domingo, 24 de julho de 2016

CRÔNICA DE LUIS FERNANDO VERISSIMO MUITO APROPRIADA PARA NOSSOS DIAS - LADRÃO DE GALINHAS

E POR FALAR EM LADRÃO DE GALINHAS...

"Os canas pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.
- Que vida mansa, heim, vagabundo ? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai pro xilindró ! Gritou o delegado.
- Mas não era para eu comer não não. Era para vender.
- Pior. Venda de produto roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha! repetiu a autoridade.
- Mas eu vendia mais caro, eu não concorria não.
- Mais caro? Como assim...
- Espalhei o boato que as galinhas de galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons, caipira legítimo.
- Mas eram as mesmas galinhas, safado.
- Os ovos das minhas eu pintava.
- Que grande pilantra... 171. Estelionatário refinado.
Nessa altura da conversa já havia um certo respeito no tom do delegado.
- Ainda bem que tu vais preso. Se o dono do galinheiro te pega...
- Já me pegou. Mas fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Aí convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou melhor, um ovigopólio.
- E o que você faz com o lucro do seu negócio?
- Especulo com dólar, na bolsa... Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros, juiz. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do Governo e superfaturo os preços.
O delegado mandou vir um cafezinho para o preso e perguntou-lhe se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
- Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
- Milionário ? Não. Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
- E, com tudo isso, o Doutor continua roubando galinhas?
- Às vezes. Sabe como é...
- Não sei não, Excelência. Me explique melhor.
- É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova !
- O que e isso, Excelência? O senhor não vai ser preso não.
- Mas fui preso em flagrante delito, pulando a cerca do galinheiro!
- Sim. Mas és primário, e com esses antecedentes... É a Lei Fleuri...