quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A MULHER NA FILOSOFIA GREGA – DIOTIMA DE MANTINEA – EROS, FRUTO DO O AMOR ENTRE POROS (ABUNDÂNCIA) E PENIA (A NECESSIDADE)


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Diotima por Józef Simmler, 1855
Diotima de Mantinea foi uma filósofa e sacerdotisa grega. Seu nome em grego clássico é  Διοτίμα. A filosofia de Diotima auxiliou Platão a chegar a seu conceito clássico de amor. A única fonte que se tem sobre ela é Platão, por isso, alguns chegam mesmo a afirmar que se trata de uma personagem do grande filósofo. Porém, pelo que se sabe, todas as personagens das obras de Platão correspondem a pessoas que viviam na Atenas do seu tempo. Mantinea (Μαντίνεια), era uma cidade grega do Peloponeso, região ao sul da Grécia, abaixo do golfo de Corinto, ode nascera Diotima.
Em O Banquete, há uma passagem específica, quando se debate o amor, em que o pensador se refere a ela. Sócrates, o mais importante dos presentes ao banquete, afirma ter sido iniciado, em sua juventude, na filosofia do amor por Diotima.
Pois o tema discutido nesse banquete é justamente o amor. Segundo ainda Sócrates, a sacerdotisa e vidente Diotima ter-lhe-ia fornecido a genealogia do amor (ρως), que, segundo ela, seria filho da Abundância (Πόρος) e da Necessidade (Πενία). Na visão dela, o amor seria um meio para a contemplação do divino. O amor revela um desejo de imortalidade.
Há, ainda de acordo com o pensamento da sacerdotisa, dois tipos de amor: um físico e outro espiritual. Enquanto o amor físico visa a preservar a espécie, e a alcançar a imortalidade através da descendência, o amor espiritual se pereniza através de ideias e pensamentos, que, por si próprios, são imortais. O fim último do amor é alcançar o divino.
Eros -William Adolphe Bouguereau

Na mitologia grega, Penia era a daímon (Δαίμων) (daímon é um ser espiritual como um anjo) que personificava a pobreza, a necessidade, sendo, por isso, odiada, detestada pelos homens. Era companheira da Aporia (Άπορία), a dificuldade; da Amecania (Άμηχανία), o desamparo; da Ptoceia (Πτωχεία), a mendicância. Seus daimones opostos seriam Plutos (Πλοτος), a riqueza e a Euteneia (υθηνία), a prosperidade.
Pois Diotima fundava o amor no mito de Poros e Penia. No casamento de Afrodite, Poros encontrava-se completamente bêbado.
Poros era filho de Zeus e Métis. Primeiramente, é necessário fazer um comentário sobre Métis. Tratava-se de uma divindade pré-olímpica, sem culto e sem estátuas. Nesse tempos muito primitivos, ainda restavam resquícios do matriarcado, em que a fecundação e a gravidez eram vistas como algo mágico pelo homem, masculino. Só tardiamente o homem descobriu seu papel na geração humana, acabando, então com o sistema matriarcal e criando o patriarcado machista.
Pois foi nesse período que Zeus gerou em Metis o filho Poros. Mas foi como se a deusa lhe concedesse um favor. Sucedeu que, então, que no casamento de Afrodite, uma mendiga, morta de fome, buscava as sobras de comida. Chamava-se Penia. Depois de conseguir entrar no banquete e de fartar-se com os alimentos e bebidas que sobravam, propôs-se seduzir Poros. Isso não foi difícil, pois percebeu que ele era extremamente sensível à adulação.
Esconderam-se no jardim, fugindo aos olhares dos demais e mantiveram relações mais de uma vez. Dessa relação, nasceu Eros, filho, portanto, de Poros, o excesso, a abundância, e Penia, a pobreza, a miséria, a necessidade.
Assim, Eros, é metafisicamente e metaforicamente a subjetividade e a objetividade, por isso é um deus alado. Situa-se um pouco aquém da pura necessidade dura e física de sua mãe  e um pouco além da abundância e vaidade de seu pai. Unem-se, por um lado, o desejo e a falta, o eu e o outro. Amamo-nos a nós mesmos com a medida da falta do outro.
Todo o amor é composto de ausência e completude. Não é pura ausência e nunca será completude perfeita. Essa parcial incompletude move-nos na direção do outro, que perfaz o caminho inverso. Marca-se pelos constantes encontros e desencontros, cujo sentido, muitas vezes, não conseguimos entender.
A falta faz-nos desejantes, erotizados, amorosos, em uma palavra, submetidos à ausência básica que inspira em nós a fome da busca do outro, uma fome que nos conduz na direção do outro e de todos os outros. O grande pintor René Magritte expressa em seu quadro o rosto anônimo da eterna busca.
the-lovers- René Magritte

Assim, na Grécia clássica, surgiu a figura do erastés (ραστής), o amante, homem aristocrata, envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino (chamaríamos isso hoje de pedofilia), conhecido como erómenos (ρώμενος). A relação entre ambos excedia em muito o meramente sexual.
Havia mesmo uma disputa pelos erómenoi. O ideal do erastés era ser controlado e discreto, generoso e simpático. Havia um período chamado hôraios, que nós consideraríamos como infância, em que o adolescente se destacava pela beleza, modéstia, esforço e coragem, mesmo na guerra.
Em O Banquete, Platão afirma que “os erómenoi são os melhores meninos que amam homens e que gostam de ser abraçados por eles.” De fato, esses meninos eram objetos de afeto e paixão, contudo não necessariamente mantinham relações sexuais com seus parceiros.
Platão

Platão, ainda em O Banquete, afirma: "Porque eu não conheço nenhuma bênção maior para um jovem que está começando na vida do que um amante virtuoso, ou para um amante do que um jovem amado."
Essa seria a concepção ideal de amor entre um erastés e um erómenos.













Sócrates

 Sabe-se que, na prática, as coisas não corriam sempre desse modo, tão nobre, tão altruísta.
Dentro das diversas concepções de amor há uma grande aporia, ou seja, um conflito radical. O fato essencial, porém, é que todo o modo de amar funda-se numa carência que se situa na raiz do mito de Penia e Poros. Situa-se na essência psicológica do próprio mito. Toda e qualquer espécie de amor funda-se em uma espécie de buraco, de ausência que permitem a construção de todas as metáforas. Na falta de algo, emprega-se, em seu lugar uma palavra, cujo sentido se fundamenta na essência desta ausência.
O Banquete, obra que funda a maiêutica socrática, instaura toda a tensão entre Poros e Penia, ente amante e amado, entre erômenos e erastés, entre sujeito e objeto. Isso se expressa no diálogo entre Alcibíades e Sócrates: “Tu queres trocar o ouro de teu saber pelo cobre da minha ignorância.”
O jovem Alcibíades precisaria aprender que há um segredo dentro do próprio segredo que somente pode ser desvelado por um olhar para dentro de si mesmo. Somente quem encontrou-se a si mesmo, encontrou-se consigo mesmo e com a verdade quer habita o seu espírito, pode encontrar-se com o outro. Caso contrário, o que se queria amor será eterna cobrança, sempre do outro, sem perceber que pobreza, carência e abundância moram dentro de nós. “Nosce te ipsum”, “γνώσει δ σαυτν”, “conhece-te a ti mesmo” ou “conheça-se a si mesmo” é o princípio que está na raiz profunda do amor.
Como Eros é filho de um imortal, Poros, e de uma mortal, Penia, ele traz em si esta dupla dimensão, uma carnalidade física no caminho da perpetuidade das espécies, e uma imortalidade divinizadora que apela para a abundância do espírito, e busca do eterno apelo daquilo pode ser sempre outra coisa do que é, em uma constante transformação porque, tudo é sempre polissêmico, sempre passível de ser novo e renovável.

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