sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

UMA CRIATURA - MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis

Sei de uma criatura antiga e formidável 
Que a si mesma devora os membros e as entranhas, 
Com a sofreguidão da fome insaciável. 
Habita juntamente os vales e as montanhas; 
E no mar, que se rasga, à maneira do abismo, 
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas. 
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo; 
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, 
Parece uma expansão de amor e egoísmo. 
Friamente contempla o desespero e o gozo, 
Gosta do colibri, como gosta do verme, 
E cinge ao coração o belo e o monstruoso. 
Para ela o chacal é, como a rola, inerme; 
E caminha na terra imperturbável, como 
Pelo vasto arealum vasto paquiderme. 
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo 
Vem a folha, que lento e lento se desdobra, 
Depois a flor, depois o suspirado pomo. 
Pois essa criatura está em toda a obra: 
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto, 
E é nesse destruir que as suas forças dobra. 
Ama de igual amor o poluto e o impoluto; 
Começa e recomeça uma perpétua lida; 
E sorrindo obedece ao divino estatuto. 
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.