sábado, 9 de agosto de 2014

A SERPENTE E A LIMA DE AÇO

FERREIRO
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

                Uma pérfida serpente, por absoluta maldade, acabara de picar um alvo cordeirinho que revirava os olhos avermelhados nos estertores da morte, enquanto a cruel assassina se vangloriava dizendo, em voz rouca e arrogante, que somente naqueles últimos dias, teria mandado à eternidade, dois  idiotas cães de guarda, o bestinhola de um coelho, um grande touro metido a macho e garboso, e até mesmo o lourinho filho do ferreiro da aldeia.
                Nas clareiras da floresta, nenhum dos filhos da selva se atrevia a se mostrar, mesmo o sol parecia menos cálido, enquanto a malvada, sacudindo os seus guizos, um cururu esperneando ente os dentes, enroscacava-se nos galhos de um frondoso carvalho, com um olhar atrevido, na certeza da impunidade.
                Quando a noite caiu, entrou oficina adentro, buscando o calcanhar do desavisado trabalhador. Nisto, ouviu o tinir dos ferros na bancada. Esgueirando-se nas trevas, seguiu o som que zunia e lançou um bote certeiro e rolou ao solo estrebuchando em estertores agônicos.

                Acontece que o ferreiro, para aprofundar-lhe as ranhuras, aquecera na forja ardente, uma lima de aço bravo que largara na bancada. A pérfida traiçoeira, ao tentar picar-lhe a mão, ofuscada pela vermelhidão da peça, acertou a bocada no aço em brasa.

                O malvado acaba sempre encontrando um pior do que ele.