quinta-feira, 21 de agosto de 2014

DE RAPOSAS E BODES

         Minha mãe era professora de uma escolinha rural. Dentre os livros necessários que tinha, estava uma Seleta em Prosa e Verso. Pois, desde que aprendera a ler, era minha leitura preferida.
         Havia ali uma fábula ilustrada que eu relia constantemente, por não atinar-lhe o sentido. Pois contava a tal história que uma raposa tinha caído num poço. Não conseguindo sair de lá, porque a parede era escorregadia, finava-se gritando, quando apareceu um bode lá no alto.
         Eu me imaginava a tal raposa. Tinha já visto umas quantas. É bem verdade que já meio estraçalhadas pelos nossos cachorros, porque elas comem galinha Mas conhecia a tal bichana, e até as achava bonitas. Tinham pelo liso e escuro, com umas pintas bem branquinhas. O pior era o fedor que pegava em tudo.
         O bode, pois tinha um bode velho lá em casa que roía tudo o que encontrasse. Eu brincava pendurando-me nos chifres dele e o coitado empurrava-me com a cabeça, cuidando para não me furar com os chifres pontudos e curvos. Assim, eu me imaginava a cena.
         Nós tínhamos um algibe. Quem lavava era eu. Meu pai punha-me dentro do balde mundo de um escovão. Depois de esgotar o poço com uma mangueira em sifão, ele baixava-me com a corrente do poço, até o fundo. Ali de eu apreciava a água brotando. Esfrega bem, me dizia. Depois, eu entrava no balde e ele me puxava para cima. Esgotava a água suja, e tudo voltava à rotina das coisas. Isso uma vez cada ano, depois que eu tinha uns sete.
         Pois imaginava-me, a raposa lá no fundo, olhando a rodinha de luz da boca do poço, pedindo pro bode descer. O bobalhão, sem a corrente, que tombaço ele teria. Em seguida, o coitado, de patas estendidas na parede para a danada subir.

         Só agora começo a entender alguns bodes bobos na vida.