quinta-feira, 23 de junho de 2016

MEU PEQUENO POEMA DA INFÂNCIA, PARA O SOL


O SOL DA MINHA INFÂNCIA
Oscar Luiz Brisolara (Luizinho)








Hoje eu acordei com o sol me olhando de soslaio,
Por trás de uma imensa nuvem gris que devorava tudo.
Lembrei daquele tempo...
O sol já me encontrava no caminho da escola.
E cuidava de mim,
enquanto caminhávamos:
primeiro, no capo ao lado da casa.
Eu passava a sanguinha dengosa
E seguia costeando o mato
Onde um homem se enforcara.
Somente tu, bondoso sol,
Cuidavas dos meus medos,
Meus olhos esgueiravam-se pelas sombras densas.
Olhos enormes espiavam-me dos fundos
Da imensa escuridão das árvores ramadas.
Depois, eu passava por entre os fios do arame da porteira frouxa.
Continuava andando sobre o fio da colina.
Da esquerda, erguia-se a fumaça das chaminés.
As casinhas no vale.
Os cortadores de lenha.
O eco dos machados que a montanha do outro lado jogava de volta.
Da direita eram os eitos.
Antes bem verdes.
Espigas doiradas, depois.
Por fim, a palha seca.
Dia após dia,
O inverno engolia tudo.
Nessa estação,
O sol ia me encontrar quase na chegada do colégio.
O chão frio...
Os pés gelados...
Molhados do orvalho...
Às vezes da geada que derretia sob o calor da sola...
Os tamancos enfiados nos dedos da mão...
Não se podia chegar na sala com tamanco sujo...
Passava o pé na grama úmida...
Ficava limpinho...
Enfiava no tamanco na calçada...
E entrava feliz com os outros...
No fim da manhã,
Voltava...
O mesmo caminho...
As árvores do outro lado.
As casas para a direita... no vale...
As lavouras trocavam também...
E a esquerda dos lavrados, agora...
O mato, de novo...
Assim, o sol descobriu onde eu morava...
Olhava por mim a tarde inteira...
Eu ia pro campo...
Buscava os mistérios dos matos...
Das pequenas águas que rolavam de debaixo das pedras...
Das serpentes terríveis que se escondiam na erva...
Dos passarinhos, cantando pelas ramagens...
E conhecia cada um pelo seu canto...
Ouvia.
Sem ver, sabia a plumagem... tamanho...
Ouvia, ouvia, perdendo tempo, pisando na folhagem macia...
O mato era assim:
No início era limpo.
O gado entrava, dormia...
Um tapete de folhas...
Depois, se fechava.
As pedras enormes, no meio do escuro.
E o sol lá do alto, espiava por mim,
Fazendo umas flechas de luz reluzente,
Cortando entre as folhas... cravando no chão...
Hoje, onde estão os tamancos?
O tempo comeu.
O mato fechou.
Engoliu meu caminho.
Roeu minha pele.
Correu-me dali.
Só resta na alma
Esta melancolia.
Sem dor, sem saudade...
Um estranho desejo...
Sei lá o que é...
Quem sabe... me avise...