quinta-feira, 23 de junho de 2016

ECO, O MITO GREGO DAS VOZES QUE HABITAM NOSSO INCONSCIENTE E CONDICIONAM NOSSA FALA

Eco, pesarosa, colhendo narcisos no campo

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara


Eco, ᾿Ηχώ em língua grega, era uma ninfa cheia de encantos que habitava os montes com uma legião de outras companheiras. Tinha o privilégio de acompanhar a deusa Ártemis (Ἄρτεμις in ancien greek) em suas incursões e caçadas pelos bosques e matas. Porém tinha o defeito de falar exageradamente.
Pertencia ao grupo das Oréades (Ὀρεάδες), ou seja, as ninfas que habitavam as montanhas, cavernas e grutas. Essa classificação provém do termo grego ὄρος, cujo significado em grego antigo é montanha.
Elas não eram imortais, porém tinham vida muito longa e não envelheciam. Tinham ainda o dom de curar, profetizar e nutrir. Em geral, não se destacavam individualmente.


O termo Oréades é empregado pelo célebre poeta romano Ovídio na lenda de Erisícton, rei mitológico da Tessália. A deusa Ceres teria usado uma oréade para trazer a Fome, que habitava lugares desolados, para amaldiçoar esse rei.
Por ser excessivamente falastrona, Eco teria sido privada do dom da fala pela deusa Hera, esposa e irmã de Zeus. Desde o início desse castigo, foi condenada a repetir os sons da voz alheia.
Eco era uma das Oréades, as ninfas das montanhas, e adorava sua própria voz. Como Zeus amava estar entre as belas ninfas, visitava-as com grande frequência. Suspeitando dessas ausências do esposo, Hera veio à terra a fim de surpreendê-lo com suas amantes.
Sendo a prolixa, Eco, uma das únicas do grupo que não se divertiam, entregando-se aos caprichos de Zeus, buscou salvar suas amigas, falando com Hera ininterruptamente, de forma a possibilitar que o deus e as outras ninfas se evadissem, evitando os efeitos da ira de Hera.
Finalmente a deusa conseguiu livrar-se dela e, chegando ao campo, onde os amantes estavam, encontrou-o solitário. Percebendo que tinha sido lograda, resolveu castigar a responsável pelo logro. Eco não teria mais o poder de iniciar uma conversa, apenas de ter a última palavra, ou, de repetir a última palavra.
Segundo Ovídio, Zeus havia usado do dom da fala de Eco para distrair a esposa, a fim de continuar suas aventuras de adultério. Hera, porém, descobrindo o ardil, condenou a infeliz ninfa a sempre repetir apenas as últimas palavras das frases que os outros proferissem, fenômeno conhecido como ecolalia. A ninfa perdia assim seu mais precioso dom, aquilo que mais amava.
Enquanto vagava em seu sofrimento, noutra parte havia um jovem chamado Narciso. Era ele tão belo que, mulheres e homens, apenas ao o enxergarem, logo por ele se apaixonavam. Mas Narciso, que parecia não ter coração, não correspondia a ninguém.

Narciso (1590), pintura de Caravaggio

Certo dia, vagando Eco pelos bosques, encontrou o belo mancebo por quem imediatamente caiu-se de amores. Como não lhe podia falar, limitou-se a segui-lo, secretamente pelos bosques e florestas.
Certa vez, no entanto, estando o jovem perdido no caminho, gritou desesperado: "Tem alguém aqui?" Ao que obteve apenas a resposta: "Aqui, aqui, aqui…".
Narciso intimou a quem respondia para sair do esconderijo. Eco apareceu-lhe e, como não pudesse falar, usou as mãos para em gestos dizer da grande paixão de que estava tomada. Narciso, enfadado com a quantidade dos que buscavam seu afeto, rejeitou também a esta bela ninfa.
A pobre Eco, tomada de desgosto, solicitou a Afrodite para que lhe tirasse a vida. A deusa, entretanto, tanto gostou daquela voz, que preservou a vida da jovem ninfa.
Segundo a narrativa de Ovídio, um rapaz apaixonou-se depois por Narciso e, desprezado, clamou vingança aos deuses, que o atenderam por intervenção da deusa Nêmesis – cuja função é punir os orgulhosos – decidiu fazer ela com que o belo moço sofresse daquele mesmo desprezo com que aos outros tratava: assim, caiu-se Narciso de amores por sua própria imagem refletida nas águas de uma fonte. Sem poder jamais ser correspondido pela própria face, morre de desgosto, afogado na fonte em que se refletia seu rosto.
Assim, foi levado ao Hades, onde passa a eternidade atormentado pela visão do próprio reflexo nas águas do sagrado rio Estiges.
O mito de Eco dá conta da eterna situação humana em que repetimos palavras e idéias que julgamos nossas próprias. Na realidade, o discurso humano nada mais é do que a repetição de falas já ouvidas, de outros em outras circunstâncias de local e temporalidade,
Revela também as ideologias subjacentes no inconsciente coletivo da sociedade e da cultura a que pertence o falante. Tudo o que se diz, tudo o que se afirma é reflexo de vozes que habitam nosso inconsciente. Em nada, jamais somos originais. Somos a voz da nossa sociedade e de nosso tempo.