segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A MAGIA DO RIO TIBRE, CORTANDO A VELHA ROMA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Roma - Ponte Sant'ângelo com castelo ao lado
Descia os velhos degraus de pedra desgastados pelos séculos de contínuos movimentos de andantes, rumo ao leito do Tibre, pacífico e calmo. Era setembro de 2012. Tomara a escadaria, caminhando para o castelo Sant’Ângelo. Partira do centro velho em direção do que fora o antigo túmulo dos imperadores romanos, iniciado por Adriano, no segundo século d. C. e concluído, em seguida, por Antonino Pio.
Transpusera já a velha ponte. Tomara a longa escadaria. Aproximava-me das águas. Altos muros protegem a cidade de inundações. Chegara já ao fundo. Uma pista para exercícios físicos segue entre o muro e a correnteza. Como as águas estavam muito baixas, pude sentar-me sobre o tosco de uma pedra rústica e tocar as águas razoavelmente limpas do vetusto rio. Uma fina chuva umedecia a capa plástica adquirida ao sair dos Museus Vaticanos.
Descendo as escadarias do Tibre

Uma energia forte invadiu, então, o meu espírito. Parecia uma força física, que emanava daquelas águas ou das margens. A mente me era invadida por imagens fortes. Lembrei-me de que Júlio César por ali cavalgara. Talvez houvesse mesmo desalterado seu cavalo com aquelas águas.
Oscar e Cris na ponte Sant'Ângelo

Cícero, o grande orador, por ali também andara, talvez cismando argumentos para seus discursos proferidos no senado romano ou no tribunal do júri, junto ao templo de Júpiter Capitolino.
O próprio Pedro, apóstolo e primeiro Papa, teria bebido ali, e fora executado, por ordem de Nero, no bosque dos Vates, onde se ergue a atual pomposa sede das igrejas católicas do mundo todo. Sua cruz se erguera a não mais de cinco quarteirões de onde me encontrava.
César fora executado pelos republicanos, a uma distância um pouco maior, do ponto onde eu meditava, a uns vinte quarteirões irregulares, em ruas curvas e assimétricas.
Marco Aurélio escolhera a margem esquerda do rio para construir seu majestoso túmulo, transformado, depois, em castelo pelos papas, o imponente Sant’Ângelo, que se transformaria, mais de um milênio depois, na sede dos exércitos pontifícios do Papa Alexandre VI e seu filho general, o condottiere Cesare Borgia.
Lucrézia Bórgia, irmã de Cesare, também filha do Papa, vivera muito próxima desse ponto. Muitas vezes, deveria ter por ali passado, em sua carruagem, partindo do palacete Bórgia, ás margens do rio, rumo aos aposentos Bórgia do Vaticano. Ainda não fora construída a suntuosa Basílica de São Pedro.
Tibre e seus muros
Aquelas águas haviam presenciado mesmo a cruel execução de Beatrice Cenci, ocorrido pouco mais de meio século depois da queda dos Bórgia. Beatrice, assediada pelo pai e depois estuprada por ele, decidira, com o auxilio dos próprios irmãos e da madrasta, vingar-se do agressor. Assassinaram Francesco Cenci. Descobertos, mesmo sob protesto popular, foram executados diante do público, no Castelo Sant’ângelo, ao lado do Tibre.
Esse rio abrigou, em suas margens, os lendários gêmeos Rômulo e Remo, amamentados pela loba romana. Foi, primeiramente, o rio fecundante da Satura Tellus, protegida pelo deus agrícola Saturno. A seguir, o fecundante rio, viu Júpiter, divindade de cultura grega, ser cultuado no topo do Capitólio, por quase dois milênios.
Por fim, Pedro, judeu missionário, morre na colina dos vates, instaurando, para milênios, o cristianismo, a partir da margem esquerda do milenar curso de águas romano.
Tibre, Oscar

E o Tibre, paciente e silencioso, acolheu a lenda dos gêmeos e da loba e os agricultores de de Saturno. Abençoou, com águas fecundantes e desalteradoras, os seguidores de Júpiter e sua divina esposa, Juno. Por sua vez, recebeu a mais universal das crenças, a fé dos seguidores de Cristo, sempre com a mesma paciência e servilidade.
Eu, cismando às suas margens, cada vez que visito Roma, sinto a força dessas águas, nascidas no alto do Fumaiolo, na Cordilheira dos Apeninos e seus gelos eternos. É algo inefável, que invade a alma e aponta para o infinito, enquanto o rio desliza rumo ao Mar Tirreno.