sábado, 21 de dezembro de 2013

O ROUXINOL E A ROSA - OSCAR WILDE

Oscar Wilde




– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o jovem Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa em todo o meu jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no alto do carvalho, um Rouxinol o ouviu, e vendo-o, ficou a pensar. Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!  – disse o Estudante – e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas.  Ah, nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia e, no entanto, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
– Finalmente, eis um verdadeiro apaixonado, disse o Rouxinol. Noite após noite eu tenho cantado o Amor, sem conhecê-lo; noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca.
            – Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe – murmurou o jovem Estudante – e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah..., como eu queria tê-la em meus braços e sentir-lhe a cabeça no meu ombro, e sua mão presa à minha. Porém, não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, ...  e ficarei só, ... e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, ... e meu coração se despedaçará.
– Eis um verdadeiro apaixonado, ele ama de verdade, pensou o Rouxinol. Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro.
– Os músicos no balcão – disse o jovem Estudante – tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar. E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
– Por que chora ele?, – indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.
– Sim, por quê?" – perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.
– Sim, por quê?" – sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.
– Ele chora por uma rosa vermelha – disse o Rouxinol.
– Uma rosa vermelha? – exclamaram todos.
– Mas que ridículo! E o pequeno Lagarto – que era um tanto cínico – riu à vontade.
Porém, o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto do carvalho, pensando no mistério do Amor. De repente, ele abriu as asas pardas e levantou voo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.
No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.
– Dá-me uma rosa vermelha – exclamou ele – que cantarei meu canto mais belo para ti. 
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
– Minhas rosas são brancas – respondeu ela – tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres.
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.
– Dá-me uma rosa vermelha – exclamou ele –  que cantarei meu canto mais belo para ti.
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
Minhas rosas são amarelas – respondeu ela – amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado, quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres.
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.
– Dá-me uma rosa vermelha – exclamou ele –  que cantarei meu canto mais belo para ti."
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
– Minhas rosas são vermelhas – respondeu ela – vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas do que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém, o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano.
– Uma única rosa vermelha é tudo que quero – exclamou o Rouxinol – só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?
– Existe uma maneira – respondeu a Roseira – mas é tão terrível que não ouso te contar. 
– Conta-me –, disse o Rouxinol – Não tenho medo.
– Se queres uma rosa vermelha – disse a Roseira – tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu.
– A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol, e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e  belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém, o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?
Assim, ele abriu as asas pardas e levantou voo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.
O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.
– Regozija-te – exclamou o Rouxinol –  regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.
O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém, não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.
Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.
– Canta uma última canção para mim, sussurrou ele; vou sentir-me muito solitário depois que tu partires.
Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.
Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.
–  Ele tem classe, não se pode negar – disse ele a si próprio – enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática. E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.
E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.
Cantou primeiro o nascimento do Amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio – pálida como os pés da manhã, e prateada como as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa nas águas da lagoa, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.
Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho.
– Aperta-te mais, pequeno Rouxinol – exclamou a Roseira – caso contrário, o dia chegará antes que esteja pronta a rosa.
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.
E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém, o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.
E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho.
– Aperta-te mais, pequeno Rouxinol – exclamou a Roseira – do contrário, o dia chegará antes que esteja pronta a rosa.
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.
E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.
Porém, a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.
Então, desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. Transportou-a o Eco para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles levaram sua mensagem até o mar.
– Olha, olha! – exclamou a Roseira – a rosa está pronta. Porém, o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.
E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.
– Ora, mas que sorte extraordinária! – exclamou. Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim. E, abaixando-se, colheu-a.
Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.
A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.
– Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, disse o Estudante. Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração e ,quando dançarmos, ela te dirá quanto te amo.
Porém a moça franziu a testa.
– Creio que não vai combinar com meu vestido –, respondeu ela –; e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me joias de verdade, e todo mundo sabe que as joias custam muito mais do que as flores.
– Ora, mas és mesmo uma ingrata –  disse o Estudante – zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.
– Ingrata!, exclamou a moça. Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro. E, levantando-se, entrou em casa.
– Que coisa mais tola é o Amor!, – disse o Estudante – enquanto se afastava.
– É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica.

Assim, retornou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e pôs-se a ler.

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