quarta-feira, 24 de julho de 2013

O VELHO, O MENINO E O BURRO – FÁBULA

Oscar Brisolara
A fábula é um gênero literário que surgiu muito antes da narrativa escrita. Era, a um tempo, uma forma de divertimento, uma vez que se contavam histórias, às vezes, hilariantes; enquanto também, funcionava como processo educativo. Todos os povos possuem essa antiga tradição de uma literatura oral que atravessou os tempos e trouxe lições de uma aprendizagem imemorável, anônima. Mesmo os primeiros fabulistas que as transcreveram para a memória dos homens, como o grego Esopo e o romano Fedro, afirmam nada haverem criado: apenas haviam escrito o que de há muito se narrava de geração a geração como sabedoria dos mais antigos. 

 
 Pois conta-se que, nesses tempos de antanho, vinham por uma estrada poeirenta, um velho montado a um burro e um menino os seguia andando todos vagarosamente, naquela época em que para nada se tinha pressa. Porém, um forte lavrador que preparava seu campo para o plantio do trigo à beira desse caminho tortuoso entre a colina e o vale, ao vê-los, afirma: - Que barbaridade! 
O velho preguiçoso no lombo do jumento, enquanto a pobre criança caleja os pés nos seixos do caminho. O pobre ancião, ouvindo as razões do agricultor e sentindo-se envergonhado do próprio procedimento, desceu do animal, suspendeu sofregamente a criança e a depôs no dorso do forte jumento. 
Assim prosseguiram novamente, caminho afora. Quando já haviam dobrado a prega do cerro, espraiou-se diante deles um murmurante riacho em cuja margem uma alegre senhora lavava as roupas dos seus meninos, cantando as tradicionais toadas do destino triste daqueles que a vida não doirou com o encanto de um castelo, ou o poder de um palácio. 
Os pequenos corriam pelas areias ardentes e refrescavam os pés, de quando em quando, no frescor das águas que serpenteavam por entre troncos e rochas. Pois a sonhadora lavadeira, ao ver os transeuntes que se aproximavam, olhou o velho, com os pés cobertos do pó que o vento carregava de um lado para o outro e marcas de suor seco nas faces em queimadas do sol, exclamou: - Quanta injustiça no mundo.
 Esse menino, na flor da idade, montado na cavalgadura, enquanto o pobre ancião, já alquebrado dos anos de trabalho, enfrenta o caminho duro, calejando os pés cansados... - O menino, ouvindo a censura da mulher, saltou depressa do lombo da besta. Confabularam brevemente sobre quem deveria ocupar o assento no animal e chegaram à conclusão de que, afinal, o bicho era robusto e bem poderia carregar a ambos pelo resto do caminho. 
E assim se foram, contemplando a paisagem que se estendia diante de seus olhos, rodeando colinas, cortando regatos, e perderam-se, estrada a fora, por tempo sem conta. Quando chegaram diante de um moinho, estava lá um moço robusto, descarregando uma carroça repleta de sacos de trigo poeirento e pesado, que jogava sob a mó. A imensa roda de água, cujos encaixes de madeira rodavam pelo tombar da corrente de água gelada, girava lentamente a pedra superior da mó que ia lentamente esmagando os grãos macios e no fundo de sucessivas peneiras acumulava-se uma colina espessa de branca farinha.
 Ora, ao ver o moleiro que paravam à beira do lago do moinho, avô e neto, no lombo do animal suado da caminhada, estando o burro a sugar largos sorvos de água refrescante e sadia, censurou: - Este mundo está certamente mal arranjado. Esses dois preguiçosos, nas costas do coitado do animal, que além de enfrentar a aspereza do caminho e ardor do sol, tem também de arcar com o peso de seus corpos robustos e sadios. Para que receberam eles, da mãe natureza, pernas e forças para enfrentar com elas seu próprio destino? 
E os dois seguiram, descendo a encosta diante do burro, cortando os pés naquele caminho escaldante à hora do sol a pino, temendo que alguém os aconselhasse a carregar o jumento. Quem vive a seguir somente a opinião alheia, sem convicções próprias, nunca terá uma direção segura. 
Que se fará hoje, quando passeatas e protestos criticam a tudo e a todos, seja qual for a direção que se tomar?