domingo, 9 de abril de 2017

OS ÚLTIMOS DIAS DE JESUS - UM PEREGRINAR AO ENCONTRO DE UM CRISTO MANSO E PACÍFICO


Oscar Luiz Brisolara
Jesus Cristo nascera em Israel, pequeno país do Oriente Médio, cercado ao norte pelo grande Deserto da Síria e, ao sul, pelo não menos avassalador Deserto do Sinai, do Egito. Passara os primeiros trinta anos de sua existência praticamente desconhecido. 
Muito pouco se fala de sua infância: teria ido com os pais para o Egito, a fim de fugir das perseguições de Herodes. Aos doze anos, aparece em Jerusalém entre os sacerdotes e doutores do grande templo de Herodes. Teria feito perguntas e dado respostas que confundiram os sábios, doutores e sacerdotes. No mais, teria acompanhado José em sua marcenaria, afiando serrotes, aplainando tábuas e brincando com escórias inúteis de restos de madeira. Julgo necessário, antes de mais nada, mostrar um pouco o país em que Jesus viveu. 
Veja-se que Jesus viveu na pequena Belém, cidade que se situa a apenas dez quilômetros ao sul de Jerusalém. Porém, somente com a idade aproximada de trinta anos, Jesus teria começado sua pregação. Temos que levar em consideração o fato de que a Palestina estava sob o domínio dos Césares do Império Romano, que, aliás, dominavam todo o Oriente Próximo, e cujo poder se estendia até a metade do atual território da Índia.
Cristo nasceu sob o império de Augusto, o primeiro e maior de todos os imperadores, cuja PAX era resultado do tacão militar. Trinta e três anos mais tarde, foi condenado no reinado de Tibério, enteado e filho adotivo do primeiro imperador.
Israel todo é um minúsculo país. Hoje muito menor ainda do que a Palestina de Jesus Cristo. O país hoje tem apenas 20.000 km² e uma população de 8 milhões de habitantes.
Para se ter um termo de comparação, o estado do Rio Grande do Sul tem 281.000 km² e uma população de 11 milhões de habitantes. O Israel de Jesus Cristo seria um pouco mais de o dobro do país atual. Ocupava as duas margens do rio Jordão.
Um elemento geográfico que fala fortemente ao corpo e à alma dos povos da Palestina é o Jordão. Ele é o símbolo da vida numa terra tão árida.  A distância entre a nascente do Rio Jordão, no monte Hermón e a sua foz no Mar Morto é de apenas 190 km, o que mostra ser ele um rio muito modesto. Não é navegável, a não ser no Lago de Genesaré.
Rio Jordão
O Jordão é o único rio de Israel. Ele possui alguns pequenos riachos como afluentes. A torrente do Jordão carrega as águas que fluem das neves eternas do Hermón e das escassa chuvas da região que o seu sereno curso banha.
O rio desce cerca de 80 km e forma o Lago de Genesaré ou Mar da Galileia, também conhecido no tempo dos romanos por Mar de Tiberíades, em homenagem ao imperador romano Tibério. As margens deste lago eram o local preferido das pregações de Jesus. Muitas vezes, subia em uma pequena barca de pescadores, para melhor ser visto e ouvidos pela multidão que o seguia. O lago tem em seus pontos máximos 24 km de comprimento e 12 km de largura. Às suas margens estão as cidades de Cafarnaum, Betsaida, Corazim, Magdala, Tiberíades e Genesaré.
Tiberíades, às margens do lago de Genesaré
Foi nesse lago que se deu a pesca milagrosa e o passeio sobre as águas. Também ali também aconteceu a multiplicação dos pães e dos peixes.
Pesados ventos provocam ferozes tempestades nesse lago. É inesquecível a narrativa da Tempestade no Mar narrada assim pelo evangelista Marcos: "E levantou-se grande temporal de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia." (Marcos 4:37 ). E também o milagre de Cristo amainando os ventos e sereno caminhando sobre o crespo das pequenas ondas.
Ainda hoje, esse lago é rico em pesca. É também fonte de irrigação para muitas propriedades rurais e kibutzens (fazendas coletivas contemporâneas) do seco país de Israel até hoje.
Finalmente, a 190 km ao sul, o Jordão despeja suas águas no Mar Morto. Esse é um lago salgado de 50 km de comprimento por 18 km de largura. Uma de suas especificidades é estar a 400 metros abaixo do Mar Mediterrâneo. Assim, as águas do Jordão nele se depositam e não possuem saída alguma. Apenas a evaporação é responsável pela manutenção do nível do lago. Daí se depreende a pequena quantidade de águas que o Jordão joga no lago.
Outra caraterística singular deste mar é a densidade de suas águas. Depois de milênios anos de as correntes aquáticas do Jordão depositarem-se no Mar Morto, a concentração dos sais trazidos foi tamanha que, desde que se conhece esse lago, jamais houve qualquer vida aí. Também, jamais alguém se afogou em suas águas, pois tamanha é sua densidade que é impossível afundar-se nele. Tudo simplesmente flutua.
Mar Morto
Voltando à pessoa de Jesus, sem entrar em detalhes de sua atuação por agora, busco os acontecimentos que envolveram seus últimos dias. Como os romanos, ao dominarem um povo, não extinguiam completamente as instituições governamentais do local, mantinham, em Israel, no poder o rei Herodes, cujo filho Herodes Ântipas estudara na corte em Roma e frequentara o próprio palácio imperial dos Césares. Porém, os romanos instauravam um administrador romano, sob o comando do qual tudo estava subjugado.
Na época da condenação de Jesus Cristo, o administrador romano na Palestina era Pôncio Pilatos. Também não costumavam os romanos intervir nas religiões das diversas províncias. Mantinham os sacerdotes e, não raro, importavam divindades estrangeiras cujas imagens eram introduzidas no próprio grande panteão romano (Pan “πάν” todos e theós “Θεός” deuses, templo dedicado a todos os deuses).
Acima está um mapa da Palestina do tempo de Jesus Cristo. A Palestina era bem maior do que o estado de Israel moderno, criado após a Segunda Guerra Mundial. Israel situa-se somente à margem direita do rio Jordão. Do outro lado, há outro país criado na modernidade, a Jordânia.
Jesus foi um grande educador. Suas narrativas se revestem de um imenso valor pedagógico. O que se denomina de parábolas são figurativizações de interpretações da vida e do comportamento humano, cujas leituras são eternamente renováveis. Assim, quando se lê a parábola do samaritano, percebe-se uma inequívoca lição de solidariedade. As características das personagens contribuem fortemente para as possíveis leituras. 
As parábolas são sempre vivas e estão em constante renovação. Cada narrativa é passível de nova leitura à luz das concepções de outros tempos. Nisso está a constante atualidade de todas elas.
Voltando ao tema proposto que visa a explorar um pouco os fatos ocorridos nos últimos dias da vida de Jesus entre os homens, comecemos pelo domingo que antecedeu o julgamento e condenação do Senhor. Esse dia é conhecido como Domingo de Ramos em função do que nele aconteceu.

DOMINGO DE RAMOS

Jesus decidiu fazer o que hoje seria um desfile pela cidade de Jerusalém, que era a capital do país. Segundo escreve o evangelista Lucas: “Ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, junto ao monte chamado das Oliveiras, enviou dois dos seus discípulos dizendo-lhes: ‘Ide a essa aldeia que está em frente e, ao entrar, encontrareis um burrico amarrado que nunca ninguém montou ainda. Soltai-o e trazei-o. Se alguém vos perguntar porque o soltais, dir-lhe-eis: o Senhor tem necessidade dele’. Foram e encontraram tudo como o Senhor lhes tinha dito”.
De acordo com narrativas da época, Jesus chegou a Jerusalém montado em um jumento e o povo, festivo, lançou seus mantos à sua frente, assim como pequenos ramos de árvores colhidos no local. A multidão, conforme costume da época, cantou parte de um salmo (Salmos 118:25-26) — "Salva-nos agora, te pedimos, ó Javé; Ó Javé, envia-nos agora a prosperidade. Bendito seja aquele que vem em nome de Javé, Da casa de Javé vos abençoamos."
Nessa manifestação, pode-se perceber a volubilidade e a passionalidade das multidões. Chega esse homem simples, montado numa cavalgadura pobre, como símbolo da proposição de outra grandeza e de novos valores. Eram conhecidas suas posições, tanto frente aos dominadores romanos, quanto à vida dos simples. Havia uma proposta de novos valores, nessa atitude pacífica e simbólica. Nenhum eslogam de violência, nenhuma instigação à revolta. Apenas uma caminhada pacífica, como o faria Gandhi na Índia mais de um milênio depois.
Fosse um príncipe guerreiro, viria de armadura e espada e montado em um exuberante cavalo. As manifestações também eram simples, colocavam os cidadãos seus pobres mantos para que sua montaria pisasse. Aclamavam-no com simples ramos de oliveira e palmas, gestos de paz e reconhecimento de uma nova liderança. Porém, essa mesma multidão, poucos dias mais tarde, vai ter outra atitude contradizendo o gesto deste domingo.
Na sua pregação, ele nunca incitara o povo contra os dominadores romanos. Quando alguém lhe perguntou se era justo recolher impostos a Roma, ele então pediu que um deles apresentasse uma moeda romana que pudesse ser usada para pagar o imposto de César. Um mostrou-lhe uma moeda romana e Jesus então perguntou qual era o nome e a inscrição que estava nela. Prontamente, eles responderam que era de César, ao que Jesus então proferiu a sua memorável afirmativa: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22:21). Não incitou as massas à revolta e à luta armada contra o império dominador.
Há uma tradição segundo a qual, no sábado que antecedeu o domingo em que Jesus foi aclamado com os ramos, segundo a qual ele teria visitado seus amigos Marta, Maria e Lázaro. Esse amigo havia falecido já há quatro dias. Então ele o teria chamado para fora do túmulo, ressuscitado.

SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA DA PAIXÃO

Passada a euforia da celebração dos ramos, seis dias antes da ressurreição, Jesus teria ido para Betânia, onde morava Lázaro, que ele, na antevéspera, havia ressuscitado dos mortos. No evangelho de João, no capítulo 12, versículos de 2 a 11, consta: “Ali ofereceram a Jesus um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, tomando quase meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo. Então, falou Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de entregar: ‘Por que não se vendeu este perfume por trezentas moedas de prata, para as dar aos pobres?’ Judas falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão; ele tomava conta da bolsa comum e roubava o que se depositava nela. Jesus, porém, disse: ‘Deixa-a; ela fez isto em vista do dia de minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis.’ Muitos judeus, tendo sabido que Jesus estava em Betânia, foram para lá, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Então, os sumos sacerdotes decidiram matar também Lázaro, porque, por causa dele, muitos deixavam os judeus e acreditavam em Jesus.”

TERÇA-FEIRA DA SEMANA DA PAIXÃO

Segundo o evangelho de Marcos, na terça-feira da semana de sua paixão e morte, Jesus teria amaldiçoado uma figueira: “No dia seguinte, saindo eles de Betânia, teve fome. Vendo ao longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se, porventura, acharia nela alguma coisa. Aproximando-se, nada achou senão folhas; porque ainda não era tempo de figos. Disse-lhe: Nunca jamais coma alguém fruto de ti; e seus discípulos ouviram isto.” (Marcos 11:12-14).
“Ao passarem de manhã, viram que a figueira estava seca até a raiz. Pedro, lembrando-se, disse-lhe: ‘Olha, Mestre, secou-se a figueira, que amaldiçoaste!’ Tornou-lhes Jesus: ‘Tende fé em Deus. Em verdade vos digo que quem disser a este monte: Levanta-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se faz o que ele diz, assim lhe será feito. Por isso vos afirmo: Tudo quanto suplicais e pedis, crede que o tendes recebido, e tê-lo-eis. Quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lha; para que também vosso Pai que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas.’” (Marcos 11:20-25). Essa foi uma de suas grandes manifestações em favor da fé.
Como já afirmei anteriormente, os romanos mantinham as instituições dos povos dominados, de tal forma que o país funcionasse normalmente. Apenas intervinham no momento em que alguém apresentasse problema ao andamento normal das instituições.

QUARTA-FEIRA DA SEMANA DA PAIXÃO

Pois foi nesse dia que o Sinédrio judaico decidiu condenar Jesus à morte. Alguns dizem que por inveja, outros que por razões políticas. Os judeus tinham um conselho de juízes, o Sinédrio. Por julgarem que as atitudes de Jesus prejudicavam o relacionamento das instituições judaicas com a administração romana, decidiram condenar o pregador à morte. Judas, que veio a saber dessa decisão, procurou o conselho do Sinédrio e, como delator, ofereceu-se para indicar onde o seu chefe se encontrava, em troca de trinta moedas de prata.

QUINTA-FEIRA DA SEMANA DA PAIXÃO

Na quinta-feira, ocorreria a celebração de Pessach, ou seja, a Páscoa judaica. Pessach (do hebraico פסח, que significa passar por cima ou passar por alto é a "Páscoa judaica", também conhecida como "Festa da Libertação", celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito. 
Nesse dia, Jesus reuniu seus discípulos para celebrarem a Páscoa, ocasião em que se sacrificava um cordeiro, de acordo com a antiga tradição judaica, e se comiam ervas amargas para lembrar o sacrifício da passagem pelo deserto em busca da terra prometida.
Lê-se no Evangelho de São Lucas: "Jesus enviou a Pedro e João, dizendo: ‘Ide, preparai-nos a refeição pascal.’ Eles perguntaram: ‘Onde queres que a preparemos?’ Ele lhes disse: ‘Logo que entrardes na cidade, sair-vos-á ao encontro um homem levando uma bilha de água; segui-o, até à casa em que ele entrar. Direis ao pai da família da casa’: O mestre manda-te dizer: ‘onde está o aposento em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?’. Ele vos mostrará uma grande sala toda ornada; preparai aí o necessário. Indo eles, encontraram como Jesus lhes dissera; e prepararam a Páscoa" (Luc. XXII , 8- 13).
Essa foi uma ceia extremamente simbólica. Primeiramente, o Senhor recebeu seus discípulos, lavando-lhes os pés a cada um. Como era hábito usar sandálias a esse tempo, o hábito de se oferecer um servo com água e toalha para a lavagem e secagem dos pés era comum. Esse foi um ato de humildade. O próprio Senhor lavou o pé de seus seguidores. Esse gesto apela para uma nova concepção de autoridade: o chefe é aquele que serve, que está a serviço. A partir dessa atitude, criou-se nas igrejas de todo mundo se a cerimônia do lava-pés.
Essa ceia passou também a ser repetida em todas as comunidades dos seguidores dele e deu origem à missa cristã, que, no princípio, era uma refeição comunitária, revivendo a última ceia do Senhor.
Terminada a ceia, Jesus e os onze apóstolos saíram da casa em que haviam confraternizado (onze porque Judas já os havia abandonado). Passaram pelas portas da cidade, que normalmente ficavam abertas à noite durante os festivais públicos, atravessaram a ravina do regato de Cedrom e penetraram num jardim de oliveiras conhecido como Getsêmani, na encosta do Monte das Oliveiras. 
Oito dos apóstolos deixou Ele à entrada, ou nas proximidades, com a instrução: “Assentai-vos aqui, enquanto eu vou além orar;” e com a ardente exortação: “Orai, para que não entreis em tentação.” Seguido por Pedro, Tiago e João, Ele foi mais adiante, e logo foi envolto por profunda tristeza que parece ter sido, de certo modo, surpreendente para Ele próprio, pois lemos que “começou a entristecer-se e a angustiar-se”, sendo impelido a negar-se até a companhia dos três escolhidos. “Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui, e velai comigo. E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.” A versão que Marcos dá da oração é: “Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.”
Tornando a eles em agonia de alma, Jesus os encontrou dormindo, e dirigindo-Se a Pedro, que tão pouco tempo antes havia proclamado em alta voz sua prontidão de seguir o Senhor até mesmo ao cárcere e à morte, Jesus exclamou: “Então, nem uma hora pudestes velar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação”; acrescentou, porém, ternamente: “na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” A admoestação aos apóstolos para orarem naquela ocasião deve ter sido inspirada pelas exigências da hora em que, se deixados a si próprios, poderiam ser tentados a abandonar prematuramente seu Senhor.
Estando eles reunidos neste monte, chegaram os emissários do Sinédrio, armados de espadas e varapaus, acompanhados por Judas Iscariotes e o prenderam. Segundo se afirma, o delator Judas teria combinado com os algozes dar um beijo naquele que deveria ser preso. E assim o fez. Jesus foi preso e levado aos tribunais.

SEXTA-FEIRA DA SEMANA DA PAIXÃO

Na sexta-feira, como é sobejamente conhecido, ele foi torturado, interrogado e, por fim, executado pelo mais cruel castigo que os romanos empregavam para punir os condenados. Ainda segundo a narrativa evangélica, ele foi executado entre dois ladrões comuns. Assim, nesse processo, diante da mesma plebe que o ovacionara no Domingo de Ramos, ele fora posto ao lado de um salteador de estradas conhecido pelo nome de Barrabás. O populacho teria gritado: Crucifica-o. Solte-se Barrabás, em gesto que se contradizia com as efusivas e entusiásticas manifestações de louvor de há poucos dias passados. Veja-se a narrativa de Marcos:
“E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?
Porque ele bem sabia que por inveja os principais dos sacerdotes o tinham entregado.
Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez: Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos Judeus?
E eles tornaram a clamar: Crucifica-o.
Mas Pilatos lhes disse: Mas que mal fez? E eles cada vez clamavam mais: Crucifica-o.
Então Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhe Barrabás e, açoitado Jesus, o entregou para ser crucificado.
E os soldados o levaram dentro à sala, que é a da audiência, e convocaram toda a coorte.
E vestiram-no de púrpura, e tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça.
E começaram a saudá-lo, dizendo: Salve, Rei dos Judeus!
E feriram-no na cabeça com uma cana, e cuspiram nele e, postos de joelhos, o adoraram.
E, havendo-o escarnecido, despiram-lhe a púrpura, e o vestiram com as suas próprias vestes; e o levaram para fora a fim de o crucificarem.
E constrangeram um certo Simão, cireneu, pai de Alexandre e de Rufo, que por ali passava, vindo do campo, a que levasse a cruz.
E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por lugar da Caveira.
E deram-lhe a beber vinho com mirra, mas ele não o tomou.
E, havendo-o crucificado, repartiram as suas vestes, lançando sobre elas sortes, para saber o que cada um levaria.
E era a hora terceira, e o crucificaram.
E por cima dele estava escrita a sua acusação: O REI DOS JUDEUS.
E crucificaram com ele dois salteadores, um à sua direita, e outro à esquerda.” (Marcos 15:9-27).

SÁBADO DE ALELUIA

É o dia que antecede a ressurreição de Jesus Cristo, dia dedicado a oração junto ao túmulo do Senhor Morto. Nesta noite, é celebrada a Vigília Pascal, a vigília de todas as vigílias. Nela acontece a benção do fogo novo, a Proclamação da Páscoa e a Renovação das Promessas do Batismo. Com o fogo novo se acende o Círio Pascal, que representa a vida nova em Jesus Cristo.
“Durante o Sábado santo a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando sua paixão e sua morte, sua descida à mansão dos mortos e esperando na oração e no jejum sua ressurreição (Circ. 73).
No dia do silêncio: a comunidade cristã vela junto ao sepulcro. Calam os sinos e os instrumentos. É ensaiado o aleluia, mas em voz baixa. É o dia para aprofundar. Para contemplar. O altar está despojado. O sacrário aberto e vazio.
A única referência bíblica ao que aconteceu no sábado entre a morte e a ressurreição de Jesus é encontrada em Mateus 27:62-66. "Após o pôr do sol no sábado – no fim do sábado dos judeus – os sumos sacerdotes e os fariseus foram a Pilatos e pediram que um guarda ficasse de plantão no túmulo de Jesus para prevenir que os discípulos removessem o corpo."
Ele se lembraram de Jesus dizendo que Ele iria ressuscitar em três dias (João 2:19-21) e queriam fazer tudo o que podiam para impedir isso. Sabemos por meio de outras narrativas que os guardas romanos foram insuficientes para impedir a ressurreição e aqueles que retornaram ao túmulo no domingo de manhã o encontraram vazio. O Senhor tinha ressuscitado.

DOMINGO DA PÁSCOA

É o dia da ressurreição de Jesus, e das comemorações mais importantes do cristianismo, que celebra a vida, o amor e a misericórdia de Deus. Este é o último dia da Semana Santa. A ressurreição de Jesus é um fato de importância monumental. Jesus é a única pessoa que passou pela face desta terra que, apesar de ter morrido, ainda foi ressuscitado dentre os mortos e agora vive para sempre.
Pois é exatamente a Páscoa que plenifica o significado de toda a fé cristã. O apóstolo São Paulo afirma em sua primeira carta aos moradores da cidade grega de Corinto: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé”. E acrescenta: “Se tão somente nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1 Cor 15, 14.19).
A Anástase (Aναστασις) é um sinônimo teológico para a Ressurreição de Cristo. Um Cristo que desce ao mundo dos mortos e retorna pleno de amor e paz, para pregar o reino do amor, da fé e da mansidão.

COMENTÁRIO

Depois dessa longa explanação, apenas alguns comentários sobre esses acontecimentos que marcaram profundamente a história da humanidade. Primeiramente, é preciso ressaltar que a história de Jesus foi deturpada durante esse longo percurso histórico, desde os acontecimentos até este momento atual. Segundo um dos mais importantes livros do Novo Testamento, o Atos dos Apóstolos, a vida desses homens era exemplar e simples. Diz o evangelista Lucas, em os Atos dos Apóstolos: "Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos." (Atos 4:34).
Vaja-se, porém, a história do descaminho que culminou com a falsa conversão do Imperador Constantino Cloro. Pois, um dos períodos em que mais se deturpou o espírito cristão foi no século IV. Com a chegada do Imperador Constantino ao trono do Império Romano, houve um processo de desvio do sentido do espírito cristão em todos os sentidos. Especialmente, aconteceu a corrupção dos chefes do clero e dos costumes cristãos primevos.
Esse imperador transformou o papa em um príncipe e concedeu-lhe riquezas e poder. Daí em diante, sucessivos reis corromperam papas e líderes do clero, tornando, muitas vezes, a casa do Senhor numa súcia de depravados e num covil de ladrões. No meu modo particular de entender, no cristianismo, até Constantino não houve papas.
O papado é uma criação dos agentes desse imperador para transformar o cristianismo num instrumento de consolidação da família dos “Clorus” nos legítimos representantes divinos no controle do Estado.
Fez o mesmo que fizera o imperador Augusto em relação ao escritor Virgílio, a quem encomendou a obra épica “Eneida”. Sutilmente, o magistral poeta introduz no mito fundador reconhecido dos latinos romanos uma árvore genealógica dos “Júlios”, a que pertencia Augusto. Assim, o imperador passava a descender diretamente de Eneias, que era filho mítico da deusa Vênus e do herói troiano Anquises. Era, por esse fato mítico, meio homem meio deus.
Constantino vale-se do papa. Antes dele não havia papas. São Pedro nunca foi papa. Ninguém jamais o chamou de papa. Criou-se essa estrutura para que a religião legitimasse o novo imperador, um impostor, segundo os antigos, dos próprios mitos romanos.
E atrás disso veio uma soma de objetos simbólicos manipuladores. Primeiramente, as grandes festas. O Natal, em primeiro lugar. Ninguém sabia a real data do nascimento de Jesus. E isso não tinha nenhuma importância para a vida e para religião cristã. Mas para Constantino era fundamental.
Os romanos tinham um conjunto de festejos no mês de dezembro. Primeiramente a Saturnália: uma semana de festejos em honra ao deus rural Saturno. Essa divindade era relacionada aos fenômenos de equinócio e de solstício, em que há o menor e o maior período de sol em um dia. 
Por outra, havia, outrossim, nessa mesma época histórica as comemorações não menos suntuosas ao deus Mitra, o Sol Invicto, que, do mesmo modo, estava ligado ao movimento e à variação dos períodos solares.
O novo imperador necessitava de um festejo de igual suntuosidade e magnificência para concorrer com as crenças, desde aí concebidas como pagãs. Por essa razão, e por nenhuma outra, foi eleito o dia 25 de dezembro para marcar o Natal de Jesus Cristo. Não há nenhuma comprovação histórica da data do nascimento de Jesus. Somente se sabe que foi no recenseamento de Augusto. Mas esse teve um longo período de duração.
Cabem ainda muitos estudos em relação a essas e outras manipulações evidentes dos fatos e das concepções. Por que essa Igreja de Constantino é romana. Somente porque Constantino governou em Roma, no início de seu mandato. Queria legitimar-se em Roma. Se Cristo é judeu, conhecido como Jesus de Nazaré, por que a Igreja é Romana? 
Outro problema difícil de entender é o apostolado. A missão. As missões estiveram largamente ligadas aos reis europeus. Serviram para domesticar civilizações inteiras aos interesses dos reis da Espanha, de Portugal, da França, e de outras tantas coroas exploradoras e venais. Parece que os missionários eram sinceros e tinham metas religiosas reais. Isso, no entanto, não os eximiu de serem usados pelos príncipes exploradores e maus.
Os regentes europeus não possuíam nem tropas nem dinheiro suficiente para subjugar povos em regiões tão vastas, muitas vezes inóspitas. Não podendo dominar os povos subjugados pela força das armas e dos soldados, apelaram para o domínio do espírito, da religião e da cultura. As mais de trinta missões espanholas na América do Sul não tinham outra função a não ser  a de proteger de invasores de outras nações as ricas regiões minerais da Bolívia e do Peru. E o pobre e ingênuo padre Bartolomé de las Casas entrou nessa armadilha. Prejudicou enormemente os nativos da América Espanhola do hemisfério sul.
O que, no entanto, nos restou foi a luminosa e reveladora imagem de um Jesus Cristo humano, simples “manso”. Ele mesmo afirma em seu monumental Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (M. 5.5). Eles herdarão, lhe será dada. Não a irão tomar de ninguém pela força e pelas sutilezas ou violência dos instrumentos de guerra,
Mais importante ainda: A divindade não tem nome. No livro do Êxodo, o Senhor diz a Moisés: “O Senhor disse: ‘Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos.’” (Êxodo 3, 7).
E prosseguindo “Moisés disse a Deus: ‘Quando eu for para junto dos israelitas e lhes disser que o Deus de seus pais me enviou a eles, que lhes responderei se me perguntarem qual é o seu nome?’” (Êxodo 3, 13).
Ao que “Deus respondeu a Moisés: ‘EU SOU AQUELE QUE SOU’. E ajuntou: ‘Eis como responderás aos israelitas: (Aquele que se chama) EU SOU envia-me junto de vós.’” (Êxodo, 3, 14).
Deus não possui um nome. Atende por qualquer nome ou por nenhum. Ninguém deve impor o seu Deus a quem quer que seja, por mais nobres e sinceros que sejam seus ideais. Qualquer obrigatoriedade de culto é opressão, venha de que ponto ou poder que vier. Eu não posso impor uma divindade a ninguém. Eu posso falar a voz do Deus que habita em mim ao Deus que mora no outro. Essa é a única voz legítima.
O que os missionários fizeram com a cultura indígena no Brasil e em outros países não tem explicação plausível. O próprio livro sagrado criado elaborado pelo concílio de Niceia, convocado em 325 d. C., por ordem de Constantino gera muitas dúvidas. O que esse imperador e seus ideólogos desejavam era um livro sagrado, como garantia de uma religião de prestígio, mas cujas concepções não prejudicassem seus intentos.
Creio na revelação divina. Mas é o próprio Deus que fala aos corações humanos. Os textos. Ah os textos! Eles são maravilhosos, é indiscutível. São reveladores e belos. Mas é preciso tomar cuidado com o uso que deles se faz.Tanto a Bíblia como o Corão e os Vedas são textos de revelação divina. Assim como falou a Abraão e aos profetas, ele nos fala, se tivermos ouvidos atentos e sinceridade no coração Não sou anticlerical nem ateu. Pelo contrário, sou movido por uma imensa e profunda fé. Porém, essa própria fé não me permite crer em tudo o que afirmam as religiões, nem mesmo o cristianismo, sob cuja aura fui criado e educado, nem outra religião de qualquer natureza.
Tenho mesmo muitos amigos ateus. Ateus com sincera fé no ateismo. Não podem, sinceramente não conseguem crer em religião alguma. Mas são imensamente honestos nesse seu modo de entender a vida e o universo. São santos de uma santidade pagã. Fé é dom. Seguramente o Senhor Deus sabe disso e os ama com sua imensa bondade e compreensão tanto quanto ama qualquer crente de todas as religiões. Creio-me mesmo mensageiro de Sua voz. Todos o somos quando movidos pelo íntimo Deus que mora em nós e cuida amorosamente de nossos caminhos, por mais estranhos que nos pareçam. Louvado seja o Senhor de todas as nações, diante de cuja face me curvo, pequeno e humilde.