domingo, 10 de maio de 2015

LINGUAGEM - O EMPREGO DO ARTIGO DEFINIDO E INDEFINIDO NA NARRATIVA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
À beira do Sena, no anoitecer
Uma dúvida atormenta muita gente na hora de empregar os artigos indefinidos (um, uma) ou definidos (o, a), especialmente no interior de uma narrativa.
Para esse emprego, há uma norma geral: Sempre que se introduz um elemento novo na narrativa, esse deve vir precedido de artigo indefinido. Exemplificando: “ ‘Um’ homem saiu de Jerusalém para Jericó e caiu na mão de ‘uns’ ladrões, ...” O artigo é ‘um’, indefinido, porque se trata de um homem qualquer, até então desconhecido na narrativa. Seguindo a narrativa, aparece: “Por acaso, a seguir ‘um’ sacerdote passou pela mesma estrada...”. Também o artigo é o indefinido ‘um’, porque também o sacerdote é novo na história,
Porém, na sequência da narrativa, o narrador afirma: “... ‘o’ sacerdote viu ‘o’ infeliz, olhou-o, sentiu compaixão dele, mas seguiu seu caminho...”. Agora, na narrativa, aparece o artigo indefinido ‘o’. Quando o artigo ‘o’ precede sacerdote, deve-se empregar este definido porque se trata do mesmo sacerdote já apontado na parábola. Da mesma forma, o artigo ‘o’, que precede o termo infeliz, refere-se a um elemento conhecido na história, porque o emprego do artigo não se fixa a um termo e, sim, à sua representação no texto. Infeliz é uma anáfora de homem, já empregado anteriormente nessa narrativa. (Para quem não é da área da linguagem, lembremos que a anáfora é a retomada de um mesmo elemento já citado com um termo diferente, com o intuito de deixar a narrativa menos monótona.). Esse é apenas um princípio geral: não é absoluto, nem observado por todos os grandes narradores, como se verá mais adisnte.
Abaixo, exponho uma narrativa minha, já publicada em outro espaço, com os artigos em destaque através de aspas:

      Minha avó me contava, e isso por vezes sem conta, como o exigem as crianças, a lenda de ‘uma’ menina que ia para ‘o’ armazém, com ‘um’ pote de leite à cabeça, como o faziam todas ‘as’ meninas desses velhos tempos. E eu visualizava ‘a’ garota... ‘os’ pés descalços... ‘os’ cabelos ao vento... ‘o’ pote... ‘o’ leite branco...
                Sonhava, dizia vovó, que eu sei, também sonhava muito com seus mais de setenta, pois venderia ‘o’ leite, compraria vinte ovos, chocaria n‘a’ carijó, teria em breve vinte pintinhos doirados, trocaria ‘os’ frangos por ‘um’ roliço leitão... e, em breve, teria ‘uma’ vaca com ‘um’ lindo bezerrinho... e apressava ‘o’ passo, acelerando ‘o’ sonho...

                De repente, ‘um’ desnível do caminho, e lá se foram pote e sonho...  e assim quantas meninas e meninos quebraram seus potes vida afora pelos séculos dos séculos...
O primeiro ‘uma’, referindo-se a menina é indefinido porque essa menina é um elemento novo em minha história. Veja-se que a palavra avó, se viesse precedida de artigo, deveria ser o definido ‘a’, pois ela é avó, do narrador, portanto definida em relação a ele. O artigo ‘o’, precedendo armazém, esta definido pela menina, pois ancora-se no fato de ser armazém frequentado por ela.
Mas vejamos mais adiante: ‘os’, precedendo pés e cabelos, são definidos porque estão contidos na menina; uma vez definida a menina, define-se tudo o que está nela, são definidos ancorados na palavra menina. O mesmo vai ocorrer com ‘o’ referente a leite, ‘a’ referente a carijó, e ‘os’ referentes a frangos.
Já, ‘um’ leitão, ‘uma’ vaca, ‘um’ bezerrinho, são elementos novos introduzidos na narrativa.
Temos, porém, o espaço do contraditório. A narrativa acima insere-se no modelo tradicional do gênero narrativo. No entanto, há autores contemporâneos, como Luis Fernando Verissimo e Millôr Fernandes, que não seguem esses princípios e constroem narrativas de enorme prestígio. Veja-se a fábula abaixo de Millôr, em Novas Fábulas Fabulosas: (O menininho... Este emprego já não está de acordo com o que a regra propõe).

A MORTE DA TARTARUGA - Millôr Fernandes
O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu na tartaruga com um pau (tinha nojo daquele bicho) e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. "Cuidado, senão você acorda o seu pai". Mas o menino não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, queria aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometeu uma surra, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação.
Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio, estremunhado, ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse - "Está aí assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei mais o que fazer. Já lhe prometi tudo mas ele continua berrando desse jeito". O pai examinou a situação e propôs: - "Olha, Henriquinho. Se a tartaruga está morta, não adianta mesmo você chorar. Deixa ela aí e vem cá com o papai". O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou garoto no colo e disse: - "Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer para ela um grande funeral". (Empregou de propósito a palavra difícil). O menino parou imediatamente de chorar. "que é funeral?" O pai lhe explicou que era um enterro. "Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante balas, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o "Happy Birth-Day-To-You"pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?" O garotinho estava com outra cara. "Vamos papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar ela". Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. "Papai, papai, vem cá, ela está viva!" O pai correu pro quintal e constatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo, normalmente. "Que bom, hein?" - disse - "Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral!" "Vamos sim papai" disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande - "Eu mato ela!"...
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Veja-se, quem escreve bem, ultrapassa padrões, modelos e regras. Parece-me que o ‘o’, artigo definido que inicia a narrativa de Millôr cria a sensação de que é uma sequência narrativa que se iniciou anteriormente, sendo, essa introdução aparente, um segmento dando continuidade à fala.