quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

FILOSOFIA DOS ESPINHOS

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Menino que nasceu à beira de floresta sabe todos os segredos e encantos que ela envolve. Hoje, enquanto repousava, visitaram-me uma legião de espinhos. Não ouço mais falar deles e correm o risco de morrer no eterno olvido das coisas sem importância. Mas, para menino de mato, como é fundamental saber de espinhos...
O primeiro contato que se tem com eles é com os pequenos espinhos, desde a mais tenra infância. Lembro primeiramente as rosetas. Sorte que eram sazonais e somente apareciam no princípio do verão, mas como eram cruéis. Primeiro, nascia, na primavera, um minúsculo vegetalzinho por entre os baraços da grama. Muito verde, formava miúdas toceirinhas no meio do capim. Até aí, nada a diferenciava das demais ervinhas do prado. Depois, formavam um chumacinho com aparência de flor.
O mal da espécie acontecia quando essas inflorescências secavam. A plantinha que as sustentava produzia-as em grande abundância de tal forma que se infiltravam pelo gramado todo, cuja superfície se cobria completamente de uma camada marrom. Era como se fossem minúsculas rosas, como pontinhos de caneta marrom. Porém, formavam um lençol de minúsculos espinhos. 
Qualquer descuido ao pisar sobre elas sem a proteção de um calçado deixava a sola do pé, do calcanhar aos dedos, toda infestada daqueles pequeninos acúleos cravados na pele. Caso sentasse, era o traseiro. E como doía. Então, fora do gramado, passava-se longo tempo arrancado, espinho por espinho, permanecendo uma ardência no pé por algumas horas. Sorte da gente é que a praga não durava mais de um mês, mas voltava, sazonalmente, todo ano.
Isso não era nada, porque importantes eram mesmo os espinhos de verdade. Havia a caneleira (que a gente chamava de mamica de cadela, porque o tronco da malvada era coberto, das raízes ao topo, de espinhos que se assemelhavam a tetinhas de cachorra). Era tão espinhenta que chegava a ter um acúleo agudo no meio de cada folha, por debaixo do vinco. Imagine-se, então, caminhar descalço sob sua sombra frondosa: e era uma árvore enorme e robusta.
Ah, os espinhos de Santo Antônio. Esses eram respeitáveis. Antes de prosseguir, é preciso destacar que estamos empregando os nomes populares pelos quais esses flagelos são conhecidos. E esses mudam de região para região. O espinheiro de Santo Antônio era uma planta mediana, porém, com o caule todo revestido de cachos de espinhos enormes, pontiagudos e resistentes. Ninguém ousava tocar o troco dessa planta. O maior problema acontecia quando eles se desprendiam do caule e ficavam pelo chão, escondidos na maciez das folhagens em decomposição. Sob o peso do corpo, com a rigidez e acuidade do espinho, este penetrava profundamente na sola do pé, provocando um ferimento muito doloroso, cujos efeitos se faziam sentir por dias afora.
Também havia os não-me-toques, não menos agudos e agressivos. O nome é, de fato, muito apropriado. O tronco dessa planta é completamente recoberto de enormes espinhos que penetram profundamente. Seus galhos espinhentos, caídos pelos arredores da plantam, representam um grande perigo para quem anda descalço pela floresta. Veja-se a situação de quem trabalhava na capoeira, preparando um terreno, com machado e foice, para fazer uma lavoura.
A variedade desses pontiagudos perfurantes é enorme, a partir das roseiras dos jardins. Essas possuem acúleos recurvados que acabam sempre ferindo as mãos de quem recolhe flores. O acúleo é uma espécie de espinho que tem a peculiaridade de facilmente desprender-se da planta e permanecer no organismo do atingido.
Aliás, retornando ao universo dos espinhos, lembremos os acúleos dos maricás. Essas plantas infestam determinadas regiões, formando um bloco compacto de galhos entrelaçados uns aos outros das árvores contíguas, constituindo uma barreira intransponível. Ai do pobre animal que se embrenhe em suas ramagens.
A seguir, poderíamos mencionar a família dos cactos, variada em ramagens e tipos de espinhos. Onde cresci, havia uma espécie que conhecíamos pelo nome de tuna. Possuía umas folhas carnudas e enormes, grudadas umas às outras qual orelhas gigantes, revestidas completamente de espinhos longos e pontiagudos. Caracterizavam-se pelo agravante de seus espinhos possuírem pontas serrilhadas, ou seja, munidas de pequenas farpas. Essas, voltadas em sentido contrário ao da ponta do espinho, faziam com que, no processo de extração, pequenas fisgas se abrissem, rasgando as carnes, como acontece com as fisgas dos anzóis. Pois a tuna possui ainda outro tipo de tecido agressor. Suas folhas são recobertas de uma penugem consistente que penetra na pele e provoca dores por muitos dias consecutivos. 
Para o menino criado nas margens das florestas, que, de modo geral, não possui um calçado adequado para caminhar na selva, no mais das vezes não usa calçado algum, é muito importante o conhecimento desses perigos todos. Nem mesmo sabendo de todos esses perigos, deixam eles de palmilhar esses locais excitantes, pelos mistérios que escondem. Era muito difícil o dia de minha infância em que não ferisse alguma parte do corpo com esses cruéis agressores.
Pois esses torturantes instrumentos com que as plantas se defendem dos animais e dos homens foram-me de muita utilidade no desenvolvimento de uma filosofia da educação e da aprendizagem. Fornecem-nos lições de como lidar com a dor.
Alertam-nos também sobre as precauções que devemos ter diante dos seres agressivos Não podemos esquecer jamais que a espécie mais perigosa da natureza é a espécie humana. As plantas são inocentes e completamente previsíveis. Os humanos jamais. Muitas vezes feri meus pés com agudos espinhos e isso muito me doeu. Porém, os espinhos mais lancinantes, foram os que me cravaram na alma.