quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ORIGEM E ETIMOLOGIA DA PALAVRA ALUNO



Professor Dr. Oscar Luiz Brisolara
Um estudo etimológico apressado levou alguns estudiosos a uma leitura histórica da palavra aluno um tanto equivocada. Todo filólogo e todo o estudioso da linguagem sabe que há inúmeros termos cujo percurso etimológico se perde num emaranhado de radicais, prefixos e sufixos foneticamente assemelhados.
Porém, ocorre que muitas vezes esses étimos se revestem de histórias e percursos significativos diferentes. É o que ocorre com o da palavra aluno.
Alguns estudiosos tomaram o termo latino “lumen”, nominativo, e seu genitivo “luminis”, cujo significado original é luz e adicionaram-lhe o prefixo “a”, que “pode” ter o sentido de negação, ausência. Chegaram, a partir daí, à conclusão de que o termo aluno, historicamente, seria desprovido de luz, aquele que deve ser iluminado.
Acontece que as palavras são sempre polissêmicas e a etimologia sempre pode ser outra. Partindo do significado da palavra latina “alumnus, i” nos dicionários latinos: “1. criança de peito; pupilo; discípulo. 2. Escravo nascido na casa; criança exposta que se tornava escrava daqueles que a recolhiam e alimentavam.”[1], chega-se a um resultado diferente.
A definição de dicionário acima leva-nos a concluir que, já entre os romanos, o termo ligava-se ao processo de alimentação. Por sua vez, o termo “alumnus”, no interior da própria lingua latina, deriva do verbo latino “alo, alis, alui, altŭm, alĕre”, que significa alimentar, sustentar, nutrir, fazer crescer.
Assim, aluno, carinhosamente, é um lactente intelectual. Nas sociedades primitivas, a educação era função apenas familiar associada à própria nutrição. Gradativamente, com o surgimento da educação feita por mestres especializados e, muito depois com a educação coletiva, o termo foi assimilado outras significações.
Esse milenar percurso partiu de um nome, cujo significado primeiro era eminentemente físico e biológico, para, através de um processo típico da mente humana, engendrar uma nova esfera, que agrega novas dimensões, ligadas a novos sistemas de cultura e filosofia. 
Assim, de um significado apenas fisiológico, trófico, alimentar o termo foi agregando outras significações cada vez mais intelectivas e racionais. Entretanto, esse novo ser, que gradativamente, nutrindo o corpo, desenvolvia a intelectualidade, passou a valorizar muito mais a razão e o raciocínio, deixando o físico e fisiológico em um plano inferior.
A existência do “alumnus” nessa nova dimensão conduziu o raciocínio a uma nova realidade: a educação. Esse sistema que valoriza muito mais o processo de formação humana, num eterno devir, em contraposição ao absolutamente físico, estabelece uma distância abissal que separa o simples lactente do aluno na nova perspectiva. Desse modo, o novo processo: a educação, passou  a exercer sua dinâmica transformadora no próprio termo aluno.
Ele não é apenas um adestrando, um aprendiz no sentido simplesmente profissional, mais que isso, é um discente. De “discere”, aprender em latim, que na moderna filosofia da educação significa aquele que constrói o próprio saber e estabelece o significado sempre novo de seu próprio estar no mundo, forma-se o termo discente, novo étimo para definir aluno.
Seguramente, com as sucessivas reformulações dos conceitos e das novas concepções do homem de si mesmo e de seu estar no universo, o termo vai acompanhar essa perene caminhada polissêmica em que nada mais será o que foi.
Desse modo, entendendo o processo etimológico em que grande parte das palavras na língua latina foram formadas por aglutinação de prefixos e sufixos (afixos) a um radical (raiz), podem-se estabelecer outros laços que a lógica permite, mas que a história e a cultura não confirmam. 
A partir de um certo modo de olhar o mundo e os sentidos, pode-se, em latim, adicionar o prefixo “a” que indica ‘movimento para’, ‘aproximação’, ‘na direção de’ como acontece em abordar, apurar, arribar, arraigar, associar, assimilar e tantíssimas outras, ao substantivo também latino “lumen, luminis”. 
Segundo essa proposição eminentemente latina, o percurso etimológico deveria ser outro. Empregando o prefixo ‘a’ no sentido de ‘movimento para’, ‘aproximação’, ‘na direção de’, adicionado ao termo latino “lumen, luminis”, ou seja, luz, poder-se-ia chegar ao sentido de “aquele que vai em direção da luz”.
Entendendo metaforicamente luz como conhecimento, saber, orientação, engendrar-se-ia um novo processo significativo, cujo resultado seria a compreensão do termo aluno como representação daquele que vai ao encontro do conhecimento, de um saber, de uma formação.
Por outro lado, no entanto, conforme diversos estudos filológicos, não foi esse o percurso semântico que o vocábulo fez desde a origem até a contemporaneidade. Como se viu, o termo já existia em latim e seu significado relacionava-se com a conceito de nutrir, alimentar, conforme a explanação anterior.
Também o prefixo 'a', de origem grega, que pode significar negação, privação, ausência pode gerar a leitura primeira de desprovido de luz, que deve ser iluminado, proposta pelos intérpretes que criticamos.
Pelas razões apresentadas, parece-nos mais autêntica a vinculação do termo aluno ao processo nutricional da criança, percorrendo depois a senda racional que conduz ao entendimento que ora se tem de educação,
Corrobora com nosso posicionamento o antropólogo latino Plínio, o Velho, em sua “Naturalis Historiae”, quando emprega o temo “alumnus” no sentido de discípulo. O mesmo acontece com inúmeros outros escritores latinos dos primórdios da civilização romana.
Essa me parece ser a mais autêntica vertente de onde o termo se originou. O percurso de sentido que originou os significados possíveis de hoje seguirá constantemente seu caminho de revisão e renovação pelos venturos séculos sem conta.
[1] Torrinha, Francisco. “Dicionário Latino-Português”. Porto: Edições Maranus, 1937.