segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

AS LAVADEIRAS DO RIO


As Lavadeiras - Quadro de Daniel Ridgway Knight, (1880)


Oh, lavadeiras do riacho, quantas lembranças me trazem, Com esses lenços de touca, os longos panos vestidos.
As águas sempre correndo, fluindo eternamente. Buscando os eternos gonzos no universo, escondidos, escondem tantos segredos, mistérios, mythos... num ritual repetido...
Ainda ouço o riacho, bem mais modesto que este, cantarolando baixinho: os seixos, ramos, espinhos...
Revejo o galho teimoso que as águas levam correndo, mas ele, preso ao barranco, com as raízes pegadas, puxa-se de novo p'ra cima, as águas brincam com ele e o empurram p'ra frente... Nesse eterno brinquedo, quedava-me deitado à grama, ou nas areias macias...
Olhava o azul do céu... as nuvens correndo, soltas e, perdido, retornava para as águas do riacho. Tão manso, tão inocente, tão limpo, de águas tão claras... no fundo, tudo se via... não mais que cinco ou seis palmos... As pedras com que eu brincava... por lá ainda se encontram... talvez cobertas de musgos... ou soterradas de areias.
O mato, no abandono, tudo engoliu passo e passo... Correram anos... sem conta... cinquenta... sessenta... quem sabe, um pouco mais... que importa? Importa que na lembrança as pedrinhas inda são brancas, amareladas talvez...
Minha mãe cantarolando velhas cantigas do tempo...cantarolava o riacho e um pássaro de quando em quando... nos dias de tempo feio, eram os sapos também... essa eterna sinfonia sem clave de início ou fim... Eternamente correndo, a vida, o riacho, o sabão limpando as roupas, que o tempo torna a sujar... Todo dia lavar roupas... roupas ao sol a secar... Vapores de águas ao céu... águas da chuva a soar... a escorrer nos caminhos... e o riacho... ah! o riacho... ah minha mãe... sua vozinha sumiu pelas brenhas do arvoredo... apagou-se... foi...
Sua cantiga, no entanto, não morre, não cala nunca... A cabeleira caída... quantos sonhos de menina... eu tinha meus quatro anos... ela vinte e um pouco mais... Somente as águas ouviram aquela doce harmonia: a da água que corria, com a vozinha que entoava, somada ao canto das aves, à sombra e ao sol pungente. Tudo ali era inocente: água limpa, céu azul, caprichos da natureza... vizinhos... só mui distantes... silêncios... longos vazios... repletos de sentimentos que o barulho levou..
Aqui sentado... sozinho, percorro lento o caminho que da casa leva ao rio... rio, modo de dizer. Era um riacho tão fraco, atravessava-se a um pulo, sem sequer molhar os pés.
Vieram ventos na vida. E o riacho ficou. Sozinho, lá no seu brejo. Mas lá esconde mansinho, o sonhos de um menininho, as velhas canções sublimes dos sonhos de minha mãe... Escuto... paro... pra ouvir uma mocinha cantando e um menininho deitado, ouvindo as águas do rio...
(Esse não é um sonho de poeta, é pura lembrança).