terça-feira, 26 de maio de 2015

O PRETO CARVOEIRO

Oscar Luiz Brisolara
Sentado sobre um tramado de antigas achas que haviam ficado por queimar para todo sempre, o velho, preto como os carvões que queimara vida afora, roçava uma mão áspera contra a outra, mais áspera ainda. O que seria da vida? Não tinha ninguém.
A preta Maria, com quem dividira mais de cinquenta anos de cama e cabo de machado, mudara-se, de há anos, para o cerro dos ausentes, sobre cuja lápide grotesca mandara gravar o nome dela e as datas de nascimento e morte.
Os cinco filhos, um a um, haviam sumido no mundo. No princípio, vinham alguns domingos por ano. As visitas foram raleando. Agora, já fazia seis anos, ninguém quis mais saber dele...  Tinham lá seus compromissos. Compreendia. Amava-os assim como eram: bons. Remoeu ideias... costurou saudades... cozeu umas verduras com ovo e, enquanto comia e olhava o rancho descomposto... quase engolido pelas capoeiras que subiam por tudo... crescia até cipó enredando as plantas e o seu futuro... relembrou distantes tempos...
Buscou no passado um sentido para vida. Sim, o calo da direita era mais duro... quando o braço forte arremessava a lâmina afiada do ferro do machado contra o tronco rijo, o cabo da ferramenta conduzia de volta as vibrações da resistência que o cepo impunha ao instrumento. Desse modo, o cabo, também de madeira rija, vibrava no interior da mão.
Somente quem sentiu a dor dessas vibrações na pele jovem pode entender como se formam esses calos. Quando ainda muito jovem, a camada interna que reveste a mão é mais delicada. Nos moços do campo, muito menos do que nos jovens de livros e canetas.
E o cabo do machado primeiro forma bolhas de água, que por força do atrito se rompem. Depois, surgem feridas que sangram e, por fim, toda a mão se alinha, pouco a pouco, como a madeira que corta e forma uma crosta dura e uniforme, rachada aqui e ali em função das dobras do tecido. E é para sempre… Com a sola do pé acontece o mesmo… Uma espécie de camada quase óssea protege o pé dos pequenos espinhos, dos seixos dos caminhos muitos de uma vida descalça...
O velho Augusto enfrenta tudo, desde o frio dos invernos cortantes, passando pelo correr das cordas rudes ao puxar dos bois, até às vibrações dos machados, constantes e rítmicas, regidas pelo ritmo das pancadas, repetidas aos milhares pelos anos sem conta, e pelo ritmo cortante da existência que enrijece as mãos e as almas.
Desde o raiar do dia, para colher o tempo de surpresa e produzir mais, sempre estivera ao cabo do machado. Seu pai fora carvoeiro, o avô, escravo. Não lia letras. Passara os anos todos, quase noventa, derrubando árvores e queimando carvão. Era preciso ciência. Caso não soubesse, ou ficava duro e imprestável, ou virava tudo cinza e lá se iam dias ou semanas de trabalho duro.
Cortava os troncos. Separava os galhos. Tronco grosso tinha de se rachar. Depois, empilhava tudo. Uns dois metros de altura, três de eixo. A seguir, barreava. Uma pá de corte. Solo úmido. Tudo muito bem coberto. Um buraquinho para o fogo, bem embaixo. Um respiro por cima. Controlado. Apenas uma fumacinha. Três dias queimando, lentamente.
Quando esfriava, tirava tudo. Quebrava os nacos e ensacava. O pai botava na carroça e ia para a cidade, vender. Depois de um dia inteiro, casa por casa, voltava na alta noite. Os bois, ele, cansados. Um dinheirinho para a comida e tudo de novo. Ano afora, vida adentro, vida afora. Sempre, do mesmo modo, eternamente. Até que o destino chegasse e acabasse com tudo.
Com tudo não, que tudo mesmo não termina. Mas corre o dia, correm os anos, corre a vida e corre a história. A gente correndo atrás dele. Primeiro para ser homem, depois para continuar e, por fim, para não morrer.
Tinha carvão por tudo. Fibras de madeira carbonizada penetradas nas mãos, no corpo, nos pulmões. O médico havia dito que o pulmão do velho era mais preto que seu rosto. Sempre a fumaça, ardendo nos olhos, queimando o nariz. Depois as brasas. Mãos sempre queimadas. Ardendo. Pés esburacados, quase não doíam mais.
O carvão, que lhe dera aquela vida, ia-se-lhe até mesmo pela alma. Sem queixas nem lamúrios, olhava para as próprias mãos. Cumprira com dignidade tudo o que a existência lhe propusera. Sem nada, sem culpa nem mágoa, nem descrença aguardava o fim próximo de tudo...
Tudo o que enxergava era preto, a não ser o vermelho do braseiro, que apagado também preteava. Mas quem disse que preto é ruim ou feio? Ao preto carvão, tudo dedicara. Também dele tudo recebera. Será que Deus é preto? Quem sabe? Só branco que acha que Deus é branco. Eu acho que é pretinho como eu e a finada Maria. Um dia vou me rir tanto.
E agora, o doutor lhe afirmava que seu destino era negro. Câncer nos pulmões. Com a chaleira preta, servia um amargo chimarrão e o verde da água quentinha dava-lhe um novo alento. Que para pobre nunca se apaga o alento. Tragédia é para rico...