segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A LÁGRIMA - GUERRA JUNQUEIRO


Guerra Junqueiro


Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Seca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.

Sobre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

A aurora desprendeu, compassiva e divina,
 Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

 Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
 De perto era um diamante e de longe uma estrela.

Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.

- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
 Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.

"Há pérolas que são gotas de mágua imensa,
 Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.

 "Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"

E a lágrima deleste, ingênua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
 Passa no seu ginete um cavaleiro andante.

 E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!

"Far-te-ei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!

"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
 Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.

"E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"

 E a lágrima celeste, ingênua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.

 Montado numa mula escura, de caminho,
 Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.

 Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.

 E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
 O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,

 Vendo a estrela, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
 Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!

 "Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar,

 "E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"

 E a lágrima celeste, ingênua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

 Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
 Já ressequido, disse à lágrima celeste:

"A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.

"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.

 "Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.

 "Nunca junto de mim ranchos de namorados
Debandaram, cantando, em noites estreladas...

"Voa a ave no azul e passa longe o amor,
 Porque, ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...

 "Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!"

E a lágrima celeste, ingênua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...

E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor cor de sangue,

Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...

E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...