quarta-feira, 27 de agosto de 2014

0 ESPÍRITO DA CASA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
               


                Euclides vivia numa casinhola em ruínas, quase escondida entre pequenos arbustos, cujo crescimento não dava conta controlar. A casa de madeira de forma retangular sustinha-se sobre quatro esteios fortes de madeira antiga, unidos por linhas ainda sólidas em que se apoiavam as tesouras, caibros e ripas sobre as quais repousavam de há quase um século as velhas telhas de cerâmica cota, forjadas pelos escravos.
                Haviam aproveitado telhas da antiga sede da velha estância. Essas haviam sido confeccionadas nos sucessivos invernos, quando a atividade da salga da carne para o charque não era mais possível pela insuficiência de insolação. Os negros eram deslocados da indústria saladeril para as estâncias e empregados em outros serviços. Colhia-se, com enormes carretas puxadas a boi, argila de boa qualidade nos abundantes banhados. Então, classificavam-se os negros e negras, de acordo com a bitola de suas coxas, para que as telhas resultassem uniformes. E eram dias e dias de labor duro e gelado.
                Assim, com todo o cuidado, iam moldando na própria coxa, cada um suas telhas, que depositava ao sol para obterem certa consistência. Por fim, formava-se uma enorme fornalha para a cocção final. Por essas paragens, toda a telha era ainda oriunda desse processo primitivo e rude.
                Pois lá estava a velha casinhola, muito distinta do que fora. Os esteios de sustentação dos cantos já haviam pendido para o norte, ora pelo efeito das erosões não mais controladas que, ano a ano, iam retirando o solo de sustentação e apoio, ora pela ação dos fortes ventos minuanos que sopram do sul por meses a fio, sem trégua.
                Pois lá estava o velho octogenário Euclides, os poucos cabelos embranquecidos, as carnes levadas pela escassa alimentação e a pele enegrecida pelas constantes doenças e higiene precária, sentado à soleira da porta, aguardando o destino final.
                A casa era a imagem evidente da decadência. Mas estava lá, afrontando o tempo. Todo o conjunto inclinava-se como se estivesse a desabar. Fendas abriam-se acima e abaixo resultantes da perda do prumo. Os filhos se tinham ido dali à procura de trabalho. A velha Lili estava há anos habitando a colina dos ausentes de sob a lápide fria. Não tinha reservas nem condições físicas para manter uma vaca para o leite, uma galinha para um ovo, um leitão para carne. Vivia ali, sabe-se lá de quê. Mirrava, colhendo o sol débil das manhãs de inverno, sempre à mesma soleira, isolado como ninguém, naquele ermo, distante de tudo. Nos verões ardentes, a centenária figueira acolhia-o sob o galharedo farto e refrescante.
                Acontece que um passante notou. Outro falou no armazém. Os do ônibus  observaram. O caminhão coletor do leite também. E foram ver. Estava rígido como um salame velho. Estendido no chão da sala. Ninguém sabe desde quando.  E o velório. Enterro. Gente. Falas. Fim.
                E lá ficou a tapera. Nada que interessasse a ninguém. A velha figueira abandonada. O mato apagou o caminho da porta, da porteira e da estrada. Sem mais, em pouquíssimo tempo, a casa ruiu. Foi-se integrando à natureza. Os cupins as madeiras, a umidade os tijolos e telhas, tudo as forças invisíveis corroeram. Aos poucos, nada restou. Somente o observador atento descobrirá vestígios que o tempo apagará completamente.

                Mas enquanto alguém está sob o teto, tudo se mantém em seu lugar. Há a presença de uma energia que sustém as velhas residências, mesmo sob condições adversas. É o poderoso espírito da casa, que provém do âmago das entranhas da vida. Não há explicações. Simplesmente é.