terça-feira, 28 de junho de 2016

QUEM FOI DE FATO SÃO PEDRO?

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

Muitos houve que receberam o nome de Pedro e foram consagrados santos, porém, o que mais adequadamente me parece receber este nome é o apóstolo: Pedro apóstolo de Jesus Cristo. O Pedro dos Evangelhos, o Pedro das escrituras.
Seu nome original era Simão. A Bíblia nos diz que Jesus deu um nome novo a um pescador que se chamava Simão e este nome foi “Kepha” (em Aramaico) ou “Cefas” (transliterado para o grego Κηφα̃ς). Diz o evangelho de São João a respeito do dia em que Pedro foi chamado por Jesus: Levaram-no para conhecer Jesus, que lhe disse: «Tu és Simão, o filho de João; tu te chamarás Cefas» (Jo 1,42).


Consta que pescavam no lago de Genesaré, também conhecido como Mar de Tiberíades ou Mar da Galileia, quando Jesus apareceu entre eles e convocou alguns para que o seguissem. Esse lago é formado pelo rio Jordão que alaga uma planície de aproximadamente 19km de comprimento por 13km de largura.
Temos que levar em consideração que tudo aí é muito minúsculo. O que para eles é grande, para nós é pequeno. Assim, veja-se, Israel tem apenas 470m de comprimento, por 135km de largura. A área total de Israel é de 20.770km². Para se ter um termo de comparação, observe-se que a área do Rio Grande do Sul é de 281.748 km², portanto, dez vezes mais.
Porém, a população de Israel é de 8.134.100 enquanto que a do RS é de 11.210.000. Veja-se a diferença de densidade populacional. (dados aproximados para simples comparação).
Feitas essa observações, voltemos ao rio Jordão, que forma o Mar da Galileia, cuja extensão total da nascente ao estuário é de apenas 190km e cuja a largura máxima é de pouco mais de 18m, tendo seu ponto mais profundo em 5m, mas, em grande parte de seu percurso, pode ser vadeado a pé.
Nasce no monte Hérmon, situado na fronteira entre o Líbano e a Síria e corre num vale, uma depressão de mais de 200m abaixo do nível do mar Mediterrâneo. Acaba desaguando 190km abaixo, no Mar Morto, que está a mais de 400m abaixo do Mediterrâneo.
É tão pouca a vasão desse rio que, embora o Mar Morto não tenha nenhuma saída possível devido ao seu nível depressivo, não alaga mais do que uma área de em torno de 60km de comprimento, por mais ou menos 20km de largura.
Porém, levando em consideração a região desértica em que se encontra, ele é de grande importância até hoje para esses povos.
À margem direita do Jordão está o atual Israel, à esquerda, a Jordânia. Ao sul do Mar Morto está o Egito.
Por correr de há milênios transportando o sal dos solos para esse lago sem saída, a salinidade do Mar Morto tornou-se imensamente densa de tal forma que não há nele vida alguma, daí seu nome. Também, a densidade de suas águas não permite que o banhista nele se afunde. Assim, as pessoas sentam-se sobre as águas a ler uma revista ou jornal.
Pois foi nessa região que Jesus veio ao mundo e chamou Pedro e outros onze homens para que o seguissem em sua tarefa de difundir seu pensamento e religião.
Como em aramaico a palavra “Kepha” significa “Rocha”, traduzido para o latim, petra, originou o nome Petrus, aportuguesado para Pedro, passando ao francês para Pierre; em inglês fica Peter; em italiano Pietro ou Piero e assim por diante.
Mas, enfim, quem era esse homem? O que o diferenciava dos demais apóstolos? Quer me parecer que o traço essencial de seu caráter é a disponibilidade e o reconhecimento da própria pequenez. Era dos mais velhos entre os apóstolos. Casado. Pescador.
Para entender-se um pouco dos traços da personalidade de Pedro, veja-se esta passagem do evangelho de Lucas: “Certo dia Jesus estava perto do lago de Genesaré, e uma multidão o comprimia de todos os lados para ouvir a palavra de Deus.
Viu à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que estavam lavando as suas redes.
Entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se, e do barco ensinava o povo.
Tendo acabado de falar, disse a Simão: "Vá para onde as águas são mais fundas", e a todos: "Lancem as redes para a pesca".
Simão respondeu: "Mestre, esforçamo-nos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes".
Quando o fizeram, pegaram tal quantidade de peixe que as redes começaram a rasgar-se.
Então fizeram sinais a seus companheiros no outro barco, para que viessem ajudá-lo; e eles vieram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar.
Quando Simão Pedro viu isso, prostrou-se aos pés de Jesus e disse: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador! "
Pois ele e todos os seus companheiros estavam perplexos com a pesca que haviam feito, como também Tiago e João, os filhos de Zebedeu, sócios de Simão. Então Jesus disse a Simão: "Não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens". (Lucas 5:1-10).
Pedro era profundamente humilde e se reconhece pequeno e pecador. Embora fosse experiente pescador, obedeceu quando o Senhor ordenou que lançasse novamente as redes. Diante do milagre, reconheceu-se pecador.
Mais adiante, como o Senhor o testasse, ele responde com extrema humildade. Veja-se esta passagem do capítulo 21 do evangelho de João: “Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, você me ama realmente mais do que estes? " Disse ele: "Sim, Senhor, tu sabes que te amo". Disse Jesus: "Cuide dos meus cordeiros". Novamente Jesus disse: "Simão, filho de João, você realmente me ama? " Ele respondeu: "Sim, Senhor tu sabes que te amo". Disse Jesus: "Pastoreie as minhas ovelhas". Pela terceira vez, ele lhe disse: "Simão, filho de João, você me ama? " Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez "Você me ama? " e lhe disse: "Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo". Disse-lhe Jesus: "Cuide das minhas ovelhas. Digo-lhe a verdade: Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir". Jesus disse isso para indicar o tipo de morte com a qual Pedro iria glorificar a Deus. E então lhe disse: "Siga-me! "Pedro voltou-se e viu que o discípulo a quem Jesus amava os seguia. ( Este era o que se inclinara para Jesus durante a ceia e perguntara: "Senhor, quem te irá trair? " )Quando Pedro o viu, perguntou: "Senhor, e quanto a ele? " Respondeu Jesus: "Se eu quiser que ele permaneça vivo até que eu volte, o que lhe importa? Siga-me você". Foi por isso que se espalhou entre os irmãos o rumor de que aquele discípulo não iria morrer. Mas Jesus não disse que ele não iria morrer; apenas disse: "Se eu quiser que ele permaneça vivo até que eu volte, o que lhe importa? " Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e que as registrou. Sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos. (João, 21:15-25).
Nessa passagem, vê-se o quanto crescera Pedro em seus procedimentos. Aprendera a amar o mestre e não duvidar dos ensinamentos dele.
Pedro era dos mais velhos. Casado. O evangelho fala em sua sogra que estaria doente. Pescador. Voluntarioso. Na prisão de Cristo, desembainha a própria espada. “Assim que Jesus foi preso pelos soldados, Pedro tomou sua espada e cortou a orelha de um deles” (João 18:10-11).
“Então, Simão Pedro, que tinha espada, desembainhou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. E o nome do servo era Malcus. Mas Jesus disse a Pedro: Mete a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?”
Quantos discípulos traíram Jesus? A resposta está em Mateus 26:56: TODOS.
“Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as escrituras dos profetas. Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram.” Veja-se que Pedro tomou uma atitude diferenciada. Mesmo fugindo, ficou a uma distância que pudesse ver o que aconteceria.
Veja-se o texto de Mateus 26:58: “E Pedro o seguiu de longe, até ao pátio do sumo sacerdote e, entrando, assentou-se entre os criados, para ver o fim.”
Aconteceu a negação de Pedro. Foi fraco, mas estava por perto e chorou de arrependimento. “Após isso, Pedro negou Jesus três vezes e chorou amargamente quando lembrou do que o Mestre havia falado a ele” (Mateus 26:69-75).
É ainda Mateus 26:69-75, que afirma: “Ora, Pedro estava assentado fora, no pátio; e, aproximando-se dele uma criada, disse: Tu também estavas com Jesus, o galileu.
Mas ele negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.
E, saindo para o vestíbulo, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno.
E ele negou outra vez com juramento: Não conheço tal homem.
E, daí a pouco, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente também tu és deles, pois a tua fala te denuncia.
Então começou ele a praguejar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou.
E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente.”
O evangelho de Lucas acrescenta um detalhe importante da negação de Pedro, em que Jesus olha para Pedro após este negá-lo três vezes (Lucas 22:61-62).
“E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe tinha dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.”
O choro de Pedro não foi um simples choro, mas foi um choro amargo, pois ele entendeu naquele momento que era de fato frágil. Ele havia prometido para Jesus que morreria por amor a Ele, porém negou-o e jurou que não O conhecia. O choro de Pedro foi um choro amargo. Foi fraco e reconheceu a própria fraqueza.
Depois da morte de Cristo, ele tornou-se um grande apóstolo. Partiu para Roma, a capital do mundo de então. E lá enfrentou os romanos.
Acompanhado de Paulo, foi preso e castigado. Enfrentou tudo com imensa coragem. Escreveu duas cartas aos romanos para registrar a doutrina cristã.
Por fim, por ordem de Nero foi condenado à crucifixão. Em 67 da era cristã, no bosque dos vates, onde os sacerdotes romanos faziam os vaticínios, ele foi executado. Pediu para que fosse crucificado de cabeça para baixo, pois dizia não merecer a crucifixão do mesmo modo que o mestre. Aí foi feito seu túmulo e o imperador Constantino ordenou fosse construída uma basílica.
Hoje, nesse local dos vaticínios, está o Vaticano, de onde é administrada a Igreja Católica de todo o mundo. Aí também está a basílica do Vaticano, o maior templo católico de todo o mundo.
Pedro foi o primeiro chefe do cristianismo depois da morte de Jesus e por ele instituiu-se o papado. São Lino o substituiu. Dos 30 primeiros papas, quase todos foram condenados à morte. Somente com o imperador Constantino, no século IV d. C., os papas tiveram tempos de tranquilidade. Silvestre I foi eleito sob a proteção do imperador e mudaram-se as condições dos papas. Tornaram-se reis, ricos e poderosos.
O dia 29 de junho é dedicado a São Pedro, pois acredita-se que tenha sido essa a data de sua execução pelos soldados de Nero.
São Pedro é padroeiro do Rio Grande do Sul em razão de uma política dos reis de Portugal e da Espanha que vinculava sua política invasora aos ideais religiosos cristãos. Assim, o estado do Rio de Janeiro é consagrado a São Sebastião, São Paulo ao apóstolo Paulo e o Rio Grande do Sul a São Pedro.
Sendo países pequenos em relação às terras que conquistavam, não tendo nem homens nem armas para subjugarem os povos conquistados pela força, enviavam missionários para conquistá-los pelo espírito.
Outras não eram as razões da criação das missões espanholas. Tinham também o objetivo de protegerem as minas da Bolívia do ataque dos portugueses.
A religião serviu como instrumento dos colonizadores, mais do que o cavalo e as armas de fogo que os indígenas desconheciam.
Nada disso diminui a importância de Pedro, o homem simples e intrépido que deu a própria vida pela causa que defendia. Homem revolucionário que levou aos romanos e por eles ao mundo o cristianismo, que até hoje tem profundas influências na civilização humana, apesar das distorções que dele se fazem