sexta-feira, 25 de outubro de 2013

AS FLORES DO CAMPO

         
          Obrigado pela bondade e generosidade de todos. As flores do campo, ah sempre e de novo as flores do campo, amiga Miriam Carniato, nós também brincávamos  com os mal-me-queres, porque não eram do jardim e ninguém se importava se os destruíssemos. Elas são tantas, as marias-moles... e tantas outras  espécies de cujos nomes não recordo mais... algumas, com um cheiro muito  ruim... Os mal-me-queres não têm perfume algum e no miolo, também amarelo, uns pistilos curtos que a gente, eu e minha irmã, arrancávamos para fazer comidinha... as marias-moles possuem um agradável perfume de mel, que as abelhas buscam... às vezes elas picavam a gente e ficávamos de olho ou dedo inchado e com uma dor terrível... algumas horas de choro... não havia o que fazer... nenhum remédio... a mãe dava um beijo... "vai passar logo"... e passava... a gente voltava... não se podia comê-las... "faz mal, é veneno, mata"... não se comia... depois, arrancando as pétalas uma a uma: mal-me-quer, bem-me-quer, muito, pouco, nada... até a última pétala... se essa caísse no mal... pegava-se outra... não havia brinquedos comprados, no campo... nunca ganhei nenhum... não fazia mal... ninguém ficava triste por isso... eram bois de batatas miúdas com patas e guampas de pauzinhos... vacas de ossinhos de animais que morriam no campo e, depois de muito tempo, a natureza os deixava branquinhos... completamente limpos e inofensivos... depois a bosta seca de cavalo,lavada por chuvas e chuvas... sem cheiro... sem nada... com elas se faziam casinhas... cidades... e se construíam sonhos... um caminhão...um castelo... (que a gente não sabia o que era... mas se ouvia falar)... e depois o pai fazia um peão de madeira e prego... um dia eu ganhei um leão de plástico... o pai fazia alguns caminhões de madeira... a gente achava lindos... e eram... a minha irmã ganhava umas bonecas de cabeça de gesso... depois a mãe fazia o corpo de pano... e tantas outras a mãe fazia de pano também... olhos bordados de linha vermelha e boca e tudo... não havia luz elétrica... lamparinas de querosene... na sala grande um lampião grande... tudo meio penumbra... a gente aprendeu a ler assim... mamãe... mamãe professora... sabia de tudo... contava histórias nas longas noites de inverno... da Itália... da Áustria... das  montanhas... os Alpes de onde vovó despencara quando criança... agarrada por um homem grande... quanta vergonha... ah, os mistérios e os  medos da noite... os barulhos sem um sentido preciso... o que será... não havia rádio... televisão!!!! hahaha... o silêncio era profundo... ah, o silêncio do campo... quanta saudade... o silêncio da noite, então,  esse era verdadeiramente silêncio... apenas o latido de um cão, às vezes... e não era triste não... muita alegria... muitas brincadeiras... ríamos sempre... choro... só quando era preciso...