domingo, 29 de maio de 2016

O FABULOSO MITO DE DON JUAN, O ETERNO CONQUISTADOR BARATO E INSACIÁVEL

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

O mito de Don Juan surge na Espanha durante o período feudal. Com a queda do Império Romano, no século V d. C., a consolidação de estados organizados que dessem aos cidadãos segurança e uma estrutura administrativa que proporcionasse um processo produtivo eficiente consumiu séculos de experiências. Toda a Idade Média e parte da Idade Moderna forma dispendidos nesse processo.
O Sacro Império Romano Germânico e a Igreja Católica tentaram suprir a organização administrativa, enfrentando, no entanto, sérios problemas. As comunidades supriram dentro das possibilidades de cada região essas deficiências administrativas com uma organização social conhecida pelo título genérico de Feudalismo.
Esse processo teve início logo após o final do Império Romano, em 476 d. C. e se  estendeu até quase a metade do século XIX, perdurando por mais de um milênio. As elites criaram uma hierarquia que tinha na extremidade superior reis e príncipes, seguidos em ordem decrescente de riqueza e poder por duques, condes e barões.
É preciso destacar que a população vivia, nesse período, nos campos, e sobrevivia de rudimentar produção da agricultura e da pecuária. Havia uma pequena indústria que estava na mão de pequenos manufatores que, progressivamente, foram-se agrupando em associações conhecidas como guildas. A maioria da população formava uma classe de servos da gleba, que pertenciam à terra em que viviam. Esses trabalhavam nas terras de seus senhores cuja produção era recolhida aos armazéns desses, ficando aos servos a respiga, isto é, as plantas das margens e das pequenas partes de difícil colheita. Não havia qualquer direito trabalhista e muito menos previdenciários. Os velhos e as crianças ficavam sob a responsabilidade de suas famílias.
A elite feudal contribuía cada um para a categoria eminentemente superior. Os barões eram vassalos dos condes, os condes eram vassalos dos duques e os duques, por sua vez, deviam vassalagem aos reis. A plebe estava sob o comando de seus senhores. 
Politicamente, essas sociedades organizavam-se fisicamente, de modo geral em burgos. A palavra burgo (burgus, em latim) significa fortificação, fortaleza. Assim, de acordo com as posses de cada senhor, construíram-se essas edificações, que entre os mais poderosos deram origem aos castelos. 
A palavra castelo provém do termo latino castellum, que é diminutivo de castrum, palavra que designava as fortalezas militares que abrigavam as tropas. O termo latino castra designava o exército, as tropas. Surgiram os castelos como fortaleza para abrigar a população em ocasião de ataques inimigos. O castelo tornou-se também a residência dos senhores.
Havia, então, nesse período, uma legião de servos da gleba que pertenciam a uma propriedade. Quem adquirisse uma propriedade, recebia-os juntamente com as benfeitorias e animais. Era uma forma de escravidão.
É nesse contexto que emerge esse tipo, um arquétipo de conquistador amoroso, que explorava jovens dessa camada da estratificação social. Na Espanha, esse tipo ficou conhecido como don juan. Aproximavam-se dessas jovens fragilizadas e sonhadoras, elogiando fingidamente sua beleza, conseguindo seu intuito. Atingido o objetivo, abandonavam a moça, geralmente grávida, e partiam para outra conquista.
Surgiram narrativas românticas muito difundidas pela literatura desse tempo. A narrativa básica desse tipo é uma tragédia de Tirso de Molina, intitulada Don Juan. Segundo essa versão, Don Juan teria seduzido uma jovem pertencente a uma família nobre espanhola. Não satisfeito com a exploração da moça, teria também assassinado o pai dela. Ao passar pelo cemitério em que havia a sepultura da vítima, sobre cuja tumba estaria uma estátua do malfadado pai. Don Juan, num ato de zombaria, teria convidado o homem para um jantar. Sorridente, a estátua aceitara o convite, estendendo sorridente a mão ao malfeitor que correspondeu ao cumprimento. A estátua, então, esmaga-lhe a mão e estreita o homem contra si, matando-o.
Outra versão de don juan muito popular foi aquela escrita por José Zorrilla y Moral em 1844, cujo título é Don Juan Tenório. Nesse texto, Don Juan aparece na velhice, contando bravatas a seu primo Don Luis. Passam a disputar entre si para ver quem havia conquistado maior número de mulheres. Pelas bravatas contadas, Don Juan teria superado Don Luis. Estabelecem, então, uma disputa para ver quem conquistaria uma jovem pura e devota. 
Don Juan propõe-se a seduzir Dona Inês, noiva de Don Luís - o que efetivamente consegue, ao tempo em que este encontra o verdadeiro amor. A história termina com uma disputa entre as almas de Dona Inês e do seu pai pela alma de Don Juan: enquanto este tenta levá-lo para o inferno, aquela consegue trazê-lo para o céu.
Modernamente, surgiu uma narrativa cinematográfica que aborda o mesmo tema. Trata-se do filme estadunidense intitulado Don Juan DeMarco, de 1994, dirigido por Jeremy Leven e produzido por Francis Ford Copola, Michael De Luca e Fred Fuchs.
Trata-se de um romance psicológico, psicanalítico. A narrativa aborda a história de um rapaz que, usando uma máscara negra, ameaça jogar–se do alto de um edifício. O jovem afirma ser Don Juan, o lendário personagem espanhol conquistador de mulheres. 
Tendo perdido seu verdadeiro amor, caiu num estado de depressão profunda. O psiquiatra Dr. Jack Mickller, representado por Marlon Brando, é chamado para salvá-lo. No início, o psiquiatra parece cansado, pronto para se aposentar. Mas, à medida que Don Juan começa a descrever sua vida amorosa, Jack sente-se revigorado. Ambos se envolvem num curioso relacionamento que beneficia até a mulher do psiquiatra, Marilyn Mickler (Fave Dunaway) sempre relegada a segundo plano pelo marido.
Esta a narrativa romântica representa um dos distúrbios psicológicos masculinos que levam o indivíduo a uma eterna e insaciável busca de novas parceiras, num estado de perene adolescência.