sábado, 29 de novembro de 2014

SÍSIFO – O MITO DA ROTINA DIÁRIA

            Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
         
Sísifo, de Tiziano, 1549
Geralmente, este mito remete à rotina das atividades diárias, repetitivas e constantes. Os gregos elaboraram também para essa situação um criativo mito, o de Sísifo, cujo nome em grego clássico é Σίσυφος. Ele era filho de Éolo, a divindade grega do vento, e fundador da cidade de Corinto. Segundo uma tradição antiga, liderada por Homero, era o mais sábio e mais prudente dos mortais, mas há outra versão segundo a qual seria um assaltante. Há versões ainda que o ligam ao comércio, segundo as quais, sempre enganava seus parceiros.
Sísifo recebera o trono de Corinto após a morte de Creonte e a partida de Jasão e Medeia da cidade. Sísifo casara-se com Mérope, uma das sete Plêiades.
Teria um irmão de nome Salmoneu a quem detestava. Usando de estratégias, acabou provocando a morte do irmão. Zeus enviou-o a Tânato, divindade da morte. Porém, o astuto Sísifo enganou esse deus, elogiando sua beleza, e convencendo-o de que ficaria mais belo com um colar ao pescoço. Assim, aprisionou-o com uma corrente, de tal forma que, por muito tempo, ninguém mais morria. 
Essa atitude do herói provocou a ira de Ares, deus da guerra, e de Hades, deus dos mortos, que precisavam da Morte para exercer suas funções. Logo que tomou conhecimento da prisão de Tânato, Hades libertou-o e solicitou-lhe que trouxesse o embusteiro para a mansão dos mortos.
Ainda desta vez, ele ludibria as divindades. Antes de partir para o mundo subterrâneo, pedira que sua esposa deixasse seu corpo insepulto. Chegado à mansão da morte, queixou-se a Hades de que a esposa não o havia sepultado. Solicitou à divindade o obséquio de retornar e providenciar as próprias exéquias, o que lhe foi concedido.
Chegado à sua casa, retomou o próprio corpo e fugiu em companhia da esposa. Desse modo, pelo segunda vez, ludibriara a Morte. Assim, escondido dos deuses, viveu até avançada velhice.
O suplício de Sísifo - Franz von Stuck (1863 - 1928)

Zeus ordenou a Hermes que o conduzisse ao tártaro onde teve um castigo exemplar, por sua contumaz rebeldia e desacato às ordens divinas. Sua pena foi conduzir, rolando-a com as próprias mãos, uma enorme pedra de mármore ao cume de um outeiro. Lá chegada, a pedra rolava morro abaixo por um empuxo irresistível. O condenado teria de novamente movê-la ao topo, assim, constantemente e para todo o sempre.
Albert Camus, o grande escritor argelino-francês, escreveu uma versão muito bem elaborada do mito sisifiano. Em sua filosofia do absurdo, o romancista explora o tema de que a vida humana sobre a terra e o esforço que ela exige do ser humano é completamente absurda, levansdo-se em consideração que o escritor é ateu.
Em “O Mito de Sísifo”, Camus afirma que, num mundo sem Deus, nem eternidade, ao homem somente resta a revolta. Procura um sentido para o ateu dentro dessa existência absurda. Somente a paixão numa dimensão estritamente material e humana é uma possível saída. Afirma: "Não há um nobre amor, mas o que reconhece - tanto os efêmeros quanto os duradouros". Dom Juan, o conquistador inveterado, seria exemplo acabado desse amor.
Camus explora também o absurdo criador ou do artista. Desde a explicação é impossível, o absurdo da arte é restrita a uma descrição das inúmeras experiências no mundo. "Se o mundo fosse claro, a arte não existiria." A absurda criação, naturalmente, tem também de abster-se de julgar e de aludir ao mesmo tempo a menor sombra de esperança.
Para o narrador, o mito de Sísifo aponta para um tipo de homem que não se acomoda a um destino proposto pela divindade. Pelo contrário, não crê em prêmio ou castigo, após a morte. A vida humana, nesse aspecto, é absurda: não existe paraíso, não existe inferno. O homem deve aprender a conformar-se com sua finitude e com o nada que se segue à morte. Conclui: "O operário de hoje trabalha todos os dias em sua vida, faz as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente".
Outras leituras menos pessimistas podem ser feitas a partir do mito de Sísifo. Ele é apontado por uns como o mito da paciência, do sonho no futuro. Mesmo sofrendo revezes, é possível continuar lutando por ideais difíceis de atingir. O impossível não existe. O persistente acaba atingindo sua meta. A paciência diminui a dor.