domingo, 17 de agosto de 2014

SILÊNCIOS REVELADORES

sabiá -laranjeira
.Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara



Fui criado por trás de largos silêncios... o silêncio repleto de vozes das montanhas e dos campos... o silêncio místico do claustro... O silêncio me fascina.

Nesta manhã de domingo faltou luz. Hão de dizer alguns: Faltou energia elétrica. E a metonímia, meu amigo? Uma palavra por outra palavra com que tem relação de certa proximidade de sentido.

VISTA A PARTIR DO MEU LEITO, O PÁTIO, OS FUNDOS DA CASA
E OS PÁSSAROS.


Pois faltou luz. Quando falta energia, tudo o que é barulhento se cala. Quanto pássaro diferente. Eu já havia escutado aqui no meu pátio o pio de um sabiá de papo branco. Pois ele não trina. Apenas pia, sem graça. De resto, é igual ao outro, o de papo laranja, o sabiá laranjeira, com seu trinar cadenciado, no entardecer de primavera. Mas, aqui eu só tenho o de papo branco, que, porém, evoca o outro do fundo da alma e da memória das jornadas da infância, no amanhecer das montanhas.
Depois, foi o arrolo suave e distante de um pombo chamando a amada, certamente escondida nas ramagens frondosas de um fundo de pátio. Por trás de tudo, como o burburinho da orquestra, os pios constantes e monótonos dos pardais. De quando em quando, o repetido canto da curuíra, a gente dizia carruíra. Os bem-te-vis indiscretos benteviziavam bem forte de cima dos telhados.
Pois não é que de há uns tempos para cá alguns joões-de-barro começaram a reunir-se por aqui. Mas o vizinho inventou de ligar um motor que substituiu todos os decibéis silenciados nesta manhã de domingo. É por isso que eu gosto que falte luz de quando em vez.