quinta-feira, 16 de maio de 2013

MITO E FÁBULA – O ABSOLUTO E O RELATIVO

 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

                                                                                     Aos desatentos, o simples parece uniforme, a uniformidade causa tédio
 e os entediados
 só veem monotonia ao seu redor 
(Martin Heidegger). 

    Desejo que este blog se inscreva na linha do mito, da fábula, que estão fora do tempo ou, pensando melhor, inscrevem-se em certo tempo primordial, no qual os procedimentos humanos não eram iguais aos de hoje. Essa inserção remete todos os ditos para outra dimensão, em que a palavra evoca, em cada destinatário, ora o sentido que ele procura, ora o que sua acuidade permite, ora ainda, o que a sua obtusidade veda. E na infinita polissemia do universo dos símbolos, das metáforas e narrativas, cuja imagem acústica, em sendo sempre a mesma, viaja pelos insondáveis universos do espírito dos indivíduos, desvelando portentos e remetendo ao insuspeitável, procuro sugerir, para não doutrinar.
    Conta uma antiga fábula que, havendo um conflito generalizado na floresta, toda a ordem estava por desestabelecer-se. O leão, que era o rei da floresta, devorava muitos de seus súbditos. E, a partir desse abuso de poder, outras rupturas se seguiram: a abelha atacava os bois e cavalos, as moscas, os cães; o porco emporcalhava as águas do lago, o macaco roubava a comida das raposas, e assim por diante. Enfim, a vida na floresta tornara-se insuportável. 
    Júpiter, o deus dos deuses, em sua infinita sapiência, atendendo aos apelos gerais, instituiu um novo rei. Ordenou a Mercúrio, seu mensageiro, que jogasse um enorme tronco no meio do pântano. Imediatamente comunicou a todos que não se aproximassem do supremo mandatário, que tinha poderes para fulminar todo o que fosse apanhado a menos de mil metros de seu leito de folhas macias. Que todos voltassem aos antigos princípios, pois, caso contrário, as tropas do novo potentado silencioso puniriam os infratores com castigos inimagináveis. Não é preciso detalhar o que se passou desde então. Poderíamos resumir tudo em uma cena quase grotesca em que o leão aparece, silenciosamente, trincando uma maçã, com um enorme feixe de capim sob o braço esquerdo. 
   Pois ocorre que, num país muito distante, diferentemente do que acontece em nossos tempos, sucedeu fato semelhante. Havia aí o costume muito elogiável de se escolherem, para ocupar o poder, apenas as pessoas cuja vida pregressa fosse marcada pela sensatez de seus atos. Como na floresta da fábula, também na terra sem nome, de há muito, o crime e a corrupção haviam-se tornado a regra, de tal maneira que, ser honesto era caso de chacota. 
   O mandante supremo, na ocasião, sensato como de costume, ordenou que se disseminassem lâmpadas vermelhas por toda parte, de tal forma que ninguém estivesse fora do alcance de uma delas. Elas seriam as guardiãs da lei e da ordem. Ao ser alertado por um assessor solícito sobre a inocuidade da medida, uma vez que as lâmpadas não possuíam poder algum, respondeu: 
    “Elas servem apenas como um sinal dos tempos, para que todos, antes de agir, olhem para a lâmpada de suas consciências. O de que necessitamos não é de truculência, mas sim de um processo educativo eficiente, que produza pessoas sensatas, colaborativas, desarmadas de espírito e capazes de entender apenas ao apelo simples da própria consciência. A educação deve ensinar a cada indivíduo a ler os sinais dos tempos, próprios de cada momento. A ciência e a tecnologia são importantíssimas para o progresso e a manutenção dos corpos. Mas, unicamente elas, são insuficientes para a construção de um país saudável. Quem souber ler esses sinais, sabe como proceder em cada situação que a existência falaz lhe apresenta. A educação humanística dos espíritos é o instrumento eficiente para formar o cidadão fraterno. É esse processo que conduz à formação do cidadão, despido de um discurso absoluto, pleno de certezas. Emerge o ser que busca o novo, o inusitado. A prepotência de se instituir uma palavra absoluta, absolutamente estabelecida e definida, é, em si mesma, a negação total do diálogo, a condenação da dialética.” 
    Se olharmos para a proposta do administrador anônimo, perceberemos que ele propõe um modelo de postura educacional que se opõe a um tipo de discurso absolutizante da voz oficial como infalível. Esse discurso absolutista é o representante indiscutível de uma pseudociência, que transforma um discurso determinado em infalível, naquilo que ele quer dizer, confundido-o com aquilo que ele deve dizer em nome de um sistema. 
    Por fim, esse discurso se confunde com a própria palavra divina, como se o mesmo Deus estivesse falando, o que se configura como idolatria, confluindo para uma postura que impede, nega e proíbe ao ouvinte, de ouvir; e nega também a liberdade do falante, de falar. 
    A prepotência da palavra absoluta, cuja base é o pensamento indo-europeu, precipuamente o manifesto em certas vertentes da filosofia grega, negou a possibilidade do feminino; negou a condição humana para o negro e para o índio, enquanto defendeu a escravidão que, sob certas máscaras, ainda permanece. Erigiu em absoluto o que é essencialmente relativo. Fetichizou-o, negando, assim, a possibilidade sempre nova e surpreendente da manifestação do Absoluto. A prepotência da palavra absoluta, a pretexto de sacralizar, divinizar alguns espaços, alguns tempos e algumas pessoas, acabou negando, para todos, a possibilidade dialogal do encontro. 
   Para o indo-europeu, pastor, a cavalo, o primeiro a descobrir e utilizar o ferro, ser homem é ser dono, proprietário, dominus. O homem masculino, e somente ele, é o proprietário da terra, dos animais, da família; consequentemente da mulher e dos filhos, dos outros homens, que, por direito, são seus escravos. Surge seu protótipo mais perfeito, o paterfamilias romano, que se torna o arquétipo do homem no mundo ocidental.
    E chega ao cúmulo de se tornar dono do próprio Deus (o ar luminoso, Zeus), sinônimo de dia, que lhe serve de meio e condição para ser dominus e controlar sua propriedade. É dono de Deus, ora pelo exercício ritual de poderes mágicos, ora através da racionalidade, para explicar física e racionalmente o mundo e o universo. 
   Todo aquele que ingressa na propriedade, que é o âmbito do homem, se torna inimigo e ladrão. E essa invasão se faz, ora através da guerra, ora através da lógica: os dois elementos essenciais que compõem a substância do império contra a colônia, que é, para o indo-europeu, a única forma de ser homem. Embevecido pelo poder mágico-operativo da linguagem, o indo-europeu faz dela a arma do domínio absoluto de tudo, porque seu discurso é lógico ou científico. Esse poder da palavra faz desse homem sem nome, escondido por trás das paredes dos gabinetes, dono da natureza, dos outros, de si e do Fundamento.   
   Essas são as consequências práticas do modelo absoluto de ciência, que se propõe como neutro e gera um discurso opressor. Grupos de opressão usam da linguagem, que se esconde por trás da ciência, para dominar e oprimir. Usam a religião (religiões) para explorar, colocando Deus a serviço de seus interesses.  
    Desse processo, emerge um modelo de educação que sufoca o aluno, em vez de dar-lhe oportunidade para a realização pessoal. Porque esse discurso é expressão da ciência e da lógica, cabe apenas ao aluno o papel de decorar, aprender, no mais mesquinho sentido que esse termo pode ter (apreender). Fixar o que outro disse, porque é verdade, que a autoridade do mestre certifica. Constrange esse pobre oprimido a reproduzir, no processo de avaliação, o que é correto, o que é belo, já de todo sempre estabelecido como tal, e, portanto, indiscutível, porque já consagrado. 
   Um professor pode abafar com afeto o crescimento do aluno. A mão que afaga a cabeça pode ser pesada demais a ponto de não permitir o crescimento, a rebeldia, o confronto, o face-a-face. Esse discurso deve ser relativizado de tal forma que se estabeleça na educação o processo da eterna busca e não da decoreba de formulações teóricas “corretas e científicas”. 
   Em nome dessa absoluta relativização do discurso, crio este espaço. Relativização tão absoluta, que se admite a si mesma como relativa, concedendo espaço até mesmo ao discurso absoluto, pois, se tudo é relativo, o próprio discurso de que tudo é relativo também o é, concedendo espaço ao que é absolutamente indiscutível.