado de cá esta em relação aos falantes judeus, cujo país esta todo do lado de cá. Os grandes conflitos dos judeus com os povos de origem árabe estão justamente nestes territórios. Observe isso no mapa abaixo, prestando atenção nas regiões cobertas por linhas:
ISRAEL, CISJORDÂNIA, FAIXA DE GAZA












Voltando-nos agora para o passado histórico, vejamos abaixo o primitivo mapa de Israel dos tempos pré-romanos, do período em que havia doze tribos, na linha do tempo, em torno de 1200 a. C. portanto, após o êxodo do Egito:
AS DOZE TRIBOS





Nesse período antigo, sem datas muito precisas, começaram as primeiras narrativas, registrando em textos escritos a história e as crenças do povo judeu. Primeiramente o Torá, conhecido também como Pentateuco. Pente (πέντε), em grego, cinco, e teucos (τεχος) rolo, ou sejam, cinco rolos. Acontece que os livros antigos não eram encadernados como os atuais e sim enrolados em bastonetes de madeira ou metálicos, conforme os modelos abaixo:



LIVRO PRIMITIVO

LIVRO PRIMITIVO
O Torá estava contido em um Pentateuco, ou seja, estava dividido em cinco rolos dos tipos acima, contendo os textos dos livros bíblicos do Gênesis, do Êxodo, do Levítico, dos Números e do Deuteronômio.
Voltemos agora a Abraão, estabelecido já em Canaã. Como sua esposa Sara contasse já 60 anos e não lhe tivesse dado filhos, julgou-se estéril e permitiu ao marido que gerasse um descendente com Hagar, serva egípcia do casal. Hagar gerou, então, Ismael. Deus, porém, anunciou que Sara daria um filho a Abraão. No ano seguinte nasceu, de Sara e Abraão, um menino que recebeu o nome de Isaac.
Isaac desposa Rebeca e dela tem dois filhos gêmeos: Esaú e Jacó. Jacó, o primogênito, o primeiro a sair do ventre materno, como ainda havia poligamia, casa-se com duas irmãs, Lia e depois Raquel. Camões, cantando o amor de Jacó por Raquel, escreve este primoroso soneto:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Jacó teve doze filhos: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dan, Neftali, Gad, Aser, Issacar, Zabulon, José e Benjamim, os dois últimos da amada Raquel. Seus filhos dariam origem às 12 tribos de Israel.
Houve tempos difíceis para a agricultura em Israel, com muitos anos sucessivos de seca, o que obrigou Jacó e seus filhos a migrarem para o Egito. Acredita-se que os judeus tenham permanecido no Egito por volta de 200 ou 215 anos, no período em que esse país estava sob o domínio dos reis pastores denominados de Hicsos. Teriam permanecido, portanto, esses 200 ou 215 anos no país do Nilo, entre 1800 e 1500 a. C. Então se teria dado o longo retorno a Israel.
Moisés e seu irmão Aarão teriam guiado o povo hebreu para sua terra. Moisés, segundo diversas narrativas, fora criado na corte do faraó Tutmés III. O povo hebreu vivia, a esse tempo no Egito, como escravo. O menino, encontrado às margens do Nilo, havia sido criado pela filha do faraó, educado de acordo com os conhecimentos de uma das civilizações mais avançadas daquele tempo, sendo, inclusive sofisticadamente alfabetizado.
Não há precisão de datas, mas é possível que o êxodo Egito se tenha iniciado por volta de 1450/47 a. C e a chegada de retorno ao seu país por volta de 1410 a. C. Há antropólogos, arqueólogos e historiadores que situam todos esses fatos no século XIII a. C.
William Dever, que é arqueólogo estadunidense, especialista em história de Israel e do Oriente Próximo, professor da Universidade do Arizona, em 2003, publicou um livro intitulado Who Were the Early Israelites and Where Did They Come From?
Nessa obra, ele afirma que, segundo algumas interpretações do Livro do Deuteronômio, os judeus que saíram do Egito seriam em torno de dois milhões de pessoas a caminho, enquanto a população egípcia a esse tempo seria de três a três milhões e meio de cidadãos. Marchando em dez lado a lado, formariam uma fila de 150 quilômetros. Acrescente-se a eles o gado que levariam consigo, seria uma caravana inimaginável. Há quem diga que não seriam tantos, seriam apenas seiscentas famílias. Outros falam de seiscentas mil pessoas.
De qualquer maneira, a saída dos judeus do Egito representou uma perda irreparável de mão-de-obra para o faraó num período em todas as atividades dependiam essencialmente da mão humana.
Surge, então o período áureo da civilização hebreia, segundo um grande número de historiadores e antropólogos, com os reis Davi e seu filho, o sábio e rico Salomão.
Após o retorno do Egito, vagavam os israelitas como nômades, na busca das regiões onde melhor pudessem apascentar seus rebanhos e obter água para si e para os gados, montando suas tendas de vale em vale por muitos anos.
Não possuíam um monarca que os governasse. Os juízes executavam o papel de reger o povo nas questões em que fosse necessário. Segundo afirmam alguns historiadores, teriam sido 349 anos o período em que governaram os Juízes, tendo sido Samuel o último deles. Após, foi escolhido Saul para a função de primeiro rei de Israel. Saul foi sucedido pelo rei poeta e salmista Davi, considerado o maior rei de Israel, teria reinado entre 1010 e 970 a. C. Primeiramente, governou apenas sobre o reino de Judá. A partir de 1002, com a unificação de Israel, assumiu todo o reino.

DAVI - NICOLAS CORDIER -
BASILCA STA. MARIA MAGUIRE





















Depois de construir o palácio real e fazer o projeto do grande templo, faleceu e foi substituído por seu filho Salomão.
PALÁCIO DE DAVI – RECONSTITUIÇÃO POR ARQUEÓLOGOS
PALÁCIO DE DAVI - RECONSTITUIÇÃO

Salomão assumiu o trono de Davi e se constituiu no mais rico dos reis de Israel Salomão assumiu o trono de Davi e se constituiu no mais rico dos reis de Israel. Foi considerado o homem mais sábio de todos os tempos. E construiu o famoso templo de Jerusalém. Fez fama como grande amante acumulando em seu harém mais de setecentas esposas, tendo, ainda, em torno de trezentas concubinas. Uma de suas mais famosas amadas foi a rainha de Sabá, que foi a Jerusalém para conhecê-lo. Ele, se tendo apaixonado por ela escreveu o mais lindo poema de amor de toda a Bíblia conhecido como Cântico dos Cânticos, ou, sob outra versão, Cantares.

     Osculetur me osculo oris sui; quia meliora sunt ubera tua vino, fragrantia unguentis optimis. Oleum effusum nomen tuum; ideo adolescentulæ dilexerunt te. Trahe me, post te curremus in odorem unguentorum tuorum. Introduxit me rex in cellaria sua; exsultabimus et lætabimur in te, memores uberum tuorum super vinum. Recti diligunt te. Nigra sum, sed formosa, filiæ Jerusalem, sicut tabernacula Cedar, sicut pelles Salomonis. (Ct.: 2,5).

Tradução:

       Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho, e suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como um perfume derramado: por isto amam-te as jovens. Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar! Sou morena (negra), mas sou bela, filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão. (Ct. I: 2,5).
Veja-se uma reconstituição por arqueólogos do majestoso templo de Jerusalém, construído por pelo rei Salomão:

Durante a monarquia hebraica, com os constantes desentendimentos e separações entre o Reino de Israel e o reino de Judá, ocorreu a deportação dos judeus para a Babilônia.
O período foi conhecido como Cativeiro Babilônico designa a deportação em massa e exílio dos judeus do antigo Reino de Judá para a Babilônia pelo rei Nabucodonosor II. Abaixo está o mapa antigo de Israel, apresentando a divisão do país em dois reinos, ao sul, o Reino de Judá e, ao norte, o Reino de Israel:
Este período histórico foi marcado pela atividade dos profetas Jeremias, Ezequiel e Daniel que seguiram para o exílio com o povo. Daniel é colocado em uma caverna cheia de leões famintos que lhe lambem as mãos e Jeremias escreve suas tristes lamentações.
Essa deportação é conhecida também como Primeira Diáspora, tendo início em 598 a. C., ano em que Jerusalém é cercada, e Joaquim, rei de Judá, rende-se. Grande parte da elite da sociedade judaica, os oficiais militares e grande parte da população, juntamente como o rei são levados como escravos para a poderosa babilônia. Por fim, havendo ainda revoltas em Jerusalém, onze anos mais tarde, em 587 a. C., Nabucodonosor manda destruir o grandioso templo de Salomão e fazer uma segunda deportação de mais levas de judeus para seu reino. As topas de Nabucodonosor destoem o templo de Salomão e a cidade de Jerusalém.
Porém, Ciro II, o Grande, rei da Pérsia da dinastia dos Aquemênidas, conquista a Babilônia e permite que o povo judeu retorne a sua pátria, em 539 a. C.
É preciso destacar que tanto o período de mais ou menos 200 anos em que o povo judeu viveu no Egito, bem como os quase 60 anos em que estiveram na Babilônia, foram importantes para os judeus. Embora fossem tempos de sacrifício, levando em consideração que os dominadores eram povos de culturas muito mais evoluídas do que os conquistados, tiveram grande importância na formação cultural e religiosa dos hebreus.
A relação de Alexandre Magno com os hebreus é inusitada. O imperador macedônio, que dominara a Grécia e colocara sob seu cetro o poderoso e sábio império grego, varria o Oriente Próximo montado em seu cavalo Bucéfalo. Ao se aproximar de Jerusalém, temendo que ele destruísse a cidade, o Sumo Sacerdote do templo revestiu-se de gala e saiu ao encontro do vigoroso imperador.
         O jovem rei macedônio, desceu de seu cavalo e inclinou-se diante dele, gesto que o orgulhoso dominador raramente fazia. Segundo a narrativa de Flávio Josephus, quando seu general Parmerio lhe perguntou o porquê de sua atitude, Alexandre respondeu: “Eu não me inclinei perante ele, mas perante aquele Deus que o honrou com o Sumo Sacerdócio; pois eu vi esta mesma pessoa num sonho, com esta mesma roupa.”
Ainda segundo o historiador judeu citado acima, ele interpretou a visão do Sumo Sacerdote como um bom presságio e anexou as terras de Israel a seu império sem nenhum combate e, como agradecimento a sua bondade, os Sábios prometeram que o primeiro menino que nascesse na cidade receberia o nome de Alexandre. Essa anexação se deu em 333 a. C.
Depois da morte precoce do jovem imperador, houve uma grande disputa para a divisão do Oriente Médio entre seus sucessores, os Ptolomeus do Egito e os Selêucidas da Síria. Somente em 198 a. C. Antíoco III da Síria conquistou Israel e outorgou autonomia nacional e religiosa aos hebreus.
Acontece, no entanto, que em 175 a. C. sobe ao poder Antíoco IV, cognominado Epífanes, que implantou a obrigatoriedade do culto grego inclusive no templo de Jerusalém. Houve revolta popular esmagada pelo exército grego.
As humilhações e dominações estrangeiras estavam longe de acabar, para o povo hebreu. No primeiro século antes de Cristo, ocorre a dominação romana. Em 63 a. C., o general romano Pompeu conquista a Judéia e a anexa ao domínio romano. Em 40 a. C., Marco Antônio e Caio Otávio, o futuro imperador Augusto, sob o domínio do qual Jesus Cristo irá nascer, nomeiam Herodes rei da Judéia.
Herodes fez obras esplendorosas, apoiado pelos romanos, principalmente, reformou o templo de Jerusalém. Templo de Herodes:

Em 04 a. C. morre Herodes o Grande e é sucedido por seus filhos: Arquelau, Herodes Ântipas e Filipe. Porém, a partir de 6 d. C., tornou-se a província romana da Judéia, sob o domínio do rei da Síria, sendo Arquelau mandado para o exílio.
O povo judeu passou a criar pequenos focos de revolta até que em 66 d. C. iniciou-se uma revolta geral contra do domínio romano. Então, as legiões romanas comandadas pelo general Vespasiano e depois por seu filho Tito invadiram a região, cercaram e destruíram Jerusalém no ano 70 d. C.
As recusas judaicas ao culto aos deuses e imperadores romanos de há tempo irritavam os administradores de Roma. Com suicídio de Nero em Roma, em junho de 68, e os sucessivos assassinatos dos imperadores Galba, Otão e Vitélio no malfadado 69 d. C., obrigaram Vespasiano a retornar para a capital do império, assumir o trono e restabelecer a ordem.
Flávio Josepho, então prisioneiro dos romanos, narra que Tito cercou a cidade que estava repleta de peregrinos para a Páscoa, cortou o abastecimento de água externo. O historiador judeu afirma que Tito desejava preservar o templo, coforme costume romano em todas as guerras. Segundo o mesmo Josepho, 1.100.000 morreram durante o cerco, a grande maioria judeus, sendo que 97.000 foram escravizados.
Em 132, com novas revoltas judaicas na região, o imperador Adriano promove grandes massacres de judeus e decreta a expulsão do povo judeu da Palestina. Desde esse tempo da chamada segunda diáspora, os judeus se disseminaram por todo o mundo. Denomina, o imperador, toda essa região de Palestina, o que vai gerar uma confusão, entre a Palestina Romana e a antiga Palestina, pequena região habitada pelos Filisteus, hoje Faixa de Gaza.
Esse imperador renomeou Jerusalém como Élia Capitolina, passando a região toda a denominar-se de Síria Palestina. É preciso salientar que sempre permaneceram remanescentes judeus nessa região.
Depois, com os impérios que se seguiram: o Romano do Oriente, o Bizantino e o Otomano, Israel fez parte de cada um deles, sem autonomia. Os cristãos investiram muito no local depois da cristianização do Império Romano com o imperador Constantino. Foram construídas muitas igrejas e basílicas. Mapa da Judeia romana:
Desde os tempos romanos do reinado de Vespasiano e depois de Adriano os judeus marcaram presença em muitos países. Surgem os Sefaradim, termo originado de Sefarad, que significa Espanha, em hebraico.
Esse grupo judeu migrou, primeiramente para o norte da África, originados dos judeus do exílio da Babilônia que preferiram não retonar a Israel. Aí encontraram os berberes, povos árabes mais acolhedores e se fixaram na região em que hoje estão a Argélia, o Marrocos, o Saara Ocidental e a Mauritânia. Com a migração árabe para a Espanha no século VIII d. C., migraram com eles. Originaram um idioma, o Ladino, com vocábulos do espanhol medieval e do hebraico. Juntando-se aos mouros e ciganos, os judeus deram origem ao flamenco, que até hoje é tocado e bailado como um hino à liberdade.
Porém, no século XV, os reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, casando-se, e tendo a proteção eclesiástica em Roma de um papa espanhol, Alexandre VI (Rodrigo Borja), instigados pelas riquezas de muitos judeus, incentivaram a Sagrada Inquisição a persegui-los, executá-los em autos-de-fé e apoderarem-se de seus bens.
Muitos judeus migraram para Portugal e tiveram papel importante como mentores da Escola de Sagres, na medida em que tinham conhecimentos científicos que possibilitaram o desenvolvimento das navegações portuguesas. Porém, a ganância lusitana voltou-se para os bens deles. D. Manuel, o venturoso navegador, intensificou um processo de perseguição a eles. Condenou muitíssimos à morte, especialmente no famoso Massacre de Lisboa, em que centenas de judeus foram mortos em praça pública.
Desse grupo Sefaradim, originário dos judeus da Babilônia, houve migrações menores para todos os países da Europa. Deles fazem parte os mais antigos judeus disseminados pelo mundo.
No reinado franco de Carlos Magno, no século VIII d. C., houve um incentivo por parte desse imperador para que outro grupo de judeus migrasse pelo vale do Rio Reno, o longo rio do norte europeu. Simultaneamente ao Grupo Sefaradim, esse grupo que se denominou  ashkenazim, cujo nome provém do termo hebraico Ashkenaz, que significa Alemanha.
Foram convidados por se dedicarem a funções essenciais como a fabricação de vinhos e ao comércio e por serem excelentes conhecedores das rotas do mar Mediterrâneo e do Oriente Médio. Do vale do Reno, migraram mais para o leste, para a região da Polônia atual, onde, no século XVII, foram atacados pelos cossacos.
Já havia ocorrido conflitos entre judeus e outras regiões: haviam sido expulsos da Inglaterra no final do século XIII e da França, no início do século XIV. Assim, gradativamente, o antissemitismo vai-se disseminando por diversos países.
Tratava-se de uma nação sem estado e sem território. Esse povo tinha de recorrer a outras estratégias para constituir uma identidade nacional. Criaram para isso parâmetros religiosos e mais especificamente étnicos. Em qualquer país, eram sempre estrangeiros, apenas tolerados, quando não abertamente rejeitados. Buscavam segurança no desenvolvimento das capacidades pessoais para sobreviver em qualquer parte como excelentes profissionais e, mais especificamente nas reservas monetárias e capitalistas.
Assim como os Sefaradim haviam criado o Ladino, os  ashkenazim criaram o Ídiche, que é uma mescla de alemão medieval com termos hebraicos e eslavos. Eles foram migrando para o leste, chegando à Lituânia, Ucrânia, Moldávia e Rússia. Gradativamente foram sendo isolados em guetos que recebiam nomes diversos de acordo com cada país. Tendo vivido em regiões muito diferentes de sua região nativa original por quase dois milênios, a própria natureza encarregou-se de transformá-los fisicamente, de acordo com os países nos quais passaram a viver.
Sendo o Sefaradim e o ashkenazim grupos de origem judaica espanhol e alemão, não foram, contudo, os únicos. Muitos judeus migraram para a Itália, de modo especial depois da destruição de Jerusalém, com Tito e Adriano, uns escravizados e outros migrantes voluntários. Também migraram para a Itália muitos sefaradins.
Outro grupo conhecido por Mizrahim desenvolveu-se na Síria, no Egito e outros países do Oriente Médio. Falam idiomas árabes e têm nomes árabes. No Iraque há ainda judeus descendentes dos escravizados por Nabucodonosor. Muitos foram expulsos depois da criação do moderno estado de Israel.
Os Teimarem são judeus que vivem no Iêmen possivelmente desde os tempos de Salomão. Têm pele escura como a maioria dos árabes e usam o idioma árabe. Também, na esmagadora maioria, foram expulsos após 1948.
Há ainda os judeus etíopes, em parte negros, segundo uma tradição, parcialmente descendentes de Salomão e a rainha etíope de Sabá, repatriados a Israel, nas décadas de 1980 e 90. Por esses séculos todos mantiveram as tradições judaicas e o shabat.
Essa é apenas uma demonstração da presença de judeus pelo mundo. Poder-se-ia encontrá-los em todos os países do mundo em maior ou menor número. Não o faremos, pois não é o escopo deste estudo.
Quanto ao antissemitismo, é preciso destacar que o próprio cristianismo teve papel importante nos movimentos racistas contra o povo judeu, incentivando s ganância de muitos reis e administradores públicos a persegui-los, condená-los e executá-los, muitas vezes com interesses menos nobres. O próprio papa João Paulo II pediu-lhes perdão por esse pecado.
Com a Revolução Francesa e os subsequentes movimentos de igualdade racial, os judeus puderam sair dos guetos e receber a cidadania dos países em que viviam. Assim, personalidades importantes Albert Einstein e Sigmund Freud, apenas como um pequeno exemplo, receberam nacionalidades de países europeus.
Porém, no século XIX, o racismo antissemita recrudesceu em todo mundo, de modo especial na Europa, de modo especial como o teórico radical francês Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) e o inglês naturalizado alemão Houston Stewart Chamberlain (1855-1929), grandes defensores da superioridade da raça ariana. Portanto eram partidários da superioridade de uma raça e da inferioridade de outros.
Esses teóricos, com suas obras, aliados a muitos outros, geraram o retorno a movimentos racistas generalizados que, novamente atingiram o povo judeu, voltando-se aos guetos separatistas e aos extremismos, chegando às perseguições e extermínios nazistas que é desnecessário comentar, devido à grande divulgação que já tiveram.
Finalmente, terminada a Segunda Guerra Mundial, encontrava-se grandíssimo número de judeus refugiados nos mais diferentes países, com famílias desbaratadas, sem teto e sem pátria, o que intensificou o movimento sionista, que exigia um território para essa nação.
Então, fundada a ONU em 1945, usaram desse foro internacional para apresentar suas reivindicações. Depois de quase dois mil anos apátridas, em maio de 1948 a ONU destinou-lhes uma parte da antiga pátria e o direito de retornarem ao Oriente Médio.
Em 1947 houve um plano de partilha da Palestina em que o Brasil teve papel fundamental. O gaúcho Osvaldo Aranha chefiava a delegação brasileira na recém-fundada Organização das Nações Unidas e presidiu II Assembleia Geral da ONU, que votou o plano para a partição da Palestina.
Já desde 1917, com a declaração dos britânicos que administravam uma parte da região conhecida como Declaração de Balfour, havia uma manifesta intenção de repatriar judeus para a Palestina. Em 1922, criara-se o Emirado da Transjordânia.  Em 1947, o Estado de Israel. No dia 14 de maio de 1948, o líder sionista David Ben Gurion proclama a independência de Israel. No dia quinze, já de prontidão, tropas do Egito, da Transjordânia, da Síria, do Líbano e do Iraque invadem o país. Lutando até a paz de 1949, os judeus vencem a guerra. Mapa de partilha da Palestina de 1947:

Terminado o conflito de 1947, sucessivas guerras se deram na região envolvendo judeus e árabes, sendo as mais importantes a Guerra dos Seis Dias, de 5-10 de junho de 1967 e a Guerra do Yom Kippur de 6-26 de outubro de 1973. Porém, os embates foram muito mais frequentes, quase que constantes, desde a fundação do Estado de Israel em 1948.

As reflexões apresentadas aqui não têm a intenção de defender ponto de vista algum, mas apenas buscam ajudar a quem não acompanhou esse povo em sua peregrinação pela história e pelo espaço geográfico por milênios para que consigam compor uma síntese dessa saga.

MUNDO ÁRABE A PARTIR DE MAOMÉ - IMPÉRIOS, MOVIMENTOS E CONFLITOS
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara


Em Meca, no dia seis de abril de 570 nascia aquele que teria o papel de unificador de muitas tribos árabes. Meca situa-se no Oriente Médio, isto é, no caminho entre a Europa e o Extremo
Oriente. Essa região é berço de muitos povos.
Nas proximidades da Arábia, encontra-se a Mesopotâmia, em que, por milênios, desenvolveram-se culturas muito importantes. Não muito longe está o Egito, cuja história e importância cultural dispensam comentários. Próxima da Arábia estava a não menos importante  Fenícia, que foi mestra das navegações, encantou o mudo com as magníficas construções de Biblos, Sídon e Tiro. Foi também nesse ponto geográfico que se originou o povo judeu e sua multimilenar tradição religiosa.
Meca, cujo nome, segundo uma tradição significa Honrada, situa-se na Península Arábica e aproximadamente 80 km do Mar Vermelho, a uma altitude que se aproxima dos 300 m acima do nível do mar. Situa-se num corredor entre montanhas. Como centro da cultura muçulmana, a cidade cresceu muito, abrigando hoje em torno de um milhão e setecentos mil habitantes.
MESQUITA DE MECA


Meca encerra em sua grande praça um signo sagrado, a Kaaba ou Caaba. Essa construção cúbica situada no centro da mesquita de Meca constitui-se no signo de união da religião muçulmana. Pois foi em Meca que, em 622, Maomé unificou o culto muçulmano e criou o espírito de unidade dos povos árabes.
Porém, apenas dez anos após, em oito de junho de 632, o líder falece. Por ocasião de sua morte, Maomé já havia unificado todas as tribos da Arábia. Por não ter filhos homens, e não ter nomeado nenhum sucessor, muitos julgavam que seu herdeiro político deveria ser seu genro e primo Ali Ibn Abu Talib, porém, enquanto sua família providenciava as exéquias do líder, alguns companheiros do profeta elegeram como novo califa Abu Bakr. Esse grupo governante passou a designas-se de sunitas, nome derivado de “sonnat”, que significa tradicionais.
Porém, um grupo considerável dos seguidores de Maomé defendia a posição de que Ali (Ali Ibn Abu Talib), o genro, deveria ser o sucessor de Maomé e passaram a chamar-se de “Shi’at-Ali” (seguidores de Ali), de onde provém o termo xiita.
Surge nesse momento a primeira grande cisão do mundo árabe: de um lado estavam aqueles que acreditavam dever a liderança político-religiosa dos muçulmanos ser exercida por pessoas da família do profeta, sendo seu genro Ali o legítimo sucessor e a sua corrente xiita deveria permanecer no poder; o outro grupo, os seguidores de Abu Bakr eram contrários a essa posição. Acreditavam que, como Maomé não havia nomeado sucessores, os muçulmanos seriam livres para escolher seus governantes e, assim o fizeram, nomeando seu líder Abu Bakr, como se viu acima, sucessor e herdeiro da função do profeta. Abu Bakr foi sucedido por Omar. Este havia apoiado Abu Bakr como novo líder, pela ocasião da morte de Maomé. Assim, antes de morrer Abu Bakr nomeou Omar como seu sucessor. Após o assassinato do califa Omar, Otman (não se trata do mesmo Otman do Império Otomano) foi eleito califa por uma comissão de seis membros em 644.
Porém, Otman enfrentou uma grande oposição dos xiitas partidários de Ali, que o acusavam de nepotismo com a nomeação de muitíssimos parentes para cargos administrativos, como também de esbanjamento do tesouro público. Otman foi assassinado por uma multidão que cercava sua casa.
Seu assassinado originou a Primeira Fitna, ou seja, a primeira Guerra Civil Islâmica (656-661). Com a morte de Otman, assume o califado o primeiro mandatário xiita, o genro de Maomé Ali, que pretendia a sucessão do sogro, mas que somente em 656 atingiu seu intento. Sua escolha foi contestada pelo líder do Levante, Muawiya, originando a já citada guerra civil, que se estendeu até o assassinato de Ali em 661.
Precisamos reconstituir fatos históricos concomitantes ao surgimento do Império Árabe de Maomé como o desenvolvimento do poderoso Império Bizantino, que sucedeu o Império Romano. Constantino, imperador romano, que não pertencia a nenhuma família nobre do Roma, optou por transferir a sede do Império Romano para Bizâncio, à beira do Bósforo, canal que conduz as águas do Mar Negro ao Mar Mediterrâneo e separa a Europa da Ásia. O novo imperador trocou o nome da capital de Bizâncio para Constantinopla.
Com a derrota de Roma para os povos do norte e o consequente fim do Império Romano na Europa em 476 d. C. (século V), surgiu o Império Bizantino, herdeiro do Império Romano do Oriente, criado por Constantino e seus sucessores. O império Bizantino dominava o Egito e separava-se do incipiente Império Árabe do século VII d. C. pelo Mar Vermelho e tinha mesmo fronteira com os muçulmanos na antiga província da Síria.

MURALHAS DE CONSTANTINOPLA

O Império Bizantino, embora reduzido gradativamente em seu território, manteve-se até 1453, com a derrota para o Império Otomano. Nesse período, enquanto o Império Bizantino encolhia, o Império Árabe  foi-se expandindo tanto em direção ao Oriente quanto no norte da África. Chegaram mesmo, no século VIII d. C. a invadir o sul da Europa. O general muçulmano Jabal Tariq atravessou o estreito de Gibraltar (aliás, concedeu-lhe seu nome) e somente foi contido na Cordilheira dos Pireneus pelas tropas carolíngias dos francos.
Pela primeira vez depois da cristianização da Europa acontecia a invasão no continente europeu por um povo não cristão e até muitas vezes hostil ao cristianismo. Com a conquista do norte da África e da Península Ibérica, afirmava-se em tom de chacota que o Mediterrâneo se tornara um lago árabe. Os imperadores merovíngios os contiveram na grande cordilheira dos Pireneus que separa a Espanha da França, mas não tiveram poderio militar suficiente apara afastá-los completamente do continente europeu por setecentos anos. 
MESQUITA DE MADRI
Desenvolveu-se, então, na Península Ibérica uma magnífica civilização muçulmana com deslumbrantes mesquitas, avançados centros culturais, responsáveis mesmo pela chegada até nós das principais obras de Aristóteles, mantidas pelos famosos médicos Avicena e Averróis, que, aliados ao grande antropólogo e químico sírio Al Farabi dedicaram-se ao estudo do pensamento grego. Al Farabi, pela sua coleção de textos clássicos gregos, deu origem ao termo alfarrábio, designativo de livro antigo.
Somente a duros custos e muito gradativamente os povos ibéricos livraram-se do domínio árabe. Há as bravatas do herói Rodrigo de Bivar e de sua amada Ximena, durante o século XI. De suas aventuras nas lutas entre cristãos e mouros produziu-se La Canción de Mio Cid datada de 1207, e chegou até nós através do texto manuscrito do copista Pedro Abad, cujo original encontra-se na  Biblioteca Nacional da Espanha, um referencial para os cavaleiros da idade média.
Séculos mais tarde surge o memorável livro intitulado Cantar del Mio Cid,  do poeta Ramón Menéndez Pidal, em que se evoca,j á no século XX, a memória desse período heroico medieval.
Voltando aos fatos históricos, somente no final do século XV, mais precisamente em 1492, acaba a presença oficial árabe na Península Ibérica, em que Boabdil (Abu Abdil-lah), que reinava como Maomé XII, entrega seu reino de Granada aos reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, marcando o fim da presença de mais de setecentos anos de domínio árabe em continente europeu. Basta visitar a Espanha e Portugal para se perceber essa presença cultural por toda a parte, até mesmo nas feições e vestes de muitos cidadãos.
Se, por um lado, houve essa duradoura invasão árabe no continente europeu, por outro, houve também uma invasão europeia no Oriente Médio. É preciso lembrar que, após a morte de Maomé no século VII, houve também um grande avanço dos árabes sobre o Império Bizantino e sobre o Reino Sassânida da Pérsia.
Do Império Bizantino, os árabes tomaram, primeiramente, o vale do Jordão, conquistando a Palestina, incluindo Jerusalém, a Terra Santa para os cristãos, a Síria e parte da Anatólia.
IMPÉRIO BIZANTINO

Face às sucessivas dificuldades impostas pelos árabes aos peregrinos cristãos aos lugares sagrados do cristianismo, ocorre, então, uma forte reação europeia. Havia uma acentuada degradação do Império Bizantino. Com a dominação dos turcos selêucidas sobre a Palestina, os cristãos europeus sentiram uma ameaça de repressão sobre os peregrinos e sobre os cristãos do Oriente.
Começou um movimento que recebeu o nome de cruzadas. Fala-se em nove cruzadas, mas parece mais um movimento contínuo. Em 27 de janeiro de 1095, no concílio de Clermont, o papa Urbano II exortou os nobres franceses a libertar a Terra Santa e a recuperar o domínio cristão sobre Jerusalém. Com a aceitação popular, assim começaram as cruzadas.
 Muitos reis participaram dessas expedições religiosas e militares a um só tempo. Acontece que muitas delas fracassaram pelo fato de juntarem guerreiros e populares, sem experiência militar ou, muitas vezes, idosos e até mesmo crianças, evidentemente desaconselháveis às lides militares e comprometedores dos resultados da operação, pois os soldados regulares, além de enfrentar o inimigo, obrigavam-se a protegê-los, retardando a operação, pela lentidão desses ineptos.
Contudo, em 1099, os cristãos tomam Jerusalém, liderados pelo nobre militar francês Godofredo de Bulhão, que é nomeado primeiro rei de Jerusalém, mas que prefere simplesmente o título de Advocatus Sancti Sepulchri (Defensor do Santo Sepulcro). No ano seguinte, morre Godofredo e seu irmão é coroado como Balduíno I de Jerusalém. 
REINO LATINO DE JERUSALÉM
Porém, com o passar dos anos, esse reino se deteriorou tanto que seus governantes resolveram cometer a imprudência, poder-se-ia mesmo afirmar que cometeram a loucura de desafiar Saladino, o poderoso sultão do Egito e da Síria. Esse, para evitar a desonra, obrigou-se a atacar Jerusalém. O exército cristão foi aniquilado pelo sultão, o qual, porém, mostrou-se generoso para com os vencidos.
O papa Gregório VIII convocou os reis da Europa para a tarefa de reconquistar Jerusalém. Os reis Filipe Augusto, da França; Frederico Barbarroxa, do Sacro Império Romano Germânico; e Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra decidiram participar da Cruzada.
Frederico partiu embarcado pelo rio Danúbio e atingiu o Mar Negro, porém, na Anatólia, seguindo a cavalo, ao atravessar o rio Sélef (hoje Goksu), caiu do animal, e por causa do peso da armadura e da idade (68 anos), morreu afogado. Suas tropas, então retornaram. Filipe da França, ao chegar ao Oriente de navio, deixou suas tropas com Ricardo e retonou para a Europa. Somente Ricardo enfrentou Saladino.
Antes de atacar diretamente as tropas de Saladino, Ricardo venceu muitos outros generais menos importantes. Porém, tanto ele quanto Saladino respeitavam-se muito em combates, era o chamado respeito cavalheiresco. Ricardo reconquistou toda a costa palestina até Áscalon. Então, Saladino e Ricardo propuseram mutuamente um acordo, embora jamais se tenham encontrado pessoalmente. Trocaram presentes e acordaram manter as posições em que estavam. Ricardo não havia reconquistado Jerusalém após três anos de lutas, porém, Saladino, desejando a paz, enviou-lhe presentes a que ele retribuiu. Ofereceu aos cristãos o direito de visitar Jerusalém e os lugares sagrados, contanto que desarmados. Fechado o acordo, Ricardo retornou à Europa.
Durante as cruzadas surgiu uma ordem especial de cavaleiros: os Cavaleiros Templários. A nova instituição foi Conhecida como "Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici(Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão), e tinha como lema este versículo do Salmo 115, do rei Davi: "Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini Tuo ad Gloriam" ("Não para nós, Senhor, não para nós, mas para Glória de Teu Nome"). Foi criada em 1118, por Hugo de Payens, com o objetivo de apoiar o rei Balduíno II, então mandatário do Reino de Jerusalém, logo após a primeira cruzada. Sua finalidade era também proteger os peregrinos em sua viagem para Jerusalém.
CAVALEIROS TEMPLÁRIOS

Assim, a ordem cresceu e tornou-se rica, pois funcionava também como banco: o peregrino, para não correr o risco de ser roubado no caminho, depositava o dinheiro da viagem junto aos templários na Europa e depois usava dos serviços deles pela viagem, retirando pequenas quantias por onde passava e mesmo na Terra Santa. Com essa função, aumentaram grandemente em número, construíram uma rica sede no monte do antigo Templo de Jerusalém, acumularam, assim, uma enorme fortuna, passando a diversificar suas funções, chegando mesmo a financiar reis e papas.
No século XIV, estando o Rei Filipe IV, conhecido como o Belo, completamente endividado com a Ordem, fez um acordo com o papa Clemente V para extinguir a Ordem dos Cavaleiros Templários. Numa sexta-feira, 13 de agosto de 1307, Filipe manda prender um grande número de cavaleiros por todo o reino, incluindo o grão-mestre da Ordem Jacques de Molay que é torturado para revelar os segredos da instituição e o nome de todos os companheiros. Apesar de barbaramente supliciado, Jacques protege os colegas e o tesouro da sagrada ordem nada revelando. Jacques de Molay foi sentenciado à morte, e queimado vivo em 18 de março  de 1314, na Ile da La Cité, em Paris.
É preciso destacar que o papa Clemente V fora eleito com o apoio do rei Felipe o Belo, os papas tinham sido transferidos de Roma para Avignon, na França, e Clemente sofria grande influência da corte francesa. Há uma lenda sobre a morte do grão-mestre De Molay: ao ser executado, haveria negado a veracidade das acusações feitas contra ele e proferido uma sentença contra o rei e contra o papa. Tanto o rei quanto o papa seriam chamados ao julgamento divino dentro de um ano. Em poucos meses ambos morreram.
O papa Clemente V veio a falecer pouco mais de um mês depois da morte do grão-mestre, mais precisamente em 20 de abril de 1314, em decorrência de uma infecção que teve início no sistema intestinal e generalizou-se pelo organismo todo. Felipe IV foi vítima de um acidente equestre enquanto caçava, em torno de oito meses após a morte do mestre, embora fosse um dos melhores e mais hábeis cavaleiros da Europa. Conta-se que, após a queda enquanto perseguia um veado, teve um acidente vascular cerebral e morreu poucos dias após em consequência disso.
As cruzadas terminaram no século XIII. Permanecia, então, apenas uma pequena região da Palestina nas mãos dos cristãos conhecida como Acre, uma peque faixa entre Sídon e Acre. Porém, essas expedições influenciaram as ordens de cavalaria na Europa durante séculos.
Se por um lado aprofundaram-se as hostilidades entre o cristianismo e o islã, por outro, estimularam muitos contatos econômicos e culturais por parte dos homens mais lúcidos de ambas as facções. Houve uma grande troca cultural que foi útil para todos.
Por fim, completa-se esta explanação analisando grande Império Otomano, desde sua origem ao declínio. Uma formação político-territorial foi fundada no século XIII a partir de um pequeno principado turcomano, tendo seu início na Anatólia, região do antigo Império Grego, e posteriormente pertencendo ao Império Bizantino, estendendo-se entre o Mar Negro e o Mediterrâneo. Porém, chegou a uma das maiores organizações políticas e econômicas da história. Formou um grande império, começando na Europa, no vale do Rio Danúbio, dominado quase todo o Oriente Médio e estendendo-se por todo o norte da África, reduzindo-se, por fim, à República da Turquia.
Esse império tem origem muito modesta. Os turcos migram do Reino Sassânida para as planícies da Anatólia no início do século XI. O fundador dessa dinastia chama-se Otman ou Osman (1281-1324). Okhan, sucessor de Otman, assume o título de sultão. Em meados do século XIV, os turcos já dominavam toda a Anatólia.
IMPÉRIO OTOMANO

A seguir, transpuseram o Bósforo e conquistaram a Trácia, estabelecendo-se também em Constantinopla. Murad I prosseguiu o avanço turco pelas regiões balcânicas, expandindo seus domínios até a Sérvia. Fez também uma coalizão com os cristãos ortodoxos orientais. Esse acordo permitiu-lhe anexar a seus domínios a Macedônia, a Albânia, a Sérvia, a Bósnia e quase toda a Grécia continental e a maioria das ilhas gregas, como também grande parte da Bulgária.
Voltaram-se então os otomanos também para o Oriente, conquistando a Mesopotâmia e posteriormente todo o Oriente Médio. Dominaram também o Egito e todo o norte da África até a Argélia. No século XV, dominavam a maior parte dos países mediterrâneos e todo o Oriente Médio, inclusive as cidades sagradas do islamismo, Meca e Medina.
Culminaram, então, por impedir a passagem por seu território das caravanas que comercializavam mercadorias importantes para a Europa, provenientes do Oriente. Isso originou as grandes navegações de Espanha e Portugal.
No início do século XX, começa o grande declínio do império otomano com o sultão Abdul Hamid (1876-1909) que estabeleceu uma república parlamentar. Acumulou uma enorme dívida pública com a França e a Inglaterra e foi perdendo gradativamente o domínio de seu enorme império territorial. Obrigou-se a retornar ao regime de sultanato.
A derrocada final começou com a aliança secreta da Turquia Otomana com a Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Primeiramente, foram derrotados pelos russos, aliados da França e da Inglaterra, que tomaram terras turcas em sua fronteira.
Os britânicos exploraram habilmente as aspirações de independência dos povos árabes e rechaçaram os turcos do Canal de Suez, depois da Síria e do Iraque. Houve também uma ocupação franco-britânica da Grécia em 1919.
ISTAMBUL

Por fim, também em 1919, o general Mustafá Kemal, conhecido como Atatürk, começou um movimento de independência turca contra o sultanato e, em 1923, proclamou a República Turca, pondo fim ao multissecular Império Otomano, originando a República Turca contemporânea. 

Essa é a saga dos diversos movimentos políticos e militares que envolveram os povos árabes. Teríamos, para chegar à configuração das nações árabes atuais, de analisar o complexo processo ocorrido após a Segunda Guerra Mundial, em que aconteceram as últimas formações políticas do mundo árabe-muçulmano. Aliás, como se pode observar na Síria e no Iraque, especialmente, ainda estão por surgir novas nações e estados.



PENSAMENTO CHINÊS - CONFÚCIO - CHINESE THOUGHT


CONFÚCIO – (SISTEMA PINYIN: Kǒng Fūzǐ- EM CHINÊS  )

 ANALÉCTICOS - CONFÚCIO
http://portugues.free-ebooks.net/ebook/Analectos/pdf?dl&preview
         Teria nascido, segundo algumas fontes em 479 a. C., segundo outras, em 451 a. C., portanto, nos meados do século VI a. C., na antiga cidade de Shandong, hoje Shantung, situada na província de Lu, no Leste chinês, próxima ao Mar Amarelo. Faleceu em 479 a. C., contando por volta de setenta e dois anos.
         Foi um conceituado filósofo chinês de uma época que ficou conhecida como Período das Primaveras e Outonos (722 a 481 a. C.). Este nome se deve a uma crônica atribuída a Confúcio intitulada Anais das Primaveras e Outonos.
         Seu pai tinha setenta anos e a mãe apenas quinze. Ficou órfão de pai aos três anos, fato que o obrigou a trabalhar desde a infância, iniciando-se no trabalho como pastor.
         Foi galgando diversas funções, tendo sido pastor, vaqueiro, funcionário e guarda-livros. Dedicou-se, paralelamente, ao estudo e à leitura.
         O pensador também viajou por diversos reinos, esteve em íntimo contacto com o povo e pregou a necessidade de uma mudança total do sistema de governo por outro que se destinasse a assegurar o bem-estar do povo, pondo em prática processos tão simples como a diminuição de impostos e o abrandamento das punições penais.
         Embora tentasse ocupar um alto cargo administrativo que lhe permitisse desenvolver as suas ideias na prática, nunca o conseguiu, pois tais ideias eram consideradas muito perigosas pelos governantes.
         Seus discípulos conseguiram pôr em prática parte de seus princípios. Graças à boa preparação por ele ministrada, chegaram aos cargos mais elevados. Já idoso, retirou-se para a sua terra natal, onde veio a falecer aos setenta e dois anos.
         Aspectos da filosofia de Confúcio: o pensamento deste pensador chinês funda-se no conceito de Jen, ou seja, o modo de vida ideal que todo indivíduo e todo Estado deve assumir e propagar.
         As virtudes cardeais desse sistema seriam a sinceridade, a justiça e a prática do bem. Essas virtudes seriam as fontes para a supressão das guerras e injustiças características do período caótico em que viveram. Todos os princípios constantes de seus escritos, em particular sua obra máxima "Os Analectos", podem ser encarados como regras de harmonização social.
         O confucionismo constitui-se numa espécie de humanismo, uma doutrina voltada à preservação do homem e daquilo que lhe é mais característico. A regra básica de sua doutrina é: "Nunca imponha aos outros o que não escolheria para si mesmo" É uma antecipação do cristianismo que vai aparecer no Evangelho de Mateus (Mat. 7: 12).
         Defendia também o princípio de que a educação fosse extensivamente oferecida a todas as camadas da população, viabilizando assim uma também extensiva difusão dos ideais éticos que regeriam a harmonia familiar e social.
         Após a morte do pensador a centralização do poder político e a uma administração imperial central na China fizeram com que suas doutrinas se tornassem cada vez mais populares, inclusive entre as famílias nobres.
         A partir daí surge uma vertente de pensamento que, em última instância, favoreceria o funcionamento de um Estado forte e a capacidade administrativa da máquina imperial.  Passou-as a acreditar que o Estado poderia ser regido de maneira mais eficiente, caso seus dirigentes fossem recrutados pelo mérito. Isso fez com que muitos sábios seguidores dos princípios de Confúcio fossem disputados, chamados e ouvidos. Deles se esperava que, no mesmo estilo dos aforismos e exemplos do mestre pudessem elaborar e expor normas de convivência e bom governo.
         Os jesuítas que trabalharam na cristianização da China  foram os principais agentes da difusão no ocidente do pensamento de Confúcio, pois ele tem muitas semelhanças com o ideário cristão.





CULTURA LATINA – LATIN CULTURE
SUETÔNIO - DEATH OF NERO

AMORTE DE NERO

         Entrementes, como lhe fosse anunciada, enquanto almoçava, a deserção dos exércitos restantes, Nero rasgou a carta, virou a mesa, jogou ao chão dois copos dos quais gostava de se servir e que chamava homéricos por trazerem, esculpidas, cenas dos poemas de Homero; e, tendo encerrado num cofrezinho de ouro um veneno que lhe dera Locusta, dirigiu-se para os jardins sevilianos. Tendo daí mandado a Óstia os mais fieis libertos para que preparassem uma frota, procurou saber se os tribunos e centuriões do pretório queriam acompanhá-lo na fuga. Mas uns mostraram-se hesitantes, outros recusaram-se abertamente e um deles chegou a gritar: “É tão grande infelicidade morrer?” Nero formou então vários projetos: apresentar-se suplicante aos persas ou a Galba, ou aparecer em público vestido de preto e, do alto dos rostros, pedir perdão para o seu passado em tom mais patético possível; e, se não comovesse os corações, solicitar-lhe que lhe fosse ao menos concedida a prefeitura do Egito. Encontrou-se, mais tarde, no seu escrínio, um discurso preparado sobre esse assunto. Mas abandonou a ideia por receio de ser feito em pedaços antes que chegasse ao foro. Deixou, pois, a decisão para o dia seguinte, mas manteve-se desperto até quase meia noite e, como o informassem de que o piquete de guardas se havia retirado, saltou do leito e mandou buscar os seus amigos.
         Visto que ninguém o atendeu, ele mesmo, com uns poucos companheiros, foi pedir hospitalidade a cada um. Como, porém, encontrasse fechadas as portas de todos e ninguém lhe respondesse, voltou para o seu quarto, de onde, também, os guardas já haviam fugido, roubando até as cobertas e levando mesmo a caixinha de veneno.
         Imediatamente procurou o gladiador Epículo ou qualquer outro assassino por cuja mão perecesse; não encontrando ninguém, disse: “Então eu não tenho nem amigo nem inimigo?” E saiu correndo como se fosse lançar-se no Tibre. Abandonando, porém,  este primeiro impulso, desejou um esconderijo secreto para ordenar seus pensamentos.
         O liberto Faonte ofereceu-lhe sua casa de campo situada entre a via Salária e a Nomentana, a quatro milhas de Roma; como estava descalço e apenas de túnica, pôs por cima um pequeno manto desbotado, cobriu a cabeça, estendeu um lenço diante do rosto e montou a cavalo acompanhado apenas por quatro homens, entre os quais também esporo. E logo, atemorizado por um tremor de terra e por um clarão que se fez à sua frente, ouviu, vindo dos acampamentos próximos, o clamor dos soldados, que elevavam votos contrários a ele e a favor de Galba.
         Um dos caminhantes que encontraram diz: “Esses persegue a Nero”. E um outro pergunta: “Há na cidade alguma novidade a respeito de Nero?” Como, porém, o cavalo se espantasse devido ao cheiro de um cadáver lançado na estrada, Nero descobriu o rosto, sendo reconhecido por um pretoriano reformado, que o saudou.
         Quando chegaram a um desvio, deixaram os cavalos e, caminhando pelo meio do mato e dos espinheiros e por uma vereda margeada de caniços, Nero chegou penosamente à parte posterior da casa, não sem ter estendido as vestes sob os pés. Ali, como Faonte o convidasse a se esconder um momento num buraco feito na areia, disse que não queria ir vivo para debaixo da terra. E, detendo-se um pouco enquanto preparavam uma entrada secreta para a casa, tirou com a mão, para beber, a água de um charco que estava a seus pés e disse: “Eis o refresco de Nero.”
         Depois, com o pequeno manto rasgado pelos espinhos e, andando de gatinhas, pela estreita passagem que haviam cavado, recolheu-se ao compartimento mais próximo e deitou-se num leito guarnecido de um colchão modesto e coberto por um velho manto; e como o importunasse a fome e, novamente, a sede, rejeitou o pão grosseiro que lhe era ofertado, mas bebeu grande quantidade de água morna.
         Então, como cada um de seus companheiros o aconselhasse, por sua vez, a furtar-se quanto antes às injúrias que o esperavam, mandou cavar diante dele um fosso com as dimensões de seu corpo e colocar em redor, se o encontrassem, pedaços de mármore e trazer água e lenha para que se cuidasse logo do cadáver.
         A cada ordem, chorava e repetia, de quando em quando: “Que grande artista vai perecer comigo.” Enquanto se demoravam nesses preparativos, um mensageiro trouxe uma carta a Faonte. Nero tomou-a precipitadamente e leu que o senado o considerava inimigo público e o procurava para puni-lo segundo o costume dos antepassados; perguntou qual era o gênero de castigo e, como fosse informado de que o condenado era despido, sua cabeça posta numa forquilha e seu corpo fustigado com varas até a morte, aterrorizou-se, agarrou dois punhais que trouxera consigo, experimentou o corte de um e de outro, e novamente os guardou, pretextando que ainda não chegara o momento fatal.
         Ora incitava Esporo a começar as lamentações e prantos, ora pedia que alguém o encorajasse, com seu exemplo, a procurar a morte; às vezes censurava a própria fraqueza com estas palavras: “Estou me portando de maneira vergonhosa, ignóbil; isto é indigno de Nero; é indigno; é preciso ter coragem nessas ocasiões; vamos, levanta-te.”
         Mas já se aproximavam os cavaleiros aos quais fora ordenado que o conduzissem para Roma. Quando o percebeu, disse tremendo: “O galope dos cavalos de pés rápidos fere meus ouvidos.” E, ajudado por Epafrodito, o encarregado dos requerimentos, enterrou o ferro no pescoço.
         Estava ainda agonizante quando um centurião entrou precipitadamente e, fingindo que vinha em seu socorro, comprimiu a ferida com a mão. Nero apenas respondeu: “É tarde” e “este é fiel.” A estas palavras, expirou.
         Seus olhos salientes e fixos incutiam nos presentes espanto e medo. O que primeiro e principalmente pedira aos companheiros fora que ninguém se apossasse de sua cabeça mas, de qualquer maneira, o cadáver fosse inteiramente queimado. Isto foi permitido por Icelo, liberto de Galba, não muito antes libertado da prisão em que fora lançado no começo do levante.
         Os funerais de Nero custaram duzentos mil sestércios. Foi envolvido em lençóis brancos bordados a ouro, dos quais se utilizara nas calendas de janeiro. Suas amas Egloge e Alexandria, ajudados por Acte, sua concubina, encerraram seus restos mortais no túmulo da família dos Domícios, que se avista do Campo de Marte, sobre a colina dos Jardins.
         Há nesse monumento um sarcófago de pórfiro encimado por um altar em mármore de Luna e cercado por uma balaustrada em pedra de Tassos.
         Nero era de estatura quase mediana, tinha o corpo cheio de manchas e malcheiroso, o cabelo um tanto loiro, o rosto mais belo do que agradável, os olhos azulados e lânguidos, o pescoço grosso, o abdômen proeminente, as pernas finíssimas, a saúde excelente: conquanto desregradíssimo, adoeceu apenas três vezes em quatorze anos e não precisou abster-se de vinho nem dos outros costumes.
         Quanto a seus hábitos e apresentação, era de tal modo ignóbil que sempre arrumava o cabelo formando degraus e, durante sua viagem pela Acádia, deixou-o mesmo cair por detrás da nuca; e, muitas vezes, mostrava-se em público vestindo roupas de dormir, com um lenço amarrado ao pescoço, sem cinto e descalço.
Gaius Suetonius Tranquillus, De Vitis Caesarum. Nero, 47-51.

SVETONI TRANQVILII VITA NERONIS (VLVII-LI)


XLVII. Nuntiata interim etiam ceterorum exercituum defectione litteras prandendi sibi redditas concerpserit, mensam subvertit, duos scyphos gratissimi usus, quos Homericos a caelatura carminum Homeri vocabat, solo inlisit ac sumpto a Lucusta veneno et in auream pyxidem condito transiit in hortos Servilianos, ubi praemissis libertorum fidissimis Ostiam ad classem praeparandam tribunos centurionesque praetorii de fugae societate temptavit. 2 Sed partim tergiversantibus, partim aperte detrectantibus, uno vero etiam proclamante: "Usque adeone mori miserum est?" varie agitavit, Parthosne an Galbam supplex peteret, an atratus prodiret in publicum proque rostris quanta maxima posset miseratione veniam praeteritorum precaretur, ac ni flexisset animos, vel Aegypti praefecturam concedi sibi oraret. Inventus est postea in scrinio eius hac de re sermo formatus; sed deterritum putant, ne prius quam in Forum perveniret discerperetur.
3 Sic cogitatione in posterum diem dilata ad mediam fere noctem excitatus, ut comperit stationem militum recessisse, prosiluit e lecto misitque circum amicos, et quia nihil a quoquam renuntiabatur, ipse cum paucis hospitia singulorum adiit. Verum clausis omnium foribus, respondente nullo, in cubiculum rediit, unde iam et custodes diffugerant, direptis etiam stragulis, amota et pyxide veneni; ac statim Spiculum murmillonem vel quemlibet alium percussorem, cuius manu periret, requisiit et nemine reperto "Ergo ego" inquit "nec amicum habeo, nec inimicum?" procurritque, quasi praecipitaturus se in Tiberim.
XLVIII. Sed revocato rursus impetu aliquid secretioribus latebrae ad colligendum animum desideravit, et offerente Phaonte liberto suburbanum suum inter Salariam et Nomentanam viam circa quartum miliarum, ut erat nudo pede atque tunicatus, paenulam obsoleti coloris superinduit adopertoque capite et ante faciem optento sudario equum inscendit, quattuor solis comitantibus, inter quos et Sporus erat. 2 Statimque tremore terrae et fulgure adverso pavefactus audiit e proximis castris clamorem militum et sibi adversa et Galbae prospera ominantium, etiam ex obviis viatoribus quendam dicentem: 'Hi Neronem persequuntur', alium sciscitantem: 'Ecquid in urbe novi de nerone?' Equo autem ex odore abiecti in via cadaveris consernato detecta facie agnitus est a quodam missicio praetoriano et salutatus. 3 Ut ad deverticulum ventum est, dimissis equis inter fruticeta ac vepres per harundineti semitam aegre nec nisi strata sub pedibus veste ad aversum villae parietem evasit. Ibi hortante eodem Phaotne, ut interim in specum egestae harenae concederet, negavit se vivum sub terram iturum, ac parumper commoratus, dum clandestinus ad villam introitus pararetur, aquam ex subiecta lacuna poturus manu hausit et 'Haec est' inquit, 'Neronis decocta.' 4 Dein divolsa sentibus paenula traiectos surculos rasit, atque ita quadripes per angustias effossae cavernae receptus in proximam cellam decubuit super lectum modica culcita, vetere pallio strato, instructum; fameque et iterum siti interpellante panem quidem sordidum oblatum aspernatus est, aquae autem tepidae aliquantum bibit.
XLIX. Tunc uno quoque hinc inde instante ut quam primum se impendentibus contumeliis eriperet, scrobem coram fieri imperavit dimensus ad corporis sui modulum, componique simul, si qua invenirentur, frustra marmoris et aquam simul ac ligna conferri curando mox cadaveri, flens ad singula atque identidem dictitans: 'Qualis artifex pereo!'. 2 Inter moras perlatos a cursore Phaonti codicillos praeripuit legitque se hostem a senatu iudicatum et quaeri, ut puniatur more maiorum, interrogavitque, quale id genus esset poenae; et cum comperisset nudi hominis cervicem inseri furcae, corpus virgis ad necem caedi, conterritus duos pugiones, quos secum extulerat, arripuit temptataque utriusque acie rursus condidit, causatus nondum adesse fatalem horam. 3 Ac modo Sporum hortabatur, ut lamentari ac plangere inciperet, modo orabat, ut se aliquis ad mortem capessendam exemplo iuvaret; interdum segnitiem suam his verbis increpabat: 'Vivo deformiter, turpiter - ο πρέπει Νέρωνι, ο πρέπει - νήφειν δε ν τος τοιούτοις - γε γειρε σεαυτόν.'. Iamque equites appropinquabant, quibus praeceptum erat, ut vivum eum adtraherent. Quod ut sensit, trepidanter effatus: 'ππων μ κυπόδων μφ κτύπος οατα βάλλει' ferrum iugulo adegit iuvante Epaphrodito a libellis. 4 Semianimisque adhuc irrumpenti centurioni et paenula ad vulnus adposita in auxilium se venisse simulanti non aliud respondit quam 'Sero' et 'Haec est fides'. atque in ea voce defecit, exstantibus rigentibusque oculis usque ad horrorem formidinemque visentium. Nihil prius aut magis a comitibus exegerat quam ne potestas cuiquam capitis sui fieret, sed ut quoquo modo totus cremaretur. Permisit hoc Icelus, Galbae libertus, non multo ante vinculis exsolutus, in quae primo tumultu coniectus fuerat.
L. Funeratus est impensa ducentorum milium, stragulis albis auro intextis, quibus usus Kal. Ian. fuerat. Reliquias Egloge et Alexandria nutrices cum Acte concubina gentili Domitiorum monirnento condiderunt quod prospicitur e campo Martio impositum colli Hortulorum. In eo monimento solium porphyretici marmoris, superstante Lunensi ara, circumsaeptum est lapide Thasio.
LI. Statura fuit prope iusta, corpore maculoso et fetido, subflavo capillo, vultu pulchro magis quam venusto, oculis caesis et hebetioribus, cervice obesa, ventre proiecto, gracillmis cruribus, valitudine prospera; nam qui luxuriae immoderatissimae esset, ter omnino per quattuordecim annos languit, atque ita ut neque vino neque consuetudine reliqua abstineret; circa cultum habitumque adeo pudendus, ut comam semper in gradus formatam peregrinatione Achaica etiam pone verticem summiserit ac plerumque synthesinam indutus ligato circum collum sudario in publicum sine cinctu et discalciatus.


The Lives of the Twelve Caesars
Nero Claudius Caesar (XLVII-LI) NERO’S DEAD
XLVII. Meanwhile, on the arrival of the news, that the rest of the armies had declared against him, he tore to pieces the letters which were delivered to him at dinner, overthrew the table, and dashed with violence against the ground two favourite cups, which he called Homer's, because some of that poet's verses were cut upon them. Then taking from Locusta a dose of poison, which he put up in a golden box, he went into the Servilian gardens, and thence dispatching a trusty freedman to Ostia, with orders to make ready a fleet, he endeavoured to prevail with some tribunes and centurions of the pretorian guards to attend him in his flight; but part of them showing no great inclination to comply, others absolutely refusing, and one of them crying out aloud,
    Usque adeone mori miserum est?
    Say, is it then so sad a thing to die? 625
he was in great perplexity whether he should submit himself to Galba, or apply to the Parthians for protection, or else appear before the people dressed in mourning, and, upon the rostra, in the most piteous manner, beg pardon for his past misdemeanors, and, if he could not prevail, request of them to grant him at least the government of Egypt. A speech to this purpose was afterwards found in his writing-case. But it is conjectured that he durst not venture upon this project, for fear of being torn to pieces, before he could get to the Forum. Deferring, therefore, his resolution until the next (376) day, he awoke about midnight, and finding the guards withdrawn, he leaped out of bed, and sent round for his friends. But none of them vouchsafing any message in reply, he went with a few attendants to their houses. The doors being every where shut, and no one giving him any answer, he returned to his bed-chamber; whence those who had the charge of it had all now eloped; some having gone one way, and some another, carrying off with them his bedding and box of poison. He then endeavoured to find Spicillus, the gladiator, or some one to kill him; but not being able to procure any one, "What!" said he, "have I then neither friend nor foe?" and immediately ran out, as if he would throw himself into the Tiber.
XLVIII. But this furious impulse subsiding, he wished for some place of privacy, where he might collect his thoughts; and his freedman Phaon offering him his country-house, between the Salarian 626 and Nomentan 627 roads, about four miles from the city, he mounted a horse, barefoot as he was, and in his tunic, only slipping over it an old soiled cloak; with his head muffled up, and an handkerchief before his face, and four persons only to attend him, of whom Sporus was one. He was suddenly struck with horror by an earthquake, and by a flash of lightning which darted full in his face, and heard from the neighbouring camp 628 the shouts of the soldiers, wishing his destruction, and prosperity to Galba. He also heard a traveller they met on the road, say, "They are (377) in pursuit of Nero:" and another ask, "Is there any news in the city about Nero?" Uncovering his face when his horse was started by the scent of a carcase which lay in the road, he was recognized and saluted by an old soldier who had been discharged from the guards. When they came to the lane which turned up to the house, they quitted their horses, and with much difficulty he wound among bushes, and briars, and along a track through a bed of rushes, over which they spread their cloaks for him to walk on. Having reached a wall at the back of the villa, Phaon advised him to hide himself awhile in a sand-pit; when he replied, "I will not go under-ground alive." Staying there some little time, while preparations were made for bringing him privately into the villa, he took up some water out of a neighbouring tank in his hand, to drink, saying, "This is Nero's distilled water." 629 Then his cloak having been torn by the brambles, he pulled out the thorns which stuck in it. At last, being admitted, creeping upon his hands and knees, through a hole made for him in the wall, he lay down in the first closet he came to, upon a miserable pallet, with an old coverlet thrown over it; and being both hungry and thirsty, though he refused some coarse bread that was brought him, he drank a little warm water.
XLIX. All who surrounded him now pressing him to save himself from the indignities which were ready to befall him, he ordered a pit to be sunk before his eyes, of the size of his body, and the bottom to be covered with pieces of marble put together, if any could be found about the house; and water and wood 630, to be got ready for immediate use about his corpse; weeping at every thing that was done, and frequently saying, "What an artist is now about to perish!" Meanwhile, letters being brought in by a servant belonging to Phaon, he snatched them out of his hand, and there read, "That he had been declared an enemy by the senate, and that search was making for him, that he might be punished according to the ancient custom of the Romans." He then inquired what kind of punishment that was; and being told, that the (378) practice was to strip the criminal naked, and scourge him to death, while his neck was fastened within a forked stake, he was so terrified that he took up two daggers which he had brought with him, and after feeling the points of both, put them up again, saying, "The fatal hour is not yet come." One while, he begged of Sporus to begin to wail and lament; another while, he entreated that one of them would set him an example by killing himself; and then again, he condemned his own want of resolution in these words: "I yet live to my shame and disgrace: this is not becoming for Nero: it is not becoming. Thou oughtest in such circumstances to have a good heart: Come, then: courage, man!" 631 The horsemen who had received orders to bring him away alive, were now approaching the house. As soon as he heard them coming, he uttered with a trembling voice the following verse,
    Hippon m' okupodon amphi ktupos ouata ballei; 632
    The noise of swift-heel'd steeds assails my ears;
he drove a dagger into his throat, being assisted in the act by Epaphroditus, his secretary. A centurion bursting in just as he was half-dead, and applying his cloak to the wound, pretending that he was come to his assistance, he made no other reply but this, "'Tis too late;" and "Is this your loyalty?" Immediately after pronouncing these words, he expired, with his eyes fixed and starting out of his head, to the terror of all who beheld him. He had requested of his attendants, as the most essential favour, that they would let no one have his head, but that by all means his body might be burnt entire. And this, Icelus, Galba's freedman, granted. He had but a little before been discharged from the prison into which he had been thrown, when the disturbances first broke out.
L. The expenses of his funeral amounted to two hundred thousand sesterces; the bed upon which his body was carried to the pile and burnt, being covered with the white robes, interwoven with gold, which he had worn upon the calends of January preceding. His nurses, Ecloge and Alexandra, with his concubine Acte, deposited his remains in the tomb belonging (379) to the family of the Domitii, which stands upon the top of the Hill of the Gardens 633, and is to be seen from the Campus Martius. In that monument, a coffin of porphyry, with an altar of marble of Luna over it, is enclosed by a wall built of stone brought from Thasos. 634
LI. In stature he was a little below the common height; his skin was foul and spotted; his hair inclined to yellow; his features were agreeable, rather than handsome; his eyes grey and dull, his neck was thick, his belly prominent, his legs very slender, his constitution sound. For, though excessively luxurious in his mode of living, he had, in the course of fourteen years, only three fits of sickness; which were so slight, that he neither forbore the use of wine, nor made any alteration in his usual diet. In his dress, and the care of his person, he was so careless, that he had his hair cut in rings, one above another; and when in Achaia, he let it grow long behind; and he generally appeared in public in the loose dress which he used at table, with a handkerchief about his neck, and without either a girdle or shoes.

LA MUERTE DE NERÓN CLAUDIO

    XLVII. Se difundió, entre tanto, el rumor de haberse sublevado también los demás ejércitos, y enfurecido rasgó las cartas que le trajeron durante la comida, derribó la mesa, rompió contra el suelo dos vasos, que llamaba homéricos por estar esculpidos en ellos asuntos tomados de los poemas épicos de Homero y a los que tenía en gran estima; acto seguido hizo que Locusta le diese veneno, lo encerró en una caja de oro y marchó a los jardines de Servilio. Una vez allí, mientras sus libertos más fieles iban a Ostia para disponer naves, trató de conseguir que los tribunos y centuriones del Pretorio le acompañasen en su fuga; unos se excusaron y otros se negaron abiertamente, llegando uno a decirle:
                             ¿Tanta desgracia es morir?
          Concibió entonces diferentes proyectos; pensó en huir al territorio de los partos, ir a arrojarse a las plantas de Galba, pensó también en presentarse públicamente en la tribuna de las arengas con traje de luto y pedir allí, con el acento más lastimero posible, que le perdonasen el pasado, o sí los corazones permanecían insensibles, que le concediesen al menos la prefectura de Egipto (148). Entre sus papeles se encontró después el discurso que había compuesto para este objeto, y se asegura que el único motivo que le impidió pronunciarlo fue el temor de que lo despedazasen antes de llegar al Foro. Aplazó entonces para la mañana siguiente el tomar una decisión, pero habiendo despertado a medianoche se enteró de que le habían abandonado sus guardias. Salto del lecho y envió aviso a casa de todos sus amigos; no recibió contestación, y fue entonces con reducido séquito a pedir refugio a algunos de ellos. Todas las puertas permanecieron cerradas y nadie le contestó. Regresó entonces a su cámara: los centinelas habían huido, llevándose hasta las ropas de su lecho y la caja de oro en que tenía guardado el veneno. Pidió en seguida que le llevasen al gladiador Spículo u otro cualquiera para que le diesen muerte, y no encontrando a nadie que quisiese matarle, exclamó: ¿Acaso no tengo amigos ni enemigos?. Y corrió a precipitarse al Tíber.
          XLVIII. A pesar de todo, se detuvo y buscó un refugio para meditar lo que podía hacer. Su liberto Faón le ofreció su casa de campo, situada entre la vía Salaria y la Nomentana, a cuatro millas de Roma. Vestido con la túnica y los pies desnudos como se encontraba, montó a caballo; iba envuelto en un manto viejo y desteñido; llevaba la cabeza cubierta y un pañuelo delante del rostro; acompañábanle cuatro personas, entre ellas Sporo. En cierto momento, sintió temblar la tierra, rasgó un relámpago la tiniebla y le invadió el terror; al pasar cerca del campamento de los pretorianos, oyó los gritos de los soldados que le lanzaban imprecaciones y hacían votos por Galba. Un viajero, al ver el pequeño grupo, dijo: Estos persiguen a Nerón. Otro preguntó: ¿Qué hay de nuevo en Roma, con respecto a Nerón? El hedor de un cadáver abandonado en el camino hizo retroceder a su caballo; le cayó el pañuelo con que se ocultaba el rostro, y un veterano pretoriano le reconoció y le saludo por su nombre; llegado a un camino de traviesa, despidió los caballos, penetró entre abrojos y espinas, en un sendero cubierto de zarzas en el que no podía avanzar más que haciendo tender ropas bajos sus pies, y llegó así con gran trabajo a las tapias de la casa de campo en una cantera de la que habían sacado arena, pero él replicó que no quería enterrarse vivo, y habiéndose detenido para esperar que abriesen la entrada secreta de la casa, cogió en la mano agua de una charca, y dijo antes de beberla: He aquí los refrescos de Nerón. Comenzó después a arrancar las zarzas que se habían enredado en su manto, y hecho esto, por un agujero abierto debajo de la tapia, fue arrastrándose sobre las manos, hasta la habitación más próxima, en la que se acostó sobre un jergón cubierto con una vieja manta. Atormentábale de cuando en cuando el hambre y la sed, y le ofrecieron pan de mala calidad, que rehusó, y agua templada, de la que bebió una poca.
          XLIX Instábanle cuantos le acompañaban a que se substrajese sin tardanza a los ultrajes que le amenazaban. y pidió que abriesen un foso delante de él, a la medida de su cuerpo, que lo rodeasen con algunos pedazos de mármol, si se encontraban, y que llevasen agua y leña para tributar los últimos honores a su cadáver; a cada orden que daba se ponía a llorar, y repetía sin cesar: ¡Qué muerte para tan grande artista! En medio de estos preparativos, llegó un correo a entregarle una carta de Faón; la cogió y leyó en ella que el Senado le había declarado enemigo de la patria, y le hacía buscar para castigarle de acuerdo con las leves antiguas. Preguntó en qué consistía este suplicio, y le contestaron que en desnudar al criminal, sujetarle el cuello en una horqueta y azotarlo con varas hasta hacerle morir. Aterrado, cogió entonces dos puñales que había llevado consigo, probó la punta y volvió a envainarlos, diciendo que no había llegado aún la hora fatal. Unas veces exhortaba a Sporo a lamentarse y llorar con él; otras pedía que alguno se matase, para, con su ejemplo, darle valor para morir. También a veces se censuraba su cobardía, diciéndose: Arrastro una vida vergonzosa y miserable, y añadía en griego: Esto no es propio de Nerón; esto no le es propio; en tales momentos es necesario decidirse; vamos, despierta. Acercábanse ya los jinetes que tenían orden de cogerle vivo, y cuando los oyó, recitó temblando este verso griego:
                             Oigo el paso veloz de animosos corceles.
y se clavó en seguida el hierro en la garganta, ayudado por su secretario Epafrodio. Respiraba aún cuando entró el centurión; quiso vendarle la herida, fingiendo que llegaba para socorrerle, y Nerón le dijo: Es tarde; y añadió: ¡cuánta fidelidad! Al pronunciar estas palabras expiró con los ojos abiertos y fijos, despertando espanto y horror en todos los que le contemplaban. Había recomendado con vivas instancias a sus compañeros de fuga que no abandonasen su cabeza a nadie, y que fuese como fuese, le quemasen entero. Icelo, liberto de Galba, que acababa de salir del encierro donde le arrojaron al comenzar la insurrección, concedió la autorización para hacerlo.
          L. Los funerales de Nerón costaron doscientos mil sestercios; emplearon en ellos tapices blancos bordados de oro, de que se había servido el día de las calendas de enero. Sus nodrizas Eclogea y Alejandra, con su concubina Actea, depositaron sus restos en la tumba de Domicio, que se ve en el campo de Marte, sobre la colina de los jardines. El monumento es de pórfido, y está coronado por un altar de mármol de Luna y lo circunda una balaustrada de mármol de Paros.
          LI. Era de mediana estatura; tenía el cuerpo cubierto de manchas, y hedía; los cabellos eran rubios, la faz más bella que agradable; los ojos azules, y la vista débil; robusto el cuello, el vientre abultado, las piernas sumamente delgadas y el temperamento vigoroso. A pesar de sus desenfrenados excesos, sólo se encontró indispuesto tres veces en el espacio de catorce años, y en ellas ni siquiera tuvo que abstenerse del vino, ni que variar nada de sus costumbres. No cuidaba del traje ni apostura, y durante su permanencia en Acaya, se le vio dejar caer por detrás el cabello, que llevaba siempre rizado en bucles simétricos; se presentó muchas veces en público con trajes de festín, un pañuelo en torno al cuello, sin cinturón y descalzo.



LA MORT DE NÉRON

XLVII. Révolte des autres armées. Néron est abandonné par tout le monde.
(1) Bientôt on lui annonça la défection des autres armées. Il déchira la lettre qu'on lui remit pendant son dîner, renversa la table, brisa contre terre deux vases dont il aimait à se servir, et qu'il appelait homériques, parce qu'on y avait sculpté des sujets tirés d'Homère; puis il se fit donner du poison par Locuste, le mit dans une botte d'or, et passa dans les jardins de Servilius. Là, il envoya à Ostie ses plus fidèles affranchis pour y préparer une flotte, et voulut engager les tribuns et les centurions du prétoire à l'accompagner dans sa fuite. (2) Mais les uns hésitèrent, les autres refusèrent sans détour. L'un d'eux s'écria même: "Est-ce un si grand malheur que de cesser de vivre?" Alors il délibéra s'il se retirerait chez les Parthes, s'il irait se jeter aux pieds de Galba, ou s'il paraîtrait en public avec des habits de deuil pour demander du haut de la tribune aux harangues, de la voix la plus lamentable, qu'on lui pardonnât son passé. Il espérait, s'il ne parvenait à toucher les coeurs, obtenir du moins le gouvernement de l'Égypte. (3) On trouva même dans son écritoire un discours sur ce sujet. Mais il fut détourné, dit-on, de ce dessein, par la crainte d'être mis en pièces avant d'arriver au Forum. (4) Il remit donc au lendemain à prendre un parti. Réveillé vers minuit, il s'aperçut que ses gardes l'avaient abandonné. Il sauta de son lit et envoya chercher ses amis. Mais, n'en recevant aucune réponse, il alla lui-même avec peu de monde se présenter chez eux. (5) Il trouva toutes les portes fermées, et personne ne lui répondit. Il revint dans sa chambre: les sentinelles avaient pris la fuite en emportant jusqu'à ses couvertures et la boîte d'or où était le poison. Il demanda aussitôt le gladiateur Spiculus ou quelque autre qui voulut l'égorger. Mais, ne trouvant personne: "Je n'ai donc, dit-il, ni amis, ni ennemis," et il courut comme s'il allait se précipiter dans le Tibre.

XLVIII. Il fuit avec quatre personnes. Incident de cette fuite
(1) Revenu de ce premier mouvement, il chercha quelque retraite obscure pour reprendre ses esprits. Phaon, son affranchi, lui offrit sa villa située vers le quatrième milliaire, entre la voie Salaria et la voie Nomentane. Il monta à cheval, pieds nus et en tunique, comme il était, enveloppé d'une casaque usée, la tête couverte et un voile sur le visage, n'ayant pour suite que quatre personnes parmi lesquelles était Sporus. (2) Un tremblement de terre et un éclair le glacèrent d'effroi. Du camp voisin il entendit les cris des soldats qui faisaient des imprécations contre lui et des voeux pour Galba. Un des passants qu'on rencontra se mit à dire: "Voilà des gens qui poursuivent Néron." Un autre demanda: "Que dit-on à Rome de Néron?" (3) Son cheval s'étant effarouché de l'odeur d'un cadavre abandonné sur la route, il découvrit son visage et fut reconnu par un ancien soldat prétorien qui le salua. (4) Arrivé à la traverse, il renvoya les chevaux et s'avança avec tant de peine à travers des taillis et des buissons dans un sentier planté de roseaux, que, pour parvenir derrière la maison de campagne, il fut obligé de mettre son vêtement sous ses pieds. (5) Phaon lui conseilla de se retirer dans une carrière d'où l'on avait extrait du sable; mais il répondit qu'il ne voulait pas s'enterrer tout vif. En attendant qu'on trouvât le moyen de pratiquer une entrée secrète dans cette villa, il puisa de l'eau d'une mare dans le creux de sa main et la but en disant: "Voilà donc les rafraîchissements de Néron." (6) Puis il se mit à arracher les ronces dont sa casaque était percée. Enfin il se traîna sur les mains par une ouverture étroite jusque dans la chambre la plus voisine où il se coucha sur un lit garni d'un mauvais matelas et d'un vieux manteau pour couverture. Quoique tourmenté par la faim et la soif, il refusa le pain grossier qu'on lui présentait, et ne but qu'un peu d'eau tiède.

XLIX. Ses derniers moments. Ses hésitations. Sa lâcheté. Sa mort
(1) Cependant on le pressait de tous côtés de se soustraire le plus tôt possible aux outrages qui le menaçaient. Il fit donc creuser devant lui une fosse à la mesure de son corps, voulut qu'on l'entourât de quelques morceaux de marbre, si l'on en trouvait, et qu'on apportât de l'eau et du bois pour rendre les derniers devoirs à ses restes. Chacun de ces préparatifs lui arrachait des larmes, et il répétait de temps en temps: "Quel artiste va périr!" (2) Au milieu de tous ces délais, un coureur remit un billet à Phaon. Néron s'en saisit, et y lut que le sénat l'avait déclaré ennemi public, et qu'on le cherchait pour le punir selon les lois des anciens. Il demanda quel était ce supplice. On lui dit qu'on dépouillait le coupable, qu'on lui passait le cou dans une fourche, et qu'on le battait de verges jusqu'à la mort. Épouvanté, il saisit deux poignards qu'il avait sur lui, en essaya la pointe, et les remit dans leur gaine en disant que son heure fatale n'était pas encore venue. (3) Tantôt il engageait Sporus à entonner les lamentations et à commencer les pleurs, tantôt il demandait que quelqu'un lui donnât l'exemple de se tuer; quelquefois enfin il se reprochait sa lâcheté en ces termes: "Ma vie est honteuse et infâme. Cela ne sied pas à Néron, non. Il faut être sage dans de pareils moments. Allons, réveillons-nous." (4) Déjà approchaient les cavaliers qui avaient ordre de l'amener vivant. Dès qu'il les entendit, il prononça en tremblant ce vers grec: "Le galop des coursiers résonne à mes oreilles."; puis il s'enfonça le fer dans la gorge, aidé par son secrétaire, Épaphrodite. (6) Il respirait encore lorsqu'un centurion entra. Feignant d'être venu à son secours, il appliqua sa casaque sur la blessure. Néron ne lui dit que ces mots: "Il est trop tard", et ceux-ci: "Voilà donc la fidélité!". (7) Il mourut en les prononçant. Ses yeux étaient hors de sa tête, et leur fixité saisissait d'horreur et d'effroi tous les spectateurs. (8) Il avait surtout expressément recommandé à ses compagnons qu'on n'abandonnât sa tête à personne, mais qu'on le brûlât tout entier, de quelque manière que ce fût. (9) Ils obtinrent cette grâce d'Icelus, affranchi de Galba, qui venait d'être délivré de la prison où on l'avait jeté au commencement de l'insurrection.

L. Ses funérailles
(1) Ses funérailles coûtèrent deux cent mille sesterces. On se servit pour l'ensevelir d'une étoffe blanche brodée d'or, qu'il avait portée aux calendes de janvier. (2) Ses nourrices Eglogé et Alexandra, avec sa concubine Acté, déposèrent ses restes dans le monument des Domitii, que l'on aperçoit du Champ de Mars, au-dessus de la colline des Jardins.(3) La tombe est de porphyre; elle porte un autel de marbre de Luna, et est entourée d'une balustrade en marbre de Thasos.

LI. Son portrait

(1) Néron avait une taille ordinaire. Son corps était hideux et couvert de taches, sa chevelure blonde, sa figure plutôt belle qu'agréable, ses yeux bleus et faibles, le cou fort, le ventre gros, les jambes grêles, le tempérament vigoureux. Malgré l'excès de ses débauches, il ne fut malade que trois fois en quatorze ans; encore ne le fut-il pas au point d'être obligé de s'abstenir de vin, ou de rien changer à ses habitudes. (2) Il avait si peu de décence et de tenue, que, dans son voyage en Grèce, il laissa retomber derrière sa tête ses cheveux, qui d'ailleurs étaient toujours disposés en étages, et que souvent il parut en public vêtu d'une espèce de robe de chambre, un mouchoir autour du cou, sans ceinture ni chaussures.



Der Tod Neros - Sueton

47. Als inzwischen die Nachricht anlangte, dass auch die übrigen Heere ihren Abfall erklärt hätten, riss er die Depeschen, welche ihm beim Frühmahl übergeben worden waren, in kleine Stücke, stieß den Tisch um, schmetterte zwei ihm besonders werte Mundbecher, die er die homerischen zu nennen pflegte, weil auf ihnen Szenen aus Homers Gedichten abgebildet waren, gegen den Fußboden und begab sich dann, nachdem er sich von der  Lucusta Gift hatte reichen lassen, das er in ein goldenes Büchschen tat, in die Servilianischen Gärten. Von hier sandte er seine treuesten Freigelassenen nach Ostia voraus, um die Flotte segelfertig zu machen, und versuchte dann die Tribunen und Centurionen seiner Leibwache zu bereden, ihn auf seiner Flucht zu begleiten. Als sie aber teils Ausflüchte machten, teils sich offen weigerten und einer sogar laut ausrief: “Ist denn Sterben so gar was Entsetzliches?" da schwankte er zwischen den verschiedensten Plänen hin und her: ob er sich an die Parther oder an Galba als Schutzsuchender wenden, ob er in Trauerkleidern aufs Forum gehen und von der Rednerbühne herab mit allen ihm zu Gebote stehenden Mitteln der Rührung Verzeihung für sein vergangenes Leben erflehen und, falls er keinen Eindruck gemacht haben würde, wenigstens um Bewilligung der Statthalterschaft von Agypten bitten solle. Es fand sich später in seinem Schreibpult wirklich ein vollkommen ausgearbeiteter Vortrag über diesen Gegenstand. Allein er stand von seinem Vorhaben ab; wie man glaubt, weil er fürchtete, das Volk möchte ihn, ehe er noch das Forum erreiche, in Stücke reißen. So verschob er denn die weitere Überlegung auf den folgenden Tag, wurde aber gegen Mitternacht aus dem Schlaf aufgestört und sprang, als er   erfuhr, die diensthabende Soldatenabteilung sei abgezogen, aus dem Bett auf und schickte nach seinen Freunden. Und weil er von keinem einzigen eine Antwort erhielt, machte er sich selbst mit wenigen Begleitern nach den Wohngemächern der einzelnen auf. Da er aber aller Türen verschlossen fand und keiner Antwort auf sein Rufen gab, kehrte er in sein Schlafgemach zurück, wo bereits auch die Kämmerlinge entflohen waren, nachdem sie die Polsterbezüge geraubt, ja sogar das Büchschen mit Gift beiseite gebracht hatten. Sofort befahl er, den Gladiator Spiculus oder den ersten besten geschickten Fechter herbeizurufen, um sich von dessen Hand den Tod geben zu lassen. Und da man keinen fand, rannte er mit dem Ausruf: „So habe ich denn weder einen Freund noch einen Feind!" aus dem Palast, wie wenn er sich in den Tiber stürzen wollte.

48. Indessen besann er sich ebenso plötzlich wieder eines ändern und sprach den Wunsch aus nach irgendeinem möglichst versteckten Schlupfwinkel, um sich daselbst wieder zu sammeln. Und da ihm der Freigelassene Phaon sein in der Nähe der Stadt zwischen der Salarischen und Nomentanischen Straße, etwa vier Meilen von der Stadt gelegenes Landgut anbot, so warf er, in bloßen Füßen und nur mit der Tunika bekleidet, wie er war, einen alten verschossenen Mantel über, zog die Kapuze über den Kopf, bedeckte das Gesicht mit einem Schweißtuch und schwang sich auf ein Pferd, mit nur vier Begleitern, unter denen sich auch Sporus befand. Bald darauf, noch ganz entsetzt durch ein Erdbeben und einen vor seinen Augen niederfahrenden Blitzstrahl, hörte er von dem nahen Lager her das Geschrei der Soldaten, die jene Vorzeichen ihm zum Unheil und dem Galba zum Heil auslegten, dazu auch, wie von einer ihnen begegnenden Gruppe von Reisenden einer sagte: „Die da setzen dem Nero nach!", während ein anderer die Frage an die Reiter richtete: „Was gibt's in der Stadt Neues von Nero?" Da scheute sein Pferd vor dem Gestank eines auf der Landstraße liegenden Leichnams, das Schweißtuch fiel von seinem Gesicht, und er wurde von einem ausgedienten Prätorianer erkannt und begrüßt. Als man an einem Seitenpfad ankam, stieg er ab, ließ die Pferde laufen und gelangte durch Buschwerk und Dorngestrüpp auf einem durch ein Röhricht gehenden Fußpfad mit großer Mühe und nur, indem man durch untergebreitete Kleidungsstücke den Weg für seine nackten Füße gangbar machte, endlich zu der hinteren Mauerseite der Villa. Hier bat ihn Phaon, sich einstweilen in eine Sandgrube zu begeben, worauf er zur Antwort gab, er wolle nicht bei lebendigem Leib unter die Erde gehen! Nach einigem Verweilen, währenddessen man einen heimlichen Eingang in die Villa für ihn zu bereiten suchte, schöpfte er, um seinen Durst zu stillen, Wasser mit der Hand aus einer nahebei gelegenen Lache, indem er sprach: „Dies ist Neros Kühltrank!" Dann zog er, da sein Mantel von Dornen zerrissen war, die durch diesen gegangenen und steckengebliebenen Spitzen einzeln aus und gelangte so, auf allen vieren durch ein enges, ausgegrabenes Loch sich zwängend, in die nächste Zelle, wo er sich auf ein Lager warf, das mit einem ärmlichen Polster und statt der Decke mit einem alten Mantel versehen war; und da ihn nun Hunger und Durst ankamen, verschmähte er zwar das ihm gebotene schwarze Brot, trank dagegen des lauen Wassers eine ganze Menge.

49. Da jetzt seine Begleiter wiederholt in ihn drangen, sich der ihm drohenden schimpflichen Behandlung baldmöglichst zu entziehen, befahl er, vor seinen Augen ein Grab zu graben, wozu er selbst das Maß seines Leibes gab, und womöglich ein paar Stücke Marmor zusammenzustellen, desgleichen Wasser und Kleinholz herbeizuschaffen, um seinem Leichnam sofort die letzte Wohltat zu erweisen, und begleitete alle diese Anordnungen mit Tränengüssen, indem er dabei zu wiederholten Malen ausrief: „Welch ein Künstler stirbt in mir!" Während er so die Augenblicke hinzögerte, kam ein Kurier Phaons mit Briefschaften an. Er riss sie ihm aus der Hand und las, dass er vom Senat in die Acht erklärt sei und dass man ihn aufsuche, um an ihm die Strafe nach der Vorfahren Weise zu vollziehen. Er fragte, was das für eine Strafe sei. Und als er hörte, der Mensch werde dabei nackt mit dem Hals in eine Strafgabel geschlossen und der Leib mit Ruten zu Tode gehauen, ergriff er entsetzt zwei Dolche, die er mit herausgenommen hatte, prüfte die Spitze beider und - steckte sie dann wieder ein, indem er bemerkte, noch sei die Schicksalsstunde nicht gekommen. Dann forderte er mehrmals den Sporus auf, die Totenklage und das Wehegeschrei um ihn anzustimmen; dann bat er wieder, es möchte doch irgendeiner ihm zum Selbstmord durch sein Beispiel behilflich sein. Zuweilen schalt er auf sein feiges Zaudern mit den Worten: „Was ist dies für ein scheußliches und schmähliches Leben! Es ziemt einem Nero nicht, ziemt ihm nicht! In solcher Lage gilt's besonnen zu sein; auf, ermanne dich!" Siehe, da sprengten schon die Reiter heran, denen befohlen war, ihn lebendig zu fangen. Als er es bemerkte, rezitierte er in Todesangst den homerischen Vers: Donnernd schallt mir zu Ohren der Hufschlag eilender Rosse!309 und drückte sich den Stahl in die Kehle, wobei ihm Epaphroditus, sein Kabinettssekretär, die Hand führte. Halbentseelt vermochte er dem hereinstürzenden Centurio, der seinen Mantel auf die Wunde drückte, um ihn glauben zu machen, dass er ihm zu Hilfe gekommen sei, nur noch die Worte zu entgegnen: „Zu spät!" und „Das ist Treue!" Mit diesem Ruf hauchte er seine Seele aus, während ihm zum schaudernden Entsetzen der Umstehenden die Augen weitgeöffnet aus den Höhlen traten. Vor allem und am dringendsten hatte er von seinen Begleitern das Versprechen erbeten, dass sie niemand gestatten sollten, ihm den Kopf abzuschneiden, sondern dass sie ihn unter allen Umständen un-verstümmelt verbrennen möchten. Dies bewilligte Icelus, Galbas Freigelassener, der selbst eben erst aus dem Gefängnis befreit worden war, in das man ihn beim Beginn des Aufruhrs geworfen hatte.

50. Die Kosten seiner Bestattung betrugen zweihunderttausend Sesterze; man brauchte dabei die weißen goldgestickten Teppiche, deren er sich am 1. Januar bedient hatte. Seine Gebeine bestatteten Ecloge und Alexandria, seine Ammen, gemeinschaftlich mit Acte, seiner Konkubine, in dem Erbbegräbnis des Geschlechts der Domitier, das man vom Marsfeld aus hoch oben auf dem Gartenhügel gewahrt. In diesem Erbbegräbnis steht ein Sarkophag von Porphyrmarmor, darüber ein Altar von lunesischem Marmor, das Ganze eingefasst mit einer Balustrade von thasischem Stein.
51. Seine Gestellt war von fast mittlerer Mannesgröße, sein Körper mit Flecken bedeckt und übelriechend, das Haar hellblond, sein Gesicht mehr schöngebildet als anmutig, die Augen blau und sehr schwach, der Nacken übermäßig fett, der Bauch stark vortretend, die Schenkel über aus dünn, seine Gesundheit dauerhaft. Denn obwohl er der unmäßigste Schwelger war, ist er doch nur dreimal während voller vierzehn Jahre krank gewesen, und zwar ohne dass er dabei den Weingenuss oder seine übrige Lebensgewohnheit aufgegeben hätte In seiner Toilette und in seiner Haltung war er so schamlos, dass er nicht nur das Haar immer in stufenweise geordneten Locken frisiert trug, sondern es auf seiner achäischen Rundreise sogar auf die Schulter hinabwallen ließ und dass er sehr häufig im leichten Nachtkleid, ein Schweißtuch um den Mals geschlungen, ungegürtet und unbeschuht sich öffentlich zeigte.




CULTURA LATINA – LATIN CULTURE
GAIUS SUETONIUS TRANQUILLUS
         Foi um escritor latino que viveu entre 69 d. C. e 141 d. C. Filho de um tribuno da 13ª legião, dedicou-se ao exército e à literatura.
Obras:
De Vita Caesarum (A Vida dos Doze Césares)
De Ludis Graecorum (Sobre os Jogos Gregos)
De Spectaculis et Certaminibus Romanorum (Sobre os Espetáculos e Certames Romanos)
De Anno Romano (Sobre o Ano Romano)
De Nominibus Propriis et de Generibus Vestium (Sobre os Nomes Próprius e os Tipos de Vestimenta)
De Roma et eius Institutis (Sobre Roma e suas Instituições)
Stemma Illustrium Romanorum (Árvore Genealógica de Romanos Ilustres)
De Claris Rhetoribus (Sobre Ilustres Oradores)
         Sua obra de maior destaque é De Vitis Caesarum, em que descreve com detalhes a vida de Júlio César, Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano. Inclui Júlio César os imperadores e inclui os flavianos, Vespasiano, Tito e Domiciano junto à dinastia Júlio-Claudiana. Embora essa posição se justifique, pois o título de César se manteve sempre aplicado a todos os demais imperadores. Migrou até mesmo para fora do império romano nos títulos de Keiser e Czar.
         Viveu na época dos imperadores Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Domiciano. Foi secretário particular de Adriano por um certo período. Depois, dedicou-se à história.
         Dedicou-se especialmente ao estudo dos costumes dos romanos e escreveu obras mais históricas do que propriamente literárias. Devassou a intimidade da vida dos homens ilustres do seu tempo e do passado ligados à corte romana. Denunciou mesmo seus vícios e fraquezas e as disputas palacianas.


CULTURA CHINESA - LAO TSE - TAOISMO - CHINESE CULTURE


Lao Tse, em chinês 老子, é um pensador, místico, filósofo e alquimista chinês. Alguns creem que é apenas uma lenda. Diz-se ter ele nascido com aparência de velho. Por essa razão, teria recebido o nome de Lao Tzi, uma das variantes de seu nome, o que significa “criança velha”. É fundador de uma filosofia conhecida como taoismo. Teria vivido por volta de 1300 a. C. Outras fontes afirmam ter ele vivido entre os séculos VII e VI a. C., chegando mesmo algumas fontes a situá-lo no século IV a. C. 
Há uma tradição na China, segundo a qual teria sido ele inicialmente bibliotecário real. Depois teria sido responsável pelos arquivos judiciais do império, na cidade de Lovang, estado de Ch’u. O seu contato com os livros e sua sabedoria pessoal induziram-no a criar uma doutrina de caráter panteísta segundo a qual Tao ou caminho, é o princípio material e espiritual criador e ordenador do mundo. No terreno prático, preconizou a vida contemplativa e a supressão de qualquer desejo. Desgostoso com as intrigas e disputas da vida na corte, decidiu abandoná-la, seguindo para o oeste, em direção à Índia. 
Ao chegar à fronteira, o guarda Yin-hsi reconheceu sua sabedoria, reverenciou-o conforme a tradição chinesa, pedindo para tornar-se seu discípulo. Pediu mais, que antes de deixar a China, fizesse um registro de seus ensinamentos por escrito. Assim, antes de partir, Lao Tse escreveu os oitenta e uns pequenos poemas que receberam de Tao Te Ching.

Obra de Lao Tse 

Tao Te Ching (Livro do Caminho da Virtude) 

Segundo uma antiga tradição, Lao Tse teria nascido na província de Ha Hue, na cidade de Guo Yang, de acordo com o ano chinês, no vigésimo quinto dia da segunda lua do ano de Ken-Tzen da era Wu-Tin (entre 1324 e 1408 a. C.) Seu pai seria alquimista de renome no período da dinastia San que durou mais de cem anos. 
Sua mãe, que teria sido também sua mestra, o teria concebido ao engolir uma pérola de luz e sua gestação teria durado oitenta e um anos. Lao Tse teria nascido do lado esquerdo das costelas de sua mãe, no jardim da família, sob uma planta chamada Li (ameixeira), com cabelos brancos e orelhas grandes. Essa é a razão de seu nome Lao Tse (filho velho) e Li (orelha grande de ameixeira). A união dos ideogramas chineses para velho e criança, em seu nome, originaram seu título de “Senhor do Fim e do Princípio”. 
Teria sido convidado pelo rei When para ser responsável pela biblioteca real, tendo assumido o cargo de historiador real até o décimo nono dia da lua de vigésimo quinto ano da era do rei Zhao, ano em que iniciou sua grande viagem para o ocidente, com o intuito de chegar aos reinos da atual Índia. 
Durante a viagem, teria permanecido algum tempo na fronteira de Yü Men e aceitado o oficial chefe da fiscalização como discípulo. Ditou-lhe os princípios fundamentais de sua doutrina e filosofia que ficou conhecido como Tao Te Ching. 
Muito tempo depois, subiu ao deserto de Gobi. Aí, seu corpo passou a emitir raios de luz em cinco cores, tendo desaparecido no céu logo a seguir. Após essa ascensão maravilhosa, teria retornado à terra reencarnado como filho único do senhor Li Po Yang da província de Shu. 
O oficial de fronteira, seu primeiro discípulo, Yi Shi, reencontrou-o na sua aldeia natal. Uma criança de três anos de idade revelou sua verdadeira identidade. Então, seu corpo cresceu, transformando-se me luz dourada e branca. Nessa ocasião, Lao Tse pronunciou um discurso em que manifestou seus novos ensinamentos. Essa revelação é conhecida como “Tratado Maravilhoso do Princípio Solar do Tesouro do Espírito” (Ling Bao Yuan Yang Miao Ching). Após concluir seu ensinamento, os duzentos membros da família Li subiram para o infinito, seguidos por Lao Tse e Yi Shi. Isso se deu em vinte e oito de abril de 118 a. C.. 
Depois desse evento, segundo nascimento e ascensão, Lao Tse teria retornado muitas outras vezes para transmitir novos ensinamentos e para ordenar novas tradições. Por essa razão, é conhecido entre os taoistas como “Sublime Patriarca do Caminho”. 
O grande dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu um belo poema sobre o guardião de fronteiras e seu papel na transmissão desse legado para a humanidade. Escrito em 1938, está inserido em sua obra Poemas de Svendborg, publicado em Copenhague, em 1939 . Termina assim: 


Taoismo 

O conjunto de princípios religiosos e filosóficos conhecido como taoismo, daoismo ou tauismo originou-se na China presta. Enfatiza a vida em harmonia com o Tao, às vezes dito também como Dao. O significado desse termo corresponde a um ideograma chinês assim representado 道, cujo significado é caminho, que poderia ser traduzido também por via ou princípio. É um conceito muito comum em outras doutrinas religiosas e filosóficas chinesas. 
No taoismo, especificamente, assume a dimensão de força motriz que está por trás de tudo o que existe. Afirma seus estudiosos que se trata de um princípio indefinível. 
No decorrer do tempo, o taoismo institucionalizou-se como as demais religiões e originou diferentes escolas de pensamento religioso e filosófico. Surgiram, então os Naturalistas, apresentando conceitos como yin-yang, ou a teoria básica de que os cinco elementos que formam o mundo material seriam a madeira, o fogo, a terra, o metal, e a água.. Criaram-se também rituais de exorcismo e adivinhação e práticas para atingir o êxtase, obter longevidade e até mesmo a imortalidade. 
A busca fundamental do sistema taoista é a serenidade. Procuram-na pela moderação dos desejos, pela simplicidade, espontaneidade, contemplação da natureza. Seus três tesouros fundamentais são a compaixão, a moderação e a humildade. 
A cultura chinesa está impregnada dos princípios do taoismo. A própria alquimia chinesa, sua astrologia, mesmo o zen-budismo, diversas artes marciais, a medicina tradicional chinesa foram profundamente influenciados pelos princípios da filosofia e religião taoista. Da China, esses conhecimentos migraram para todo o leste asiático. Por diversos reinados, o taoismo foi religião oficial do estado. Alguns pensadores fazem uma distinção entre o taoismo filosófico e o taoismo religioso. 



Fragmentos do Tao te Ching: 

Cap.1
O Tao de que se pode falar não é o verdadeiro e eterno Tao.
O nome que pode ser dito não é o verdadeiro nome.
O que não tem nome é a origem do Céu e da Terra
E o nomear é a mãe de todas as coisas.
Sem a intenção de o considerar,
Podemos apreender o mistério e as suas subtilezas,
Através da sua ausência de forma.
Tentando considerá-lo, só podemos ver a sua manifestação
Nas formas que definem o limite das coisas.
Ambos provêm da mesma fonte e são o mesmo.
Diferem apenas devido ao aparecimento dos nomes.
São o mistério mais profundo,
a porta para todos os mistérios.

Cap.3
Não exaltar os homens com habilidade superior
Evita que as pessoas rivalizem entre si;
Não dar valor às coisas raras
Evita que surjam ladrões;
Não lhes mostrar o que pode excitar os seus desejos
É o modo de manter os seus corações em paz.

Por isso, o sábio governa simplificando-lhes as mentes,
Enchendo-lhes a barriga,
Enfraquecendo-lhes a ambição
Fortalecendo-lhes os ossos,
Mantendo-os sem conhecimentos e desejos que os desviem do Caminho,
De modo a que os que têm nunca ousem sequer interferir.
Se nada for feito, tudo estará bem.

Cap.4
O Tao é como o espaço vazio dentro de um vaso;
Mas, por mais que o enchamos, nunca ficará cheio.
É incomensurável, como se fosse o Antepassado de todas as coisas.

Cap.11
Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está.

Cap.40
As dez mil coisas nascem a partir do que existe (e tem nome)
E o que existe nasce do que não existe (e não tem nome).

Cap.41
Quando um estudioso mais sábio ouve falar no Tao,
Abraça-o com zelo.
Quando um estudioso médio ouve falar no Tao,
Pensa nele de vez em quando.
Quando um estudioso inferior ouve falar no Tao,
Ri-se às gargalhadas.
Se ele não risse
O Tao não seria o Tao (o Caminho).

Cap.48
Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do Tao, todos os dias algo é deixado para trás.
E cada vez menos é feito
até se atingir a perfeita não-ação.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.
Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.

Cap.60
Governa-se um estado
Como se frita um peixe pequeno.
(Para fritar um peixe pequeno, é só deixá-lo fritar; não é preciso virá-lo ou interferir de outro modo qualquer. E usa-se lume brando.)


Abaixo segue a Lenda sobre o surgimento do livro Tao Te Ching durante o caminho de Lao Tse à emigração. 


Lao Tse 


(Poema de Bertolt Brecht sobre Lao Tse, versão portuguesa, tradução do original alemão de Marcus V. Mazzari): 


O que está por trás dessa água, velho?"
Deteve-se o velho: "Isso te interessa?"
Falou o homem: "Eu sou apenas guarda de aduana
Mas quem vence a quem, isto também a mim interessa
Se tu o sabes, então fala!

Anota-o para mim! Dita-o a este menino!
Coisa dessas não se leva embora consigo.
Papel há em casa, e também tinta
E um jantar igualmente haverá: ali moro eu.
E então, é a tua palavra?"

Por sobre o ombro, o velho mirou
O homem: jaqueta remendada. Descalço.
E a testa, uma ruga só.
Ah, não era um vencedor que dele se acercava.
E ele murmurou: "Também tu?"

Para recusar um pedido gentil
O velho, como parecia, já estava demasiado velho.
Então disse em voz alta: "Os que algo perguntam
Merecem resposta." Falou o menino: "Também vai ficando frio."
"Está bem, uma pequena estada."

E o sábio apeou do seu boi
Por sete dias escreveram a dois.
E o aduaneiro trazia comida (e nesse tempo todo apenas
Praguejava baixo com os contrabandistas).
E então chegou-se ao fim.

E o menino entregou ao aduaneiro
Numa manhã oitenta e uma sentenças
E agradecendo um pequeno presente
Entraram pelos rochedos atrás daquele pinheiro.
Dizei agora: é possível ser mais gentil?

Mas não celebremos apenas o sábio
Cujo nome resplandece no livro!
Pois primeiro é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso agradecimento também se deve ao aduaneiro:
Ele a extraiu daquele.


Poema original de Brecht em alemão:

Lao Tzu


Was ist das mit diesem Wasser, Alter?"
Hielt der Alte: "Intressiert es dich?"
Sprach der Mann: "Ich bin nur Zollverwalter
Doch wer wen besiegt, das intressiert auch mich.
Wenn du's weisst, dann sprich!

Schreib mir's auf! Diktier es diesem Kinde!
Sowas nimmt man doch nicht mit sich fort.
Da gibt's doch Papier bei uns und Tinte
Und ein Nachtmahl gibt es auch: ich wohne dort.
Nun, ist das ein Wort?"

Über seine Schulter sah der Alte
Auf den Mann: Flickjoppe. Keine Schuh.
Und die Stirne eine einzige Falte.
Ach, kein Sieger trat da auf ihn zu.
Und er murmelte: "Auch du?"

Eine höfliche Bitte abzuschlagen
War der Alte, wie es schien, zu alt.
Denn er sagte laut: "Die etwas fragen
Die verdienen Antwort." Sprach der Knabe: "Es wird auch schon kalt."
"Gut, ein kleiner Aufenthalt."

Und von seinem Ochsen stieg der Weise
Sieben Tage schrieben sie zu zweit.
Und der Zöllner brachte Essen (und er fluchte nur noch leise
Mit den Schmugglern in der ganzen Zeit).
Und dann war's so weit.

Und dem Zöllner händigte der Knabe
Eines Morgens einundachtzig Sprüche ein
Und mit Dank für eine kleine Reisegabe
Bogen sie um jene Föhre ins Gestein.
Sagt jetzt: kann man höflicher sein?

Aber rühmen wir nicht nur den Weisen
Dessen Name auf dem Buche prangt!
Denn man muss dem Weisen seine Weisheit erst entreissen.
Darum sei der Zöllner auch bedankt:
Er hat sie ihm abverlangt.

Verão do poema em inglês:

Lao Tzu

Bertolt Brecht (Legend of the origin of the book Tao Te Ching on Lao-Tzu's road into exile)


Once he was seventy and getting brittle
Quiet retirement seemed the teacher's due.
In his country goodness had been weakening a little
And the wickedness was gaining ground anew.
So he buckled on his shoe.

And he packed up what he would be needing:
Not much. but enough to travel light.
Items like the book that he was always reading
And the pipe he used to smoke at night.
Bread as much as he thought right.

Gladly looked back at his valley, then forgot it
As he turned to take the mountain track.
And the ox was glad of the fresh grass it spotted
Munching, with the old man on its back
Happy that the pace was slack.

Four days out among the rocks, a barrier
Where a customs man made them report.
‘What valuables have you to declare there?'
And the boy leading the ox explained: ‘The old man taught'.
Nothing at all, in short.

Then the man, in cheerful disposition
Asked again: ‘How did he make out, pray?'
Said the boy: ‘He learnt how quite soft water, by attrition
Over the years will grind strong rocks away.
In other words, that hardness must lose the day.'

Then the boy tugged at the ox to get it started
Anxious to move on, for it was late.
But as they disappeared behind a fir tree which they skirted
Something suddenly began to agitate
The man, who shouted: ‘Hey, you! Wait!'

‘What was that you said about the water?'
Old man pauses: ‘Do you want to know?'
Man replies: ‘I'm not at all important
Who wins or loses interests, though.
If you've found out, say so.’

‘Write it down. dictate it to your boy there.
Once you've gone, who can we find out from?
There are pen and ink for your employ here
And a supper we can share; this is my home.
It's a bargain: come!'

Turning round, the old man looks in sorrow
At the man. worn tunic. got no shoes.
And his forehead just a single furrow.
Ah, no winner this he's talking to.
And he softly says: `You too?'

Snubbing of politely put suggestions
Seems to be unheard of by the old.
For the old man said: ‘Those who ask questions
Deserve answers.' Then the boy; ‘What's more, it's turning cold.’
‘Right. then get my bed unrolled.'

Stiffly from his ox the sage dismounted.
Seven days he wrote there with his friend.
And the man brought them their meals (and all the smugglers were astounded
At what seemed this sudden lenient trend).
And then came the end.

And the boy handed over what they'd written -
Eighty-one sayings - early one day.
And they thanked the man for the alms he'd given
Went round that fir and climbed the rocky way.
Who was so polite as they?

But the honour should not be restricted
To the sage whose name is clearly writ.
For the wise man’s wisdom needs to be extracted.
So the customs man deserves his bit.

It was he who called for it.
CULTURA INDIANA - MAHATMA GANDHI - INDIAN CULTURE


Mahatma Gandhi (1869-1946)
         Seu nome de família era Mohandas Karamchand Gandhi. Foi o grande poeta e pensador indiano Rabindranath Tagore que o denominou de Mahatma, ou seja, grande alma, contra o qual Gandhi protestou inutilmente durante toda a vida.
         Segundo um de seus biógrafos, o suíço Edmond Privat, numa visita que Gandhi fez a Tagore em 1915 esse o teria cognominado de Mahatma, a grande alma.
         Para entender minimamente a vida de Gandhi, é necessário conhecer a história dos padroados. Foram sucessivas bulas pontifícias, ou sejam, documentos oficiais da Igreja Católica, reconhecidas internacionalmente, e oficializava determinado ato, neste caso, domínio de povos. O termo bula vem de uma bola de cera ou chumbo, uma espécie de carimbo da época que autenticava um documento. Nesses casos, tratava-se de concessões de domínios políticos.
         Os primeiros padroados foram concedidos pelo papa Calisto III à Espanha e a Portugal no início da expansão ultramarinha. É preciso saber que Calisto III era espanhol. Seu nome civil era Alonso Borja, e foi eleito papa em 08 de abril d 1455 e governou até sua morte em 06 de agosto de 1458. Foi um curtíssimo mandato.
         Iniciava-se, nessa época a ascensão da Península Ibérica como principal sede do poder na Europa, o que valia dizer, no mundo. Em 1453, os turcos otomanos tinham tomado o Oriente Médio e impediam as viagens terrestres para o extremo Oriente. de onde a Europa importava uma série de produtos essenciais, mormente a pimenta.
         Ocorre que, forçados pelos fortes invernos, os povos europeus abatiam o gado antes dos grandes frios e, não conhecendo ainda processos mais eficazes de conservação da carne, salgavam o produto e o guardavam em grandes depósitos. Desse processo resultava um produto de cheiro muito ruim. Somente com muito tempero, especialmente pimenta, tornava-se palatável.
         Portugueses e espanhóis iniciam as navegações que vão descobrir uma nova rota para o extremo Oriente, que dava novo acesso aos temperos e outros produtos. Porém, enquanto os antigos viajantes como Marco Polo e tantos outros comercializavam com os orientais, os novos descobriam uma forma mais lucrativa de interação.
         Fizeram acordo com os papas e, que, em troca da evangelização dos povos orientais, concederam-lhes o domínio político dessas nações. No início de 1455 faleceu o papa Nicolau V. Havia uma forte disputa pelo papado entre membros de famílias influentes da época. Aproveitando-se dessa disputa, influentes membros da corte espanhola sugeriram que se elegesse o cardeal Alonso Borja, catalão de Xátiva, que já contava quase oitenta anos, como um mandato tampão, até que se elegesse um papa mais definitivo.
         Alonso escolhe o nome eclesiástico de Calisto III. Como Nicolau V, seu predecessor tinha concedido, via bula pontifícia, o domínio de todas as terras descobertas, e estando a Espanha na mesma empreitada das navegações propôs um acordo que resultou num processo que se denominou de padroado.
         Esse sistema teve seu início internamente nos reinos da Espanha e de Portugal: ficaria ao encargo dos reis a construção e manutenção das igrejas e a nomeação de padres e bispos, sendo posteriormente estes confirmados pelo papa. Nas colônias estabelecidas no Oriente e na América, este sistema se fez presente desde o início de dominação dos países ibéricos.  
         Alguns anos mais tarde, com outro papa dos Borja, agora italianizados em Bórgia, Rodrigo Bórgia, como Papa Alexandre VI, é feito o Tratado de Tordesilhas, destinando as novas descobertas à corte espanhola.  Porém, e Estado Português da Índia gradativamente foi substituído pelo estado inglês. Houve uma decadência do império português.
         Foi criada pela corte inglesa, aliada a poderosos comerciantes britânicos, a Companhia Britânica das Índias Orientais (“Company of Merchants of London Trading to the East Indies”). Assim, gradativamente, a Inglaterra tomou o espaço então dominado por Portugal. Esse domínio incluía a atual Índia, o Paquistão, Bangladesh e Mianmar (antiga Birmânia) e gradativamente o exército britânico foi estabelecendo bases para proteger seus comerciantes.
         Agregou-se aos tradicionais produtos importados do oriente, o lucrativo comércio do ópio, cujo consumo na época equivalia ao atual emprego da cocaína. Assim, como a Inglaterra procedeu em relação à Índia, a França fez o mesmo com a China e todo o sudeste asiático.
         Esses conhecimentos histórico-geográficos são fundamentais para o entendimento do papel de Gandhi no processo de libertação da Índia. Gandhi conheceu o jovem político paquistanês Zilfikar Ali Buto que defendia a luta armada para a libertação do domínio inglês. Ali Buto era pai da ex-ministra Benazir Buto, tragicamente assassinada em 2007.
         Voltando a Gandhi, o menino era filho de um ministro do príncipe de Rajkot, uma função ligada à casta alta da sociedade indiana. De acordo com os costumes da época e do seu país foi casado aos 13 anos.
         Desde a infância preocupou-se com os problemas sociais, condoendo-se da situação dos párias em seu país. Quando jovem, chegou mesmo a auxiliar os coletores de lixo na rua.
         Em 1888 transfere-se para Londres para fazer o curso de Direito. Na Europa, entrou em contato com o cristianismo, especialmente com a leitura dos Evangelhos. Apaixona-se pelo Sermão da montanha.
         Compara esse texto poético do Evangelho ao Gita. Bagvad Gita é um belíssimo texto religioso hindu. Embora seja um texto mais recente, foi incluído ao épico Mahabharata do século IV a. C., cuja autoria é atribuída a Krishna Dvapayana Vyasa.
         “O Mahabharata é visto por alguns autores como o texto sagrado de maior importância no hinduísmo, e pode ser considerado um verdadeiro manual de psicologia evolutiva de um ser humano. A obra discute o tri-varga ou as três metas da vida humana: kama ou desfrute sensorial, artha ou desenvolvimento econômico e dharma, a religiosidade mundana que se resume a códigos de conduta moral e rituais.”
         “Além dessas metas mundanas, o Mahabharata trata de moksha, ou a liberação do ciclo de tri-varga e a saída do samsara, ou ciclo de nascimentos e mortes. Em outras palavras, é uma obra que visa ao conhecimento da natureza do "eu" e à sua relação eterna com toda a criação e aquilo que transcende a ela.”
         Assim, Gandhi associa seus conhecimentos da filosofia hinduísta ao pensamento cristão, ambos marcados pela tolerância e moderação. Retornando à pátria, com apenas 23 anos, é mandado à África do  Sul, numa missão profissional.
         Lá constata a humilhação de um ser humano pelo outro. Constata um fato humilhante em que os indianos residentes nesse país eram obrigados a transitar pela sarjeta para que os brancos usassem a calçada.
         Foi então que desenvolveu a filosofia que leva a uma política de não-violência. Tratava-se de um método ativo de desobediência, de não-cooperação não-violenta, que visava ao despertar da consciência do oponente. Ele e seus seguidores foram presos por diversas ocasiões por desrespeitarem leis injustas. Afirmava que a desobediência não violenta deles seria como a pedra que quebra o arado, o gelo que parte a pedra, o rio que se infiltra na montanha.
         Em 1915, retorna à índia com a esposa e os filhos, ocasião em que visita Tagore, então já famoso poeta e pensador, que vai chamá-lo de Mahatma, a grande alma.
         Assume, então, a liderança da longa luta para a independência de seu país, jamais abrindo mão de sua metodologia da não-violência. Quando seus compatriotas, tanto muçulmanos quanto hindus, recorriam a métodos violentos contra os britânicos ele entravam em greve de fome até que a violência cessasse.
         A independência da Índia que somente se deu em 1947 deu-se pelo triunfo do Espírito Iluminado, o Satyagraha, ou seja, o próprio princípio e espírito de não-agressão.
         Chegados à independência, Gandhi seguiu sua luta pela união de todos os povos da Índia. Afirmava que as religiões diferentes são caminhos diversos que conduzem ao mesmo ponto.

         Em 30 de janeiro de 1948, quando se dirigia à praça para fazer as orações vespertinas com uma multidão que o aguardava foi assassinado por um compatriota. Logo a seguir, o primeiro ministro Nerhu pronunciava pelo rádio as seguintes palavras que se eternizaram: “O Mahatma Gandhi morreu. Apagou-se a nossa luz. O pai da Índia, o amigo, o consolador de todos nós não existe mais.”


MATRIARCADO - PRIMEIRA FORMA DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL - Matriarchy - First Form of Social Organization

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara


Creta - Grande Deusa –Deusa das Serpentes

[...] Este trabalho se propõe descrever a linguagem enquanto objeto de uma experiência numinosa e arcaica. Esta experiência da linguagem está profunda e inextricavelmente ligada a uma certa concepção arcaica de tempo, a uma certa concepção arcaica de Ser e de Verdade. [...] a linguagem do aedo, i. e., a canção que ao mesmo tempo é veículo de uma concepção do mundo e suporte de uma experiência numinosa. (TORRANO, (2011), Teogonia. p. 14).


O objeto desta explanação é o matriarcado. Quando se fala em matriarcado, entende-se um grupo social ginecocrático, em que o poder é institucionalmente exercido pelas mulheres, de modo especial pelas mães de uma comunidade. Além do mais, a linha sucessória e hereditária dá-se pelo lado feminino.
                  Etimologicamente, o termo matriarcado forma-se do radical latino mater (mater, matris = mãe) e do radical grego arque (ρχή, ρχς = poder), sendo, portanto, um termo híbrido.
         Há uma forte hipótese originada no século XIX segundo a qual os primeiros sistemas de governo, de modo especial no ocidente, tenham sido matriarcados. Um antropólogo e jurista suíço, Johann Jakob Bachofen (1815 – 1887), foi o primeiro pesquisador a lançar uma obra que apresenta esse ponto de vista. Trata-se do livro Myth, Religion, and Mother Right, publicado pela Universidade da Basiléia, onde Bachofen lecionou Direito Romano de 1841 a 1845.
         O autor suíço reuniu uma série de documentos, tentando demonstrar que todas as sociedades humanas começaram a organizar-se a partir das mulheres e em torno delas.
         A seguir, a partir de 1861, o arqueólogo britânico Sir Arthur Evans dedicou-se às escavações da civilização Minoica, que se desenvolveu na Ilha de Creta, no Mar Egeu, entre os séculos XXX e XV a. C., cujos primeiros habitantes remontam a, pelo menos, 128.000 anos a. C. Evans afirmou, a partir de suas descobertas, que a civilização aí desenvolvida, tratava-se de uma sociedade matriarcal. Chegou a essa conclusão a partir da descoberta de que esse povo cultuava exclusivamente divindades femininas.
         Pesquisas posteriores sobre a Civilização Minoica revelaram que, além de haver um culto unicamente voltado a entidades femininas, apareciam também mulheres retratadas em funções sacerdotais, administrativas e políticas.
         Esses primeiros estudos serviram de base para pesquisadores do século XX, especialmente da lituana Marija Gimbutas, que desenvolveu relevantes estudos sobre o Neolítico e a Idade de Bronze na Europa Antiga, tendo como tema central a religião da Deusa Mãe, trabalho que concluiu na Universidade de Los Angeles, nos Estados Unidos.
         As três obras mais relevantes da autora são: "The Goddesses and Gods of Old Europe" ("As Deusas e Deuses da Antiga Europa"); "The Language of the Goddesses" ("A Linguagem das Deusas") e "The Civilization of the Goddess" ("A Civilização da Deusa").
         Nessas obras, a autora desenvolveu estudos sobre a família e os padrões familiares, as estruturas sociais, a arte, a natureza, a alfabetização e os conhecimentos das comunidades europeias na Idade do Bronze, mas, de modo todo especial, a religião, em que esses povos dão primazia aos cultos das divindades femininas. Segundo sua interpretação, essas sociedades ginecocratas (γυνή, γυναικός = mulher e κράτος = poder) eram pacíficas, acolhiam os homossexuais e gozavam de bom desenvolvimento econômico.
          O culto da Grande Mãe é o ritual religioso mais importante de toda a Civilização Minoica. Essa divindade é um arquétipo. É mãe de todos os homens e de tudo quanto existe na terra, mas é, essencialmente, mãe de todos os deuses. Segundo Jean Tulard:

O traço mais original da religião cretense parece ter sido uma predileção pelos símbolos. Tal simbolismo atribui um valor emblemático a todo o material sagrado e, como o símbolo é suficiente para criar uma ambiência divina, não se torna necessário que o deus seja visível. Esse simbolismo de um caráter particular, no entanto, se casa perfeitamente com um incontestável antropomorfismo. (TULARD, 1962, p.50-51).

         Essa divindade feminina é senhora do céu, da terra, do mar, dos homens e dos infernos. Apresenta-se sob a forma de pomba, de árvore, de âncora, mas a sua forma preferencial é a de serpente. É símbolo de harmonia, paz e amor. Seu traço fundamental é a fecundidade.
         Para entendermos o papel das divindades na civilização Neolítica e na Hera do Bronze, é necessário entender o mito como o entendiam as sociedades primitivas. Ele não tem o sentido que damos hoje à fábula, lenda ou ficção. Precisamos entendê-lo como nos apresenta Mircea Eliade:

[...] o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio". Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma "criação": ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. (ELIADE, (1972), Mito e realidade. p. 9).

         Portanto, nesse sentido, o mito narra algo realmente ocorrido num tempo primordial, mediante intervenção de seres sobrenaturais. Ainda Torrano, nos capítulos prefaciais da Teogonia, falando da linguagem sagrada do mito diz:

A recitação de cantos cosmogônicos tinha o poder de pôr os doentes que os ouvissem em contato com as fontes originárias da Vida e restabelecer-lhes a saúde, tal o poder e impacto que a força da palavra tinha sobre seus ouvintes. (TORRANO, 2011, Teogonia. p. 19).

         De acordo com a crença grega, o universo, no princípio dos tempos, era vazio e sem vida, regido por um princípio assexuado e amorfo, denominado Caos (Χάος), que deu a origem e o começo a tudo quanto existe. Além do mais, uma noite (Νυξ) perene pairava sobre tudo. Nesse eterno vazio, surgiu Eros (Έρως), o desejo perene de movimento e mudança. Pela força de Eros, gerou-se no Caos, a primeira grande divindade, maternal e feminina apresentada na Teogonia de Hesíodo como Gaia.

Gaia, by Anselm Feuerbach (1875)


         É a terra mãe concebida como elemento primordial, enquanto que Deméter é a terra cultivada. Gaia é a mãe que gera e nutre todos os viventes e, por fim, acolhe as cinzas de todos os mortos. Conforme afirma ainda Torrano:
Evocada ou não, contemplada ou sem templo, a Deusa Mãe está presente e nos nutre. As feras, ainda que tenham perdido a inocência e a natural crueldade, são sempre as suas crias. (TORRANO, (2011), Teogonia, p. 9).  

         A Grande Mãe, caracterizada pelos gregos como Gaia (¢Η Γαα), originou-se de um processo partenogênico, isto é, sem qualquer intervenção de elemento masculino. Contém em si mesma a totalidade da criação e permanece em todos os seres e em todo o universo. Envolve todos os ciclos da vida, desde o nascimento, nutrição, crescimento e por fim a própria morte. Ela é a terra mesma.
         O homem curvava-se diante do sagrado poder feminino que gerava a vida e perpetuava a espécie. Isso por milênios, sem que suspeitasse de que ele participava desse processo divino. Enquanto hordas de machos corriam pelos campos e florestas na busca de presas para alimentar a comunidade, as mulheres permaneciam nas aldeias com os filhos. Dedicavam-se ao cuidado das moradias, tomavam conta dos animais domésticos e mantinham uma pequena agricultura caseira.
         Advieram, então, a Idade do Bronze e depois a Idade do Ferro, e as pacíficas sociedades matriarcais entraram em declínio. Tribos guerreiras e nômades trouxeram a violência e a devastação. E, por fim, o homem deu-se conta que rebanho que não tinha machos não se reproduzia. A concluir seu papel na reprodução humana foi apenas um passo a mais.
         Instituíram, de aí por diante, o patriarcado, fundado na violência, na guerra e na destruição. Criou-se um panteão de deuses guerreiros em substituição ao reinado da Grande Mãe.
         Esse processo originou um sistema que dava primazia à destreza e à força física, gerando uma civilização do logos e da razão. Seguiram-se até mesmo correntes materialistas, passando a negar a supremacia do espírito sobre a matéria. Essa é uma versão matriarcal da gênese das primeiras comunidades humanas que hoje é defendida como mais provável por muitos antropólogos.
        
BIBLIOGRAFIA:
1.   BACHOFEN, Johann Jakob. (1887). Myth, Religion, and Mother RightBasiléia: Editora da Universidade da Basiléia.
2.   ELIADE, Mircea. (1972). Mito e realidade. São Paulo: PERSPECTIVA.
3.   GIMBUTAS, Marija. (1974).The Goddesses and Gods of Old Europe. Los Angeles: University of California Press.
4.   ______. (1989). The Language of the GoddessesLos Angeles: University of California Pres.
5.   ______. (1994)  The Civilization of the GoddessLos Angeles: University of California Pres.
6.   HESÍODO. (2011). Teogonia. São Paulo. Iluminuras.
7.   TULARD, Jean. (1962). Histoire de la Crète. Paris : PUF.
STRIKE MOVEMENTS IN THE ANCIENT ROME - GREVES NA ANTIGA ROMA
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

* Este artigo foi publicado originalmente na REVISTA DA UCPEL - Universidade Católica de Pelotas, em 02 de dezembro de 1993 - EDUCAT - ISSN 0103-8788


RESUMO: Já na antiga Roma, os movimentos paredistas foram empregados como forma de pressão das massas trabalhadoras sobre a classe patronal, para obter vantagens nas relações de trabalho. Em 494 a. C., a plebe romana aglomera-se no monte Sacro, decidida a não lutar – nem retornar ao trabalho sem que lhe fossem atendidas às suas reivindicações de participação no poder e de distribuição inicial das funções na administração pública, através de tributos da plebe, bem como viu atendido ao seu pedido de redução da dívida agrária. Em 454 a. C., a plebe reivindica um código escrito. Após muitas manobras e lutas, surgiu a Lei das Doze Tábuas. Sua conquista maior foi o direito de participação do cargo de máximo poder da República: o consulado. As elites, porém, desforraram-se de tantas derrotas, por um lado, remetendo colonos para o solo conquistado, amainando, assim, o anseio interno pela posse da terra; por outro, corrompendo, pelo dinheiro e pelo luxo, muitos dos escolhidos dentre a plebe para os cargos públicos.
Palavras-chave: greve, movimentos paredistas, classes sociais, Roma antiga.

ABSTRACT: As to getting advantages in the work relationship, the strike movements in the ancient Rome were a form of pressure the working-class people had over the employer class. As a result of such demands, after struggles and maneuvers, the Law of the Twelve Tables came into effect. But the greatest conquest was the share of power in the Republic: the consulate. The ruling elite, however, took revenge both sending people to new conquered places, diminishing the claim for the occupancy of land, and corrupting through money and luxury, many of the elected amongst the mob for the public office.
Kay words: strike, roman strike movements, social classes, roman social classes.

MOVIMENTOS PAREDISTAS NA ANTIGA ROMA

Este artigo visa a abordar a história do paredismo (greves) na República Romana, nos séculos que precederam a era cristã. Sua abordagem, hoje, justifica-se uma vez que, quando nos referimos a paredismo como forma de pressão das massas trabalhadoras, para diminuir a opressão da classe patronal sobre o operariado, ou para obter vantagens nas relações de trabalho, de modo geral, aludimos aos movimentos e greves bastante recentes, mormente os que se iniciam com europeus e norte-americanos da primeira metade do século XX.
Acontece, porém, que já na incipiente República Romana, essa forma de atuação reivindicatória era empregada, logicamente que diferenciada da atual, porque condicionada pela especificidade dos meios e modos de produção dessa época e pelas suas relações características de trabalho.
Para a melhor compreensão dos fatos, faz-se necessária uma abordagem inicial da estrutura social e da divisão do trabalho e, mais especificamente, da constituição das classes sociais em Roma, nesse período, que vai do século VI a. C. à segunda metade do século I a. C.
Sem nos atermos às origens e causas da criação do sistema republicano em Roma, nos últimos séculos que precederam o surgimento do cristianismo, abordaremos, mesmo que sucintamente, o processo sucessório na monarquia que antecede a República Romana primitiva.
Como a sucessão geralmente não se dava por hereditariedade, embora pudesse ser feita dessa forma, sendo, porém, fundamental a confirmação por parte do Senado Romano, no século VII a. C., chegaram ao poder supremo reis de origem estrangeira, mais precisamente de origem etrusca.
Eutrópio, em sua História Romana, afirma, por ocasião da sucessão de Rômulo: “O Império Romano tem sua origem em Rômulo, que, filho de uma virgem vestal e Marte, foi gerado num só parto com seu irmão Remo. Ele, como militasse entre pastores, com dezoito anos, fundou uma pequena cidade no monte Palatino. Fundada a cidade, que chamou Roma, de seu nome, fez mais ou menos isto: recebeu na cidade uma multidão de vizinhos; elegeu cem dentre os mais velhos aos quais chamou Senadores[1] por causa da sua velhice, com o conselho dos quais fizesse todas as coisas [...] e como se levantasse uma tempestade subitamente e ele não fosse mais encontrado, acreditou-se ter passado aos deuses, no trigésimo sétimo ano de seu reinado, tendo em seguida sido deificado. Depois, os senadores governaram Roma por cinco dias cada um e, reinando estes, completou-se um ano. Depois foi nomeado rei Numa Pompílio, que não fez nenhuma guerra em verdade, mas foi útil à cidade não menos do que Rômulo, pois constituiu tanto leis como costumes para os Romanos, que, pelo hábito das guerras, já eram considerados ladrões e semibárbaros.”(1) 
Pela citação acima, percebe-se a forma de sucessão empregada nessa monarquia, pois Numa Pompílio não era descendente de Rômulo, tendo sido constituído rei por decisão do Senado.
Na seguinte citação do historiador Estrabão, pode-se perceber outra forma de escolha do soberano: “Demarato, um rico mercador banido de Corinto, veio residir em Tarquinii e lá se casou com uma mulher etrusca. Seu filho, Lúcio Tarquínio, emigrou para Roma, onde galgou alto posto e, por ocasião da morte de Anco, apossou-se do trono, ou mais provavelmente, foi escolhido por um conselho de famílias etruscas da cidade”. (2)
De acordo com Tito Lívio, em sua Res Romanae ab Urbe Condita (Coisas Romanas desde a Fundação da Cidade): “Foi ele o primeiro a solicitar a coroa e a fazer um discurso tendente a assegurar o apoio da plebe.” (3)
A plebe era constituída de cidadãos que não podiam ligar seu nome aos fundadores da Cidade, os patrícios (patres patriae), pais da pátria.
Nesse momento histórico, o poder passa às mãos dos comerciantes e financistas em detrimento da antiga oligarquia rural dos patrícios. Ainda segundo Tito Lívio: “Tarquínio legou o poder a seu genro Sérvio Túlio, independentemente da escolha do povo, isto é, das famílias principais. Este, dando continuidade às reformas do sogro, dividiu o povo em 35 novas tribos, com base no local de residência, em vez de na posição social, enfraquecendo, dessa forma, o poder eleitoral da aristocracia, a classe que se tinha como suprema por direito de nascimento.” (4)
Percebe-se aí a participação das classes populares na transição do poder, bem como evidenciam-se as manobras políticas eleitoreiras e garantidoras da perpetuação de grupos de interesses comuns no comando do país.
Os etruscos assumiram o poder por volta de 655 a. C. e, além das reformas políticas acima mencionadas, promoveram outras, como afirma Eutrópio: “... este (Tarquínio Prisco) duplicou o número de senadores e edificou o Circo de Roma...” (5).
Como as reformas introduzidas pela oligarquia do comércio e das finanças não permitissem à velha oligarquia rural voltar ao poder pelas vias normais, resolveu esta mudar o sistema de governo. Dessa forma, criou a República, cuja origem, na história romana, está tão envolta em mitos, quanto o surgimento da monarquia que a precedeu. Em ambos os casos, a fronteira entre o mito e a história é tão tênue, que se torna quase impossível delimitar onde termina o mito e começa a história.
É ainda Tito Lívio que nos narra: “... certa manhã, no campo real em Ardélia, seu filho Sexto Tarquínio (Tarquínio Soberbo) entrou em debate com um seu parente, Lúcio Tarquínio Colatino, sobre as virtudes das respectivas esposas. Propôs Colatino que voltassem a cavalo para Roma e as surpreendessem à noite. Encontraram a mulher de Sexto em festa com seus íntimos, mas Lucrécia, mulher de Colatino, fiava na roca vestes para seu esposo. Sexto inflamou-se de desejo de pôr em prova a fidelidade de Lucrécia e gozar-lhe o amor. Poucos dias mais tarde, volta secretamente à casa de Lucrécia e violenta-a. Lucrécia chama o pai e o marido, conta-lhes o ocorrido e depois apunhala-se. Em consequência desses fatos, Lúcio Júnio Bruto, amigo de Colatino, convida todos os homens sérios de Roma para expulsar Tarquínio.”(6).
Esse fato teria feito com que a Assembleia do Povo decidisse mudar o sistema de governo, colocando, em lugar de um rei, dois cônsules.
Parece que essa história, embora repetida por outros historiadores como Eutrópio, verdadeira ou não, serviu aos interesses dos patrícios, que de há muito estavam desejosos de retomar o poder. 
O fato é que Lúcio Júnio, cognominado depois Brutus, isto é, idiota ou louco, liderou, em 509 a. C., um movimento, e com auxílio popular, depôs o rei. Reinava, então, Tarquínio Soberbo (Sexto Tarquínio). Desse momento em diante, criou-se a República, isto é, “res”, coisa, e pública. Nesse sistema de governo, o poder era dividido por dois governantes, denominados cônsules, com poderes iguais, cujo mandato era tão somente de um ano. 
Sobre tal sistema, afirma Eutrópio: “... desde então começaram a ser criados dois cônsules em lugar de um rei por este motivo, que, se um quisesse ser mau, o outro, tendo poder igual, o reprimisse. E aprouve que não tivessem o governo mais do que um ano, a fim de que, pela duração do poder, não se tornassem prepotentes, mas fossem sempre delicados, eles que sabiam que após um ano haviam de ser simples cidadãos...” (7).
Para que se possa entender o significado e a origem da palavra Brutus, faz-se necessária uma explanação: ocorre que Lúcio Júnio, tendo atentado contra o rei, incorrera em crime de lesa majestade, que deveria ser punido com morte. Para evitar essa consequência indesejada, ele foi, numa manobra jurídica, declarado “Brutus”, como já se disse, em latim significava idiota, louco, condição em que o tribunal o eximiria de culpa, tornando-o inimputável. 
Como os romanos usavam três nomes: o prenomen, que correspondia ao nosso nome; o nomen, que era o nome da família, “gens” para os latinos, correspondente aos nossos sobrenomes; e o cognomen, que correspondia aos nossos apelidos, passou-se, Lúcius a chamar-se Lúcius Június Brutus. Esse cognome perde, em se tratando de nomes, a carga semântica de um modificador desrealizante e assume a posição de modificador nominal realizante com traços de heroísmo, sendo, desde então, largamente empregado em Roma. O filho adotivo de Júlio César chamava-se Brutus e se considerava descendente do herói republicano. 
Ainda segundo Eutrópio: “Foram, portanto, cônsules, no primeiro ano depois de expulsos os reis, Lúcio Júnio Bruto, que agira sobremaneira para que Tarquínio fosse expulso, e Tarquínio Colatino, esposo de Lucrécia, mas em seguida foi tirada a dignidade de Tarquínio Colatino: pois tinha-se decidido que não ficasse na cidade ninguém que se chamasse Tarquínio... para seu lugar foi escolhido Valério Publícola.” (8).
Cabe aqui salientar que os romanos não foram o primeiro povo na história a tentar um regime republicano; já os gregos os haviam precedido nessa modalidade de governo.
O processo participativo, nos primeiros tempos, no sistema eleitoral, era reduzidíssimo: somente os patrícios, nos primórdios da República, podiam eleger e ser eleitos.
É ainda Tito Lívio que nos explica quem eram os patrícios: “... Rômulo escolheu de sua tribo cem cabeças de clã para ajudá-lo a estabelecer Roma e funcionar como seu conselho ou senado. Esses homens foram chamados mais tarde “patres” ou pais e seus descendentes “patricii”, derivados dos patres.” (9).
Aulo Gélio, em suas Noites Áticas, afirma: “... não eram homens de fausto, como iriam ser seus descendentes; com frequência pegavam no rabo da charrua ou no machado; viviam de maneira simples; teciam em casa suas roupas. Os plebeus admiravam-nos, mesmo quando os tinham contra si, e a tudo o que pertencia aos patrícios aplicava-se o termo “classicus” – clássico, isto é, da alta classe.” (10).
Equivalentes aos patrícios em riqueza, mas muito abaixo em poder político, estavam os “equites”, ou homens de negócio. Com o passar dos anos, os patrícios passaram a dividir com eles o poder, concedendo-lhes o direito de eleger e ser eleitos. Temos muitos casos de cônsules de origem equestre como o do famoso orador, filósofo e administrador Marco Túlio Cícero.
Daí em diante, muitos “equites” ou cavaleiros, isto é, que tinham dinheiro bastante para armar e manter cavalos para a guerra, passaram a entrar para o Senado e formavam a segunda parte dos “patres et conscripti”, isto é, patrícios e homens conscritos. Essas duas classes constituíam as “ordens”, e seus membros qualificavam-se de “boni”, os bons.
Como “virtus” para os romanos significava virilidade, as qualidades que fazem um homem, a virtude romana apontava nessa direção. Como afirma Nietzsche em a Genealogia da Moral, falando sobre o sentido de bom, o “bonus miles" (bom soldado) seria para nós o pior dos homens, capaz de matar friamente e sem dó, mesmo um inocente. 
O termo latino que origina esses vocábulos é “vir”, que significa homem, masculino, macho, em oposição ao Άνθρωπος (anthropos) grego, que pode ser traduzido por humano.
Os homens “virtuosos”, nesse sentido, eram os pertencentes a essas “ordens”. Por isso, quando se empregava o termo “populus”, o povo, entendia-se apenas essas classes superiores; e, originariamente, era nesse sentido que se explicavam as famosas iniciais que ainda hoje se multiplicam por ruas e monumentos romanos – SPQR (Senatus Populusque Romanus) –, ou seja, o Senado e o Povo Romano, que orgulhosamente ostentavam em lugares públicos, na bandeira dos exércitos e nos territórios conquistados. 
Como esses dois grupos sociais tivessem grandes privilégios e regalias oriundos do exercício do poder, os demais cidadãos, a plebe, mesmo em se tratando de homens livres, em oposição aos escravos, viviam em condições muito precárias, não participando dos benefícios das conquistas e do progresso da República, a não ser de pálida maneira, em que lhes tocavam as migalhas, como o “pão e circo”. Caso prático eram os triunfos, festas populares em homenagem aos generais vencedores, em que era oferecida ao público, na rua, abundância de comida e bebida e algumas moedas de ouro, resultado dos saques e pilhagens.
Poucas eram as oportunidades de trabalho regular. Restringiam-se às funções agrícolas, que enfrentavam a grande concorrência dos escravos e dos produtos oriundos das províncias conquistadas, a uma pequena rede de indústrias, ainda em fase fortemente artesanal, e aos serviços domésticos nas mansões dos ricos. Restava, a uma grande parte da massa popular, sem emprego algum, a situação humilhante de tornar-se cliente dos poderosos.
Ser cliente significava dirigir-se, todas as manhãs, por volta de nove horas, à casa de seu senhor ou amo, que ora lhe fornecia alimentos, ora uma refeição em sua própria casa, num salão destinado a esse fim, ora uma quantia em dinheiro, para que fosse prover, nos armazéns e tavernas da cidade, seu próprio alimento. 
Nessa situação de contínua dependência e miséria, os plebeus clamavam pela redução de suas dívidas para com banqueiros e agiotas, pois, pela legislação romana, era comum um cidadão vir a tornar-se escravo por dívidas. Porém, a maior parte dessas dívidas se constituía na classe dos agricultores, que tomavam empréstimos para fazer frente aos custeios e manutenção da família, no período do plantio. Essas dívidas podiam ser contraídas com banqueiros privados ou com o próprio Estado, que financiava, através dos bancos públicos, a produção agrícola.
Os deserdados da sorte também clamavam pela distribuição de terras públicas, resultantes das conquistas militares, pois, no mais das vezes, grandes áreas produtivas acabavam nas mãos dos senadores, generais ou ricos cavaleiros, formando-se nas mãos desses indivíduos inescrupulosos imensos latifúndios. Isso obrigava os pobres a plantarem as terras desses magnatas na forma de escorchantes parcerias em que lhes restavam as respigas.
Outra exigência comum da plebe era a possibilidade de se eleger para os cargos da magistratura e do sacerdócio. Também reclamavam o acesso às ordens pelo casamento, que era proibido entre as classes altas e a plebe. 

Primeira greve em Roma
O Senado procurou frustrar a agitação popular com o fomento de sucessivas guerras, mas abalou-se ao ver desatendido o seu apelo às armas. Em 494 a. C., grandes massas de plebeus aglomeraram-se no monte Sacro (Sagrado), junto ao rio Ânio, a três milhas de Roma, e declararam que não mais lutariam, nem voltariam ao trabalho, antes que suas exigências fossem atendidas.
O Senado lançou mão de todos os recursos diplomáticos e religiosos para atrair os rebeldes sem, no entanto, obter resultado prático nenhum. Receando uma generalização do movimento, concordou em reduzir as dívidas, em admitir dois tribunos e três edis como defensores eleitos da plebe. 
Os paredistas voltaram às suas funções depois de um juramento: matarem qualquer um que levantasse a mão contra os representantes da plebe no governo. Para tanto, criou-se um corpo de litores, que acompanhavam cada um deles, uma espécie de guarda-costas, armada de machadinha e um feixe de varas, pois não eram raros os assassinatos políticos na velha Roma.
Isso foi a deflagração da guerra das classes que aumentou gradativamente durante todo o período republicano, tendo muitos desdobramentos e fazendo inúmeras vítimas. Em 486 a. C., o cônsul Espúrio Cássio propôs o loteamento, entre os pobres, de parte das terras conquistadas; os patrícios acusaram-no de procurar o apoio popular com o fito de fazer-se rei – e assassinaram-no.
O passo imediato, na ascensão da plebe, deu-se com a exigência de leis escritas. Até então, haviam sido os sacerdotes os guardiões e intérpretes das leis. Ora, não se pode aqui esquecer que era vedado à plebe o acesso ao sacerdócio.
Esses sacerdotes, espécies de confrarias, muito fechadas, conservavam, em segredo e monopólio, os registros e as exigências rituais da lei, para usá-los como armas, contra qualquer mudança social. 
Depois de longa resistência a esses desejos da plebe, o Senado, em 454 a. C. enviou à Grécia uma comissão de três patrícios, a fim de estudar a legislação de Sólon e outros códigos existentes naquela região. Retornada a comissão, a Assembleia, em 451 a. C., escolheu dez homens – decemviri – para formular um novo código, e deu-lhes, por três anos, o governo supremo de Roma.
Essa comissão era presidia pelo reacionário Ápio Cláudio, que transformou as velhas leis consuetudinárias de Roma, na famosa “Lex Duodecim Tabularum” (Lei das Doze Tábuas). Depois submeteu-as à Assembleia, que as aprovou com algumas emendas, gravou-as a fogo em doze tábuas, fixou-as no fórum, para que todos as conhecessem.
Foi a Assembleia Constituinte Romana, que estabeleceu a seu povo, sua primeira constituição. Apesar de grandemente conservadora e cruel, o povo tinha agora uma legislação clara e conhecida de todos, à qual poderia invocar em caso de injustiças.
Porém, terminado o período estabelecido para o mandato da comissão, seus integrantes recusaram-se a entregar o governo aos cônsules e tribunos, continuando a exercer a autoridade suprema, com a maior irresponsabilidade.
Agravou-se a situação quando Ápio Cláudio tomou-se de paixão por uma plebeia de nome Virgínia e, para possuí-la, declarou-a escrava, considerando que era vedado por lei o casamento entre classes. Porém, na condição de escrava, podia tomá-la por concubina. 
O pai da moça, Lúcio Virgínio, protestou; e quando Cláudio negou-se a ouvi-lo, matou a filha, correu à sua legião e sublevou-a, para a derrubada do novo déspota. Nesse momento, os plebeus fazem novo movimento paredista em solidariedade a Lúcio, retirando-se novamente para o monte Sacro. Havia, inclusive, a possibilidade de revolta armada.
Ao saber que o exército apoiava a plebe, o Senado depôs os decênviros, baniu Cláudio e reestabeleceu o consulado e as demais funções eletivas.
Quatro anos mais tarde, o tribuno Cláudio Canuleio propôs uma lei que dava direito aos plebeus de desposarem patrícios e serem eleitos ao consulado. O Senado cedeu ao primeiro pedido; quanto ao segundo, aumentou o número de tribunos da plebe para seis, que, em conjunto, teriam a autoridade de cônsules.
Em 376 a. C., os tribunos Licínio e Sexto propuseram uma lei que fazia com que os juros pagos fossem deduzidos do principal, pois as sucessivas guerras não permitiam que os agricultores plantassem, e os credores eram implacáveis, querendo receber juros e principal, de tal forma que a maioria dos agricultores encontrava-se em situação de insolvência.
Isso favorecia os ricos, que adquiriam deles as terras por preços aviltantes, aumentando, assim, os próprios latifúndios. Propuseram também uma norma proibindo que nenhum homem pudesse possuir mais de 500 iugera de terras (cerca de 121 hectares) ou empregar em suas terras número de escravos superior ao de homens livres; porém, sua proposta principal foi a exigência de que um dos cônsules fosse tirado da plebe.
Durante dez anos os patrícios resistiram a essas aspirações populares. Entrementes, o Senado fomentava guerra após guerra, de tal forma a conservar o povo tão ocupado que não pensasse nas terras e no poder. 
Por fim, sob ameaça de terceira parede, o Senado aceitou as chamadas “leis licínias”, e Camilo, chefe dos conservadores, celebrou a reconciliação das classes, com a construção do majestoso Templo da Concórdia, no fórum. 
Foi esse o maior passo dado no desenvolvimento das conquistas das classes populares na limitada democracia romana. Daí por diante, os plebeus progrediram com rapidez rumo a uma formal igualdade com as “ordens”, na política e nas leis. Em 356 a. C., um plebeu foi ditador por um ano.
Cabe aqui esclarecer que a ditadura estava prevista nas leis da República Romana, em momentos nos quais a pátria corresse riscos. Desaparecido o fato gerador da exceção, a ordem normal deveria ser reestabelecida. Em 351, o censurato; em 337, a pretoria; em 300, o sacerdócio, foram franqueados à plebe. E, finalmente, em 287, os senadores concordaram que as decisões da Assembleia Tribal também tivessem força de lei, mesmo que contrariassem decisões do Senado. E como nessa Assembleia os patrícios podiam ser facilmente batidos pelos votos dos plebeus, essa lei equivaleu ao triunfo da democracia em Roma. 
Porém, engana-se redondamente quem acreditou que as elites conformadamente se acomodariam a tantas perdas acumuladas. O poder do Senado breve se desforrou de tantas derrotas. O pedido de terras foi amainado com a remessa de colonos para o solo conquistado. O custo da obtenção e manutenção dos cargos – que não eram remunerados – automaticamente afastava os pobres. Depois de assegurada a igualdade política e de oportunidades, os plebeus mais ricos passaram a cooperar com os patrícios porque disso lhes vinham contratos de obras públicas, ensejos de colonização e exploração das províncias e comissões na coleta de taxas. Cada cônsul, mesmo que escolhido entre os plebeus, subia vitaliciamente ao Senado, tornando-se, por contágio, um zeloso conservador.
Teoricamente, um dos dois cônsules tinha de ser um plebeu. Na prática, poucos plebeus eram escolhidos, porque a própria plebe dava preferência a homens de educação e traquejo para um posto que tinha tantas responsabilidades, tanto na paz como na guerra. Para contornar a lei que exigia a escolha de um plebeu para o consulado, formando dupla com um patrício, criou-se um adendo determinando que não necessariamente um cônsul deveria ser plebeu, mas escolhido pela plebe como candidato e adotado por uma família plebeia. 
Desse processo, originaram-se dois partidos políticos: o PO (Partido dos Optimates), que buscava apoio nas elites, e o PP (Partido Popular), que tinha sua sustentação política na plebe. Assim, muitos patrícios foram eleitos pelo PP, fazendo-se adotar por famílias plebeias e escolhidos como candidatos desse partido. É o célebre caso de Júlio César que se elege cônsul em 59 a. C., pelo PP, sendo seu inimigo político Marco Calpúrnio Bíbulo, eleito pelo PO.
O vício político do populismo parece ter sua origem nesse processo em que um cidadão pertencente às classes privilegiadas busca apoio nas classes desvalidas e passa depois a governar com medidas populistas, a fim de se manter no poder. Em questões de política, parece terem os romanos esgotado todos os recursos no exercício, manobras e manipulação do poder.
Não raras eram as manobras eleitoreiras, usando-se para tal quaisquer meios, desde a pura e simples compra de votos até os apelos ao sentimento de religiosidade popular. Na véspera das eleições, o magistrado em função consultava as estrelas, com o pretenso intuito de saber a que candidatos elas favoreciam. Geralmente, a Assembleia submetia-se à fraude. Quanto aos tribunos da plebe, cabia-lhes proteger o povo contra o governo. Tinham o descomunal poder de veto a qualquer decisão do Senado. Com a simples palavra “veto”, isto é, eu proíbo, podiam deter todo o poderio da máquina oficial do Estado, sempre que lhes parecesse aconselhável. Como silente observador, o tribuno comparecia às reuniões do Senado, comunicava as decisões senatoriais ao povo e, com o veto, se o julgasse oportuno, tirava-lhes toda a força legal.
As portas da inviolável residência dos tribunos permaneciam abertas dia e noite a qualquer cidadão que a eles recorresse ou pedisse proteção; esse direito de asilo era equivalente ao habeas-corpus.
A aristocracia conservadora conseguiu ascendência sobre os tribunos por diversas manobras. Em primeiro lugar, persuadindo a Assembleia Tribal a eleger para o tribunato plebeus mais ricos, uma vez que o cargo não era remunerado. Em segundo lugar, elevando o número de tribunos para dez. Se um só desses dez se deixasse convencer ou subornar, sua decisão anularia a dos outros nove, pois cada um, individualmente, tinha o poder de veto, estabelecendo-se a confusão. Além disso, cumulavam-nos de bens, facilitando-lhes o enriquecimento, a participação nas benesses do poder, de tal modo que eles, quase sempre, tornando-se privilegiados, defendiam os interesses da elite, propondo apenas as medidas populares já aceitas pelo Senado.
Se todas essas medidas viessem a falhar, restava às elites o recurso à ditadura, sob a alegação de qualquer perigo à estabilidade nacional, e o ditador passava a acumular praticamente toda a autoridade sobre todas as pessoas e coisas. 
Os movimentos populares em Roma, principalmente através dos movimentos paredistas ou de ameaças deles, geraram grandes conquistas ao povo romano, através de séculos. É certo, porém, que a astúcia das elites e o poder suasório do dinheiro e das riquezas, via de regra, reduziram sensivelmente os efeitos dessas conquistas e mantiveram os privilégios dos ricos, que, não raro, recorreram mesmo à força e aos assassinatos para manterem as vantagens conquistadas.

NOTAS 
1) Eutropius, Breviarium ab Urbe Condita, I.
2) Estrabo. Historia, V.2.2.
3) Titus Livius, Res Romanae ab Urbe Condita, 1, 56, 7.
4) Idem, ibidem, 1, 46.
5) Eutropius, Breviarium ab Urbe Condita, VI.
6) Titus Livius, Res Roanae ab Urbe Condita, 1, 56, 7.
7) Eutropius, Breviarium ab Urbe Condita, IX.
8) Idem, ibidem, X.
9) Titus Livius, Res Romanae ab Urbe Condita, 1, 8.
10) Aulus Gelius, Noctes Atticae, vi, 13.

BIBLIOGRAFIA
AULUS GELIUS. Noctes Atticae, Paris : Editions Garnier Freres,1948.
ESTRABO. Historia. Paris : Les Belles Lettres, 1947.
EUTROPIUS. Breviarium ab Urbe Condita. Paris: Les Belles Lettres, 1946.
TITUS LIVIUS. Res Romanae ab Urbe Condita. Paris : Les Belles Lettres, 1953.

[1] A palavra senex, em Latim, significa velho; senador, portanto, significa mais velho.

ROMA - RIO TIBRE COM CASTELO SANT'ANGELO AO FUNDO
ROMA - PIAZZA DEL POPOLO
ROMA - TIBRE - PONTE ÉLIO - PONS AELIUS
ROMA - RIO TIBRE
ROMA - PIAZZA DEL POPOLO
ROMA - PIAZZA DEL POPOLO - ONDE NERO FOI ASSASSINADO
MOEDAS NA ANTIGA ROMA


DENÁRIO
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

         A palavra denário, em português, segundo o dicionário Houaiss, significa algo que contém o número dez, ou moeda romana antiga. Hoje, com essa forma, é pouco usada. O importante para língua portuguesa é o termo latino denarius, que originou a palavra dinheiro, em nosso idioma.
         Para entender esse processo, é importante compreender o sistema monetário romano. A partir de 211 a. C., no III século, portanto, durante a República Romana, regularizou-se o sistema de moedas romanas. Criou-se o aureus (significa áureo ou de ouro), a moeda mais valiosa; depois vinha o denarius (décima parte do aureus – daí origina-se seu nome); a seguir, o sestertius, moeda de bronze (cujo nome provém de semis-tertius que significa dois e meio, pois ele valia dois e meio asses, a moeda seguinte) o sestércio valia centésima parte do aureus, deu origem ao nosso centavo; a menor moeda romana era de cobre e chamava-se asse (ás), representava uma medida de peso, que equivalia a 12 onças (unciae) o que equivalia a uma libra latina de cobre(327g).
         A palavra denarius, com pequenas transformações fonéticas, conhecidas como metaplasmos, transformou-se em nosso termo português dinheiro, que, segundo o dicionário Houaiss consiste em meio de pagamento, na forma de moedas ou cédulas, emitido e controlado pelo governo de cada país ou cédula e moeda us. como meio de pagamento. Vejam-se as moedas romanas a seguir:

AUREUS

DENARIUS
SESTERTIUS

ASSE


         As imagens das moedas acima foram tomadas aleatoriamente. Cada governante, cônsul o imperador cunhava suas moedas, imprimindo-lhes sua imagem. Esse sistema monetário não era fixo. Foi modificado diversas vezes durante os séculos, mas manteve-se como base do sistema monetário romano.


JOGOS OLÍMPICOS - OLYMPICS
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

     Por ocasião de nossa Copa do Mundo de Futebol, parece-me  oportuno lembrar os jogos olímpicos, desde sua criação na Grécia Antiga e seu posterior desenvolvimento pelos romanos por mais de mil anos.

Cristina com o Costa Concórdia ao fundo.

         Os jogos foram criados como uma forma de sublimar a guerra. No século VIII a. C, mais precisamente em 776 a. C., ocorreram as primeiras olimpíadas, em Olympia, pequena vila olímpica, construída para a realização dos jogos, a 30 km do atual porto de Katakolon.
          Seria importante recordar a finalidade dos esportes sempre que se promovem certames de qualquer natureza.
          Em Olympia foi construído um templo em honra de Zeus, que era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Havia, próximo ao estádio, também um grandioso templo edificado em homenagem a Hera, esposa de Zeus.
          Um outro edifício, também em ruínas era a palestra: prédio destinado aos atletas, com locais próprios aos treinamentos. Ao lado da palestra havia um hotel para os visitantes.
        O lugar visto com os olhos de hoje é muito singelo. Abaixo estão algumas imagens de Olympia feitas por mim e minha esposa Cristina, em fevereiro de 2008, quando participávamos de um cruzeiro no famoso COSTA CONCÓRDIA.
     "Os Jogos Olímpicos eram os mais importantes jogos pan-helênicos, tendo sido proibidos pelo imperador cristão Teodósio I em 393 d. C., por serem uma manifestação de rituais do paganismo.
Uma importante fonte sobre os jogos é Pausânias (século II d.C.), autor do livro Descrição da Grécia, um guia da Grécia baseado nas suas viagens pelo território. Outra importante fonte é um tratado sobre a ginástica de Filóstrato de Lemnos(século II-III d.C).
A escultura e a cerâmica gregas representaram não só os atletas como a própria prática desportiva. No que diz respeito à escultura, que tinha no bronze e no mármore os materiais predilectos, muitos trabalhos sobreviveram apenas como cópias da era romana. De algumas estátuas ficou apenas a base, onde se encontram gravadas inscrições relativas ao atleta, fornecedoras de informação. Por último, as moedas cunhadas em determinadas pólis retratam determinada modalidade desportiva na qual a cidade se destacou."
Wikipédia
           Pórtico construído pelos romanos na entrada do Estádio Olímpico com a finalidade de cobrar ingressos.


 Ainda o pórtico de entrada.

Mitologia
     "Segundo os estudiosos da antiguidade de Élis, da época de Pausânias, o templo de Olímpia foi feito pelos homens da região na época em que Cronos era o rei dos deuses, a chamada Idade de Ouro. Quando Reia deixou  Zeusaos cuidados dos dáctilos, ou curetes, de Ida. Héracles de Ida, o mais velho, derrotou seus irmãos em uma corrida, e foi coroado com um ramo de oliveira. A partir daí, os jogos passaram a ser celebrados a cada quinto ano, pois eram cinco os irmão (Héracles, Paeonaeus, Epimedes, Iasius e Idas).

     Segundo algumas versões, Zeus derrotou Cronos em Olímpia, mas outras versões dizem que ele celebrou lá jogos para comemorar sua vitória.  O campeão de vitórias entre os deuses foi  Apolo, que venceu Hermes na corrida e Ares no pugilismo; por este motivo, a flauta é tocada quando os competidores do pentatlo estão na prova de salto, pois a flauta é sagrada a Apolo.

     Cinquenta anos após o dilúvio de Deucalião, Clímeno, filho de Cardis, descendente de Héracles de Ida, veio de Creta para Olímpia e fundou um altar para seu ancestral Héracles e os outros curetes. Clímeno foi deposto por Endimião, filho de Étlio, que deixou o reino para o seu filho que vencesse uma corrida.
     Os próximos a celebrarem jogos em Olímpia foram  Pélope, Amythaon, filho de Creteu, os irmãos Neleu e Pélias. Áugias e Héracles, filho de Anfitrião. Óxilo foi o último desta era a celebrar os jogos, que não voltaram a ser celebrados até seu descendente Ifitos de Ilía." Wikipédia

     Os jogos olímpicos tiveram tamanha importância na história da antiguidade que passaram a ser o divisor dos tempos. Entre os povos antigos, mesmo entre os romanos, quando se marcava uma data, citava-se tantos anos depois dos jogos olímpicos.

 Singela pista do Estádio Olímpico

Ainda a pista do Estádio


     "Os Jogos Olímpicos decorriam no santuário de Zeus em Olímpia que era feito de mármore cristalizado situado na região ocidental do Peloponeso, a cerca de 15 quilômetros do Mar Jônio, que separa a Grécia da Itália, próximo da confluência dos rios Alfeus e Cladeos. Este santuário retira o seu nome ao Monte Olimpo (que se situa longe do local, na Tessália, norte da Grécia), ponto mais elevado da Grécia continental, com 2917 metros de altura e que era na mitologia grega a residência das divindades.

     O núcleo de Olímpia era o Áltis, um bosque sagrado. No centro do bosque existia um templo em estilo dórico dedicado a Zeus, que foi construído entre 468 e 456 a.C., em cujo interior se encontrava uma estátua colossal do deus da autoria de Fídias e que era considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo."



Novamente a entrada do Estádio

estádio


Os participantes
Atletas - imagem da época


     Não poderiam participar nos jogos os estrangeiros (os  "bárbaros" segundo a mentalidade grega, todo o cidadão que não pertencesse a uma das cidades-estados gregas era considerado bárbaro), os escravos e as mulheres. Conta-se o caso de uma mulher que, vestida com roupas masculinas, disfarçou-se de treinador para entrar no ginásio e ver seu filho lutar. O filho venceu a prova e a mãe, comemorando a vitória, deixou cair seu disfarce. Descobriram que era mulher.

     Os atletas eram de uma forma geral oriundos das classes mais favorecidas e tinham sido iniciados no desporto desde tenra idade. Não vinham apenas da Grécia continental, mas de todos os pontos do mundo grego que na Antiguidade incluía as colônias espalhadas pelas costas do Mediterrâneo e do Mar Negro. Os vencedores eram alvo da homenagem da sua cidade: poderiam receber alimentação gratuita, terem estátuas erguidas em sua honra e serem cantados pelos poetas.

Estádio
Organização
     "A organização dos jogos foi da responsabilidade da pólis de Élide. Em 668 a. C Fídon de Argos conquistou Olímpia e entregou o controle  do santuário à cidade de Pisa, que organizou os jogos até  558 a. C.,  ano em que Élide retomou o controle sobre Olímpia graças à intervenção de Esparta."

Pista do Estádio - Não havia arquibancadas, apenas grama na encosta.
Ruínas do Templo de Zeus
Ainda as ruínas do Templo de Zeus

Os juízes


     "Os Jogos Olímpicos eram supervisionados por juízes, os helanócides ("juízes dos Helenos"). Estes juízes eram oriundos do seio da nobreza de Élide, sendo escolhidos à sorte dez meses antes do início do festival; o número de juízes variou ao longo dos tempos. Os juízes eram responsáveis pelo envio dos arautos. Deveriam também garantir o bom estado dos edifícios do santuário e garantir o policiamento e segurança. Intervinham igualmente nas provas, sorteando os atletas, arbitrando as provas e proclamando os vencedores, os quais coroavam. Os juízes realizavam um juramento através do qual se comprometiam a julgar de forma imparcial os concorrentes e a guardar sigilo sobre aspectos relacionados com um atleta. Também ordenavam a execução dos castigos aos atletas e treinadores que não tinham cumprido as regras; estes poderiam ser punidos com açoites em local público, algo que entre os Gregos encontrava-se em geral reservado aos escravos. No caso de suborno, previam-se multas elevadas, cujo dinheiro revertida para pagar estátuas em bronze de Zeus, expostas no santuário. Os atletas e os treinadores chegavam a Élide com um mês de antecedência para treinarem sob supervisão dos juízes. Julga-se que durante este período os atletas que não era considerados aptos ou que não cumpriam os critérios de participação eram excluídos."
Provas
Corrida com armas

Eram as seguintes:


Corridas pedestres

     "As corridas pedestres incluíam quatro tipos de corridas: o estádio, o diaulós (ou duplo estádio), o dolichos e o holitódromo (ou corrida com armas). O estádio era a prova mais antiga e de maior prestígio, já que o seu vencedor daria o seu nome aos jogos. Consistia numa corrida de 192 metros, o comprimento do estádio; diaulós correspondia a uma corrida de 384 metros. Quanto ao dolichos, era uma corrida que variava entre os 7 e os 24 estádios. A corrida com armas variava entre os 2 e os 4 estádios e nela os atletas levavam o capacete e o escudo dos hoplitas, o que poderia ser penoso dado o peso que representava este armamento. Para evitar a fraude, os escudos usados pelos atletas eram guardados no Templo de Zeus, de modo a evitar que alguém corresse com um escudo que fosse mais leve."
Corridas equestres

     "Este tipo de prova incluía as corridas de carros ou de cavalo de sela. Nas primeiras poderiam usar-se dois cavalos (bigas) ou quatro cavalos (quadrigas). As quadrigas teriam sido introduzidas nos Jogos Olímpicos pela primeira vez em 680 a.C.. e as corridas de cavalo de sela em 648 a.C. Uma corrida de carros consistia em doze voltas ao hipódromo, tendo cada volta entre 823 e 914 metros; a corrida de cavalo era uma volta do hipódromo.
     Não eram os homens que tinham vencido as corridas que recebiam as coroas, mas os donos dos cavalos, dado que estes implicavam custos que só os mais ricos poderiam suportar. Assim, algumas mulheres com posses e políticos tornaram-se vencedores destas corridas, sem nunca terem participado nelas."

Luta, pugilato e pancrácio

Vaso que representa cena de luta

     "A luta nasceu no Próximo Oriente, tendo sido adaptada pelos Gregos talvez na época micênica. Tinha como deus padroeiro Hermes.
     Na luta grega era necessário provocar três vezes a queda do adversário para se consagrar vencedor. Considerava-se que tinha ocorrido uma queda quando as costas, ombros ou peito do adversário tinham tocado o chão. Antes de iniciarem a luta os concorrentes untavam o corpo com azeite e deitavam um pouco de terra para evitar que a pele se tornasse escorregadia. A prova não possuía um tempo limite. Era permitido partir os dedos do adversário, mas não era permitido realizar ataques na região genital ou recorrer a mordeduras. Existiam provas reservadas aos homens adultos e aos rapazes.
     A prática do pugilato na Grécia Antiga remonta ao século VIII a.C.. Apenas se poderia atacar com os punhos e os concorrentes envolviam os dedos com tiras de couro. Não existiam assaltos nem categorias baseadas no peso dos atletas. O jogo terminava quando um dos atletas ficava inconsciente ou colocava um dedo no ar em sinal de desistência."

     O pancário era uma combinação da luta e do pugilato, sendo o seu resultado uma prova extremamente violenta, cujos concorrentes poderiam mesmo vir a morrer. Tudo era permitido, com excepção de enfiar dedos nos olhos, atacar a região genital, arranhar ou morder. A vitória ocorria quando um dos atletas já não conseguia continuar a lutar, levantando um dedo para que o juiz percebesse.
      Para cada um destes desportos, existiam provas reservadas aos homens adultos e aos rapazes." wikipédia
Um atleta realiza o salto em comprimento
 munido com dois halteres

Pentatlo

     "O pentatlo dos Gregos antigos era diferente do pentatlo moderno, sendo composto pelo lançamento de disco, lançamento de dardo, salto em comprimento (distância), a corrida de estádio (semelhante aos 200 m) e a luta.

     O disco lançado pelos atletas pesava cerca de 9,5 quilos e poderia ser feito de pedra, ferro ou bronze. O vencedor era aquele que conseguisse lançar o disco o mais longe possível e  sendo também considerado um herói. Quanto ao dardo possuía a altura de um homem e era feito em madeira. No salto em comprimento (distância) recorria-se a quatro halteres que impulsionavam o atleta na subida e que eram depois atirados quando este descia.

     Caso um atleta tivesse vencido as seis primeiras provas do pentatlo, não se realizavam as duas últimas.
Data de introdução das provas
776 a. C.: Estádio (stadion)". 


Estádio Olímpico











"Reconstituição do programa:

Dia 1
Manhã
Cerimônia de juramento dos atletas e dos juízes no Bouleuterion (edifício que abrigava o conselho dos cidadãos)  perante a estátua de Zeus Korkios (Zeus dos Juramentos)

Provas de luta, pugilato e pancrácio para rapazes.

Consulta de oráculos. 

Tarde 

Palestras públicas de filósofos e historiadores. Recitais de poesia.



Dia 2
Manhã

Corridas equestres. Os concorrentes entram no hipódromo em procissão.
Tarde
Pentatlo
Fim da tarde e noite

Cerimônias no santuário de Pélops, identificado pela tradição como o primeiro vencedor dos jogos. 
Reconstituição das suas cerimônias fúnebres.

Desfile no Áltis dos vencedores, em honra dos quais são entoados hinos. 
Banquetes.


Dia 3
Manhã

Procissão formada por todos os atletas, juízes e embaixadores das póleis gregas (que transportam vasos de ouro e prata que representam a riqueza das suas localidades) pelo Áltis. 
A procissão pára em frente ao Grande Altar de Zeus, onde se realiza o sacrifício de 100 bois oferecido pelo povo de Élide.

Tarde

Corridas pedestres
Noite

Banquete no Pritaneu (era a sede dos prítanes, ou seja, dos membros do governo das cidades-estados da Grécia Antiga), do qual participam os atletas, os convidados e os espectadores, recorrendo-se à carne utilizada no sacrifício feito de manhã.


Dia 4
Manhã
Luta
Meio-dia

Pugilato e pancrácio.
Tarde

Corrida com armas.


Dia 5

Procissão liderada pelos atletas vencedores até ao Templo de Zeus, onde serão premiados um por um com uma coroa de louro atribuída pelos juízes. 
Os espectadores atiram pétalas e folhas sobre os vencedores. 
À noite, grandes festas e banquetes.

No dia seguinte os atletas, espectadores e embaixadores iniciam a viagem de regresso às suas terras."
Ruínas da Palestra
Ainda a Palestra

          Restauração de uma coluna do Templo de Zeus para o visitante perceber a grandiosidade arquitetônica da construção.
Até em Olympia está a coca-cola


ORIGEM E HISTÓRIA DA PÁSCOA

FELIZ PÁSCOA!
BUONA PASQUA!
FELICES PASCUAS!
SCHÖNE OSTERN!
HAPPY EASTER!
GLAD PÅSK!
JOYEUSES PÂQUES!
CHRISTÓS ANESTI! 
WESOLYCH SWIAT!
GELUKKIG PAASFEST!
復活節快樂

Primeiramente a Páscoa judaica
        Segundo a tradição judaica, há mais de quatro mil anos, Abraão – o grande patriarca dos judeus – era um dos habitantes da cidade de Ur, na Caldeia, Mesopotâmia.
        Essa cidade situava-se no Oriente Médio onde hoje se situa o Iraque, entre os rios Tigre e Eufrates. Havia aí dois reinos: A Caldeia e a Assíria. Nessa época, toda aquela região era tomada por religiões politeístas que prestavam rituais e as mais variadas homenagens a uma extensa gama de deuses. Foi nesse tempo que, seguindo ao chamado divino, este lendário patriarca abandonou a sua terra natal em busca de Canaã, a terra prometida aos que seguissem o chamado do único e verdadeiro Deus.
        Segundo o texto bíblico, atendendo ao chamado do seu Deus e guiado por ele, Abraão dirigiu-se à terra de Canaã onde se estabeleceu e deu origem aos primeiros descendentes do povo judaico. No entanto, um período de grande estiagem e falta de alimentos forçou os judeus a se transferirem para o Egito em busca de melhores condições de vida. Após uma chegada relativamente amistosa, os hebreus acabaram sendo transformados em escravos dos egípcios e, desse modo, estiveram subjugados durante longo tempo.
        Desejavam eles sair daquele país e retornarem à sua terra de origem, Canaã, porém, faraó não lhes permitia a partida, pois necessitava de sua mão-de-obra. O mandatário egípcio foi alertado que sua intransigência seria severamente castigada com o envio de dez pragas que assolariam a população egípcia. Após sofrer com tamanha maldição, o governo egípcio permitiu que os hebreus saíssem daquela terra e voltassem até Canaã. Ao conseguirem tamanha proeza, os judeus determinaram aquela data como uma das mais importantes de seu calendário religioso.
        Neste ano de 2014, a Páscoa judaica inicia no dia 15 de abril do calendário gregoriano que vigora no acidente em geral. A partir da noite deste dia por sete ou oito dias, os judeus de todo o mundo comemoram a festa de Pessach, conhecida como “a Páscoa judaica”. Segundo a história descrita no livro de Êxodos, Pessach é a festa da liberdade, pois é realizada para comemorar a saída do povo judeu do Egito, onde eram escravos, para a terra de Israel.
A Páscoa Cristã
RESSURREXIT SICUT DIXIT.

        O dia da Páscoa cristã, que marca a ressurreição de Cristo, de acordo com o decreto do papa Gregório XIII (Ugo Boncampagni, 1502-1585), Inter Gravissimas em 24.02.1582, seguindo o primeiro concílio de Nicéia de 325 d.C., convocado pelo imperador romano Constantino, é o primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre em ou logo após 21 de março , data fixada para o equinócio de primavera no hemisfério norte. Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas, que, sem levar totalmente em conta o movimento complexo da Lua, podia ser calculada facilmente, e está próxima da lua real.
        De acordo com essas regras, a Páscoa nunca acontece antes de 22 de março nem depois de 25 de abril. A Quarta-Feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa e, portanto, a Terça-Feira de carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa.
        Para calcular a data da Páscoa para qualquer ano no calendário Gregoriano (o calendário civil no Brasil), usa-se a seguinte fórmula, com todas as variáveis e operações inteiras, com os restos das divisões ignorados. Usa-se a para ano, m para mês, e d para dia.

c = a/100
n = a - [19×(a/19)]
k = (c - 17)/25
i = c - c/4 - [(c-k)/3] +(19×n) + 15
i = i - [30×(i/30)]
i = i - {(i/28)×[1-(i/28)]×[29/(i+1)]×[(21-n)/11]}
j = a + a/4 + i + 2 -c + c/4
j = j - [7×(j/7)]
l = i – j
m = 3 + [(l+40)/44]
d = l + 28 - [31×(m/4)]

Por exemplo, para o ano de 2000,
a = 2000
c = 2000/100=20
n = 2 000-19×(2000/19)=2000-19×105=5
k = (20-17)/25=0
i = 20-(20/4)-[(20-0)/3]+(19×5)+15=20-5-6+95+15=119
i = 119-30×(119/30)=119-(30×3)=29
i = 29-{(29/28)×[1-(29/28)]×(29/30)×[(21-5)/11]}=29-{1×0×0×1}=29
j = 2000+500+29+2-20+5=2516
j = 2516-[7×(2516/7)]=2516-[7×359]=3
l = 29-3=26
m = 3+[(26+40)/44]=3+1=4
d = 26+28-(31×1)=23
com a páscoa em 23 de abril de 2000. Este algoritmo é de J.-M. Oudin (1940) e impresso no Explanatory Supplement to the Astronomical Almanac, ed. P.K. Seidelmann (1992).
        A Páscoa sempre ocorre entre 22 de março e 25 de abril. Para as igrejas ortodoxas, a data da Páscoa é dada pelo calendário Juliano e não pelo gregoriano.

Mensagem Pascal e Benção “Urbi et Orbi”
Balcão Central da Basílica Vaticana
Domingo, 20 de abril de 2014

Há cristãos que parecem ter escolhido uma Quaresma sem Páscoa (…)
Chegamos a ser plenamente humanos quando somos mais do que humanos, quando permitimos que Deus nos conduza para além de nós mesmos, a fim de que alcancemos o nosso ser mais verdadeiro.
Papa Francisco
Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, nn. 6.8

Boletim da Santa Sé

Queridos brasileiros,
Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recordo a vitória da Páscoa: <<É para a liberdade que Cristo nos libertou>> (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: <<Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!>>. Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõe este ano o tema “Fraternidade e Tráfico Humano”.
Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! <<A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência>> (Discurso aos novos Embaixadores, 12/XII/2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?
Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais... E isso – pasmem! A troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós:<< “Abbá, Pai!”>> (cf. Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf. Evangelii gaudium, 75).
Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.
Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.


Francisco


A CONTROVERTIDA FIGURA DE SÊNECA NA CORTE DE NERO
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

* Trabalho Apresentado no Seminário Internacional de Estudos Históricos - FURG - Rio Grande - 2004 - ISBN85 -7566-033-0

Acomodar-se com a pobreza é ser rico: se és pobre, não é por teres pouco, mas sim por desejares
muito. (Sêneca).
1615 – Museu do Prado – Madri.
Morte de Sêneca– Peter Paul Rubens -
Este estudo aborda as controvérsias na vida do ilustre filósofo romano, nascido em Córdoba, Lúcio Aneu Sêneca (Lucius Annaeus Seneca). A convite de Agripina, mãe de Nero e esposa do imperador Cláudio, foi Sêneca preceptor do cruel e depravado imperador romano.
         Nascido na Espanha, que então fazia parte do Império Romano, sob o reinado do poderoso imperador Augusto, no ano 4 da era cristã, era filho do professor de retórica Marcus Annaeus Seneca, conhecido como Sêneca o Retor.
         Pertencia a uma abastada família cordobesa que se transferiu para Roma no ano 31 d. C., tendo o jovem Lúcio já de há muito, desde o governo de Tibério, migrado para a capital do império. É conhecido como Sêneca o Moço, ou Sêneca o Filósofo, enquanto seu pai às vezes é chamado também de Sêneca o Velho.
         Sua mãe Hélvia, com apenas 16 anos, contraíra matrimônio com o velho orador que então tinha 51. Acreditava ela que somente pela educação se poderia vencer na vida e, por isso, estimulou o filho e depois toda a família a transferir-se para Roma, maior centro cultural desses tempos.
         Aos catorze anos, o jovem espanhol começou seus estudos de filosofia e retórica com o objetivo de fazer carreira política na capital do poderoso Império Romano. Em 26, adoece e vai tratar-se no agradável clima do Egito onde seu tio era governador. Sua tia materna era casada com Gaius Gallerius, governador do Egito. Aí permanece o jovem filósofo por seis anos.
         No Egito, recebe complementação aprimorada em sua formação educacional, mormente no campo religioso. De volta a Roma, retorna à advocacia, profissão que já exercera antes de sua ida para o Egito.
         A esse tempo,  iniciou sua carreira de escritor que o ocuparia até o fim da vida. Sua produção literária está basicamente ligada à filosofia estoica. Também traduziu diversas tragédias gregas e escreveu outras tantas de gosto latino. As tragédias de Sêneca prestam-se muito mais à leitura do que à encenação. Um grande exemplo do gênero é sua Medeia.
         Paralelamente, sempre atuou como advogado, o que já fazia mesmo antes de sua doença que o levara ao Egito. Porém, destacou-se também na ação política em que atingiu a cobiçada função de senador. Parece que para isso contribuiu o auxílio de sua tia.
         Alcançou tal renome na tribuna senatorial que suscitou a inveja do imperador Calígula. O maníaco ter-se-ia irritado ao ouvir um de seus discursos e teria decidido eliminá-lo. Por interferência de uma das amantes do tresloucado Calígula, a qual teria afirmado estar o filósofo já tísico e próximo da morte, foi poupado da condenação.           Porém suas desgraças não tardariam a chegar. Após o assassinato de Calígula, com a ascensão do novo imperador e por influência da esposa desse, o filósofo foi exilado, como se verá mais adiante.
         O velho Claudius (Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus) era sobrinho de Augusto. Apenas havia sido poupado nos expurgos a possíveis pretendentes ao trono, promovidos tanto por Augusto quanto por Tibério, porque o consideravam demente.    
         Com a morte de Calígula, não havendo outro candidato ao trono em idade adulta, o Senado confirmou seu nome. Era, a esse tempo, casado com a encantadora Valéria Messalina, que foi o pivô da perseguição movida contra Sêneca.

Valéria Messalina com o filho Britanicus

         Em 41 d. C., a imperatriz o acusa de adultério com Júlia Livila, sobrinha do imperador. Messalina desejava livrar-se dessa irmã mais jovem do imperador Calígula e urdiu essa trama para mandá-la ao exílio. Como consequência, foi o filósofo exilado para a Córsega, ilha do mar Tirreno. 
         Acontece que a jovem imperatriz era poderosa e influente, com reputação de ser promíscua. Ela era também prima pelo lado do pai de Nero, prima de segundo grau de Calígula e sobrinha-bisneta do grande imperador Augusto. Era filha de Marco Valério Messala Barbato e de Domícia Lépida.  Messalina teria em torno de 17 anos quando veio a casar-se com Cláudio, que tinha 48, era manco e epiléptico.
         Porém, o que parecera uma desgraça, tirou-o do burburinho romano permitiu-lhe tempo para a reflexão filosófica. No exílio, em meio a grandes privações materiais, Sêneca dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos. Entre eles, os três intitulados Consolationes ("Consolos"), em que expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais e busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação.
         Messalina, por sua vez, tem seu período de desgraça que vai culminar com sua derradeira condenação. É provável que ela não fosse o símbolo da depravação que a literatura e a história fizeram dela. Seria uma mulher fútil e infiel, como o eram grande parte das damas da corte romana, desocupadas e abandonadas por seus maridos, envoltos em lutas políticas e divertimentos com todo o tipo de amantes.
         O grande historiador Tácito, cuja obra chega a ser, em certas passagens, um verdadeiro fuxico sobre os vícios e hábitos da elite romana, afirma que a grande dama esposa de Cláudio era conhecida como meretrix maxima.
         Tácito (Publius Gaius Cornelius Tacitus) pertencia à mais alta sociedade de Roma por casamento: sua esposa era filha do grande general Iulius Agricola. Sua família pertencia à ordem dos cavaleiros, uma classe de segundo escalão na sociedade romana. Convivera , no entanto, com a mais requintada sociedade romana e afirma-se que teria recebido o diário íntimo de Agripina Minor, mãe de Nero, ao saber que seria assassinada.
         As acusações de excessos sexuais, principalmente, eram uma tática já testada e aprovada para macular a reputação de pessoas de projeção. Geralmente escondia motivações e interesses políticos.
         Dois relatos foram os principais culpados pela má reputação da imperatriz para todo sempre. Um é a narrativa de uma suposta competição de sexo com uma prostituta no livro X da Natualis Historia, de Gaius Plinius Secundus, que teria durado 24 horas e que Messalina teria vencido com um placar de 25 parceiros diferentes.
         Também o poeta Decimus Iunius Iuvenalis apresenta uma descrição igualmente famosa em sua Sexta Satira de como a imperatriz costumava trabalhar clandestinamente, a noite toda, num bordel com o nome fictício de Lupa (Loba).
         Pela simples acusação de escritores interesseiros, nada se pode concluir a propósito da moral de Valéria Messalina. Especialmente o poeta Juvenal é pouco digno de credibilidade, pois era um desclassificado na sociedade romana, tanto que foi expulso da cidade por crime de calúnia.
         Foi exilado para o Egito, de onde jamais lhe foi permitido retornar à cidade. Conta-se que teria recebido como pretenso prêmio uma viagem ao Egito. Somente ao lá chegar é que percebera o embuste. Todas as companhias de navegação haviam sido subornadas para não trazê-lo de volta.
         É lógico que remexia em feridas sociais verdadeiras também. Porém, isso não ameniza a baixeza de caráter que o nutria e os péssimos métodos de que se utilizava para ganhar dinheiro. Conta-se que tinha aversão a homossexuais e teria feito uma sátira nesse sentido contra o imperador Adriano.
         Havia um costume, nesse período em que não havia imprensa, de se confeccionarem cartazes que eram colocados estrategicamente em ambientes públicos. Marcial e Juvenal viviam de extorquir cidadãos com ameaças de difamação pública. Com o temor da vergonha de se verem eles e suas famílias expostos à chacota pública através de sátiras poéticas, cidadãos inocentes pagavam aos chantagistas. Embora Juvenal tenha vivido muitos anos depois de Messalina, usou o nome dela como símbolo para estabelecer um parâmetro de comparação com as damas de seu tempo.
         Porém, voltando a Messalina e à sua condenação, consta que  Cláudio, cansado das denúncias, falsas ou não, e enfurecido com a reputação da esposa, também acusada de conspiração, condenou-a à morte, insensível a todos os apelos dela. Com a ausência de Messalina, houve uma grande disputa pelo leito do imperador. Muitas famílias ambiciosas desejavam ver suas moças ligadas ao trono.
         Acontece que, havia uma que gozava de uma posição privilegiada nessa disputa. Tratava-se de Agripina Menor, quarta filha de Agrippina Maior e Iulius Caesar Germanicus, irmão do ex-imperador Tibério. Ela tinha três irmãos, Nero Julius Caesar GermanicusDrusus Iulius Caesar e Gaius Iulius Caesar Augustus Germanicus, o futuro imperador Calígula, e duas irmãs mais novas,  Iulia Drusilla e  Iulia Livilla.
         Os dois irmãos mais velhos e sua mãe caíram vítimas das intrigas palacianas do prefeito pretoriano Lucius Aelius Seianus, que governou alguns anos em substituição de seu tio e imperador Tibério (Tiberius Claudius Nero Cæsar). Ela era também sobrinha do viúvo imperador Cláudio e mãe do futuro imperador Nero, então ainda menino, tinha em torno de 12 anos. Tinha ela, a essa época, por volta de 30 anos e Cláudio 59.
         Agripina tivera diversos matrimônios anteriores ao de seu casamento com Cláudio. Tinha fama de envenenar maridos para herdar-lhes a fortuna. Porém, seu primeiro casamento foi memorável. Depois de seu décimo terceiro aniversário, em 28, o imperador Tibério arranjou para que a sobrinha casasse com o tio dela em segundo grau pelo lado paterno, Cneu Domício Enobarbo. 
         Domício vinha da distinta família dos Enobarbos, de status consular. Pelo lado da mãe, Antônia Maior, Domício era sobrinho neto de Augusto, primo de Cláudio e primo de segundo grau de Agripina e Calígula. Desse primeiro matrimônio de Agripina viria a nascer o imperador Nero.
         Domício era homem com fama de crudelíssimo. Segundo uma tradição, divertia-se em torturar escravos. Ao saber da gravidez da esposa, ter-lhe-ia perguntado: O que poderá sair de nós dois?
         Depois de Messalina ser executada no ano seguinte por conspirar para derrubar o marido, com Caio Sílio, também acusado de ser seu amante, o asqueroso Cláudio desejava casar-se já pela quarta vez.     Alguns historiadores modernos conjeturam, mesmo sem provas cabais, que o Senado teria feito manobras para que o imperador se casasse com Agripina. Ela representava o fim da disputa entre a gens Iulia e da gens Claudia, pois possuía sangue de ambas as famílias.
         Augusto, da gens Iulia, à qual pertencia o Ilustre Júlio César seu tio avô, ao tornar-se imperador, selara seu terceiro matrimônio com Lívia Drusila, filha de Marco Druso Claudiano, portanto de gens Claudia. Por ocasião do casamento, Lívia já tinha um filho, Tibério, e estava Grávida de outro, Gaio Germânico, filhos de seu primeiro marido Tibério Cláudio Nero. Augusto (Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus), tinham esse nome por adoção do tio Júlio César, porém, tinha também seu nome primitivo  de família, que era Gaio Otávio Júlio Torino (Gaius Octavianus Iulius Thurinus).
         Como Augusto, que reinou por quase 50 anos, não tivesse filhos homens, tinha apenas uma filha chamada Júlia, com a velhice, adotou os enteados, primeiramente Gaio Germânico, e, com a morte deste, por fim, Tibério, que veio a ser seu sucessor no trono. Isso apenas para entender a disputa entre as duas famílias pelo trono, cuja dinastia passou-se a chamar de Júlio-Claudiana.
         Voltando à situação de viuvez do imperador, seja por pressão do Senado ou pelos talentos e manobras de Agripina, Cláudio acabou se casando com ela, mesmo que o casamento de um tio com sua sobrinha fosse algo mal visto na sociedade romana da época.
         Nas festividades de Ano Novo de 49 d. C., Agripina e Cláudio celebraram com grande pompa seu matrimônio desaprovado por todos. Escritores antigos argumentam que este evento era resultado de parte do plano de Agripina para colocar Nero no trono.
         A nova imperatriz providenciou rapidamente a eliminação de Lolia Paulina, viúva de seu irmão e ex-imperador Calígula sob a acusação de magia negra. Não houve sequer julgamento, confiscou as posses dela e mandou-a para o exílio, forçando-a a cometer suicídio.
         Ocorre, porém, que Messalina deixara a Cláudio um casal de filhos, Cláudia Otávia e Britânico, que eram um obstáculo na pretensão de Agripina, qual seja tornar o filho dela Nero o futuro imperador.
         A primeira exigência de Cláudio para seu sucessor era que esse fosse um homem culto. Isto fez que, no mesmo ano de 49, ela mandasse chamar do exílio o filósofo Sêneca, a cujo encargo confiou a educação de Nero. O fato intrigante é que Sêneca, mesmo conhecendo o cenário que o aguardava, tenha aceitado a incumbência, talvez até mesmo para livrar-se do exílio.
         Ter-se-ia ele cansado de tantos anos, de 41 a 49 d. C, de sofrimentos e privações do exílio, afastado da vida suntuosa que a grande capital lhe proporcionava anteriormente? Teria cedido à possibilidade de retornar triunfante à sociedade que o banira e da qual estivera afastado por quase oito anos? O fato é que não somente aceitou o convite da nova imperatriz, como também se dedicou com afinco à educação do jovem príncipe.
         Traduziu obras do grego para o latim. Adaptou outras tantas ao gosto romano para que o sucessor de Cláudio fosse um homem sábio como o imperador exigia. Procurou mesmo infundir no seu discípulo os fundamentos da filosofia estoica que adotara.
         Agripina apressa-se em garantir o próprio poder através do filho. Com seus encantos e manobras, começa a manipular o marido e a todos para assegurar o trono ao filho. Uma série de manipulações e crimes são articulados por ela para atingir seus propósitos.
         Providencia, então, o casamento de Nero com Otávia, filha de Cláudio, em 09 de junho de 53, ao mesmo tempo em que Cláudio nomeia Nero seu sucessor, adotando-o como filho.
         Em 54, quando Nero já concluíra 16 anos e já fora nomeado sucessor da Cláudio, Agripina, finalmente, envenena o marido, segundo alguns historiadores. Segundo outros, menos numerosos, sua morte teria ocorrido por causas naturais.
         Nero, como filho adotivo de Cláudio, assume o poder porque era mais velho do que Britânico, filho natural. Porém, Agripina precisava precaver-se de possíveis manobras do Senado e da família real.
         Como medida de maior garantia, contrata facínoras para envenenar Britânico. O casal contratado para o isso encontrou à mesa provadores para evitar assassinatos. Então a própria Agripina obriga-o a ingerir o líquido letal. Testemunhas afirmam que ele revirou os olhos e morreu ainda na mesa. Tinha então de 13 para 14 anos. Afasta, dessa maneira, mais um obstáculo para atingir sua meta.
         Como Nero tivesse apenas 16 anos de idade, sendo, portanto, muito jovem ainda para enfrentar os encargos da administração de um Estado tão grande e tão complexo, segundo diversas fontes antigas, foi fortemente influenciado pela sua mãe durante a primeira etapa do seu reinado, pelo seu tutor Sêneca e pelo Prefeito do Pretório, Sexto Afrânio Burro. Esses dois últimos praticamente assumiram os encargos administrativos durante os cinco primeiros anos de sua administração.
         Essa primeira fase do seu reinado é conhecida como exemplo de boa condução dos negócios públicos nos quais os assuntos do Império foram tratados de maneira efetiva e o Senado gozou de influência e poder nos assuntos do Estado.
         Enquanto isso, Nero divertia-se com os amigos. Conta-se que costumava encapuzar-se e juntar-se a uma horda de jovens de má índole e promover desordens em bairros escuros da enorme cidade que a essa época já contava com mais de um milhão de habitantes.
         Gradativamente foram surgindo conflitos entre os interesses da mãe do imperador e os dos administradores Sêneca e Burro. O próprio Nero começou a imiscuir-se na administração. Chegou mesmo a um ponto de conflito em que o jovem mandatário passou a frequentar o tribunal. Sêneca julgava com prudência e justiça. Porém, Nero, com inveja do prestígio do mestre, exigiu o direito da decisão final. Assim, deixava que Sêneca se pronunciasse e invertia a decisão, condenando o justo e libertando o culpado.
         Uma péssima companhia que levou para o palácio e para a administração foi Ophonius Tigelinus, a quem primeiramente nomeou de chefe da Guarda Urbana (Vigiles Urbani), conhecida como “os olhos da cidade”, que se tornou especialmente mais truculenta do que já era. Por fim, Tigelino chega a ser nomeado Prefeito do Pretório, antiga função de Burro. O desclassificado tinha forte influência sobre o imperador que, por natureza já era impulsivo e destemperado.
         Afrânio Burro foi acusado de uma conspiração para o depor o regente. Por sua vez, Sêneca foi acusado de manter relações com Agripina e de malversação de recursos públicos. Apesar de absolvidos, a partir desse momento foi reduzida a importância política desses administradores na moderação das desastrosas medidas políticas de Nero.
         Seu relacionamento com Otávia sempre fora péssimo, porém, em 58, descobriu as delícias do leito de Popeia Sabina, esposa do seu amigo e futuro imperador Marcus Salvius Otho, em português Otão.  Ao mesmo tempo, passou a planejar o assassinato da própria mãe que concorria com ele pelo poder, chegando a cunhar moedas com efígie dela em uma face e a do filho na outra.
         Fez três tentativas para matá-la. A primeira é muito ingênua. Tenta envenená-la com figos silvestres. Sua mãe conhecia tudo de antídotos. Não se pode esquecer seu passado de envenenamentos. Essa ação serviu para alertá-la das intenções do filho.
         A segundo foi mais bem planejado. Convidou-a para um passeio de barco e colocou-a numa nave desconjuntada que deveria naufragar. Para ter absoluta certeza de que seu plano não fracassaria, mandou colocar sobre o teto do camarote reservado a ela e uma amiga, um enorme peso em chumbo, que deveria esmagá-la. Deu também ordem aos marinheiros de que a matassem sem conseguisse fugir.
         Ocorrido o desastre, o robusto reposteiro do leito sustentou o peso do chumbo, preservando a vida de ambas. A amiga dela pulou do camarote gritando: “Eu sou Agripina”. Foi trespassada pelas espadas dos guardas. Agripina jogou-se ao mar e, como fosse excelente nadadora, salvou-se das águas.
         Refugiou-se, então, por um longo tempo em sua casa de campo. Porém, devido à insistência do filho, retornou ao novo e suntuoso palácio que o maníaco imperador havia construído nas encostas dos montes Palatino, Esquilino e Célio, tendo aos fundos um grande lacus artificial, construído em antigos pântanos. Segundo alguns pesquisadores, esse imenso lago ocuparia uma área aproximada de 300 acres, em torno de 120 hectares (quadras). Denominou sua residência de Domus Aurea (Casa Dourada), por conter diversos salões e aposentos recobertos inteiramente com finas lâminas de ouro.
         Segundo o historiador romano Suetônio, o salão de banquetes dessa Domus girava constantemente sobre esferas deslizantes, imitando a rotação dos corpos celestes, movido por um contínuo fluxo de água.
         Devido à largueza dos espaços, por diversos dias eles não se encontraram. Porém, passado algum tempo, vinha o imperador seguido pela guarda pretoriana quando avistou Agripina. Ordenou aos guardas que a matassem.
         Ela teria ainda aberto suas vestes. (As romanas não usavam roupas íntimas). O filho, após fazer um breve comentário afirmando que sua mãe continuava muito linda, mandou que cumprissem suas ordens. Ele seguiu impávido enquanto o cadáver foi recolhido pelas criadas. Ela tinha apenas 43 anos.
         Há uma tradição menos plausível segundo a qual Nero teria mandado abrir o ventre a sua mãe para ver o lugar de onde havia saído. O fato real é que a mãe desejava infantilmente sobressair ao filho, o que este não admitia. Consta também na tradição que seria a própria mãe quem teria iniciado o filho na vida sexual.
         Com a morte da mãe, Nero oficializou seu matrimônio com Popeia Sabina, tendo-se divorciado de Otávia. Essa atitude tornou-o mais detestável ainda perante a sociedade romana, pois alegou infidelidade por parte dela, o que todos sabiam ser descarada mentira. Conseguiu falsas testemunhas e mandou-a para o exílio na ilha de Pandateria, hoje Ventotene, no mar Tirreno, onde ela foi assassinada.

Ilha de Pandateria, hoje Ventotene,
onde Cláudia Otávia foi assassinada

         Nero ordenou que lhe abrissem os pulsos, como faziam os suicidas e depois a sufocassem num banho térmico. Deceparam-lhe a cabeça e entregaram-na a Popeia Sabina.
         Depois foi a vez de Popeia. Ela estava grávida. Nero era dado a excessos de ira em que perdia totalmente o controle de si. Começou por bater-lhe. Ela caiu. Ele chutou seu ventre até abortar e morrer.          
         Quando se deu conta de seu ato, caiu em profundo arrependimento. Chorou demoradamente sobre o cadáver. Não permitiu que lhe incinerassem o corpo, de acordo com o costume romano. Mandou que a embalsamassem e sepultou-a no túmulo de Augusto, com honras de imperatriz.
         Casou-se ainda duas vezes. Em 66, com Estatília Messalina, que sobreviveu a ele. Por fim, com Sporus, um jovem que se assemelhava muito a Popeia, a quem mandou castrar. Segundo Tácito, fez uma cerimônia pública no lago de seu palácio. Mandou construir uma grande jangada em que passou a noite de núpcias num leito aberto à vista do público e relacionou-se com o jovem, chamando-o pelo nome de Popeia.
         Passou, então a uma fase de extremos desatinos. Primeiramente, condenou à morte, por inveja, o grande escritor Gaius Petronius Arbiter, a quem, por ser seu amigo, permitiu que escolhesse a forma como desejasse morrer.
         Petrônio fez um grande banquete com os amigos, pediu a seu médico lhe abrisse os pulsos. Bebeu e cantou muito. Pedia que lhe estancassem o sangue e posteriormente reabrissem os ferimentos até que, já sem forças, pediu que o colocassem no leito para que sua morte parecesse natural.
         O mesmo fez com Sêneca, que imitou Petrônio, porém com uma morte no âmbito privado. Reuniu alguns poucos amigos e servos. Ordenou que lhe abrissem os pulsos. Quando estava para morrer, pediu que o colocassem numa bacia de água quente, pois sentia frio.
         A terceira vítima entre os seus amigos foi seu colega de estudos Publius Terentius Afer. Por esses e outros incontáveis crimes, tornou-se mais execrável ainda aos olhos de todos.
         Pois Sêneca, por anos a fio, conviveu nessa corte perversa que ultrapassou qualquer limite de barbárie, crueldade, insensatez e maldade que a razão humana jamais poderia admitir. Foram 18 anos de loucura e impunidade até o suicídio/assassinato em 09 de junho de 68 d. C.. Com ele acabou a dinastia júlio-claudiana.
         Todas estas narrativas a respeito do período mais crítico, de maior corrupção e miséria de todo o Império Romano foram aventadas aqui para levantar diversos questionamentos sobre o verdadeiro pensamento de Sêneca.
         Já pela ocasião da morte de Cláudio foi Sêneca quem redigiu o discurso de elogio fúnebre que Nero proferiu na cerimônia, cheio de clemência, ridículo diante das péssimas relações entre eles.  
         Por ocasião do planejamento do assassinato da mãe, o filósofo limitou-se a lhe perguntar se deveria encarregar os soldados do assassinato, sem proferir uma única palavra para salvar Agripina. Saliente-se que ele esteve presente na corte até mesmo nesse assassinato e redigiu o discurso que Nero proferiu nas cerimônias das exéquias.
         Diversos historiadores põem em dúvida a honestidade administrativa do mestre espanhol. Acumulara uma fortuna de 300 milhões de sestércios, que era exagerada, mesmo para um homem rico. No tribunal do império, em que por diversos anos decidiu sem interferências, passavam processos de idosos sem herdeiros.
         Também, sempre fora condescendente com os desregramentos do discípulo e mesmo aparentava favorecê-los, para que, enquanto o jovem imperador perdia-se em suas orgias e crimes, sobrava ao mesmo maior espaço de ação.
         Quando ocorreu a morte de Burrus em 62, sua influência no poder diminuiu. Houve muitos protestos pondo em dúvida a origem das imensas riquezas que ele havia acumulado durante os anos em que vivera na Corte, os magnificentes jardins que construíra, a riqueza de suas casas de campo. Diante de tantas ameaças, afastou-se do palácio e retirou-se para a vida privada.
         Teve uma existência que oscilava entre o luxo e a austeridade, Nasceu rico. Teve o favorecimento da família, de modo especial de sua tia. Sua formação foi primorosa. Parece ser sincero no início da carreira e no exílio. No fim da vida, foi coerente com suas propostas estoicas. Mas viveu o período de 13 anos de fausto e luxúria na corte do mais depravado dos imperadores romanos que depõe contra ele.
         Veja-se, agora, sua longa lista de obras, todas marcadas pela mais coerente ligação aos ideais estoicos:
        
Diálogos
De Consolatione ad  Marciam
De Ira 
De Consolatione ad  Helviam matrem
De Consolatione ad Polybium
De Brevitate Vitæ 
De Otio 
De Tranquillitate Animi 
De Providentia 
De Constantia Sapientis 
De Vita Beata

Tragédias
Hercules furens 
Troades 
Phoenissae 
Medea 
Phaedra 
Oedipus 
Agamemnon
Thyestes 
Hercules Oetaeus 

Sátira
Divi Claudii Apokolokyntosis (O Divino Cláudio que se transforma em abóbora).
         Os seus livros filosóficos se constituem de uma coleção incorretamente classificada como diálogos, mas ele assim os denominou. Somente pertencem ao gênero diálogo, ao modo de Platão, De Otio e De Tranquillitate Animi. Os demais são dissertações de cunho soliloquial. Dentre suas obras, duas têm relação com sua própria vida. Em De Otio, justifica o abandono da vida pública e De Vita Beata.
         Veja-se que ócio, segundo entendiam os filósofos romanos, era o recolhimento para a reflexão, estudo e produção intelectual. Opunha-se à vida mundana. Até porque, de modo geral, o trabalho como entendemos hoje, era considerado indigno, degradante e reservado aos escravos e às classes inferiores.
         Em De Vita Beata, que poderia ser traduzido como Sobre a Vida Feliz, ou Sobre a Felicidade na Vida, discorre sobre o uso dos bens materiais, sobre o poder, por parte dos que ocupam funções elevadas e possuem riquezas, que devem aproveitar essa oportunidade para fazer o bem a seus semelhantes.
         No seu texto que intitula De Tranquillitate Animi, discorre sobre a filosofia estoica. Reporta-se ao tema da felicidade sob o ponto de vista prático. Afirma que todo o que vive em público corre o risco do desequilíbrio de espírito, que exige certo grau de tranquilidade para atingir a felicidade.
         Em suas obras de consolação, desenvolve o mesmo tema, dirigindo-se a pessoas específicas: a mãe Hélvia, Márcia e Políbio. O filósofo, que está no exílio, com grandeza de espírito, consola os que se preocupam com ele.
         Em seu texto sobre a Providência (De Providentia), exorta os que sofrem os reveses da vida a confiarem na Providência, que caracteriza como um conjunto de forças superiores que intervêm na realidade humana. Admite mesmo o suicídio como uma forma honrosa de se livrar de uma dor insuportável.
         Sêneca é um moralista, é um filósofo da vida prática. Teve forte influência sobre os pensadores cristãos, de modo especial Santo Agostinho e São Jerônimo. Acreditam eles que o filósofo romano tenha se encontrado com o apóstolo São Paulo, que lhe é contemporâneo, e viveu por muitos anos em Roma. Aliás, tanto Paulo, quanto Pedro foram executados por ordem de Nero. Paulo, onde se encontra a maravilhosa catedral de são Paulo extra-murus e Pedro, onde s encontra a atual Igreja do Vaticano.
         É difícil crer que um homem que por tantos anos, mais de treze, tivesse convivido com o ambiente abjeto da corte de Nero e, aparentemente, compactuado com tantas barbaridades, convivendo com indivíduos criminosos, corruptos e essencialmente maus, ficasse imune a esse clima, como leva a crer a temática de suas obras.

BIBLIOGRAFIA
1.   BRITO, Gilda. (1981). Literatura latina: síntese histórica. Rio de Janeiro: Souza Marques.
2.   Eutropius. (1886) Eutropii Breviarium.  from The Tertullian Project.
3.   PARATORE, Ettore. (1983) História da literatura latina. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
4.   ROSTAGNI, Augusto. Storia della letteratura latina. Torino: Mondadori.
5.   SOUZA, Rômulo Augusto de. (1977). História da literatura latina. Belém: Serviço de Imprensa Universitária.

6.   Tacitus, Publius Cornelius. (1906) Annales




TROIA HISTÓRICA – TROIA MÍTICA   --  HISTORICAL TROY - TROY MYTHICAL


PRIMEIRAMENTE A TROIA HISTÓRICA


“A esplendorosa civilização micênica, que, lato sensuse estendeu do século XVI ao XII a. C., e cuja expansão colonizadora já havia atingido o litoral asiático, culminou com a histórica Guerra de Troia.
Deixemos claro o que se entende por civilização micênica, também conhecida por civilização heládica. O termo micênica provém de Micenas (Μυκήνες), centro civilizatório reduzido hoje a um campo arqueológico, situado cera de 90 km de Atenas. O termo heládica origina-se do nome λλάς (Helás), genitivo  λλάδος (Heládos) pelo qual os gregos denominavam a Grécia, também conhecida como Hélade.
A Guerra de Troia “Dez anos míticos” de um assédio sangrento teriam posto fim à gloriosa Ílion ou Troia. Hodiernamente não se põe mais em dúvida na apenas a existência de Troia, que deve ter sido uma superposição de cidadelas muito importantes, desde o terceiro milênio até o século XII a. C., mas sobretudo a sua destruição histórica pelos aqueus, primeiros gregos a habitarem o Mediterrâneo, os quais foram chamados por Homero de dânaos.

Ruínas de Micenas

O primeiro passo para o descobrimento da ‘Troia homérica’ foi dado por Heinrich Schliemann, que, a partir de 1870, fazendo escavações na colina de Hissarlik, na atual Turquia, a noroeste da Ásia Menor, encontrou várias cidades sobrepostas, nada menos que sete, a que seu extraordinário ajudante, o arqueólogo Wilhelm Dörpfeld, acrescentou mais duas. Schliemann, a princípio, pensou que a Troia II fosse a Homérica, mas a experiência e a cultura de Dörpfeld fizeram-no inclinar-se para a Troia VI, que possuía restos de cerâmica muitíssimo semelhantes à de Micenas e Tirinto. Por este e outros indícios conclui-se que a Troia VI fora erigida em 1900 a. C., por um povo sem dúvida proveniente também do mundo indo-europeu para a Ásia Menor. Cultivando a cerâmica mínia, esse povo não apenas mantinha um comércio ativo com os micênicos, mas, o que é mais importante, devia ter um possível parentesco com os primeiros gregos.
Trata-se, segundo toas as probabilidades, dos hititas. Cercada por magnífica muralha, Troia VI era uma cidade opulenta, cuja prosperidade se baseava na fertilidade de seu solo, na pecuária e na criação de cavalos. Os troianos são comumente chamados por Homero de ‘domadores de cavalos’, como atesta o último verso da Ilíada, em que o maior dos heróis de Troia recebe este epíteto:
- Assim, eles (os Troianos) fizeram os funerais de Heitor, domador de cavalos. (Il., XXIV, 804).
As escavações em Ílion ou Troia terminaram sob a direção de W. Blegen e, consoante o grande mestre da Universidade de Cincinati, Troia VI foi destruída por um tremor de terra, seguindo-lhe, sem nenhuma solução de continuidade nem de cultura, embora sem a opulência da anterior Troia VIIa. com todas as possibilidades de ser a cidade de Príamo, a Troia homérica, a Troia histórica. Aliás, alguns outros fatos rigorosamente históricos, relacionados por Page, confirmam a historicidade da Guerra de Troia. Há registros hititas de uma aliança de cidades da Ásia Menor, entre as quais aparece Ílion ou Troia, contra uma coligação de reinos aqueus, ~ pelo século XIII a. C., exatamente no momento do grande poderio de Micenas, e, coincidentemente, da destruição de Ílion que deve ter-se processado ~ enter 1230 e 1225 a. C., segundo os arqueólogos americanos, com uma diferença de poucos decênios em relação à data tradicional da Guerra de Troia. Esta, consoante o geógrafo e philologus, alexandrino do século III a. C., Eratóstenes de Cirene fora em 1183 a. C.
Ruínas de Troia


A Ilíada funde, pois, o fausto de Troia VI com a ruína da Troia VIIa. Com a VI, que trouxera consigo o cavalo, se dera início a uma civilização diferente da anterior. Troia VIII que ainda se sobrepôs à Troia VIIa, culturalmente nada apresenta de importante e Troia IX é de uma data muito tardia.
Discutem-se ainda as causas dessa guerra. Uma vasta operação de pilhagem ou uma bem planejada operação de expansão imperialista, para se apossar de vastos domínios territoriais no Mediterrâneo Oriental e assegurar o monopólio aqueu de um grande e rico empório? Na realidade, é grande o número de objetos micênicos encontrados nas margens do Mediterrâneo, o que atesta a sua expansão comercial. Para o expansivo comércio helênico, não bastavam, porém, as ‘praças’ conquistadas no Mediterrâneo Oriental. Avançaram também em direção ao Egito, com o qual mantiveram excelentes relações comerciais.
Descobrimentos arqueológicos demonstraram inúmeros objetos egípcios chegados à Grécia nos séculos XIV e XIII a. C. e, em contrapartida, desenterram-se no país dos Faraós numerosos vasos micênicos, principalmente em Tell-el-Amarna, a célebre Akhetaton, a efêmera capital do ‘herético’ :Akhnaton ou Amenófis IV. Disputaram com o Egito e os hititas, já em decadência, as praças da Síria e da Fenícia. Penetrando pelo interior, chegaram até Jericó...
Os aqueus, por conseguinte, não se satisfizeram com a ocupação de Creta, Rodes e Chipre, mas conquistaram estabelecimentos comerciais em toda costa do Mediterrâneo Oriental, desde Tróada até o Egito e isto sem falar em sua ‘expansão ocidental’, que atingiu, comprovadamente, Tarento e Siracusa. Ora, um tal império marítimo haveria, mais cedo ou mais tarde, chocar-se com interesses de outros povos. E foi exatamente o que aconteceu. Os micênicos, que já se haviam instalado em Mileto e Cólofon e tinham e Troia um excelente cliente, para a qual vendiam punhais de bronze, pontas de flecha, mármore e objetos de marfim e sobretudo vasos, acabaram chocando-se com o império hitita e com o reino vassalo de Asuwa. Daí, possivelmente, a supracitada coligação de vinte e duas cidades da Ásia Menor, entre as quais se alinhava Troia, contra os aqueus. Essa é, em síntese, a tese de Denys Page.

GRÉCIA ANTIGA

Pierre Lévêque, apoiado em outros autores, julga que seria um método muito estranho o empregado pelos aqueus, para ampliar seu negócio: destruir precisamente uma cidade que com eles mantinha um comércio ativo e regular. Opina o ilustre Professor de Besançon que a Guerra e a consequente  destruição de Ílion se deveram simplesmente ‘a uma gigantesca operação de pilhagem’. É mister, no entanto, não esquecer que a riquíssima cidadela de Troia (as escavações o mostram), no momento, fazia parte de uma coligação contra os micênicos. Estes, astutamente, teriam aproveitado a oportunidade para destruir o inimigo e confiscar-lhe as riquezas.
De qualquer forma, a Guerra de Troia foi o canto de cisne do ‘império’ aqueu. A derradeira expedição em que heróis destemidos se consagraram para impor-se no Mediterrâneo Oriental. Tudo não teria passado de mais uma gesta, certamente heroica, não fora a epopeia homérica, que imortalizou o arrojo e o arrebatamento de Aquiles, a astúcia e a ‘nostalgia’ de Ulisses, a fidelidade de Penélope, a dignidade de Heitor e a ternura de Andrômaca!
Mais um pouco e as trevas dóricas descerão sobre a Hélade.
A civilização micênica havia, pois, atingido seu clímax, quando lá pelos inícios do século XII a. C. chegaram à Hélade as últimas levas de invasores indo-europeus tradicionalmente denominados dórios. É inteiramente impossível, todavia, localizar no tempo um movimento que se processou lentamente ao longo dos séculos. Uma coisa, porém, parece indiscutível: o incêndio de Hatusa, a capital do império hitita, na Ásia Menor, com o consequente desmoronamento deste mesmo império; (Os hititas eram um povo indo-europeu que fundou um império poderoso na Anatólia no II milênio a. C. que se estendia até a Mesopotâmia e à Palestina.) a ameaça que pesou sobre o Egito por parte dos povos do mar, contida com dificuldade por Ramsés III, bem como a destruição dos grades centros da civilização micênica, seguida de uma completa ruptura e desagregação política, religiosa e cultural do mundo aqueu, devem-se à erupção violenta dos dóricos.
Partindo do Danúbio e da Ilíria (A Ilíria era uma nação que habitava as regiões que iniciavam na Macedônia Balcânica), esses ‘gregos’ já conhecedores do ferro, aguerridos e violentos, penetraram em vagas sucessivas pelo Epiro e, através da Macedônia e da Tessália, lograram apossar-se, grosso modo, de toda a Grécia continental, bem como de várias ilhas, principalmente de Creta, chegando até Rodes.
Dessa grande calamidade sobraram, ao que parece, as ilhas de Eubeia, Chipre e Ática, com sua Atenas eterna, talvez deixada de lado pela pobreza de seu pequeno território.
Ao apagar das luzes do século XI a. C, chegou ao fim a catástrofe que submergiu toda a civilização micênica.
Exatamente como as invasões dóricas, as migrações aqueias, jônicas e eólicas, fugindo ao vencedor, se fizeram paulatinamente, no tempo e no espaço, em direção à Ásia Menor. Essas migrações, é bom acentuar, que já haviam começado em plena época micênica, bem antes portanto das invasões dóricas e que prosseguiram durante e por causa das mesmas, tiveram continuidade por motivos outros, sobretudo de ordem política e econômica, até o século IX a. C.
Assim, a época da provável ‘composição’ da Ilíada (século IX a. C), a Grécia da Ásia, reduzida a um esquema muito simples, apresenta-se seccionada em três zonas étnicas: ao norte, a Eólida, com as ilhas de Tênedos e Lesbos; ao centro, a Jônia, com as grandes cidades de Mileto, Cólofon, Focéia, Éfeso e as ilhas de Samos e Quios; ao sul, a Dórida, com as cidades de Halicarnasso, Cnido e as ilhas de Cos e Rodes.
As invasões dóricas, do ponto de vista mítico, coincidem com o chamado Retorno dos Heraclidas, isto é, lato sensutodos os filhoas e descendentes de Héracles até a geração mais remota, mas, no mito, denominam-se Heraclidas particularmente os filhos do herói com Dejanira e os descendentes destes que colonizaram o Peloponeso, conforme este quadro genealógico:
Héracles------------------------------------------Dejanira
êHilo, Ctesipo, Gleno, Hodites e Macária   ê
   ¯
Cleodeu
   ¯
Aristômaco
   ¯
Têmeno
Após a morte trágica de Héracles no monte Eta e sua gloriosa apoteose, os filhos fugiram do Peloponeso, temendo a cólera de seu primo Euristeu, que impusera ao herói os célebres Doze Trabalhos. Após uma curta permanência na corte do rei Cêix, em Traquine, refugiaram-se em Atenas, onde Teseu, sem recear a pressão e as ameaças de Euristeu, lhes deu hospitalidade. Este declarou guerra aos atenienses, mas na batalha perdeu os cinco filhos. Perseguido por Hilo, Euristeu foi morto junto aos Rochedos Cirônicos, no Istmo de Corinto. A vitória, de acordo com a previsão do oráculo, se deveu ao sacrifício de uma das filhas de Héracles, Macária, que se ofereceu voluntariamente para morrer pelo bom êxito de Atenas e dos Heraclidas contra o despotismo de Euristeu.
HÉRACLES E O LEÃO DE NEEMEIA

Com o desaparecimento deste e dos filhos, Hilo com seus irmãos e descendentes e apoderou-se do Peloponeso. Ao cabo de um ano, porém, uma peste se abateu sobre a região e o oráculo revelou que a mesma era consequência da cólera divina, porque os Heraclidas haviam retornado antes do tempo fixado pela Moîra. Obedientes, voltaram para a Ática, fixando-se na planície de Maratona.
Desejoso, porém, de regressar à pátria, Hilo, a essa época, já casado com Íole, outrora concubina de seu pai, e ao qual os irmãos consideravam como o verdadeiro herdeiro da tradição paterna, voltou a consultar o oráculo de Delfos. A Pítia lhe respondeu que a aspiração dos Heraclidas só poderia ser alcançada ‘após a terceira colheita’.
À frente dos seus, ‘após a terceira colheita’, Hilo avançou contra o Peloponeso, mas se chocou com as tropas de Équemo, rei de Tégea, cunhado dos Dioscuros, de Helena e de Clitemnestra. Tendo- desafiado para um combate singular, Hilo foi vencido e morto. Seu neto Aristômaco voltou a consultar a Pítia que lhe respondeu:
 Sacerdotisa de Delfos,  profetizava os oráculos(1891), deJohn Collier



‘Os deuses te darão a vitória, se atacares pela via estreita’. Aristômaco interpretou que a ‘via estreita’ era o istmo de Corinto. Atacou novamente a Équemo, mas foi morto e, mais uma vez, os Heraclidas foram vencidos. Têmeno, filho de Aristômaco, e bisneto de Hilo, fez mais uma tentativa junto de Apolo. Este se limitou a repetir e renovar as respostas anteriores. Têmeno obsevou à Pítia que seu pai e bisavô, tendo seguido escrupulosamente a determinação do oráculo,foram vencidos e mortos.
Replicou-lhe Apolo que a culpa havia sido deles, que não haviam sabido interpretar corretamente o oráculo: ‘por terceira colheita se deveria entender terceira geração e, por ‘via estreita’ a via do mar e os estreitos entre a costa da Grécia continental e a do Peloponeso.’
Têmeno formava com seus irmãos a terceira geração após Hilo e, tendo compreendido agora o oráculo, pôs-se a construir uma verdadeira frota em Naupacto, na costa da Lócrida, mas a morte do adivinho Carno por um dos Heraclidas fez que uma imensa tempestade dispersasse a frota e houve uma fome tão grande, que todos debandaram.
Mais uma consulta a Apolo. O deus respondeu que as calamidades se deviam ao assassinato de Carno e que qa vitória dependia do banimento do homicida por dez anos e de um ‘guia de três olhos’. O assassino foi expulso e, um dia, apareceu no acampamento dos descendentes de Héracles ‘um ser de três olhos’: um caolho montado num cavalo. Esse caolho era Óxilo, rei da Élida, de onde fora expulso por um ano, por causa de um homicídio involuntário.
O rei se dispôs a guiá-los, desde que tivesse o apoio dos mesmos, para recuperar o trono. Travada a batalha, a vitória, desta feita, foi da ‘terceira geração. O rei do Peloponeso, Tisâmeno, filho de Orestes, foi morto e suas tropas destroçadas. O Peloponeso foi, a partir de então, dividido em três reinos básicos: Argólida, Lacônia r Messênia. A Élida teve seu rei Óxilo de volta e a Arcádia permaneceu nas mãos de seus primitivos habitantes. Um século após a morte de Héracles, seus descendentes voltaram ao Peloponeso.
O retorno dos Heraclidas reflete as lutas sangrentas travadas pelos invasores dórios contra os aqueus e o auxílio que àqueles foi prestado ‘por guias’ e chefes de um clã aqueu no exílio.
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Com as invasões dórias houve, já disse, uma completa ruptura e desagregação política, social, religiosa e cultural do mundo aqueu.
Durante séculos se afirmou que os dórios havia ‘criado’ na Hélade duas novidades de importância capital: a metalurgia do ferro e a cerâmica geométrica e que a conquista do Peloponeso se devera à superioridade das armas de ferro dórias sobre o armamento de bronze dos aqueus. Quanto ao ferro, não foi mesmo ‘inventado’ nem tampouco usado pela vez primeira pelos dórios. A metalurgia do ferro já se conhecia bem antes na Anatólia e seu monopólio pertencia aos hititas. Com a ruína do império centrado em Hatusa, o uso do ferro se difundiu pela Palestina e Creta, depois pela Grécia, possivelmente, isso sim pelos dórios. A cerâmica geométrica, que predominou na Hélade de ~ 1100 a 750 a. C., não é também criação dória: surgiu, na realidade, da arte micênica e, coincidentemente, alcançou seu maior esplendor em terras não dominadas pelos dórios: Atenas e a ilha de Chipre.
“As grandes ‘novidades’ dórias foram no plano social e religioso. Fortemente organizadas em torno de seus chefes militares, os invasores estavam ainda muito presos e ligados à primitiva e belicosa sociedade indo-europeia. Reinava entre eles uma patrilinhagem feroz, dada a superioridade do homem como guerreiro. Houve, nesse sentido, um retrocesso muito sério em relação aos reinos aqueus, onde a mulher, mercê da influência matrilinear cretense, gozava de uma liberdade, de uma estima e de um respeito, que nunca mais ela terá, ao menos na Grécia continental.
Vivendo em comunidades, indissoluvelmente ligados pela camaradagem bélica, os homens prolongavam na vida diária essa convivência íntima, própria da guerra em que estavam de contínuo empenhados. Desse modus vivendi originaram-se, certamente, dois hábitos, que se hão de perpetuar no helenismo: a nudez do atleta e a pederastia. (...)

A TROIA MITOLÓGICA

Falou-se da Ílion histórica, de uma guerra histórica, mas existe também uma Troia mítica, com sua guerra gigantesca de dez anos. Tudo começou com o rapto de Helena, mulher de Menelau, um dos filhos amaldiçoados de Atreu. Vamos mostrar o mito e suas consequências, desde os primórdios.
Tétis (Thetis), que é preciso não confundir com a titânida Tétis (Tethýs), era a mais bela das nereidas, filha do Velho do Mar, Nereu, e de Dóris. Zeus e Posídon queriam conquistá-la, mas um oráculo de Têmis revelou que o filho nascido do enlace da nereida com um dos dois seria mais poderoso que o pai.
De imediato, os dois deuses desistiram de seu intento e, para afastar qualquer ameaça, apressaram-se em conseguir para ela um marido mortal. Outros mitógrafos atribuem o oráculo a Prometeu, que havia predito que o filho de Zeus e Tétis se tornaria o senhor do mundo, após destronar o pai.
O centauro Quirão, sem perda de tempo, começou a orientar seu discípulo Peleu no sentido de conquistar a filha imortal de Nereu. Apesar de todas as sucessivas metamorfoses de Tétis, o que é próprio das divindades do mar, , em fogo, água, vento, árvore, pássaro, tigre, leão, serpente e, por fim, em verga, Peleu, orientado por Quirão, a segurou firmemente e a deusa, embora contra a vontade, deu-se por vencida.
Para as bodas solenes de Tétis e Peleu, no monte Pélion, compareceram rodos os deuses. As musas cantaram o epitalâmio e todos os imortais ofereceram lembranças aos noivos. Entre as ais apreciadas e notáveis destacam-se uma lança de carvalho, dádiva de Quirão, e o presente de Posídon, dois cavalos imortais, Bálio e Xanto, os mesmos que na Guerra de Troia, serão atrelados ao carro do bravo Aquiles.
O casamento do discípulo de Quirão com a filha de Nereu foi um desastre. Já haviam tido seis filhos, mas, na ânsia de imortalizá-los, Tétis sempre acabava por matá-los. Assim foi, até que Peleu lhe tomou das mãos o sétimo, o caçula Aquiles, no momento em que a nereida, na tentativa de imortalizá-lo, segurava-o pelo calcanhar direito, o temperava ao fogo.
Outra versão assevera que Tétis, segurando-lhe o mesmo calcanhar, o mergulhava nas perigosas águas  do rio infernal Estige, que tinham o dom de tornar invulnerável tudo o que nelas fosse introduzido. Na realidade, Aquiles era invulnerável, menos o calcanhar por onde a mãe o segurou...
CASAMENTO DE PELEU E TÉTIS - ROTTENHAMMER

Tétis, inconformada com a atitude do marido, a quem, aliás, não amava, o abandonou para sempre. Embora confiando ao pai o filho caçula, jamais deixou de ajudá-lo e protegê-lo por todos os meios a seu alcance, como se pode ver através de toda a Ilíada. A Moîra, porém, tem os seus desígnios e Aquiles perecerá muito jovem, exatamente pelo calcanhar não temperado pelo fogo ou não banhado pelas águas do Estige.
De qualquer forma, foi durante as núpcias de Tétis e Peleu que Éris, a Discórdia, com certeza ‘convidada a não comparecer’ ao monte Pélion, deixou cair ente os deuses a maçã de ouro, o Pomo da Discórdia, destinado à mais bela das três deusas ali presentes: Hera, Atená e Afrodite. In continenti se levantou uma grande disputa e altercação entre as três. Não se atrevendo nenhum dos deuses a assumir responsabilidade da escolha, Zeus encarregou Hermes de conduzir as três imortais ao monte Ida, na Ásia Menor, onde seriam julgadas pelo ‘pastor Páris ou Alexandre.
Antes de lhe conhecer a decisão, uma palavra sobre o extenso mito do pastor do monte Ida. Páris ou Alexandre era o filho caçula de Príamo, rei de Troia, e de sua esposa Hécuba. Esta, nos últimos dias de gravidez, sonhou que estava dando à luz uma tocha que incendiava a cidade.
Príamo consultou se filho bastardo Ésaco e obteve como resposta que o nascituro seria a ruína de Ílion. O rei, por isso mesmo, mandou matar a criança, tão logo nasceu, mas Hécuba o entregou ao pastor Agesilau, para que o expusesse o monte Ida. O servo assim fez, mas, regressando cinco dias depois, encontrou uma ursa amamentando o menino.
Impressionado, Agesilau o recolheu e criou ou, segundo uma variante, o entregou aos pastores do Ida, para que o fizessem. Páris cresceu forte e belo, tornando-se um pegureiro corajoso, que defendia o gado contra os ladrões e os animais selvagens, recebendo, por isso mesmo o nome de Alexandre, isto é, ‘o protetor dos homens’, e, numa interpretação mais popular e mítica, ‘o que protege’ o rebanho ou ‘o homem protegido’, por não ter perecido no Monte Ida.
HELENA E PÁRIS

Certo dia, os servidores de Príamo foram buscar no rebanho, que Alexandre guardava, um touro pelo qual o pastor tinha particular estima. Inconformado com o fato de que o animal seria o prêmio do vencedor dos Jogos Fúnebres em memória do filho de Príamo, quer dizer, em honra do próprio Páris, que os pais reputavam morto, o valente zagal seguiu os servidores do rei, resolvido a participar do certame e recuperar seu animal favorito.
Alexandre participou das provas e venceu-as todas, competindo contra os próprios irmãos, que não sabiam quem era ele. Deífobo, um deles, irritado, quis matá-lo com a espada, mas o vencedor refugiou-se no altar de Zeus. Sua irmã, a profetisa Cassandra, o reconheceu e Príamo, feliz por ter reencontrado o filho, que julgava morto, acolheu-o e deu-lhe o lugar que lhe cabia no palácio real.
HELENA
Pois bem, foi a este Páris, quando ainda era pastor, que Zeus enviou Hermes com as três deusas que disputavam, com sua beleza, a maçã de ouro, a grande provocação de Éris, a Discórdia. Ao ver as divindades, o pastor teve medo e quis fugir, mas Hermes o persuadiu a funcionar como árbitro, em nome da vontade de Zeus.
As imortais expuseram então seus argumentos e defenderam sua própria causa e candidatura, oferecendo-lhe cada uma sua proteção e dons particulares se fosse por ele declarada vitoriosa.
Hera prometeu-lhe, se vencedora, o império da Ásia; Atená, a sabedoria e a vitória em todos os combates; Afrodite assegurava-lhe tão-somente o amor da mulher mais bela do mundo: Helena, mulher de Menelau, rainha de Esparta. Alexandre decidiu que a mais bela das três era Afrodite.
Até o dia desse julgamento fatídico, que provocará a Guerra de Troia, Páris amava a ninfa do Ida, chamada Enone. Conhecedora do futuro e hábil curandeira, ambos dons de Apolo, tudo fez para que Páris não a abandonasse. Ao ver que suas previsões e súplicas eram inúteis, disse-lhe, na despedida, que se fosse ferido, voltasse, pois só ela poderia curá-lo.
Da cidadela de Ílion, m companhia de Enéias, partiu Alexandre para Esparta, em busca de Helena. Heleno e Cassandra, filhos de Príamo, e ambos portadores de poderes divinatórios (manteía) previram o desfecho trágico da aventura, mas ninguém lhes deu ouvido.
No Peloponeso, Páris e Enéias foram acolhidos pelos Dioscuros, Castor e Pólux, irmãos de Helena, que os conduziram ao palácio real. Menelau os recebeu dentro das normas da sagrada hospitalidade e lhes apresentou Helena. Dias depois, tendo sido chamado a Creta, para assistir aos funerais de seu padrasto Catreu, o rei entregou os hóspedes à solicitude da esposa. Bem mais rápido do que se esperava, a rainha foi conquistada por Páris: era jovem belo, cercava-o o fausto oriental e tinha a ajuda indispensável de Afrodite. Helena, apaixonada, reuniu todos os tesouros que pôde e fugiu com Alexandre, levando várias escravas, inclusive a cativa Etra, mãe de Teseu, mas deixando em Esparta a filha Hermíona, com apenas nove anos. Regressando a Troia, Páris foi bem acolhido e toda a casa real, não obstante as terríveis profecias de Cassandra.
Sabedor de sua desgraça por Íris, mensageira dos imortais, o monarca voltou apressadamente a Esparta e, para tentar resolver pacificamente o grave problema, Menelau e Ulisses foram como embaixadores a Ílion. Reclamaram Helena e os tesouros carregados pelo casal. Páris se recusou devolver tanto Helena quanto os tesouros e ainda tentou convencer os troianos a matarem o rei de Esparta, que foi salvo por Antenor, companheiro e prudente conselheiro do velho Príamo. Com a recusa de Páris e sua traição a Menelau, a guerra se tornou inevitável.
Reunidos todos os reis e heróis, que haviam prestado juramento de solidariedade a Tíndaro, por ocasião do casamento de Helena,de que já se falou, deu-se início aos preparativos da grande expedição contra Troia.
Consultado o oráculo de Delfos acerca da oportunidade de se iniciar uma expedição militar contra Ílion, aquele respondeu que se oferecesse a Atená Prónoia, Atená ‘Providência’ porque era preciso tê-la in bono animo, um colar que Afrodite outrora dera a Helena.
MENELAU

Hera pôs-se, de imediato, ao lado de Menelau e tudo fez para reunir os heróis aqueus contra Páris, seu inimigo pessoal. É curioso, aliás como os deuses se dividiram, militarmente, nessa refrega, tendo cada um, evidentemente, seus motivos e interesses pessoais. Se ao lado dos helenos se aliaram Atená, Hera, Tétis, Posídon e Hefesto, nas fileiras troianas pelejavam Afrodite, Ares, Apolo e Ártemis.
Alguns deles foram até mesmo feridos em combate como Ares e Afrodite. Tem-se, não raro, a impressão, na leitura da Ilíada, de que a Guerra de Troia, em determinados momentos, foi mais uma teomaquia, uma luta de deuses, do que uma andromaquia, um confronto de heróis. Zeus posicionou-se como árbitro, não de todo isento: dependia, por vezes, do tom da voz feminina que lhe chegasse aos ouvidos... Em todo caso, pesava os destinos, confundindo-se muitas vezes, com a própria Moîra e, no fundo, sabedor de que a vitória final seria dos aqueus, soube retardá-la, para dar-lhe um brilho maior.
Concluída a digressão, é mister voltar aos preparativos para a sangrenta seara de Ares. Não foi fácil convocar alguns dos chefes e heróis indispensáveis para a vitória dos gregos. É o caso, entre outros, de Aquiles, sem cuja presença, consoante a profecia de Calcas, Troia não poderia ser conquistada. É que o herói fora escondido pela própria mãe. Tendo ciência de que o fim de Troia coincidiria com a morte do filho, Tétis vestiu-o com hábitos femininos e o conduziu para a corte do rei Licomedes, na ilha de Ciros, onde o herói passou a viver disfarçado no meio das filhas do rei com o nome de Pirra, Istoé, ruiva, porque o herói tinha cabelos loiro-avermelhados. Sob esse disfarce feminino, Aquiles se uniu a uma das princesas, Deidamia, e deu-lhe um filho, Neoptólemo, o mesmo que, mais tarde tomará o nome de Pirro.
Tendo conhecimento do esconderijo do filho de Tétis, Calcas o revelou aos atridas, que enviaram Ulisses e Diomedes para buscá-lo. Mesmo assim o maior dos heróis aqueus teve uma oportunidade de escolha, pois Tétis preveniu o filho do destino que o aguardava: se fosse a Troia, teria uma fama retumbante, mas sua vida seria breve; se, ao contrário, ficasse, viveria por longo tempo, mas sem glória.
Aquiles escolheu a vida breve e gloriosa. O historiador latino Caio Salústio Crispo (86~35 a. C.) muitos séculos depois, ainda faria ecoar a opção de Aquiles: ... et quoniam uita ipsaqua fruimurbreuis est, , memoriam nostri quam maxume longa, efficere... (De Coni. Cat. 1,3) ‘e já que a vida que desfrutamos é breve, devemos fazer por deixar de nós a mais longa memória’. E Marco Túlio Cícero (106-40 a. C.) parece ter-lhe completado o sentido: Breue enim tempus aetatissatis longum est ad bene honesteque uiuendum (De Sem., 19,70): ‘Curto, na verdade, é o tempo de nossa vida, mas é bastante longo para se viver bem e honradamente’.
Congregados, por fim, os grandes heróis, Aquiles, Ulisses, Ajax, Filoctetes, Diomedes, Agamênon, Menelau, Nestor... os aqueus partiram para Tróada. Apaziguada, como já se relatou, a cólera de Ártemis em Aulis, a gigantesca frota aqueia chegou a seu destino. Eram, ao todo, conforme o Catálogo das Naus Il., II494-769, mil cento e noventa e três naus! Nos dois primeiros cantos da Ilíada o combate propriamente ainda não começara, no terceiro ainda existia uma possibilidade de se resolver a grave situação, sem grande derramamento de sangue: a proposta foi do próprio Páris, que sugeriu um combate singular entre o ofendido, Menelau, e o ofensor, ele, Páris. Com o vencedor ficariam Helena e os tesouros. Travou-se a luta entre os heróis e, quando Menelau estava prestes a liquidar a Páris, Afrodite interveio. Envolveu o triano num manto de nuvens e o transportou para os braços de Helena, aliás o campo de batalha predileto de Alexandre, que, como herói e guerreiro, deixa muito a desejar! Agamênon reclamou a vitória de Menelau, mas nada conseguiu.
Houve, a seguir, um pequeno intervalo de tréguas, que foram logo rompidas por um aliado dos troianos, o lício Pândaro, que atirou uma seta contra Menelau. A partir desse momento começou realmente a cruenta refrega pela posse de Ílion, que só foi tomada e destruída após a morte de seu ínclito herói Heitor e, assim mesmo, graças a um genial estratagema inspirado por Atená, materializado por Epeu e que ‘um dia o divino Ulisses introduziu na cidadela, pejado de guerreiros que saquearam Ílion.’ Trata-se do Cavalo de Troia. A grande cidade grega já aparece no canto VIII da Odisseia pelos lábios do aedo Demódoco, e que foi magnificamente desenvolvida e enriquecida sete séculos depois no canto 2 da Eneida do mais inspirado poeta latino Públio Virgílio Marão (79-19 a. C.).
Fingindo uma retirada, canta Homero na Odisseia (VIII, 500-520), pela voz de Demódoco, parte dos aqueus, após incendiar as tendas, embarcou em suas naus, enquanto outros sentavam-se silenciosos em torno de Ulisses, dentro do cavalo, que os troianos haviam arrastado para dentro de Ílion. Grande era a querela dos vassalos de Príamo a respeito do que fazer com o gigantesco simulacro de madeira.
Três eram as propostas: abrir-lhe o bojo com o bronze; arremessá-lo do cimo dos rochedos ou poupar o grande simulacro como oferta propiciatória aos deuses. A terceira foi a vencedora, ‘porque era destino da cidade que fosse arruinada, quando tivesse dentro o grande cavalo de madeira, onde se escondiam todos os mais valentes dos argivos, que levavam aos troianos carnificina e morte. E o aedo cantava como os filhos aqueus, após saírem do cavalo e deixarem o bojo do monstro, destruíram Troia.’
Foram dez anos de ódio, de terror, de lágrimas, de vilania e de bravura indomável, de morte e de carnificina. No fim, tudo acabou. Ílion era um monte de cinzas e de pedras calcinadas. Milhares de heróis, bravos e destemidos, transformaram Troia num silencioso dormitório de mortos.
Aquiles, cujo destino estava traçado, foi morto ingloriamente por uma flecha disparada por Páris, que, escondido atrás da estátua de Apolo, o alvejou. A flecha, guiada pelo deus, atingiu o herói na única parte vulnerável do corpo, o calcanhar direito. Mas também o raptor de Helena estava com seus momentos cronometrados pela Moîra: foi mortalmente ferido por uma flecha de Filoctetes. Procurou desesperadamente o auxílio de Enone, a ninfa que ele abandonara no Monte Ida, pois somente ela poderia curá-lo. Enone, a princípio, se recusou atendê-lo, ainda amargurada com a ingratidão e infidelidade de Páris. Quando, por fim, resolveu socorrê-lo, era tarde demais.

ESPARTA

Após a morte de Alexandre, Helena se casou com Deífobo, também filho de Príamo e de Hécuba. Menelau, porém, foi ao encalço do casal e liquidou Deífobo. Quando levantou a espada para matar Helena, esta se lhe mostrou seminua e ressurgiram no rei de Esparta as chamas do antigo amor! Certamente, ao levantar a espada para descarregá-la na esposa infiel, Menelau estava irritado com o peso o capacete empenahachado de crinas e outros enfeites que lhe cobriam a cabeça... o retorno do casal, agora reconciliado, foi uma odisseia. Tempestades, naufrágios, calmarias, fome e uma permanência forçada de cinco anos no Egito marcaram-lhe o difícil regresso. Finalmente, após oito anos de sofrimentos, abriram-se de novo para o rei Menelau e a rainha Helena as altas porás do palácio de Esparta, onde Telêmaco, filho de Ulisses, em suas peregrinações em busca do pai, irá encontrá-los felizes e sorridentes!
Nestas alturas dos acontecimentos, os deuses já se haviam esquecido de Troia, perpetuando no Olimpio, sua imortalidade com o néctar e a ambrosia num sorriso interminável!
Menelau, apesar de na Ilíada e mesmo nos Poemas Cíclicos, não ter sido nenhum modelo de heroísmo e de apresentar-se como personagem apagada, indecisa e sem personalidade, mereceu, já em idade avançada, ser transportado em vida ara a Ilha dos Bem Aventurados. Um ‘prêmio’ dos imortais, talvez por ter sido genro de Zeus ou por sua rigorosa e pacífica fidelidade conjugal... Helena, por motivos que se dirão logo a seguir, teria ficado por aqui mesmo, em seus santuários, até mesmo porque, numa sociedade acentuadamente patrilinear, como a enfocada por Homero, uma mulher, embora filha de Zeus, dificilmente chegaria à Ilha de Avalon! Existe, porém, a variante mais tardia, segundo a qual a linda Helena se teria casado com Aquiles (post mortem) e o casal estaria vivendo no meio de festins na Ilha Branca, no mar Negro, na foz do rio Danúbio.
Falo-se, neste capítulo, no Rapto de Helena. Tal fato merece um ligeiro comentário. Helena não foi raptada apenas uma vez, mas duas. O mito da esposa de Menelau é deveras confuso e complexo. Inúmeras variantes posteriores a Homero parecem encobrir o sentido primitivo do mitologema. Filha de Zeus e de Leda, na epopeia homérica, seu pai ‘humano’ era Tíndaro e seus irmãos os Dioscuros, Castor e Pólux, e uma irmã Clitemnestra. Muito cedo, todavia, Helena tornou-se filha de Zeus e de Nêmesis. Esta, para fugir à tenaz perseguição de Zeus, símbolo da fecundação, percorreu o mundo inteiro, tomando todas as formas possíveis, até que, cansada, no outono, se metamorfoseou em gansa. O deus se transformou em cisne e a ela se uniu, em Ramnunte, perto de Maratona, na Ática.
Em consequência dessa união, Nêmesis pôs um ovo que foi escondido num bosque sagrado, ‘a semente guardada no seio da terra’. O ovo, encontrado por um pastor, foi entregue a Leda. Esta o guardou num cesto e, no tempo devido, nasceu Helena, que Leda criou como sua própria filha. A tradição que faz de Leda mãe de Helena narra o fato de maneira análoga: para evitar que Leda lhe escapasse, certamente também metamorfoseada em gansa, Zeus, sob a mesma forma de cisne, fê-la pôr um ovo, de que nasceu Helena. Segundo oura versão, eram dois ovos: de um nasceram Helena e Pólux que foram imortalizados pelo pai; do outro, Castor e Clitemnestra, ambos ‘mortais’.
Pois bem, esta personagem mítica especial, Helena, foi raptada, uma primeira vez, pelo herói ateniense Teseu, que a conduziu a Afidna, na Ática e a confiou a sua mãe Etra. Mas quando Teseu e seu amigo inseparável, Pirítoo, desceram ao Hades (morada dos mortos),para raptar Perséfone, deusa essencialmente da vegetação, os Dioscuros atacaram Afidna, levando de volta sua irmã e como cativa a mãe de Teseu, Etra, que, como já se viu, foi conduzida para Troia por Helena, quando do seu segundo rapto por Páris.
Ora, todos os fatos acima narrados acerca do nascimento da rainha de Esparta, sempre tendo, de um lado, por pai um deus da fecundação e por matriz um ovo, e, de outro, as fugas constantes de ‘suas mães’, Nêmesis e Leda e ‘seus raptos’  por Teseu e Páris, parecem levar a uma só conclusão: Helena teria sido primitivamente uma deusa ctônia e, por conseguinte, uma deusa da vegetação , uma guardiã dos ovos, das sementes depositadas no seio da terra. Como tal. Uma vítima destinada ao rapto. Com o tempo, ‘a deusa Helena’ suplantada por outras divindades da vegetação mais importantes, teria caído no esquecimento e passado à classe das heroínas, fato comum e bem atestado na mitologia.
Na realidade, o rapto de deusas, Perséfone, ‘Helena’; de heroínas, caso de Europa, Leda ou das Sabinas... fazem parte integrante não somente de um ritual de, mas também de um rito da vegetação, como ainda se pode observar em culturas primitivas. Normalmente, o rapto se consuma no outono, ‘quando trabalhos agrícolas estão terminados’, os celeiros estão cheios e é, portanto, o momento de se pensar e preparar a próxima colheita.
Na Grécia, no segundo ato do casamento, denominado pompé, ‘ação de conduzir’, a noiva, seguida de uma procissão alegre e festiva, é levada ou por arautos ou pelo marido, da casa paterna para seu novo lar. Não podendo penetrar com seus próprios pés na nova habitação, porque o fogo sagrado do lar ainda não fora aceso, a noiva simula uma fuga e começa a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a acompanham. O marido terá de raptá-la e com ela nos braços atravessa a porta com todo cuidado para que os pés da esposa não toquem a soleira.
No casamento romano, muitíssimo semelhante ao grego, não por imitação ou sincretismo, mas pela origem comum indo-europeia dos dois povos, repete-se o mesmo ritual. A segunda parte, denominada deductio in domum, ação de conduzir ao lar, quando o cortejo para em frente à casa do marido, a noiva simula a fuga e, raptada pelo marido, transpõe nos braços do mesmo a soleira.
O mundo moderno, embora tenha esquecido o valor iniciático e a sacralidade da fertilização do ritual do rapto da esposa, ainda, por vezes, sem o saber, o relembra. As noivas, ao menos as mais ‘dietéticas’, têm ou ‘tinham’ o direito de ser transportadas nos braços ‘hercúleos’ do marido para dentro do novo lar ou do quarto da primeira noite de núpcias!
Na expressão de Joseph L. Henderson, ‘O casamento pode considerar-se um rito de iniciação em que homem e mulher têm que submeter-se mutuamente. Em algumas sociedades, todavia, o homem compensa sua submissão ‘raptando’ ritualmente a noiva, como fazem os dyaks da Malaia e Bornéu. Hoje em dia existe uma reminiscência dessa prática no fato de o noivo cruzar a soleira da porta com a noiva nos braços.’
Na realidade, como acrescenta ainda o mesmo Joseph L. Henderson, ‘independentemente do medo neurótico de que as mães ou pais invisíveis podem estar espreitando atrás do véu do matrimônio, até mesmo um jovem normal pode sentir-se apreensivo com o rito matrimonial. O casamento é essencialmente um rito de iniciação da mulher, em que o homem há de sentir-se tudo, menos um herói conquistador. Por isso mesmo, não surpreende que se encontrem em sociedades tribais ritos compensadores de semelhante temor como o rapto e a violação da noiva.’”


(BRANDÃO 2002, p. 97/114)



THE AGRARIAN REFORMATION IN THE ANCIENT ROME - A REFORMA AGRÁRIA NA ROMA ANTIGA

* Este artigo foi publicado originalmente na REVISTA DA UCPEL - Universidade Católica de Pelotas, em 01 de junho de 1997- volume 7 - n 1 - EDUCAT - ISSN 0103-8788
 
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
RESUMO: O presente trabalho aborda a longa caminhada dos pequenos agricultores da Roma antiga, na busca da posse da terra e na luta por um processo de financiamento e distribuição dos produtos agrícolas mais justo e viável. Aborda suas conquistas e revezes durante mais de 500 anos da República Romana.
PALAVRAS-CHAVE: reforma agrária, República, justiça social.

ABSTRACT: This article tells about the ancient Rome’s small agriculturist, in pursuit of the possession of lands and in fighting for a more equitable and practicable financial process and agricultural products distribution. It focuses their conquests and failures during more than 500 years of the Roman Republic.
KAY WORDS: agrarian reformation, Republic, social justice.

            O problema agrário tem-se repetido de civilização em civilização. De um lado, está o latifúndio, muitas vezes pouco explorado e improdutivo, garantindo poder e dinheiro para seus proprietários; de outro, as pequenas propriedades rurais e os empregados do campo, com seus problemas característicos de financiamento da produção, de comercialização e mesmo de exploração frente aos setores mais aquinhoados da sociedade, como banqueiros, comerciantes e latifundiários.
         O presente artigo visa a abordar este problema que, à primeira vista, parece ser próprio dos nossos tempos, em outra realidade histórica e geográfica. Abordará as lutas pela posse da terra, os problemas de financiamento e comercialização dos produtos agrícolas, as estratégias empregadas pelos pretendentes a uma gleba rural, e as manobras políticas das elites para manter os privilégios no setor agrícola.
         A luta pela posse da terra e seus processos de exploração fazem parte de um conjunto muito mais amplo de lutas populares, iniciado com a implantação do sistema republicano de governo na antiga Roma.
         Limitados pela brevidade deste artigo, não nos ateremos a todo o sistema de mudança jurídico-administrativa ocorrida a partir do século VI a. C., nos primórdios da República Romana. Também para sermos didáticos, apenas abordaremos os elementos que nos parecem essenciais ao entendimento do tema alvo desta pesquisa.
         Os romanos implantaram um sistema de governo ao qual denominaram de República, que consistia basicamente no seguinte: o poder executivo era exercido por dois cônsules, com poderes iguais, cujo mandato era de apenas um ano, reelegíveis singularmente por mais um ano, eleitos pela Assembleia das Tribos.
         Nos primórdios, somente a classe dos patrícios poderia participar do processo, tanto como candidatos quanto como eleitores. Gradativamente, esse direito foi-se expandindo. Primeiramente foi estendido aos “equites”, ricos cidadãos que não pertenciam ao grupo dos fundadores da cidade e, por fim, a todo o cidadão livre, mesmo pertencente à plebe.
         Ao lado desse poder executivo, permanecia outra entidade mais antiga, criada junto com a monarquia, o Senado, cujos membros eram vitalícios, não eleitos, provenientes por herança dos cabeças de tribo dos fundadores da cidade.
         Como se pode perceber pela exposição acima, tratava-se de uma República excludente que foi, paulatinamente, por pressão das massas, incluindo mais e mais cidadãos, chegando a acolher membros dos povos conquistados. Privilegiava uma classe protegida por leis consuetudinárias, fundadas em remota tradição, cuja guarda e interpretação cabia às confrarias sacerdotais, formadas, exclusivamente por força de lei, por cidadãos patrícios.
         Porém, um crescente clima de insatisfação, que permeava todos os grupos sociais, crescia entre os excluídos desse processo. Desde os “equites”, ricos homens de negócios, que se ressentiam de não participarem do Consulado e do Senado, passando pelos plebeus ricos, alijados das regalias dos “equites” e atingindo a plebe geral que se ressentia de sua pobreza, que não raras vezes os levava à escravidão por dívidas, conforme previa a legislação romana.
         Devido a isso, como afirma Will Durant:

Em 494 a. C., grandes massas de plebeus se aglomeraram no Monte Sagrado, junto ao rio Ânio, a três milhas de Roma e declararam que não mais lutariam, não voltariam ao trabalho, antes que suas exigências não fossem atendidas. O Senado lançou mão de todos os recursos diplomáticos e religiosos para atrair os rebeldes; depois, receando que ao levante fora da cidade se somasse um levante intramuros, concordou com cancelar ou reduzir as dívidas, e em admitir dois tribunos e três edis como representantes eleitos da plebe. Os paredistas, então, voltaram... (Will Durant, 1957, p. 29).

         Esse primeiro movimento popular grevista marcou a abertura da luta expressa de classes que vai até a destruição da República. O passo imediato na conquista dos direitos pela plebe deu-se com a exigência de um código de leis escritas. Até então, eram os sacerdotes os guardiães e intérpretes da lei. Conservavam em segredo e monopólio os registros, as exigências e rituais da lei para usá-los como armas contra qualquer tentativa de mudança social.
         Passou-se o tempo e muitas mudanças se deram nas classes urbanas como conquistas das lutas sociais. Porém, os agricultores tiveram uma luta muito mais árdua, sempre apoiados por alguns tribunos da plebe e por alguns magistrados da elite patrícia, como é o caso dos irmãos Gracos, Tibério e Caio.
         Muitas reformas exigidas pela plebe acabaram acontecendo por efeito de manobras das elites. Ocorreu que muitos políticos plebeus não puderam prosseguir em suas carreiras devido à sua pobreza, uma vez que os mais elevados cargos administrativos não eram remunerados e exigiam grandes recursos dos seus detentores para cumprir suas funções.
         No ano 376 a. C., sentindo a problemática da plebe no que se refere ao processo agrário, dois tribunos, Sexto e Licínio, propuseram uma lei agrária, incluída num conjunto de reformas políticas. Essa foi a primeira tentativa concreta de reforma agrária na antiga Roma.
         As principais propostas dessa lei eram as seguintes:
a)    Os juros já pagos pelos pequenos agricultores referentes aos empréstimos para o plantio agrícola deveriam ser abatidos do principal, com balanço final fechado em três anos;
b)   Nenhum homem poderia possuir mais de 500 iugera de terra (cerca de 121 hectares, mais ou menos 300 acres).
         A lei também regulava o uso de escravos e trabalhadores livres no campo. O Senado, durante dez anos, resistiu em atender a essas propostas, fomentando guerras e dissensões. Por fim, sob ameaça de novo movimento grevista, o Senado aprovou as Leis Licínias.
         Correram os anos e as reformas não foram implantadas. As Leis Licínias caíram no esquecimento e o problema fundiário agravou-se. Aumentaram os latifúndios, os ricos apossavam-se também de terras em províncias conquistadas, impedindo que fossem distribuídas entre os sem terras.
         Os pequenos agricultores que ainda resitiam no campo com tantas adversidades encontravam-se em situação financeira lamentável, inadimplentes junto aos bancos. Enfrentavam ainda a concorrência do trigo provindo da Sicília, da Sardenha, da Espanha e do Egito, e do produzido nos latifúndios, por mão-de-obra escrava. Some-se a esses problemas a manipulação do Senado, cujos agentes aguardavam o período de safra local para fazerem importações estrangeiras.
         Os agricultores romanos necessitavam cobrir seus empréstimos feitos junto aos bancos de Roma, o que os obrigava a venderem sua produção de imediato. Essa superoferta aviltava os preços do produto. Tal processo arruinou muitos pequenos e médios agricultores, pois o produto importado reduzia o preço dos produtos locais a valores abaixo dos custos.
         Outro problema para os pequenos produtores rurais foi a proibição aos senadores de aplicarem seus capitais no comércio. Os poderosos comerciantes conseguiram fazer com que o Senado proibisse os que não fossem do ramo de entrarem no comércio, concorrendo com suas atividades. Enriquecidos com os despojos de campanhas militares, muitos senadores e homens ricos passaram a adquirir enormes latifúndios que exploravam com mão-de-obra escrava.
         Para concorrer com esses latifúndios e com o produto importado, empobrecidos pelo processo e sem capital para o plantio, tinham os pequenos agricultores de levantar empréstimos a juros escravizantes junto aos bancos de Roma, e, lentamente, mergulhavam na miséria.
         Depois da bancarrota, passavam a viver nos cortiços da periferia da capital, onde caíam no crime e na prostituição. Passavam à situação de miséria, dependendo, em grande parte, da distribuição gratuita de trigo. Também se tornavam clientes dos poderosos que os socorriam em situações extremas, em troca de voto e apoio político. Eram as massas que assistiam aos espetáculos públicos de circo patrocinados pelo Estado.
         Nos latifúndios, preferiam-se os escravos, pois não estavam sujeitos ao serviço militar. Provinham, muitos desses escravos, das inúmeras conquistas militares, outros tantos eram capturados pelos piratas. Havia também um grande número deles que se originavam de verdadeiras caçadas humanas que alguns mercadores promoviam, para prover o crescente mercado romano de mão-de-obra.
         A essa época, dois jovens da aristocracia romana, Tibério e Caio Graco, filhos de Semprônio Graco, que fora duas vezes cônsul, e Cornélia, da ilustre família dos Cipiões, surgiram no cenário político. Cornélia era irmã do famoso general Cipião Africano, vencedor do poderoso Aníbal.
         Haviam, esses jovens, estudado filosofia e política em Atenas e dedicavam-se à construção civil, como empreiteiros, realizando obras públicas por contrato com o poder estabelecido. Eram ambiciosos, orgulhosos e, ao que parece, sinceros. Perguntavam-se em suas reuniões políticas, como poderia manter-se a nação romana e sua democracia, com uma imensidão de escravos, um proletariado urbano chagado pela miséria, em vez de uma população orgulhosa de homens do campo, livres e donos de terras que eles mesmos cultivavam, como o fora nos primórdios de sua formação.
         A distribuição de terras entre os cidadãos livres pareceu-lhes a solução óbvia e natural para os problemas de Roma. Tibério elegeu-se tribuno da plebe em 133 a. C. e apresentou à Assembleia das Tribos as três seguintes propostas:
a)    Nenhum cidadão romano poderia possuir mais de 333 acres de terra (134,76 hectares) ou 667, se tivesse dois filhos;
b)   Todas as terras já vendidas ou arrematadas a particulares deveriam voltar ao Estado mediante compra e indenização do custo das benfeitorias;
c)    As terras assim obtidas deveriam ser divididas em lotes de 20 acres e entregues a cidadãos pobres, com a condição de nunca as venderem e de pagarem anualmente uma taxa ao tesouro.
         Não se tratava de nenhum plano utópico. Era, pelo contrário, uma forma de pôr em prática as Leis Licínias de 367 a. C., que nunca foram aplicadas, porém jamais haviam sido revogadas. Era necessária uma comissão agrária que dividisse os latifúndios. Desde o século IV a. C., ninguém ousara tocar nos sagrados latifúndios, pertencentes, em grande parte, a ricos senadores ou a cidadãos ilustres e intocáveis, embora, desde as Leis Licínias, estivessem em situação irregular e, portanto, ilegal.
         Em discurso aos plebeus pobres, Tibério afirmou:

Os animais das florestas e os pássaros do ar têm suas tocas e pousos; mas o homem que luta pela Itália só dispõe da luz e do ar. Nossos generais estimulam seus soldados a lutarem pelos túmulos e relicários de seus antepassados. Esse estímulo é falso e vão. Onde o vosso altar paterno? Onde o vosso túmulo ancestral? Lutais e morreis para que outros tenham riquezas e luxo. Sois chamados os senhores do mundo, mas não há um palmo de chão que seja vosso. (Will Durant, 1957, p. 138/9).

         Tibério foi acusado de visar à ditadura e suas propostas foram denunciadas como confiscatórias. Otávio, outro tribuno, iria vetar, como lhe permitia a legislação, as medidas propostas pelo jovem idealista. Estimulados pela ameaça da plebe de depor qualquer tribuno, representante legítimo do povo, que vetasse a lei, os litores de Tibério forçaram Otávio a abandonar a Assembleia.
         Pela violência de suas atitudes, perdeu Tibério o apoio da parte do Senado que estava a seu lado. Voltou-se, então, exclusivamente à plebe. No dia da votação, apareceu no fórum em trajes de luto e trouxe uma enorme guarda pessoal. De ambos os lados, irrompeu a violência. Porém, os plebeus que apoiavam o seu líder, recuaram diante da toga senatorial e Tibério foi assassinado e sua cabeça jogada ao Tibre. No entanto, para amainar os ânimos da plebe, o Senado aprovou as reformas na lei agrária.
         A Comissão Agrária que Tibério havia formado teve imensas dificuldades em implantar a reforma aprovada. Havia terras adquiridas há gerações e seus proprietários evocavam direitos sagrados e consagrados pelo tempo.
         Caio, irmão mais jovem do tribuno assassinado, tomou os projetos a seu encargo. Fora bravo soldado em diversas campanhas militares, era excelente orador, e apesar dos apelos de sua mãe para que desistisse da questão agrária, concorreu ao tribunato em 124 a. C., sendo eleito com elevado apoio popular.
         Com extrema habilidade e menor impulsividade do que o irmão, procedeu à divisão das terras. Paralelamente, tomou outras medidas que agradaram a plebe. Também promoveu muitas obras públicas que agradaram ambas as classes: os empreiteiros lucravam e a plebe tinha abundantes oportunidades de trabalho.
         Ocorre que, tendo Caio viajado a Cartago, o Senado aproveitou sua ausência para promover outro tribuno da plebe, Marco Lívio Druso, que propôs a eliminação da taxa agrária anual criada pela lei dos Gracos às pequenas propriedades. Aprovada a medida, a plebe passou, em grande parte, a apoiar Druso.
         Ao retornar à cidade, Caio é derrotado na eleição ao terceiro mandato para o cargo de tribuno. Segundo os amigos do magistrado, houve fraude no processo. Instaurou-se a violência entre os partidários do PO (Partido dos Optimates), que reunia os membros da elite conservadora e do PP (Partido Popular), partido da plebe, ao qual se haviam filiado os Gracos e outros patrícios ilustres.
         Num combate de rua, Caio é cercado pelos Optimates e salvo por seus partidários, com grandes perdas humanas de ambas as partes. Joga-se ao Tibre com o intuito de afogar-se. Seus partidários tiram-no das águas, salvando-o. Ordena, então, que um de seus servos o execute. Diante da recusa do subordinado, suicidou-se com a própria espada.
         Como o Senado havia oferecido o peso de sua cabeça em ouro, um de seus partidários decepou-a e encheu-a de chumbo e levou-a aos senadores.
         Com a morte de Caio, os senadores procuraram reverter o processo agrário que ele e o irmão haviam promovido. Foram tão hábeis no modo de sua proposição que o retrocesso pareceu um avanço nos direitos de propriedade.
         A lei dos Gracos previa que, se algum cidadão que houvesse recebido terras do Estado não mais desejasse dedicar-se ao cultivo dos campos, não poderia vender sua propriedade. Deveria devolvê-la ao Estado que o indenizaria pelas benfeitorias eventualmente ali realizadas e entregaria a gleba a outro cidadão que desejasse dedicar-se à agricultura.
         Os tribunos, apoiados pelo Senado, propuseram a revogação dessa cláusula, argumentando que nada mais plenificaria o direito de posse da terra do que o arbítrio de o proprietário fazer dela o que bem entendesse. A Assembleia das Tribos aprovou essa medida, que imediatamente foi ratificada pelo Senado.
         Aprovada a emenda às vésperas das colheitas, o poder público promoveu importação de exagerada quantidade de trigo, vinho e azeite, produtos básicos da agricultura romana. Com essas medidas públicas, o preço aviltou-se de tal maneira que sequer havia compradores para o produto nacional.
         Os agricultores tinham contraído empréstimos bancários mediante a penhora das terras. Para cumprir esses compromissos, tiveram os agricultores de desfazerem-se de suas propriedades. Como havia excesso de oferta de imóveis rurais, aviltaram-se os preços. Dessa maneira, os latifundiários, que haviam sido indenizados, na reforma agrária dos Gracos, por preços justos, refizeram suas propriedades por valores irrisórios.
         O processo histórico aqui abordado demonstra que a civilização desenvolve-se em círculos. O que nos parece peculiar apenas à nossa época, já foi vivenciado em outros tempos e lugares. A civilização romana antiga parece-nos ter sido o cadinho em que se forjaram a maioria das experiências de cunho social.  Essa é mais uma lição da história que serve de alerta para todos os agentes envolvidos nas ações políticas e sociais.
BIBLIOGRAFIA
1.   DURANT, Will. História da Civilização 3ª Parte. César e Cristo Tomo I. Tradução de Monteiro Lobato. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional,1957.
 ROMA - ARCO DE CONSTANTINO
 ROMA - MARGEM DO TIBRE

 ROMA - - Piazza Venezia, à esquerda Chiesa Santa Maria di Loreto e à direita Chiesa
del Santissimo Nome di Maria

ROMA - LA CORDONATA - MUSEI CAPITOLINI




FAMOSO PALÍNDROMO ROMANO
 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

     Não se conhece a origem do famoso palíndromo romano encontrado em diversas cidades da Europa. Em visita a Pompéia, uma guia turística mostrou-me um azulejo com a famosa combinação, que alguns chamam de quadrado mágico. Porém, já foi encontrado também em outras diversas cidades antigas. Trata-se de uma frase que se julga, comumente, ser latina:

SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS.

     Com esta frase pode-se construir o seguinte palíndromo, que permite leituras em todas as direções, tanto da esquerda para a direita, como da direita para a esquerda, e igualmente de cima para baixo, bem como de baixo para cima:



     Há muitas traduções prováveis dessa frase e muitas interpretações mágicas. Quatro palavras são conhecidas na língua latina: sator poderia ser lavrador, agricultor; tenet, poderia ser sustentar, ocupar, dirigir, governar, manter; opera geralmente significa trabalho, ação, obra; rotas, poderia significar rodas, círculo, mas, de forma mais livre, poderia ser rotineiramente. Arepo, como na se tem nenhum significado para a palavra, poderia ser um nome próprio.
     Ocorre que, de acordo com as declinações latinas, haveria algumas imprecisões. Ocorre que, primeiramente sempre existiu o que se chama de liberdade poética, ainda mais numa tarefa tão espinhosa. Em segundo lugar, essa frase é muito antiga, muito anterior à era cristã. As declinações latinas somente se definiram como as temas hoje no período clássico áureo que se inicia no império do Augusto, no primeiro século a. C.
     Uma tradução poderia ser a seguinte: O lavrador Arepo mantém, (sustenta) o trabalho rotineiramente.


O CALENDÁRIO ROMANO - ROMAN CALENDAR
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara


         O calendário utilizado pelos romanos até o governo de Júlio César, no século primeiro antes de Cristo tinha somente dez meses. Começava em março e acabava em dezembro. O início de cada mês era sempre na lua nova, portanto, cada mês tinha ora 28 ora 29 dias.
         Os meses romanos era os seguintes:
1)   Martius – consagrado ao deus Marte, divindade da guerra, protetor dos soldados e agricultores. Durante este mês, ocorriam os festejos em homenagem a Marte.
2)   Aprilis – seu nome provém da deusa etrusca Apru, deusa primitiva do amor, correspondente à vindoura deusa romana Vênus e à grega Afrodite.
3)   Maius – dedicado à deusa Maya, mãe mitológica deus Hermes, mensageiro dos deuses na mitologia grega e seu correspondente romano Mercúrio.
4)   Iunius – era consagrado à mais poderosa deusa feminina de Roma, Juno (Iuno, Iunonis) esposa de Júpiter, o deus supremo dos romanos. Essa deusa correspondia à deusa grega Hera esposa do poderoso Zeus, de cujo nome provém a palavra Deus. Essa deusa era protetora da mulher e do matrimônio.
5)   Quintilis – era o quinto mês do ao.
6)   Sextilis – era o sexto mês do ano.
7)   September – era o sétimo mês do ano.
8)   October – era o oitavo mês do ano.
9)   November – era o nono mês do ano.
10. December – era o décimo mês do ano.
         Esse calendário é atribuído a Rômulo. Teria iniciado pelo ano de 753 a. C. Começava sempre no equinócio da primavera, em que o dia e a noite são exatamente iguais. No hemisfério norte, ocorre no dia 20 de março. Segundo esse calendário, 61 ou mais dias sobravam, no inverno romano, que ficavam sem preocupação nenhuma até o equinócio que marcaria o início do ano seguinte.
         Em 713 a. C., Numa Pompílio fez uma reforma no calendário, acrescentando dois meses no início do ano: ianuarius e februarius. Ianuarius - era dedicado ao deus Jano (Ianus) que era uma divindade de dupla face: uma cuidava o interior da casa e a outra, o exterior. Era a porta de abertura do ano.
         Februarius – era dedicado ao deus etrusco Februus divindade da morte e da purificação.
         Acontece que, pela dificuldade de obterem calendários escritos, até porque a maioria da população era analfabeta, tornando-os inúteis, o mês romano era dividido em três partes: as kalendas (kalendae), o primeiro dia de cada mês; as nonas (nonae), o 5º ou 7º dia de acordo com o mês; e os idos (idus), de acordo com o mês, 13º ou 15º dia do mês.
         As nonas ocorriam no 5º dia e os idos no 13º nos meses janeiro, fevereiro, abril, junho, agosto, setembro, novembro e dezembro.
         As nonas ocorriam no 7º dia e os idos no 15º março, maio, julho e outubro.
         LEITURA DO CALENDÁRIO
         O primeiro dia de cada mês lia-se Kalendis Januariis, kalendis Aprilibus, Kalendis Decembribus, etc.
         Assim também as nonas e os idos: Nonis Januariis, Nonis Aprilibus, Nonis Decembribus, etc. e Idibus Januariis, Idibus Aprilibus, Idibus Decembribus.
         O primeiro dia antes dessas marcas mensais (a véspera) chamava-se de Pridie. Assim, lia-se Pridie Kalendas Ianuarias, Pridie Nonas Iulias, Pridie Idus Decembres.
         O dia posterior a cada marca chamava-se Postridie. Assim, lia-se Postridie Kalendas Martias, Postridie Nonas Octobres e Postridie Idus Maias.
         Para os demais dias, lia-se contando o que faltava para a marca seguinte. Por exemplo: 29 de novembro dizia-se Ante diem tertium Kalendas Decembres; 3 de março era Ante diem quintum Nonas Martias; 8 de julho era Ante diem septimum Idus Iulias. Assim, contava-se sempre o que faltava para a marca seguinte, tantos dias para as nonas, tantos dias para os idos e tantos dias para as kaleendas.
         CALENDÁRIO JULIANO
         Esse calendário ainda continha algumas imprecisões que eram compensadas no final de cada ano. Para solucionar esses impasses, o então cônsul romano Caio Júlio César contratou, no ano 46 a. C., o astrônomo Sosígenes de Alexandria para fazer os acertos necessários.
         Inspirado no calendário solar egípcio de 365 dias, o astrônomo propôs o acréscimo de um dia no ano, apenas de quatro em quatro anos. Por que este ano passou a chamar-se bissexto? Porque o astrônomo resolveu contar duas vezes o sexto dia antes das calendas de março. Contava-se ante diem sextum Kalendas Martias e, em seguida, ante diem BIS SEXTUM Kalendas Martias. Esse sexto dia para as calendas de março, corresponderia ao nosso dia 24 de fevereiro. Eles contavam, com esse processo, duas vezes o correspondente ao dia 24 de fevereiro, que, no calendário deles, era o sexto dia antes do dia primeiro de março.

         Com o assassinato de Júlio César nos idos de março de 44 a. C., ou seja, em 15 de março, o senado romano mudou o nome do mês quintilis para iulius. O mesmo se deu com o imperador Augusto: o sextilis passou a chamar-se augustus.  
AS HORAS DO DIA E DA NOITE ENTRE OS ROMANOS ANTIGOS - THE HOURS OF THE DAY AND NIGHT AMONG THE ANCIENT ROMANS
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

         Parece-nos natural que o dia seja dividido em 24 horas iguais e que, durante o ano inteiro, essa marcação seja igual durante o ano inteiro. Isso nos parece absolutamente indiscutível porque nos habituamos desde sempre com essa forma de marcar o tempo.
         Como vemos o dia clarear pela manhã e escurecer ao fim da tarde, assim nos parece ser nossa marcação de horas natural. Veja-se que as pessoas que nasceram com a televisão correm o risco de considerá-la tão natural como o amanhecer.
         Hora, nem todos os povos contavam as horas do dia e da noite da mesma forma e nem sempre esse modo foi como é hoje. Vejamos como se dava essa marcação entre os antigos romanos, dos quais herdamos quase todas as formas de medir o tempo e de nele nos situarmos. É sabido que o relógio mais comum (horologium solarium) era o relógio de sol.
         Veja-se abaixo o relógio de sol mandado construir pelo imperador augusto, usando um obelisco conhecido como Solarium Augusti:

         Diferentemente de nós, os romanos dividiam o tempo de luz, ou seja, o dia, em doze horas. Assim, no verão, as horas eram maiores do que no inverno.
         Expressavam as horas em números ordinais: hora prima, hora secunda, hora tertia, hora quarta, hora quita, hora sexta, hora septima, hora octava, hora nona, hora décima, hora undecima et hora duodecima. hora prima (primeira hora) marcava o amanhecer. A hora duodecima marcava o fim do dia, ou seja, o pôr do sol. A hora sexta marcava o meio-dia. Daí vem o nome o nome sesta após o almoço.
         Porém, as horas da noite eram somente quatro: prima vigília, secunda vigília, tertia vigília et quarta vigília. Também tinha duração diferente de acordo com a época do ano.
         A origem dessas horas noturnas estava relacionada com os turnos de vigilância nos acampamentos militares. Daí vêm as palavras vigilante, vigia, vigilar e vigiar.
         Assim, para saber-se a duração de uma hora do dia ou da noite precisava-se levar em conta a época do ano em que se estava. Para medir, por exemplo, a duração das horas da noite, era necessário dividir por quatro o período que ia do pôr do sol ao amanhecer.
         Faziam, então, diferença entre hora do dia, variável de um dia para outro e a hora corrida, que chamaríamos de hora relógio. Para essa hora, tinham as ampulhetas de areia que marcavam um quarto de hora. Quatro viradas de ampulheta davam uma hora corrida. Daí a origem de haver em alguns idiomas, como o alemão, termos diferentes para essas especificidades diferentes de hora. Uhr é a hora do dia: Heute um 9 Uhr habe ich in der Schule Englisch. (Hoje às nove horas tenho aula de inglês). Stunde é uma hora relógio:  Jeden Tag sehe ich zwei Stunden Fern. (Todo dia eu vejo duas horas de televisão.)

MITOLOGIA E ORIGEM E FORMAÇÃO DOS NOMES DOS DIAS DA SEMANA  -MITHOLOGY AND DAYS OF THE WEEK, NAMES, ORIGIN AND FORMATION

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
         Parece ter se originado na Grécia primitiva a semana que gerou a que temos hoje, com sete dias. Consagravam-nos, os gregos antigos, cada dia a divindades específica. Essa tradição foi seguida pela maioria dos povos.
         Veja-se a semana primitiva em língua grega clássica:
Hemera Selenes (μέρα Σελήνης) - dia de Selene, divindade da lua. Equivale à nossa segunda-feira.
Hemera Areos (μέρα ρης) – dia de Ares, deus da guerra. Equivale à nossa terça-feira.
Hemera Hermou (μέρα ρμο) – dia de Hermes, mensageiro dos deuses. Equivale à nossa quarta-feira.
Hemera Zeus- (μέρα Διός) – dia de Zeus, deus supremo da terceira geração divina na mitologia grega.  Equivale à nossa quinta-feira.
Hemera Aphrodites  (μέρα φροδίτης) – dia de Afrodite, deusa do amor na mitologia grega. Equivale à nossa sexta-feira.
Hemera Kronou (μέρα Κρόνου) – deus supremo da segunda geração divina na mitologia grega. Equivale ao nosso sábado.
Hemera Heliou (μέρα λιου) – dia de Hélios, divindade do sol. Equivale ao nosso domingo.
         DIVINDADES GREGAS QUE SE RELACIONAM COM OS DIAS
         Os gregos, em sua rica mitologia, consagravam cada dia da semana a uma divindade. Para o próprio dia eles tinham uma divindade específica. Tratava-se de uma divindade feminina. Chamava-se HEMERA (μέρα). Era filha de Nix (Νύξ, Νυκτός) personificação da noite e de Érebo (ρεβος), divindade da escuridão. 
          Este artigo está ilustrado com reprodução de diversos quadros e fotografias de esculturas de artistas consagrados. Ocorre que muitos artistas buscaram na mitologia o tema para suas obras.

HEMERA - Beauguerau (1825-1905)

NIX - Beauguerau

 ÉREBO - Schmidt - Dicionário de Mitologi
         À deusa grega Selene (Σελήνη) era dedicado o segundo dia da semana, correspondente à segunda-feira. Era a deusa do amanhecer. Ela dirige sua carruagem lunar pelos céus.

SELENE - Morgan - 1865


         O terceiro dia da semana, a atual terça-feira, era dedicada a Ares (ρης), filho de Zeus. É o deus sanguinário da guerra.
ARES - Louvre, Aquiles Borghese 

         O quarto dia da semana, a nossa quarta-feira, era consagrada a Hermes, mensageiro dos deuses.
HERMES

         Já o quinto dia, atual quinta-feira, era dedicada a Zeus, deus supremo na terceira geração divina.
                                                         
ZEUS
Zeus do Hermitage, interpretação livre romana do colosso criado por Fídias. A águia ao seu lado não fazia parte do original. (São Petersburgo - Rússia)   
         Os gregos consagravam o sexto dia da semana, que corresponde à sexta-feira, à deusa do amor, Afrodite.

AFRODITE - O Nascimento de Vénus (Afrodite) é uma pintura de Sandro Boticelli - 1843.







     Dedicavam o sétimo dia da semana, correspondente ao sábado, a Cronos, divindade suprema da segunda geração divina. Era um deus que devorava os próprios filhos. Zeus escapou-lhe por atimanhas de sua mãe Rea.

CRONOS
Francisco de Goya, Cronos (Saturno para os romanos )devorando a su hijo (1819-1823).










      O primeiro dia da semana, correspondente ao nosso domingo, era dedicado ao deus sol, Hélios.

HÉLIOS E SEU CARRO



     Em grego clássico, semana era hebdômada (βδομάς, βδομάδος), que originou o termo hebdomadário, que significa um periódico semanal. Com essas exposições e explicações, tento esclarecer a origem dos dias da semana, conforme usamos hoje em diversos idiomas. Vou continuar este estudo em outro artigo que publicarei a seguir.
ORIGEM E FORMAÇÃO DOS NOMES DOS DIAS DA SEMANA II - DAYS OF THE WEEK, NAMES, ORIGIN AND FORMATION
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara



         Em artigo anterior, tratei da formação dos nomes dos dias da semana na cultura grega. Agora passarei a fazer o mesmo no que se refere à cultura latina.
         É sabido que os romanos receberam uma profunda influência grega, mesmo antes da conquista do território helênico. Acontece que o sul da Itália, no auge da colonização grega, era uma próspera colônia helênica conhecida como Magna Graecia (Μεγάλη Έλλάδα).
         Pelo Mar Adriático, estendia-se da Sicília até Tarento; pelo Mar Tirreno, estendia-se até Nápoles, cujo nome é de evidente origem grega: nea = nova e pólis = cidade (Νεάπολη).

MAGNA GRACIA
Μεγάλη Έλλάδα

         Essa cultura organizava-se principalmente a partir de um grupo de pensadores organizados conhecido com Círculo Helenizante dos Cipiões. Os Cipiões pertenciam a uma poderosa família cujo membro mais famoso fora o general vencedor de Aníbal, Cipião Emiliano Africano. Os romanos influentes costumavam concluir sua formação em Atenas.
         Chamava-se helenizade por que a Grécia, em grego era Ἑλλάς, Ἑλλάδος, a Hélade, e os gregos chamavam-se a si mesmos de helenos ( Ἕλενος, Ἑλένου). Conforme canta Castro Alves:


Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu...
(Castro Alves, O Navio Negreiro, In: A Cachoeira de Paulo Afonso, 1868)


         É um raro exemplo em que o vencido coloniza culturalmente o vencedor. Dizia-se mesmo: Graecia capta ferum victorem cepit et artes intulit in agresti Latio. (A Grécia vencida venceu o feroz vencedor e introduziu as artes no rústico Lácio.) Os gregos influenciaram os romanos em tudo: nas artes, nas ciências, na filosofia e na própria língua latina.
         O latim clássico (sermo classicus) é uma adaptação do latim popular (sermo vulgaris) ao modelo da língua grega, especialmente na sintaxe, em que a língua latina é adaptada para as declinações gregas.
         Quanto à religião, os romanos abandonam suas divindades nacionais e criam outras à imagem e semelhança das divindades gregas.
                  Retomando o artigo anterior, veja-se a semana primitiva em língua grega clássica:
Hemera Selenes (μέρα Σελήνης) - dia de Selene, divindade da lua. Equivale à nossa segunda-feira.
Hemera Areos (μέρα ρης) – dia de Ares, deus da guerra. Equivale à nossa terça-feira.
Hemera Hermou (μέρα ρμοῦ) – dia de Hermes, mensageiro dos deuses. Equivale à nossa quarta-feira.
Hemera Zeus- (μέρα Διός) – dia de Zeus, deus supremo da terceira geração divina na mitologia grega.  Equivale à nossa quinta-feira.
Hemera Aphrodites  (μέρα φροδίτης) – dia de Afrodite, deusa do amor na mitologia grega. Equivale à nossa sexta-feira.
Hemera Kronou (μέρα Κρόνου) – deus supremo da segunda geração divina na mitologia grega. Equivale ao nosso sábado
         Assim procedem também os romanos, quanto aos dias da semana, que repete os dias gregos, conforme apresentei no artigo anterior e repeti acima:
         - Lunae dies, dia da deusa Lua;
         - Martis dies, dia de Marte, deus da guerra;
         - Mercurii dies, dia de Mercúrio, mensageiro dos deuses;
         - Iovis dies, dia de Júpiter, deus supremo dos romanos;
         - Veneris dies, dia de Vênus, deusa do amor e da beleza;
         - Saturni dies, dia de Saturno, deus da agricultura;
         - Solis dies, dia do deus Sol.

Grego
Latim
Italiano
Espanhol
Francês
Hemera Selenes
Dies lunae
Lunedì
Lunes
Lundi
Hemera Areos
Dies Martis
Martedì
Martes
Mardi
Hemera Hermou
Dies Mercurii
Mercxoledì
Miercoles
Mercredi
Hemera Dios
Dies Iovis
Giovedì
Jueves
Jeudi
Hemera Aphrodites 
Dies Veneris
Venerdì
Viernes
Vendredi
Hemera Kronou
Dies Saturni
Sabato
Sábado
Samedi
Hemera Heliou
Dies Solis
Domenica
Domingo
Dimanche

         Criou-se, com o cristianismo, a semana do latim litúrgico, que por motivos religiosos, suprimiu os nomes ligados às divindades das religiões pré-cristãs. Essa nomenclatura litúrgica cristã deu origem aos dias da semana da língua portuguesa. Nesse calendário havia o Dominicus, que provém da palavra latina Dominus, que significa Senhor, portanto, é o dia do Senhor. O sábado provém do Shabbat, procedente do hebraico, significando repouso, em que, conforme o Gênesis, o Senhor, depois da criação, descansou.

Latim litúrgico
Português
Secunda feria
Segunda-feira
Tertia feria
Terça-feira
Quarta feria
Quarta-feira
Quinta feria
Quinta-fgeira
Sexta feria
Sexta-fgeira
Sétima feria
Sábado
Prima feria
Domingo

         ORIGEM DOS NOMES DOS DIAS DA SEMANA EM INGLÊS

Monday, segunda-feira, dia da Lua, moon;
Tuesday, terça-feira dia de marte é dia Tiw (também conhecido como Tew, Tyr ou Tywar) foi um deus da guerra e da glória na mitologia norueguesa e no paganismo germânico;
Wednesday, quarta-feirao dia do deus Germânico Woden, mais conhecido como Odin, que era o deus mais alto da mitologia nórdica;
Thursday, quinta-feira, dia de Tor, com nome escandinavo;
Friday, sexta-feira, o dia de Frija alemã, Frig na Inglaterra, Freyja, deusa da beleza;
Saturday, sábado, é o dia de Saturno;
Sunday, domingo, o dia do Sol, Sun.

ORIGEM DOS DIAS DA SEMANA EM ALEMÃO

der Montag – Segunda-feira, dia da lua, Mond, em alemão;
der Dienstag – Terça-feira, relacionado a Tyr, deus nórdico da guerra;
der Mittwoch – Quarta-feira, meio da semana, dia de Odin;
der Donnerstag – Quinta-feira, Thor, transformado em Donner, dia do trovão;
der Freitag – Sexta-feira, dia de Freyja, deusa da sensualidade e da beleza;
der Samstag – Sábado, origem judaica do Shabbat, dia de descanso;
der Sonntag – Domingo, dia do sol, Sonne, em alemão.
XANTIPA, ESPOSA DO FILÓSOFO GREGO SÓCRATES - XANTHIPPE, WIFE OF GREEK PHILOSOPHER SOCRATES 
 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
 Sócrates e Xantipa

     A história de Xantipa é muito controvertida, levando em especial consideração o mito que envolve a vida de seu marido, sendo ele, embora nada tendo escrito, talvez o filósofo de maior prestígio do ocidente.

Xantipa, esposa de Sócrates

     Esse era o nome de uma das esposas do filósofo Sócrates, mãe de três de seus filhos: Lamprocles, Sofronisco, e Menexeno. Porém, mesmo isso não é ponto pacífico. Segundo Aristóteles, citado por Diógenes Laércio, Sofronisco e Menexeno eram filhos de sua segunda esposa Myrto, filha de Aristides, conhecido apenas como o justo. 
      Segundo uma tradição, Xantipa era muito mais jovem do que o filósofo ateniense, em torno de quarenta anos, como querem alguns. O filósofo ateniense teria contraído núpcias na velhice. Não há datas precisas, mas chega-se a afirmar que se teria casado com a jovem Xantipa quando ele já se aproximava dos sessenta anos.
     Etimologicamente, o nome Xantipa significa cavalo loiro (ξανθός = loiro + ἵππος, -ου = cavalo). Os nomes em que aparece o radical ἵππος em grego clássico relacionam-se às famílias aristocráticas. Assim Hipócrates, que significa domador de cavalos; Filipos (Filipe), amigo, amante dos cavalos, apenas designam nomes de indivíduos pertencentes à aristocracia grega.
     Ainda conforme Aristóteles, Sócrates teve duas esposas, a primeira seria Xantipa ou Xântipe e a segunda, Myrto. Diógenes Laércio afirma que, pela falta de homens em Atenas, devido a sucessivas guerras, permitiu-se aos homens que já tivessem um casamento, que viessem a ter filhos com uma segunda mulher. Essa lei teria permitido a Sócrates possuir duas esposas ao mesmo tempo.
     De acordo com Platão no Diálogo Fédon, Xantipa aparece como sendo não mais que uma mulher devotada e mãe de família (60a-b, 116b). Xenofonte concorda com Platão, quando a menciona em sua obra Memorabília (2.2.7-9), ressalvando, no entanto, que o filho dela Lamprocles reclamava do temperamento extremamente rígido da mãe. 


Platão e Aristóteles
     Em Xenófanes, porém, na obra Symposium, ela aparece como "a pessoa mais difícil de se relacionar de todas as mulheres que existem" (cf, 2.10). Há ainda outra tradição segundo a qual Sócrates a teria escolhido por seu espírito argumentativo, que o levaria a questionar muitos princípios. 
Diógenes Laércio
     Ainda, conforme afirma Diógenes Laércio, Sócrates dizia que vivia com uma mulher desse feitio da mesma forma que os cavaleiros gostam de cavalos fogosos e "do mesmo jeito que, quando conseguem domá-los, podem facilmente dominar o resto, também eu, na companhia de Xantipa, hei de aprender a adaptar-me ao resto da humanidade." 
Cícero - orador romano 
     Cícero, por sua vez, conta uma anedota que contesta a suposição de que a excepcional temperança de Sócrates era uma decorrência natural de sua constituição. Um fisionomista chamado Zópiro, capaz de discernir o caráter de um homem a partir de sua aparência física, enumerou diversos vícios para os quais Sócrates teria uma inclinação. Seus companheiros ridicularizaram as afirmações, pois jamais haviam visto qualquer traço de vício em Sócrates. Porém, Sócrates confirmou a interpretação de Zópiro, dizendo que tinha, de fato, uma tendência natural para cair nos vícios enumerados, mas que os tinha afastado de si com a ajuda da razão. (Cícero, Tusculanoe Disputationes).
     Entre o número dos que a criticam, está o orador romano Claudius Elianus que a retrata como mulher extremamente ciumenta. Nesse sentido, narra um fato de certa ocasião em que o filósofo recebera um bolo de Alcibíades. Xantipa teria jogado o bolo ao chão e pisado sobre ele. Nesse particular, é preciso esclarecer o relacionamento pessoal entre Sócrates e Alcibíades. Sócrates, como resposta à atitude dela, teria dito que por virtude eles se privariam dos sabores do bolo.
     Essa situação tem de ser analisada à luz dos costumes gregos dessa época. Era comum, entre gregos e romanos, um senhor mais velho ter um jovem amante. Esse era o relacionamento entre o filósofo ateniense e o lindo jovem loiro de cabelos crespos. Sócrates, em batalha pela defesa de Atenas, teria até mesmo arriscado a própria vida, para salvar Alcibíades que caíra ferido no campo de batalha e o carregado às costas para um lugar seguro.
Sócrates e Alcibíades
     De Alcibíades afirma-se também: “O «menino terrível» do século, que se lança em todas as causas perdidas com a insolência da sua beleza fatal. Filho de família, menino mimado, pupilo de Péricles, que deposita nele todas as suas esperanças, amado por Sócrates até ao desespero, rompe todos os cordões umbilicais e entra na política como quem entra na Comédie Française, para aí desempenhar todos os papéis: o conspirador, o vira-casacas, a quinta-coluna, caudilho, o homem providencial, o dirigente de massas, o herói, o traidor e, apesar de tudo, o galã. As relações amorosas, filiais pedagógicas, mas sempre tempestuosas, entre Sócrates e Alcibíades eram um conhecido motivo de troça, mas também de reflexão: «Pode a 'virtude' transmitir-se?» Elas passaram a constituir um dos filões da literatura socrática: para além de dois diálogos que nos foram transmitidos (dos quais só o primeiro pode ser atribuído a Platão), havia pelo menos mais dois Alcibíades, o de Ésquines e o de Euclides.”(1)
Historiador e militar grego
     No que diz respeito à opinião de Xenofonte sobre Xantipa, afirma-se ainda: “O machista de Xenofonte (Memoráveis, II, 7, Banquete, II, 10) faz dela uma megera rabugenta, e imagina-se um marido que suporta estoicamente as lamentações perpétuas ou que se refugia no ginásio para escapar às discussões dessa matrona. A galanteria de certos historiadores contemporâneos veio em seu socorro, mais por boa vontade, diga-se, do que propriamente com base em testemunhos, alegando circunstâncias atenuantes ou afirmando que a lenda do seu mau gênio se devia à maledicência de Antístenes (cf. Banquete, de Xenofonte), sem dúvida ele próprio bastante rabugento. Seja como for, Sócrates casara, para bem ou para mal, em todo o caso bastante tarde (415?), e certamente não foi o marido exemplar que uma jovem poderia esperar, mesmo sendo ateniense. Tiveram três filhos (Lâmproco, Sofronisco e Menexeno), o mais novo dos quais era ainda de tenra idade por altura do processo (cf. Fédon, 60 a). Boatos contraditórios atribuem a Sócrates uma outra esposa, uma certa Mirto, que ele teria tido antes, depois ou simultaneamente.”(2) 
     Pedro Carlos Louzada Fonseca, professor da Universidade Federal de Goiás, em artigo intitulado “Christine dé Pizan et le Livre La Cité des Dames: Pontos de Releitura da Visão Tradicional da Mulher” disponível em: (3) afirma: “Essa mulher, digníssima esposa de Sócrates, não só o incentivou na filosofia, mas o acompanhou como intemerata e amorosa esposa até à sua morte, arrancando-lhe o cálice de cicuta das mãos... E, citando Pizan: “Toda encharcada e lágrimas e prantos, dirigiu-se ao palácio, batendo o peito de dor, onde haviam prendido seu marido. Ela o encontrou no meio daqueles juízes indignos que já lhe haviam dado o veneno que iria abreviar seus dias. Ela chegou no momento em que Sócrates levava o cálice aos lábios. Precipitou-se até ele e arrancou-lhe o cálice das mãos, derrubando tudo ao chão." (PIZAN, 2006, p. 238).
     Talvez outra obra que tenha contribuído para a imagem negativa que se tem de Xantipa seja o diálogo de Erasmo de Roterdam “La femme mécontente de son mari” (A mulher infeliz com seu marido) que aborda a vida da esposa de Sócrates e traz diálogos dela com uma amiga, abordando a vida conjugal.
      Christopher Charles Taylor, em sua obra Sócrates, comenta: “Seu estilo de vida ascético era provavelmente mais a expressão de uma postura filosófica do que a evidência de uma pobreza real. Sua esposa era Xantipa, celebrada por Xenofonte e outros (embora não por Platão) por seu temperamento irascível. O casal teve três filhos, dois deles crianças pequenas à época da morte de Sócrates; obviamente o gênio difícil de Xantipa, se a descrição é verdadeira, não impediu que as relações conjugais continuassem até a velhice de Sócrates. Uma tradição posterior, pouco confiável, implausivelmente atribuída a Aristóteles, menciona uma segunda esposa, chamada Mirto, com quem o casamento é alternadamente descrito como anterior, posterior ou simultâneo ao casamento com Xantipa.” (TAYLOR, 2010, p. 12).
     Há uma narrativa também consagrada sobre a relação entre Sócrates e Xantipa. Nela se afirma que a esposa insultava e reclamava do marido enquanto ele prosseguia impassivelmente suas exortações aos discípulos. Eis que, de repente, ela joga uma jarra de água sobre o esposo. Ele apenas responde: Depois da trovoada, vem a chuva.
     Talvez Xantipa não tenha sido a megera que muitos autores afirmam. Foi, pelo contrário, uma mulher decepcionada com um homem que, em lugar de buscar a riqueza, dedicava-se à educação da juventude. Por fim, é condenado à morte e não foge à condenação. Numa visita ela teria afirmado: Mas tu és inocente. E ele teria perguntado: Querias que eu fosse culpado? A condenação do esposo deixa-a jovem, com filhos pequenos para criar.

Bibliografia:
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/socrates/vidadesocrates.htm#Familia1) (citação 1 e 2).
http://seer.bce.unb.br/index.php/cerrados/article/viewFile/8390/6386  (citação 3).

Diógenes Laércio, Dos Homens e suas Ideias. Coimbra: IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, 2013.
Platão. Fédon. Lisboa: Guimarães, 2010. 
Taylor Christopher Carl. Sócrates. Porto Alegre, L&PM, 2012.
XENOFONTE. Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates. Tradução de Líbero Rangel de Andrade. São Paulo, SP: Abril Cultural, 1972. (Coleção Os Pensadores).

DIVI AUGUSTI IMPERATORIS
 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

         Quando Júlio César foi assassinado em Roma, Otávio tinha apenas dezenove anos. Para estabelecer seus laços de parentesco com o grande general e ditador Júlio César é preciso lembrar que o jovem Caio Otávio era neto de Júlia, irmã do general Júlio, portanto sobrinho neto do grande político romano.
         A mãe de Caio Otávio era Átia e seu pai Caio Otávio. Seu nome de nascimento era Gaius Octavianus Thurinus. Primeiramente, comecemos pela sua mãe Átia (Atia Balba Caesonia), filha de Marco Átio Balbo (Marcus Atius Balbus) e Júlia Menor (Iulia Minor), irmã mais nova de do grande Júlio César.

DIVUS IULIUS CAESAR 

         A gens Iulia, segundo uma antiga tradição, era descendente de Iulo (Iulus) (Ascânio), filho Eneias, lendário herói troiano que teria sido o antepassado divino de Rômulo. Eneias seria, segundo o mito, filho de Anquises e da deusa Vênus. Assim, a mãe do imperador era conhecida em Roma como Átia dos Júlios (Atia Iulii).

         O pai de Augusto, Caio Otávio (Gaius Octavianus), provinha de uma família da ordem equestre, portanto, embora rico, não era patrício. A elite romana dividia-se em duas classes: os patrícios e os cavaleiros. Pertenciam à classe dos patrícios, os descendentes dos presumíveis fundadores da cidade (patres patriae, pais da pátria).
         Os cavaleiros, da ordem equestre, eram ricos comerciantes, cujos antepassados se caracterizavam por terem condições de aparelharem cavalos para a guerra. Muitos deles eram de origem etrusca, dos Tarquínios (Tarquinii), que formaram a última família real na primeira monarquia romana.
         A família dos Otávios (gens Octavii) pertencia, portanto à ordem equestre, com a qual os patrícios dividiam o direito de serem cônsules da República Romana. No último período da República, esse direito foi estendido até mesmo à plebe.
         Caio Otávio era órfão de pai desde os quatro anos e foi criado pela avó Júlia Menor, que era irmã de seu tio avô Júlio César. Quando Júlio foi assassinado, deixou-lhe em testamento sua fortuna pessoal, bem como sua herança política, ou seja, os cargos a que lhe fossem legados por direito de família. Em função disso, sua situação equivalia a de um filho adotivo do tio, assumindo o nome de Caio Júlio César Turino (Gaius Iulius Caesar Thurinus).
         O cognome Turino (Thurinus) foi-lhe dado por seu pai Gaius Octavianus, após ter vencido uma batalha em Thurii, cidade na baía de Tarento, no sul da Itália, em português Túrio. Foi a sufocação de uma revolta de escravos. Os nomes próprios em Roma eram compostos de três partes: o prenomen, que correspondia ao nosso nome; o nomen, correspondendo ao nosso sobrenome; e o cognomen, correspondente aos nossos apelidos. O prenomen era Gaius o nomen era Octavianus e o cognomen era Thurinus.


         O senado, quando Octavianus assumiu o poder de imperador, atribui-lhe o título de Augustus, que significa consagrado. Depois dele, os imperadores romanos passaram também a usar esse título. Assim, como imperador, seu nome passou a ser Caio Júlio César Augusto Otaviano (Gaius Iulius Caesar Augustus Octavianus).

GAIUS IULIUS CAESAR AUGUSTUS OCTAVIANUS

AS GRANDES NAVEGAÇÕES - PORTUGAL - BRASIL - ORIENTE -TENOLOGIA DOS JUDEUS ESPANHÓIS
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
caravela

         Até 1385, reinava em Portugal a família de Borgonha, de origem francesa. O décimo rei do país funda a Dinastia de Avis. O que propiciou uma era de progresso no reino foi a mudança na família regente, no século XIV.
         D. Fernando I, último rei da dinastia de Borgonha, era casado com D. Leonor Teles de Mendonça. A única filha do casal, D. Beatriz, casara-se com D. João I de Castela. Com a morte do rei Fernando, o país ficaria sob o domínio estrangeiro.
         D. Pedro I de Portugal, pai de Fernando, tivera com uma amante, D. Teresa (Tareja, segundo o cronista Fernão Lopes), um filho, João, que, portanto, seria meio irmão de D. Fernando.
         D. João, aos 6 anos, é nomeado Mestre da Ordem de Avis, uma antiga ordem de cavalaria de Portugal. Com a possibilidade da anexação de Portugal, ao reino de Castela, o bastardo é lembrado e forma-se a dinastia de Avis, de homens cultos que vai dar início, através do Infante D. Henrique, filho de D. João I e irmão do rei D. Duarte, aos estudos técnicos de navegação.
         Esses reis dedicavam-se, eles próprios, aos estudos e incentivaram a cultura no país. O primeiro grande processo de recuperação da cultura regional iniciou com o patrocínio dos primeiros grandes cronistas. Fernão Lopes foi o primeiro deles, seguido Gomes Eanes de Azurara. Em seguida veio a Escola de Sagres, que propiciou conhecimentos para que se fizessem as navegações de grande curso.
         As grandes navegações portuguesas têm uma forte relação com alguns sábios judeus. É preciso retornar à Roma antiga e ao ano 70 d. C., quando o general romano Tito, filho do imperador Vespasiano Flávio, destruiu a cidade e o templo de Jerusalém, levou uma multidão de judeus como escravos para Roma e dispersou os demais pelo mundo, proibindo-os de permanecerem em seu país.
         Na maior parte dos países para os quais emigraram, foram perseguidos e maltratados, de modo especial no Império Franco e no poderoso Sacro Império Romano Germânico, porém, na Espanha eles não eram molestados e por 1400 anos criaram uma comunidade rica e progressista. Durante os setecentos anos de dominação árabe na Península Ibérica, do século VIII à primeira metade do século XV, como povos do Oriente Médio, conviveram muito bem com os invasores.
         Porém, com a progressiva implantação do cristianismo, que culminou com a poderosa corte dos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão, a riqueza dos judeus atraiu a cobiça dos poderosos. Foram-se criando restrições aos empreendimentos judaicos e acabaram pela expulsão deles.
         Em 31 de março de 1492, em Alhambra (Por isso Decreto de Alhambra), uma fortaleza na comunidade da Andaluzia, próxima a Granada, foi assinado um decreto condenando à morte todos os judeus da Espanha. As alternativas eram a conversão ao cristianismo ou a fuga do país. Milhares foram executados e seus bens confiscados. Os vizinhos já invadiam suas propriedades e as pilhavam mesmo antes das execuções.
         Pois, nessa ocasião, alguns sábios judeus refugiaram-se em Portugal. O Infante Dom Henrique, filho do rei D. João I e irmão de D. Duarte, já por volta de 1417, havia fundado o povoado de Sagres, onde fomenta e desenvolve um centro de estudos das ciências da navegação, que daria origem à Escola de Sagres. Essa escola vai colher seus melhores frutos com D. Manuel, conhecido como o venturoso, que reina em Portugal na segunda metade do século XV e início do século XVI.
         Voltando aos judeus, Judá Cresques, fugido de Barcelona, auxiliou os portugueses no desenvolvimento da ciência cartográfica. Tornou-se chefe do Observatório Náutico de Sagres. Trouxe para essa escola um grupo de sábios na área da astronomia e tecnologia. Ensinou também aos portugueses o emprego da bússola.
         A bússola e o quadrante são muito úteis às navegações, mas a grande novidade a bordo dos nossos navios neste começo de século é o astrolábio. É um disco, metálico ou de madeira, de 360 graus no qual estão representados todos os astros do zodíaco. Desde a Antiguidade era usado em terra firme, para calcular a posição e o movimento dos astros no céu. O que os portugueses fizeram com a ajuda dos sábios estrangeiros foi simplificá-lo e adaptá-lo para uso em alto-mar. O astrolábio permite calcular a latitude pela passagem meridiana do Sol, ou seja, ao meio-dia, quando o astro se encontra no seu ponto mais elevado no céu. Para isso, é necessário enquadrar o raio solar em dois orifícios existentes no aparelho e, em seguida, fazer alguns cálculos matemáticos.
         Uma contribuição decisiva para a aventura portuguesa nos mares foi dada, nos últimos anos, por um sábio judeu de origem espanhola. Abraham-ben-Samuel Zacuto, chamado Abraão Zacuto, é o autor de Almanaque Perpétuo, obra de astrologia (como se chamava a astronomia nessa época) que, adaptada ao uso náutico, se tornou fundamental nas expedições do descobrimento. Com 316 páginas e 56 tabelas, o almanaque de Zacuto fornece todas as informações necessárias para a determinação da latitude, incluindo as chamadas declinações, que são as diferentes posições do Sol no zodíaco a cada dia do ano. Redigido originalmente em hebraico, o almanaque foi traduzido para o latim por outro estudioso judeu, José Vizinho, médico do rei dom João II. 
         Natural de Salamanca, a cidade do saber na Espanha, Zacuto teve de partir depois da expulsão dos judeus pelos reis católicos, em 1492. Imediatamente foi convidado a trabalhar em Portugal como conselheiro de dom João II e, depois, de dom Manuel. Deu instruções pessoais a Vasco da Gama antes da partida da expedição que descobriu o caminho das Índias.
          Pedro Álvares Cabral, que ao descobrir o Brasil chamava-se Pedro Álvares Gouvêa, notável sobrenome de sua mãe judia o que pode explicar a razão de ter ele selecionado para a viagem ao Brasil uma tripulação constituída basicamente de cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) também conhecidos como marranos, ou seja, convertidos à força.
         Seu sobrenome era Gouvêa, o da mãe, porque havia, em sua pátria, a lei do morgado. Assim eram chamados os primogênitos de cada família. O morgado herdava os bens da família para que não houvesse partilha e o consequente empobrecimento. Como não havia previdência estatal, o morgado responsabilizava-se pela manutenção dos pais.
         Ora, Pedro Álvares era o segundo filho, dessa forma recebeu apenas o sobrenome da mãe, situação em que se encontrava em 1500 quando descobriu o Brasil. Somente em 1502, com a morte de seu irmão mais velho João Fernandes Cabral, ele recebeu o sobrenome Cabral. Cabral viajou para a América e, a seguir, para o oriente em caravelas.
         “As caravelas são um prodígio da nossa tecnologia e a vanguarda das expedições. São navios velozes e relativamente pequenos. Uma típica caravela portuguesa tem de 20 a 30 metros de comprimento, de 6 a 8 de largura, 50 toneladas de capacidade e é tripulada por quarenta ou cinquenta homens. Com vento a favor, chega a percorrer 250 quilômetros por dia. Utiliza as chamadas velas latinas, triangulares, erguidas em dois ou três mastros. Elas permitem mudar de curso rapidamente e, em zigue-zague, velejar até mesmo com vento contrário.”  “A grande vantagem das caravelas sobre os pesados navios mercantes utilizados no Mediterrâneo por genoveses e catalães é a versatilidade. Ideais para navegação costeira, podem entrar em rios e estuários, manobrar em águas baixas, contornar arrecifes e bancos de areia. E também zarpar rapidamente, no caso de um ataque imprevisto de nativos hostis.”
         “As naus são barcos maiores e mais lentos. A capitânia de Pedro Álvares Cabral é um navio de 250 toneladas e, ao partir, levava 190 homens. Elas são a ferramenta essencial no comércio já estabelecido com a África e no nascente intercâmbio com as Índias. Na longa viagem de ida, transportam produtos para a troca, provisões, guarnições militares, armas e canhões. Na volta, trazem as mercadorias cobiçadas pela Europa. Suas velas redondas são menos versáteis que as das caravelas, mas permitem uma impulsão muito maior com vento favorável. As caravelas, ao contrário das naus, levam pouca carga. Nem é necessário. Nessa época de grandes descobertas, a carga mais preciosa que elas podem transportar é a informação sobre as rotas marítimas e as terras recém-contatadas – um produto que não pesa nada, mas é vital para as conquistas no além-mar.”


caravelas

         “O grande mérito de Portugal não está na descoberta de novidades científicas, mas na assimilação de conhecimentos, recentes ou antigos, e sua aplicação com propósitos bem definidos, que é abrir rotas de comércio e agregar terras produtivas, onde não haja governo cristão, às propriedades da coroa. As técnicas que hoje permitem aos nossos navios cruzar o Mar Oceano, dobrar o Cabo da Boa Esperança e chegar às Índias são herança dos fenícios, dos egípcios, dos gregos e de várias outras civilizações antigas, guardadas e aprimoradas pelos mouros nos últimos séculos. A vela latina, que equipa nossas caravelas, foi trazida pelos árabes do Oceano Índico, depois de conquistarem o Egito. O uso do compasso para anotar a direção e a trajetória do navio chegou ao Ocidente no começo do século XIII. A confecção de cartas náuticas os italianos também aprenderam dos árabes, um século atrás. O astrolábio, um revolucionário instrumento de localização utilizado pela esquadra de Cabral na Terra de Santa Cruz, existe desde a Antiguidade e foi recuperado pelos astrólogos medievais para observar, em terra, o movimento e a posição dos astros no firmamento. Mesmo a bússola, fundamental nos descobrimentos, já é usada no Mediterrâneo há muito tempo por genoveses, venezianos e catalães.”
         “São muitos os desafios científicos que os descobrimentos impuseram a Portugal. O maior deles, evidentemente, é sair ao mar alto e voltar para casa com segurança. Até pouco tempo atrás, a navegação se restringia aos portos europeus e da área em volta do Mediterrâneo, todos mapeados e bem conhecidos do mundo civilizado desde a época dos romanos. Navegava-se mais por experiência – que em Portugal chamamos de "conhecenças" – do que por instrumentos. O único tipo de carta náutica disponível até anos atrás eram os mapas do Mediterrâneo desenhados pelos italianos no século XII. Conhecidos como carta-portulano, forneciam direções e distâncias aproximadas entre os principais portos europeus e africanos.” 
(http://veja.abril.com.br/idade/descobrimento/p_040.html)
         A grande façanha marítima portuguesa teve como uma de suas maiores e mais bem sucedidas conquistas a descoberta do Brasil. Sabe-se hoje que não se tratava propriamente de uma descoberta. Outros navegadores já haviam aportado por aqui, mas guardavam isso em segredo por não terem condições de tomarem posse de áreas tão vastas.
         Veja-se que D. Manuel gastou o orçamento de um ano da corte portuguesa para fazer sem empreendimento. Sorte dele é que os produtos levados do oriente no retorno cobriram com lucro imenso essas despesas.
         Os turcos otomanos haviam impedido as caravanas europeias em direção ao oriente de passarem por seus territórios. Estava, portanto, o continente europeu carente dos principais produtos orientais como pimenta e temperos. Isso proporcionou aos portugueses a receberem por suas cargas de pimenta um lucro de mais de mil por cento.