segunda-feira, 24 de março de 2014

CULTURA CHINESA - LAO TSE - TAOISMO




Lao Tse, em chinês 老子, é um pensador, místico, filósofo e alquimista chinês. Alguns creem que é apenas uma lenda. Diz-se ter ele nascido com aparência de velho. Por essa razão, teria recebido o nome de Lao Tzi, uma das variantes de seu nome, o que significa “criança velha”. É fundador de uma filosofia conhecida como taoismo. Teria vivido por volta de 1300 a. C. Outras fontes afirmam ter ele vivido entre os séculos VII e VI a. C., chegando mesmo algumas fontes a situá-lo no século IV a. C. 
Há uma tradição na China, segundo a qual teria sido ele inicialmente bibliotecário real. Depois teria sido responsável pelos arquivos judiciais do império, na cidade de Lovang, estado de Ch’u. O seu contato com os livros e sua sabedoria pessoal induziram-no a criar uma doutrina de caráter panteísta segundo a qual Tao ou caminho, é o princípio material e espiritual criador e ordenador do mundo. No terreno prático, preconizou a vida contemplativa e a supressão de qualquer desejo. Desgostoso com as intrigas e disputas da vida na corte, decidiu abandoná-la, seguindo para o oeste, em direção à Índia. 
Ao chegar à fronteira, o guarda Yin-hsi reconheceu sua sabedoria, reverenciou-o conforme a tradição chinesa, pedindo para tornar-se seu discípulo. Pediu mais, que antes de deixar a China, fizesse um registro de seus ensinamentos por escrito. Assim, antes de partir, Lao Tse escreveu os oitenta e uns pequenos poemas que receberam de Tao Te Ching.

Obra de Lao Tse 

Tao Te Ching (Livro do Caminho da Virtude) 

Segundo uma antiga tradição, Lao Tse teria nascido na província de Ha Hue, na cidade de Guo Yang, de acordo com o ano chinês, no vigésimo quinto dia da segunda lua do ano de Ken-Tzen da era Wu-Tin (entre 1324 e 1408 a. C.) Seu pai seria alquimista de renome no período da dinastia San que durou mais de cem anos. 
Sua mãe, que teria sido também sua mestra, o teria concebido ao engolir uma pérola de luz e sua gestação teria durado oitenta e um anos. Lao Tse teria nascido do lado esquerdo das costelas de sua mãe, no jardim da família, sob uma planta chamada Li (ameixeira), com cabelos brancos e orelhas grandes. Essa é a razão de seu nome Lao Tse (filho velho) e Li (orelha grande de ameixeira). A união dos ideogramas chineses para velho e criança, em seu nome, originaram seu título de “Senhor do Fim e do Princípio”. 
Teria sido convidado pelo rei When para ser responsável pela biblioteca real, tendo assumido o cargo de historiador real até o décimo nono dia da lua de vigésimo quinto ano da era do rei Zhao, ano em que iniciou sua grande viagem para o ocidente, com o intuito de chegar aos reinos da atual Índia. 
Durante a viagem, teria permanecido algum tempo na fronteira de Yü Men e aceitado o oficial chefe da fiscalização como discípulo. Ditou-lhe os princípios fundamentais de sua doutrina e filosofia que ficou conhecido como Tao Te Ching. 
Muito tempo depois, subiu ao deserto de Gobi. Aí, seu corpo passou a emitir raios de luz em cinco cores, tendo desaparecido no céu logo a seguir. Após essa ascensão maravilhosa, teria retornado à terra reencarnado como filho único do senhor Li Po Yang da província de Shu. 
O oficial de fronteira, seu primeiro discípulo, Yi Shi, reencontrou-o na sua aldeia natal. Uma criança de três anos de idade revelou sua verdadeira identidade. Então, seu corpo cresceu, transformando-se me luz dourada e branca. Nessa ocasião, Lao Tse pronunciou um discurso em que manifestou seus novos ensinamentos. Essa revelação é conhecida como “Tratado Maravilhoso do Princípio Solar do Tesouro do Espírito” (Ling Bao Yuan Yang Miao Ching). Após concluir seu ensinamento, os duzentos membros da família Li subiram para o infinito, seguidos por Lao Tse e Yi Shi. Isso se deu em vinte e oito de abril de 118 a. C.. 
Depois desse evento, segundo nascimento e ascensão, Lao Tse teria retornado muitas outras vezes para transmitir novos ensinamentos e para ordenar novas tradições. Por essa razão, é conhecido entre os taoistas como “Sublime Patriarca do Caminho”. 
O grande dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu um belo poema sobre o guardião de fronteiras e seu papel na transmissão desse legado para a humanidade. Escrito em 1938, está inserido em sua obra Poemas de Svendborg, publicado em Copenhague, em 1939 . Termina assim: 


Taoismo 

O conjunto de princípios religiosos e filosóficos conhecido como taoismo, daoismo ou tauismo originou-se na China presta. Enfatiza a vida em harmonia com o Tao, às vezes dito também como Dao. O significado desse termo corresponde a um ideograma chinês assim representado 道, cujo significado é caminho, que poderia ser traduzido também por via ou princípio. É um conceito muito comum em outras doutrinas religiosas e filosóficas chinesas. 
No taoismo, especificamente, assume a dimensão de força motriz que está por trás de tudo o que existe. Afirma seus estudiosos que se trata de um princípio indefinível. 
No decorrer do tempo, o taoismo institucionalizou-se como as demais religiões e originou diferentes escolas de pensamento religioso e filosófico. Surgiram, então os Naturalistas, apresentando conceitos como yin-yang, ou a teoria básica de que os cinco elementos que formam o mundo material seriam a madeira, o fogo, a terra, o metal, e a água.. Criaram-se também rituais de exorcismo e adivinhação e práticas para atingir o êxtase, obter longevidade e até mesmo a imortalidade. 
A busca fundamental do sistema taoista é a serenidade. Procuram-na pela moderação dos desejos, pela simplicidade, espontaneidade, contemplação da natureza. Seus três tesouros fundamentais são a compaixão, a moderação e a humildade. 
A cultura chinesa está impregnada dos princípios do taoismo. A própria alquimia chinesa, sua astrologia, mesmo o zen-budismo, diversas artes marciais, a medicina tradicional chinesa foram profundamente influenciados pelos princípios da filosofia e religião taoista. Da China, esses conhecimentos migraram para todo o leste asiático. Por diversos reinados, o taoismo foi religião oficial do estado. Alguns pensadores fazem uma distinção entre o taoismo filosófico e o taoismo religioso. 



Fragmentos do Tao te Ching: 

Cap.1
O Tao de que se pode falar não é o verdadeiro e eterno Tao.
O nome que pode ser dito não é o verdadeiro nome.
O que não tem nome é a origem do Céu e da Terra
E o nomear é a mãe de todas as coisas.
Sem a intenção de o considerar,
Podemos apreender o mistério e as suas subtilezas,
Através da sua ausência de forma.
Tentando considerá-lo, só podemos ver a sua manifestação
Nas formas que definem o limite das coisas.
Ambos provêm da mesma fonte e são o mesmo.
Diferem apenas devido ao aparecimento dos nomes.
São o mistério mais profundo,
a porta para todos os mistérios.

Cap.3
Não exaltar os homens com habilidade superior
Evita que as pessoas rivalizem entre si;
Não dar valor às coisas raras
Evita que surjam ladrões;
Não lhes mostrar o que pode excitar os seus desejos
É o modo de manter os seus corações em paz.

Por isso, o sábio governa simplificando-lhes as mentes,
Enchendo-lhes a barriga,
Enfraquecendo-lhes a ambição
Fortalecendo-lhes os ossos,
Mantendo-os sem conhecimentos e desejos que os desviem do Caminho,
De modo a que os que têm nunca ousem sequer interferir.
Se nada for feito, tudo estará bem.

Cap.4
O Tao é como o espaço vazio dentro de um vaso;
Mas, por mais que o enchamos, nunca ficará cheio.
É incomensurável, como se fosse o Antepassado de todas as coisas.

Cap.11
Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está.

Cap.40
As dez mil coisas nascem a partir do que existe (e tem nome)
E o que existe nasce do que não existe (e não tem nome).

Cap.41
Quando um estudioso mais sábio ouve falar no Tao,
Abraça-o com zelo.
Quando um estudioso médio ouve falar no Tao,
Pensa nele de vez em quando.
Quando um estudioso inferior ouve falar no Tao,
Ri-se às gargalhadas.
Se ele não risse
O Tao não seria o Tao (o Caminho).

Cap.48
Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do Tao, todos os dias algo é deixado para trás.
E cada vez menos é feito
até se atingir a perfeita não-ação.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.
Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.

Cap.60
Governa-se um estado
Como se frita um peixe pequeno.
(Para fritar um peixe pequeno, é só deixá-lo fritar; não é preciso virá-lo ou interferir de outro modo qualquer. E usa-se lume brando.)


Abaixo segue a Lenda sobre o surgimento do livro Tao Te Ching durante o caminho de Lao Tse à emigração. 


Lao Tse 


(Poema de Bertolt Brecht sobre Lao Tse, versão portuguesa, tradução do original alemão de Marcus V. Mazzari): 


O que está por trás dessa água, velho?"
Deteve-se o velho: "Isso te interessa?"
Falou o homem: "Eu sou apenas guarda de aduana
Mas quem vence a quem, isto também a mim interessa
Se tu o sabes, então fala!

Anota-o para mim! Dita-o a este menino!
Coisa dessas não se leva embora consigo.
Papel há em casa, e também tinta
E um jantar igualmente haverá: ali moro eu.
E então, é a tua palavra?"

Por sobre o ombro, o velho mirou
O homem: jaqueta remendada. Descalço.
E a testa, uma ruga só.
Ah, não era um vencedor que dele se acercava.
E ele murmurou: "Também tu?"

Para recusar um pedido gentil
O velho, como parecia, já estava demasiado velho.
Então disse em voz alta: "Os que algo perguntam
Merecem resposta." Falou o menino: "Também vai ficando frio."
"Está bem, uma pequena estada."

E o sábio apeou do seu boi
Por sete dias escreveram a dois.
E o aduaneiro trazia comida (e nesse tempo todo apenas
Praguejava baixo com os contrabandistas).
E então chegou-se ao fim.

E o menino entregou ao aduaneiro
Numa manhã oitenta e uma sentenças
E agradecendo um pequeno presente
Entraram pelos rochedos atrás daquele pinheiro.
Dizei agora: é possível ser mais gentil?

Mas não celebremos apenas o sábio
Cujo nome resplandece no livro!
Pois primeiro é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso agradecimento também se deve ao aduaneiro:
Ele a extraiu daquele.


Poema original de Brecht em alemão:

Lao Tzu


Was ist das mit diesem Wasser, Alter?"
Hielt der Alte: "Intressiert es dich?"
Sprach der Mann: "Ich bin nur Zollverwalter
Doch wer wen besiegt, das intressiert auch mich.
Wenn du's weisst, dann sprich!

Schreib mir's auf! Diktier es diesem Kinde!
Sowas nimmt man doch nicht mit sich fort.
Da gibt's doch Papier bei uns und Tinte
Und ein Nachtmahl gibt es auch: ich wohne dort.
Nun, ist das ein Wort?"

Über seine Schulter sah der Alte
Auf den Mann: Flickjoppe. Keine Schuh.
Und die Stirne eine einzige Falte.
Ach, kein Sieger trat da auf ihn zu.
Und er murmelte: "Auch du?"

Eine höfliche Bitte abzuschlagen
War der Alte, wie es schien, zu alt.
Denn er sagte laut: "Die etwas fragen
Die verdienen Antwort." Sprach der Knabe: "Es wird auch schon kalt."
"Gut, ein kleiner Aufenthalt."

Und von seinem Ochsen stieg der Weise
Sieben Tage schrieben sie zu zweit.
Und der Zöllner brachte Essen (und er fluchte nur noch leise
Mit den Schmugglern in der ganzen Zeit).
Und dann war's so weit.

Und dem Zöllner händigte der Knabe
Eines Morgens einundachtzig Sprüche ein
Und mit Dank für eine kleine Reisegabe
Bogen sie um jene Föhre ins Gestein.
Sagt jetzt: kann man höflicher sein?

Aber rühmen wir nicht nur den Weisen
Dessen Name auf dem Buche prangt!
Denn man muss dem Weisen seine Weisheit erst entreissen.
Darum sei der Zöllner auch bedankt:
Er hat sie ihm abverlangt.

Verão do poema em inglês:

Lao Tzu

Bertolt Brecht (Legend of the origin of the book Tao Te Ching on Lao-Tzu's road into exile)


Once he was seventy and getting brittle
Quiet retirement seemed the teacher's due.
In his country goodness had been weakening a little
And the wickedness was gaining ground anew.
So he buckled on his shoe.

And he packed up what he would be needing:
Not much. but enough to travel light.
Items like the book that he was always reading
And the pipe he used to smoke at night.
Bread as much as he thought right.

Gladly looked back at his valley, then forgot it
As he turned to take the mountain track.
And the ox was glad of the fresh grass it spotted
Munching, with the old man on its back
Happy that the pace was slack.

Four days out among the rocks, a barrier
Where a customs man made them report.
‘What valuables have you to declare there?'
And the boy leading the ox explained: ‘The old man taught'.
Nothing at all, in short.

Then the man, in cheerful disposition
Asked again: ‘How did he make out, pray?'
Said the boy: ‘He learnt how quite soft water, by attrition
Over the years will grind strong rocks away.
In other words, that hardness must lose the day.'

Then the boy tugged at the ox to get it started
Anxious to move on, for it was late.
But as they disappeared behind a fir tree which they skirted
Something suddenly began to agitate
The man, who shouted: ‘Hey, you! Wait!'

‘What was that you said about the water?'
Old man pauses: ‘Do you want to know?'
Man replies: ‘I'm not at all important
Who wins or loses interests, though.
If you've found out, say so.’

‘Write it down. dictate it to your boy there.
Once you've gone, who can we find out from?
There are pen and ink for your employ here
And a supper we can share; this is my home.
It's a bargain: come!'

Turning round, the old man looks in sorrow
At the man. worn tunic. got no shoes.
And his forehead just a single furrow.
Ah, no winner this he's talking to.
And he softly says: `You too?'

Snubbing of politely put suggestions
Seems to be unheard of by the old.
For the old man said: ‘Those who ask questions
Deserve answers.' Then the boy; ‘What's more, it's turning cold.’
‘Right. then get my bed unrolled.'

Stiffly from his ox the sage dismounted.
Seven days he wrote there with his friend.
And the man brought them their meals (and all the smugglers were astounded
At what seemed this sudden lenient trend).
And then came the end.

And the boy handed over what they'd written -
Eighty-one sayings - early one day.
And they thanked the man for the alms he'd given
Went round that fir and climbed the rocky way.
Who was so polite as they?

But the honour should not be restricted
To the sage whose name is clearly writ.
For the wise man’s wisdom needs to be extracted.
So the customs man deserves his bit.
It was he who called for it.