segunda-feira, 25 de julho de 2016

DAS CRÔNICAS DE LUIS FERNANDO VERISSIMO - O TRONCO














O TRONCO

O coronel tem um preto que tira ele da cama, bota na cadeira de rodas e empurra a cadeira. É fácil, porque o coronel é só um tronco com a cabeça e um braço, mas o preto geme.
– Oigale…
– Tá gemendo por que, negro?
– O senhor ta ficando gordo, coronel.
– Tu é que ta ficando fraco, negro.
O negro é mais velho do que o coronel, que tem 170 anos.
Ninguém sabe a idade do negro. Ele diz que tem duzentos, mas o coronel faz pouco.
– Só porque é número redondo.
– Se não é duzentos é trezentos.
– Te fecha, negro.
A cadeira é tosca, com rodas de madeira maciça.
– Oigate…
– Ô negro mole.
– Precisa de graxa nas rodas, coronel.
– Se tivesse graxa não precisava de ti, negro. Empurra, safado.
– A la putcha.
– Força que tu nasceu pra isso.
Como o coronel perdeu as pernas?
– Esta aqui, perdi na guerra de 35.
– Foi à outra – corrige o cavalo do coronel, o Toscano, filho do Tostado, neto
do Torrão. O cavalo dorme no mesmo quarto com o coronel.
– A perna é minha, mas ele é que sabe… Foi em 35!
– Foi em 23.
– Quer saber mais do que eu?
– Foi meu pai, o Tostado, que caiu em cima da tua perna, mal-agradecido.
– Cavalo era o torrão. Matava castelhano a dentada e pica-pau a coice. Não era
um monte de bosta como tu e teu pai. Nunca vi cavalo maricas.
– Maricas não!
E as pernas coronel?
– Esta perdi na guerra de 35, esta na de 23.
– E o braço?
– Foi num duelo. Lá pra banda de Não Sei Onde.
– Malmequer – corrige o cavalo.
– Te arranca, matungo fresco! O duelo foi por uma china, a Toleda. Uma que fazia
trança na virilha.
– E como terminou o duelo, coronel?
– Empate. Ele me cortou o braço e eu lhe cortei a cabeça.
O coronel conta que enterrou o braço com a mão fazendo figa. Antes já tinha enterrado as duas pernas com honras militares.
– Quando chegar no céu, vou encontrar minha mãe, a Santa, meu pai, o capitão
Glaucério, minhas irmãs, a Danica, que morreu de bucho, e a Maneca que morreu de corrimento, meus irmãos Glaucindo, que morreu dos nervos, e o Glaumancio, que morreu de catarro duro, minha primeira mulher, a falecida Begôncia, que morreu de bexiga solta e a minha segunda mulher, a falecida Meminha, que morreu de ruim. E o Torrão velho, e todos os meus camaradas, e a China Valmira, a única mulher que eu amei e matei com um tiro porque me enganava.
– Matou com um tiro porque lhe enganava, coronel?
– Era com um baiano, não tinha outro jeito. E no céu também vão estar o meu braço e as minhas duas pernas me esperando. Vai ser uma reunião de juntar gente.
Cosa mui linda.
– E os homens que o senhor matou, coronel?
– Desses nenhum vai estar lá. Quem não era castelhano era pica-pau e quem não era pica-pau era safado.
– Dizem que o senhor tem cento e dezessete balas no corpo, coronel.
– Eram cento e dezessete, mas já guspi dez e caguei quatro. Quantas sobram
negro?
– Cem.
– Esse aí sempre gostou de número redondo.
– E a história do pênis, coronel?
– Ri,ri,ri – faz o cachorro, o velho Tubino.
– Ta rindo do que, sarna pura?
– Nada, coronel.
– É verdade que o senhor perdeu o pênis em 93?
– Pois foi. Um ricochetaço.
– E enterrou o pênis também?
– O quê? Esse está mais vivo do que eu. Negro, traz a guasqueira.
O negro vai arrastando os pés e volta com uma caixa de madeira. O coronel abre a caixa e mostra.
– Olhe que beleza. Ta corado, o bicho. Negro, leva ele na Doca.
– Agora, coronel?
– Agora. Dizem que tem mulher nova.
– E lá vai o negro com a caixa embaixo do braço para a casa da Doca.
– Esse não morre – diz o coronel, apontando com o queixo não se sabe se pro negro ou pro pênis. – Eu morro esse fica.
– O senhor acha que vai morrer, coronel?
– Bueno, tenho escarrado verde barbaridade. Acho que más um inverno me liquida.
– Mas o senhor já passou por cento e setenta invernos.
– E cada um tirou uma lasca.
– Alguma tristeza, coronel? Saudade? Sentimento?
– Olhe. De vez em quando eu penso no velho Torrão e me dá uma coisa aqui. Cavalo
especial estava ali.
O coronel vê que o Toscano se prepara para dizer alguma coisa e grita na sua direção.
– E não era respondão!
– Mais alguma coisa, coronel? Remorso? Melancolia?
O coronel atira a cabeça para trás. O coronel tem um cheiro ruim.
Dizem que está apodrecendo, mas dizem isto há tanto tempo. O coronel fecha os olhos.
– Tem umas noites de lua cheia…
– Sim coronel?
– Um cheiro doce no ar, muito antigo. Um barulho de água correndo nas pedras…
– Muita vida, coronel.
– Demás. Até faz mal.
– E o que é isso na sua cabeça, coronel? Parece cabelo novo.
– Pôs acho que é macega, tchê.
– Vida demais, coronel.
– É. Vicia. A gente não sabe mais o que é e o que não é. Até as paredes começava falar com a gente.

Nisso o coronel olha em volta e está sozinho.