quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

BRASÍLIA

J. Antonio d’Ávila
 
Aos homens de couro entregaram o aço, o cristal e o mármore e isso os
deslumbrou! 
Pensavam outra vez brincar de criança, quando viram saltar
de suas mãos humildes e pobres um mundo de formas e coisas fantásticas!
Depois entenderam que tinham um poder. 
Todos sentiam que eram, agora,
em vez de devotos implorando milagres nas cidades incendiadas de sol,
nas estradas de fogo, de ossos e pó, eram eles, agora, os santos, os
santos senhores dos poderes divinos! 
Mas a luz do cristal, a força do
aço, a frieza, a dureza do mármore causavam cansaço e o encantamento
dos santos de couro se apagava, morria, e renascia o anseio de, outra
vez, serem homens. A solidão esmagava! 
Os olhos não viam uma jurema em
flor!... 
E regressaram ao país dos angicos, mas lá já chegaram
estranhos, sem nada entender. 
E ninguém os reconhecia! 
Voltaram, outra vez, para trabalhar nos milagres. 
Então, os milagres surgiram com força
maior. Estrelas enormes cravaram no chão. Pedaços de nuvens amarraram
para sempre no lugar que escolheram. Longas tiras de nada viravam tudo
em suas mãos. 
E as tiras imensas esticaram no espaço. 
Blocos de ar e de água viravam flor, num momento – para sempre! 
Paravam o vento onde bem entendiam e, num instante, com um gesto, lhe davam formato, lhe davam
uma cor. Um deus os guiava. Um deus ordenava que assim tudo fosse. E
assim foi. Onde os santos homens de couro Puseram a mão a vida passou a
existir! 
Um dia chegaram os homens de pano. Eram os donos. Os donos do
aço, do cristal e do mármore. E apenas ficou prometido que, só
transcorridos mil milagres daqueles, os filhos dos filhos de um homem
de couro poderiam ser donos de uma estrela no chão, de uma nuvem
cativa, da água e do ar transformados em flor! 
As cidades incendiadas
de sol, as estradas de fogo, de ossos e de pó, esperam... esperam e
sorriem perversas... 
Elas sabem que os pobres homens de couro custarão
a descobrir: os deuses sabem criar mas não sabem dividir!