segunda-feira, 23 de novembro de 2015

LUIGI BRIZZOLARA - UM ESCULTOR DE DOIS MUNDOS

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Oscar Luiz Brisolara
Luigi Brizzolara
Luigi Brizzolara é um escultor italiano, nascido em Chiavari,
comuna italiana da região da Ligúria, cuja capital é Gênova. Filho de Antônio Brizzolara e Giuseppina Dalla Cella, em 11 de junho de 1868 e faleceu em Gênova em 11 de abril de 1937.
Aos vinte anos, transferiu-se para Gênova a fim de estudar a arte da escultura, matriculando-se na Academia Linguística de Belas Artes. Tornou-se discípulo favorito do escultor G. Scanzi, em cujo atelier produziu uma estátua representando Ismael Moribundo, que foi premiada com medalha de prata na mostra colombiana de Gênova, em 1892. Não se conhece a localização atual dessa obra.
Logo a seguir, foi vencedor do concurso para a elaboração da tumba de Gio Batta Castagnola, para a qual produziu um alto-relevo ao qual intitulou de “Visão de Cristo”, que se encontra no Cemitério Monumental de Staglieno, local que se destinava à alta burguesia se Gênova.
Realizou obras de reconhecida qualidade e beleza como o túmulo de Risso-Zerega, ainda no cemitério de Staglieno, o altar da capela votiva erigida em comemoração ao término da I Grande Guerra Mundial, no cemitério Sampierdarena, também em Gênova. Também projetou o monumento a Emmanuel Gonzales, no cemitério de Chiavari. Em 1916, projetou os retratos com o busto de Paolo Giacometti, em “Viletta di Negro”, e o busto de Elia Lavarello, na Via Lavarello, todas em Gênova.
Porém, em 1898, havia sido contratado para uma obra de grande importância, qual seja a elaboração do monumento em homenagem ao rei Vitor Emmanuel II, o restaurador da corte italiana, pelo movimento de unificação da Itália, liderado pelo conde Cavour e por Giuseppe Garibaldi. Esse monumento foi edificado na praça de Nossa Senhora do Horto, em Chiavari.
Trabalhando muito, Brizzolara executou muitas estátuas, entre as quais um conjunto para a Igreja de São João Batista, composto das imagens dos profetas Isaías e Malaquias (para a capela do crucifixo), e as de São João e de São Marcos, colocadas sobre a fachada no momento da restauração da igreja.
Em 19 de novembro de 1904, Luigi uniu-se em matrimônio com Maria Ranzini, na cidade de Gênova. Em seguida, no ano de 1907, inicia sua carreira internacional. Participa, juntamente com o arquiteto Gaetano Morelli, de um concurso promovido pelo governo da Argentina, com o objetivo de erigir em Buenos Aires um monumento comemorativa ao Centenário da independência do país, que se comemoraria em 25 de maio de 1910. O projeto de Brizzolara saiu vencedor e recebeu, juntamente com seu colega, como prêmio, a importância de dez mil pesos de ouro.
Era um projeto majestoso, um complexo monumental, prevendo, no interior, um salão todo adornado de mosaicos e mármores preciosos, que abrigaria o museu da independência, cujo acesso seria feito por uma escadaria ornada por um conjunto estatuário. Porém, essa obra jamais foi executada.
Continuando sua carreira internacional, em 1919, Luigi participou do concurso para o monumento que iria comemorar o primeiro centenário da independência do Brasil. Porém, foi classificado em segundo lugar, tendo sido escolhido para o primeiro prêmio o projeto de Ettore Ximenes, e para o terceiro, Nicola Rollo, todos renomados artistas.
Veja a descrição do projeto de Brizzolara publicada no Correio Paulistano: “Continuando nossa descripção das 'maquetes' expostas, damos hoje um rápido summario da do professor Luigi Brizzolari. O projeto do professor Brizzolara ocupa toda a área da grande praça jardim, que será feita como remate à Avenida da Independência.
Comporse-á de três corpos distinctos: o do centro, o maior com a estátua eqüestre de D.Pedro I, rodeada de figuras alegóricas, grupos, etc... symbolizando factos e épocas de nossa história ou factores da nossa civilização. Na parte de baixo, isto é quase no embasamento deste corpo, alteiam-se as imponentes figuras do Direito e do Dever. O Direito empunha o glaudio da justiça, ensinamento do passado e do futuro; o dever cinge ao peito a bandeira da pátria, symbolo sacrossanto da mesma pátria.
A architectura deste corpo, como de todo o monumento, é simples, austera e grandiosa. Os seus grupos e figuras, talhados em bronze, destacar-se-ão vivamente por sobre a parte architectonica.
Os dois blocos lateraes perpetuam os mais importantes acontecimentos da história pátria.
O bloco da esquerda está coroado por uma glorificação dos Mártyres da Independência, os precursores da Conjuração Mineira. Este grupo, segundo o entender da Commissão, poderá ser substituído por outra alegoria, como a abertura dos portos às nações amigas.
No bloco da direita será collocado um grupo representando o episódio do "Fico".
Na parte posterior do grupo central será collocada uma grande figura representando a liberdade, que tudo espera no futuro da nação nova.
No caso de adoptar a commissão os dois braços projetados de proteção às duas ruas, offerecerão estes ainda campo para novas interpretações históricas. No braço da direita representar-se-ão: a abolição da escravatura, gesto magnânimo do povo brasileiro, demonstração de sua maturidade social e dos seus sentimentos humanitários, a magnanimidade d D. Pedro II, o príncipe philósopho, que acoroçoou e protegeu as artes e as ciências. No braço da esquerda serão memorados; a retirada de Laguna, em que refulgiu o valor brasileiro, através de provas de resistência, e o martyrio de Tiradentes, o primeiro martyr da ideia da emancipação política.
Bustos de brasileiros ilustres dominarão as escadas dos braços lateraes, à cujos ângulos cantarão pequenas fontes.
São estas, em suma, as ideias que dominaram a concepção da obra do esculptor Brizzolara.
O interior dos grandes corpos poderão ser aproveitados para um grande salão e salas menores que poderão utilizar-se para conferências, exposições, universidade popular, comemoração, biblioteca, pantheon, etc. Este salão poderá ser oportunamente decorado com baixos relevos e um grande friso pictórico. Receberá a luz do alto, através de grandes clarbóias colocadas no último degrau do monumento, ao pé do grupo esculptural culminante e será arejado por janelões abertos lateralmente nas paredes do primeiro degrau, por sob o baixo relevo do altar da pátria.”
Os atos comemorativos tiveram início dois anos antes, com a realização do concurso anteriormente mencionado, tendo sido encerradas no mês de abril do ano de 1923. Nas festividades, inauguraram-se o conjunto de esculturas que ladeia o Teatro Municipal de São Paulo, em homenagem ao Maestro Carlos Gomes, estes sim foram projetos de Luigi Brizzolara.
Nesse período, Brizzolara passou a residir em São Paulo, onde havia uma grande colônia italiana, com poderosos empreendimentos, como é o caso das empresas Matarazzo, cujo nome mais proeminente era Francisco Matarazzo Sobrinho, mais conhecido pela a alcunha carinhosa de Ciccillo Matarazzo, grande industrial e mecenas responsável pelo incentivo a muitas manifestações artísticas, especialmente pela construção do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Esse ambiente foi muito favorável ao criativo artista, que recebeu inúmeras encomendas de importantes obras. Realizou, em São Paulo, o mausoléu de família Matarazzo, no cemitério da consolação; o brasão Ermelino Matarazzo, no Hospital Matarazzo e muitos outras obras de arte.
Entre essas obras, estão muitos monumentos fúnebres, sendo os mais importantes, depois dos da família Matarazzo, os da família Machado. Na Colina do Ipiranga, estão duas de suas obras mais importantes no Brasil: são as estátuas de três metros e meio de altura de Antônio Raposo Tavares e de Fernão Dias Paes Leme, uma de cada lado da colina.
O Jornal “O Estado de São Paulo” publicou em três de setembro de 1922, este texto a respeito da obra de Luigi Brizzolara:
"Os cyclos bandeirantes: dois trabalhos de Brizzolara
Com o fito de dar maior lustre à comemoração do centenário de nossa Independência, o governo do Estado mandou executar, além do Monumento da Independência, que será um dos maiores do mundo, inúmeras e valiosas obras de arte, que serão colocadas nos parques e jardins da capital e no Museu Paulista.
Dessas últimas salientam-se dois lindíssimos trabalhos encomendados pelo Governo Estadual, por intermédio do sr. Dr. Alfredo d'Escragnolle Taunay, diretor do Museu Paulista, ao cavalheiro Luiz Brizzolara, um dos mais notáveis artistas contemporâneos da Itália, autor do Monumento Comemorativo ao 1º Centenário da Independência da Argentina, do Projeto que obteve o segundo prêmio no concurso de monumentos para o nosso centenário e autor de numerosas estátuas e monumentos na Itália.
Esses trabalhos são dois enormes blocos de alvíssimo mármore de Carrara e synbolizam os grandes cyclos bandeirantes. Cada estátua tem 3 metros e meio de altura, com o pedestal também de mármore, pesando mais de 8.000 kilos. Ambas eram destinadas ao perystillo do Museu Paulista.
Uma das estátuas que symboliza a caça ao índio e o desbravamento da selva, representa Antonio Raposo Tavares, o bandeirante de Quintaúna, perscrutando o horizonte, com uma das mãos erguida acima dos olhos.
A outra bela obra é Fernão Dias Paes Leme, symbolizando o cyclo dos metaes e pedras preciosas.
Nesse trabalho, vê-se o velho bandeirante, apoiado à clavina, procurando na pedra colhida a transparência verde da esmeralda ou o brilho refulgente do ouro.
As estátuas chegaram recentemente da Itália e já estão colocadas nos respectivos lugares." (O Estado de São Paulo, edição de 03 de setembro de 1922).
Também o escritor Monteiro Lobato comentou a obra de Brizzolara:
"Brizzolara revelou mais uma vez o notável escultor que é. Apesar da exigüidade de recursos e das contingências da localização, fez do Monumento a Carlos Gomes oferecido à cidade pela colônia italiana, o mais belo que hoje existe entre nós em matéria de escultura. Carlos Gomes está soberbamente estilizado, numa atitude que bem diz a respeito do gênio. Outra não convinha ao nosso músico máximo, o primeiro que sinfonizou a grandeza rude de nossas florestas bravias.
Essa figura magnífica, fixada em bronze, repousa em harmônico pedestal de granito, todo ele um primor de linhas e massas.
Não destoam as figuras acessórias. Lado a lado, dois symbolos de mármore, a Música e a Poesia, suavizam a força da majestade. Embaixo, no jardim, esplêndidas figuras em bronze dizem da obra musical do campineiro, representando cada um dos seus dramas líricos, pela imagem do herói respectivo. Vêem-se ali "O ESCRAVO", "PERI", "FOSCA", "MARIA TUDOR", "SALVADOR ROSA" e "CONDOR", cumprindo destacar a figura de Maria Tudor, cuja expressão é maravilhosa. Ao centro, o carro do gênio conduzido por cavalos soberbos de movimentos, e às extremas, os grupos alusivos ao Brasil e à Itália, duas concepções belíssimas, cada qual constituindo por si só um perfeito monumento.
Brizzolara deu mostras de que é escultor. Agradeçamo-lhe comovidos. Terra nova e inculta, o Brasil é o país ideal dos mistificadores...". (Revista do Brasil, nº 83, novembro de 1922 (artigo assinado por Monteiro Lobato).

Em 1928, Brizzolara retorna à Itália definitivamente. Foi nesse momento que executou em Chiavari, sua cidade natal, o monumento comemorativo ao Fim da I Guerra Mundial. Realizou, na Itália, ainda muitas outras obras. Por fim, concluiu sua carreira como professor na Academia de Linguística de Belas Artes, tendo recebido muitas honrarias pelo mérito e qualidade de suas obras. Permaneceu no magistério até sua morte, em 11 de abril de 1937.

ALGUMAS OBRAS IMPORTANTES DE LUIGI BRIZZOLARA:

Monumento a Vitor Emanuel II - Chiavari 

Mausoléu da Família Matarazzo - São Paulo
Cemitério da Consolação

Raposo Tavares - Museu Paulista 

Luigi Brizzolara - Anhanguera, Parque Trianon

Monumento a Carlos Gomes, O Guarani
Monumento a Carlos Gomes - Salvador Rosa


Gênova, Staglieno, túmulo por Brizzolara

Túmulo de Castagnola, Staglieno por Brizzolara



Luigi Brizzolara - Mausoléu da Família Matarazzo - entrada


Luigi Brizzolara - Mausoléu da Família Matarazzo - São Paulo - Brasil
Monumento a Carlos Gomes, Itália

Monumento a Carlos Gomes - São Paulo - Brasil