sábado, 11 de fevereiro de 2017

EROS, O MITO QUE TRANSITA ENTRE A ABUNDÂNCIA E A CARÊNCIA

 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

Segundo ainda Sócrates, a sacerdotisa e vidente Diotima ter-lhe-ia fornecido a genealogia do amor (ρως), que, segundo ela, seria filho da Abundância (Πόρος) e da Necessidade (Πενία). Na visão dela, o amor seria um meio para a contemplação do divino. O amor revela um desejo de imortalidade.
Há, ainda de acordo com o pensamento da sacerdotisa, dois tipos de amor: um físico e outro espiritual. Enquanto o amor físico visa a preservar a espécie, e a alcançar a imortalidade através da descendência, o amor espiritual se pereniza através de ideias e pensamentos, que, por si próprios, são imortais. O fim último do amor é alcançar o divino.
Na mitologia grega, Penia era a daímon (Δαίμων) (daímon é um ser espiritual como um anjo) que personificava a pobreza, a necessidade, sendo, por isso, odiada, detestada pelos homens. Era companheira da Aporia (Άπορία), a dificuldade; da Amecania (Άμηχανία), o desamparo; da Ptoceia (Πτωχεία), a mendicância. Seus daimones opostos seriam Plutos (Πλοῦτος), a riqueza e a Euteneia (Ἔυθηνία), a prosperidade.
Pois Diotima fundava o amor no mito de Poros e Penia. No casamento de Afrodite, Poros encontrava-se completamente bêbado.
Poros era filho de Zeus e Métis. Primeiramente, é necessário fazer um comentário sobre Métis. Tratava-se de uma divindade pré-olímpica, sem culto e sem estátuas. Nesse tempos muito primitivos, ainda restavam resquícios do matriarcado, em que a fecundação e a gravidez eram vistas como algo mágico pelo homem, masculino. Só tardiamente o homem descobriu seu papel na geração humana, acabando, então com o sistema matriarcal e criando o patriarcado machista.
Entretanto, foi nesse período que Zeus gerou em Metis o filho Poros. Mas foi como se a deusa lhe concedesse um favor. Sucedeu que, então, que no casamento de Afrodite, uma mendiga, morta de fome, buscava as sobras de comida. Chamava-se Penia. Depois de conseguir entrar no banquete e de fartar-se com os alimentos e bebidas que sobravam, propôs-se seduzir Poros. Isso não foi difícil, pois percebeu que ele era extremamente sensível à adulação.
Esconderam-se no jardim, fugindo aos olhares dos demais e mantiveram relações mais de uma vez. Dessa relação, nasceu Eros, filho, portanto, de Poros, o excesso, a abundância, e Penia, a pobreza, a miséria, a necessidade.
Assim, Eros, é metafisicamente e metaforicamente a subjetividade e a objetividade, por isso é um deus alado. Situa-se um pouco aquém da pura necessidade dura e física de sua mãe e um pouco além da abundância e vaidade de seu pai. Unem-se, por um lado, o desejo e a falta, o eu e o outro. Amamo-nos a nós mesmos com a medida da falta do outro.
Todo o amor é composto de ausência e completude. Não é pura ausência e nunca será completude perfeita. Essa parcial incompletude move-nos na direção do outro, que perfaz o caminho inverso. Marca-se pelos constantes encontros e desencontros, cujo sentido, muitas vezes, não conseguimos entender.
A falta faz-nos desejantes, erotizados, amorosos, em uma palavra, submetidos à ausência básica que inspira em nós a fome da busca do outro, uma fome que nos conduz na direção do outro e de todos os outros. O grande pintor René Magritte expressa em seu quadro o rosto anônimo da eterna busca.
Assim, na Grécia clássica, surgiu a figura do erastés (ἐραστής), o amante, homem aristocrata, envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino (chamaríamos isso hoje de pedofilia), conhecido como erómenos (ἐρώμενος). A relação entre ambos excedia em muito o meramente sexual.
Havia mesmo uma disputa pelos erómenoi. O ideal do erastés era ser controlado e discreto, generoso e simpático. Havia um período chamado hôraios, que nós consideraríamos como infância, em que o adolescente se destacava pela beleza, modéstia, esforço e coragem, mesmo na guerra.
Em O Simpósio (O Banquete), Platão afirma que “os erómenoi são os melhores meninos que amam homens e que gostam de ser abraçados por eles.” De fato, esses meninos eram objetos de afeto e paixão, contudo não necessariamente mantinham relações sexuais com seus parceiros.

PlatãoPlatão, ainda em O Simpósio (O Banquete), afirma: "Porque eu não conheço nenhuma bênção maior para um jovem que está começando na vida do que um amante virtuoso, ou para um amante do que um jovem amado."Essa seria a concepção ideal de amor entre um erastés e um erómenos.














Sócrates


Sabe-se que, na prática, as coisas não corriam sempre desse modo, tão nobre, tão altruísta. Dentro das diversas concepções de amor há uma grande aporia, ou seja, um conflito radical. O fato essencial, porém, é que todo o modo de amar funda-se numa carência que se situa na raiz do mito de Penia e Poros. Situa-se na essência psicológica do próprio mito. Toda e qualquer espécie de amor funda-se em uma espécie de buraco, de ausência que permitem a construção de todas as metáforas. Na falta de algo, emprega-se, em seu lugar uma palavra, cujo sentido se fundamenta na essência desta ausência.

O Simpósio (O Banquete), obra que funda a maiêutica socrática, instaura toda a tensão entre Poros e Penia, ente amante e amado, entre erômenos e erastés, entre sujeito e objeto.
Isso se expressa no diálogo entre Alcibíades e Sócrates: “Tu queres trocar o ouro de teu saber pelo cobre da minha ignorância.”
O jovem Alcibíades precisaria aprender que há um segredo dentro do próprio segredo que somente pode ser desvelado por um olhar para dentro de si mesmo. Somente quem encontrou-se a si mesmo, encontrou-se consigo mesmo e com a verdade quer habita o seu espírito, pode encontrar-se com o outro. Caso contrário, o que se queria amor será eterna cobrança, sempre do outro, sem perceber que pobreza, carência e abundância moram dentro de nós. “Nosce te ipsum”, “γνώσει δὲ σαυτὸν”, “conhece-te a ti mesmo” ou “conheça-se a si mesmo” é o princípio que está na raiz profunda do amor.
Como Eros é filho de um imortal, Poros, e de uma mortal, Penia, ele traz em si esta dupla dimensão, uma carnalidade física no caminho da perpetuidade das espécies, e uma imortalidade divinizadora que apela para a abundância do espírito, e busca do eterno apelo daquilo pode ser sempre outra coisa do que é, em uma constante transformação porque, tudo é sempre polissêmico, sempre passível de ser novo e renovável.