terça-feira, 15 de julho de 2014

A GRANDE EPOPEIA DE GILGAMESH - The Big Gilgamesh Epic


MITOLOGIA DA BABILÔNIA

     Na antiga Nínive, cidade da Mesopotâmia, hoje Iraque onde se situa a atual cidade de Moçul, o imperador assírio Assurbanipal (668-6627 a. C.), construiu uma grande biblioteca. Como as textos dessa época eram gravados em peças de cerâmica queimadas em fornos como acontece hoje com os tijolos, as bibliotecas tinham de ser enormes, mesmo não contendo um número tão avantajado de volumes. Imaginemos cada página como uma peça de cerâmica. Por menos espessa que seja, tomaria uma grande espaço.
     Em meados do século XIX, em escavações, essa preciosa biblioteca foi descoberta por arqueólogos em tábuas de argila contendo escritos em sinais denominados cuneiformes. Muitos estudiosos trabalharam na decifração desses sinais. Foram escritos produzidos a partir de 3.500 a. C. Há mesmo quem fale em escrita cuneiforme de 5.000 a. C. Talvez seja a mais antiga forma de grafia humana.
     Pelas necessidades administrativas como a cobrança de impostos, registro do número de cabeças de gado ou a quantidade de cereais, surgiu a escrita. Trata-se de uma língua isolada. Não está relacionada a nenhuma outra língua conhecida. É uma língua aglutinante, ou seja, os morfemas (as menores unidades com sentido da língua) se justapõem para formar palavras.
     Esse processo de escrita teve início como um sistema pictográfico, em que o objeto representado expressava uma ideia. Um barco marcado por determinados sinais, por exemplo, poderia significar que ele estava carregado ou vazio. Essa escrita começou com o que os pesquisadores chamaram de glifos cuneiformes que eram desenhados em tabuinhas de argila com um caniço afiado que recebeu o nome de estilete. O estilete gravava (grafava) sinais em forma de cunha numa tabuinha de argila mole que depois era levada ao forno para o endurecimento. Essa forma de cunha originou o nome da escrita cuneiforme.
     Esse sistema é muito difícil de ser decifrado, pois se constitui por mais de 2.000 sinais de difícil uso, por falta de uniformidade de emprego. Com passar do tempo, ao expandir seu emprego até mesmo para outros povos, se foi uniformizado e simplificando. Os primeiros intérpretes tiveram imensas dificuldades. Havia necessidade do conhecimento de árabe e hebraico, além de um profundo conhecimento da história desses povos tão antigos e tão distantes do momento histórico do estudioso.
      Iniciou-se, com a simplificação, um sistema silábico. Esses silabários tinham significado. Por exemplo, o sinal "mu" compõe-se de um cunho horizontal terminado por uma ramificação de quatro pequenas hastes em ângulo. Por seu lado, o sinal "zer" tem a mesma forma, mas a ramificação tem apenas três hastes. O seu nome era também: "o mu que não está terminado.
     Os sinais representavam objetos com substantivos, mas havia dificuldade de determinar categorias como verbos, adjetivos e processos sintáticos como declinações. Assim, um determinado sinal poderia significar cavalo, mas, por associação, poderia significar velocidade, viagem, movimento. Por isso, um sinal poderia ter diversos significados, bem como um só significado poderia ser representado por diferentes sinais.
Depois de diversas experiências, passou-se a escrever como na maioria das línguas ocidentais, ou seja, da esquerda para a direita. Mesmo usando ambos o sistema cuneiforme, assírios e babilônios tinham sistemas diferentes. Exemplo de escrita cuneiforme:


     Foi somente em 1862, que o orientalista alemão Friedrich von Spiegel conseguiu decifrar a escrita cuneiforme (Keilschrift, em alemão)  formulando e apresentando, em seguida, uma gramática e glossários das línguas cuneiformes. Essa descoberta permitiu que se fizessem as primeiras traduções da literatura desses povos.
     A partir dessas descobertas, em 1872, o antropólogo inglês George Smith fez a primeira tradução de parte da Epopeia do Gilgamesh, a que faz a narrativa do dilúvio, a mais antiga de que se tem conhecimento. 
     O Gilgamesh constitui-se na mais antiga narrativa literária de toda a humanidade de que se tem conhecimento. Trata-se de uma compilação de lendas e poemas de tradição oral muito mais antiga ainda.
     O fato de essas narrativas terem sido encontradas em diversos pontos da Mesopotâmia garante que elas eram muito populares. Mesmo em outros povos e línguas, foram encontradas outras versões delas. O herói é sempre o rei lendário Gilgamesh, quinto governante da dinastia de Uruk, que teria vivido entre 2750 e 2600 a. C. Afirma-se que essas narrativas teriam mesmo influenciado tanto em narrativas bíblicas como a do dilúvio como nos textos gregos de Homero, do séc. IX a. C.
Os judeus teriam entrado em contato com essas narrativas durante o exílio da Babilônia, conhecido como primeira diáspora judaica. Essa começa em 722, com a deportação de parte do povo judeu para a Assíria e, em 586, com Nabucodonosor II, da Babilônia, que deporta os restantes para a Mesopotâmia onde permanecem até a conquista de região pelo rei Ciro da Pérsia em 539 a. C. Esses anos todo em contato com os mesopotâmios teve profunda influência na cultura judaica.
     Sendo Gilgamesh um rei arrogante e luxurioso, o povo invoca aos deuses solicitando que lhes enviasse um novo regente, que enfrentasse e os livrasse de seu opressor. Anu, divindade poderosa, apiedou-se da população. Solicitou a Aruru, divindade feminina da criação, que criasse um novo rei para enfrentar Gilgamesh. Ela criou Enkidu.
     Ela, em sua mente, concebeu um homem que fosse da mesma essência de Anu, deus responsável pelo firmamento. Mergulhando suas mãos nas águas, a deusa recolheu um bloco de argila, criando dela Enkidu.
     Era Enkidu, desde sua criação, inocente, sem a malícia da civilização e foi criado nas selvas, entre as bestas selvagens, dividindo a vida com elas. Não conhecia o cultivo da terra  e se alimentava de folhas silvestres, cresceu junto com as gazelas e os outros animais silvestres, bebendo as águas de riachos e fontes e alegrando-se com isso.
ISHTAR

     Tendo Gilgamesh descoberto a existência de Enkidu, encarrega uma prostituta do templo da deusa Ishtar, deusa do amor e da fertilidade, de seduzir o jovem e conduzi-lo para o interior das muralhas de Uruk. Inocentemente seduzido pela sagacidade da prostituta, perdeu sua ingenuidade selvagem e conheceu a maldade da civilização urbana. Arrependido, porém, começa a se lamentar, mas a prostituta, para consolá-lo, começa por enumerar as vantagens da nova vida que lhe viria. Porém, o herói perdera sua força selvagem, tinha agora o conhecimento e os pensamentos do homem ocupavam seu coração.
Agora és como um deus, dizia-lhe a prostituta. Por que anseias voltar para os campos e correr como os animais selvagens? Esta narrativa se assemelha profundamente à narrativa bíblica do Adão descrito no Gênesis. A prostituta sagrada é uma metáfora da Eva bíblica que conduz Adão ao pecado e ao conhecimento da árvore do bem do mal.
     Porém, Enkidu enfrenta Gilgamesh em combate singular e o vence, sendo reconhecido por este como irmão, pois ninguém jamais o vencera. Tornam-se grandes amigos. Essa amizade vai gerar um grande número de aventuras da epopeia.

Partem, então, ambos juntos, para uma floresta de cedros em que enfrentam o fabuloso monstro Humbaba, sentinela da floresta. O monstro censura Enkidu pela profanação da floresta como se a própria divindade a censurasse. Enkidu é condenado a ser um mercenário e a viver na servidão, dependendo do trabalho para obter seu pão. Essas condenações assemelham-se às de Adão.
     Porém, os condenados recebem o auxílio do deus sol, Shamash, que fora sempre protetor de Gilgamesh. Juntos, Enkidu e Gilgamesh decepam a cabeça de Humbaba. Essa atitude provoca a ira do deus da terra, do vento e do ar, conhecido pelo nome de Enlil, cuja exigência para que seja aplacado é a vida de um dos heróis.
No entanto, Ishtar, deusa do amor, apaixona-se por Gilgamesh que despreza essa paixão divinal, fato que transforma seu amor em ódio. Despeitada, a deusa envia um Touro Celeste com a missão de eliminar o seu desafeto.

      Unem-se os dois jovens e vencem o monstruoso touro. Enkidu ofende a divindade, jogando-lhe fragmentos do touro estraçalhado. Os mortais não devem ofender os imortais, afirma o deus Enlil e decide que Enkidu deverá morrer. O jovem adoece e morre. Então, Gilgamesh sai em sua missão derradeira na busca da imortalidade.
     Parte à procura dos segredos dos deuses imortais. Para tal enfrenta uma secessão de perigos. Encontra, então, Utnapishtin, que promete revelar-lhe o segredo da imortalidade. Confia-lhe que os deuses haviam acabado com a imortalidade humane desgostosos com as atitudes deles.
     Os humanos tinham gerado uma balbúrdia tal no universo que Enlil resolvera solicitar aos demais deuses o extermínio da raça humana. Depois de uma assembleia, a proposta do deus foi aceita por todos.
     Então, Enki, deus da água doce e da sabedoria, patrono das artes e protetor da humanidade, filho primogênito de Anu, descobre que os deuses decidiram destruir a humanidade através de um dilúvio. Assim, Utnapishtim, avisado por Enki, estava construindo um barco para salvar-se e aos seus.
ENKI

Exorta-o a desprezar os bens materiais e valorizar a própria alma. Enki fornecera-lhe todas as instruções para construir a barca com o material da própria residência. Levaria para lá também seu ouro, um casal de cada espécie, dos animais silvestres e selvagens, e sua família. Assim procedeu Utnapishtim e salvou-se com os seus e tudo o mais.
     Enlil, percebendo que fora ludibriado, que Enki revelara o segredo dos deuses, permitindo a sobrevivência de um grupo humano, viu-se obrigado a transformar Utnapishtim em um imortal, para que sua maldição de que nenhum mortal sobrevivesse se completasse. Dessa maneira, nenhum humano sobreviveria.
Utnapishtim e a Arca do dilúvio

Gilgamesh fracassa em sua busca da imortalidade para o amigo, decide retornar para Uruk, mas é auxiliado pela esposa de Utnapishtim que, penalizada pela desgraça dele, resolve revelar-lhe o segredo da imortalidade.
ENLIL

Conta-lhe de uma planta cuja flor teria efeitos imortalizantes, porém, somente existia em um lugar distante, no fundo do mar. Aquele que, por ventura viesse a comê-la seria revestido da eterna juventude. Gilgamesh, depois de muitas peripécias, nadando, consegue atingir o almejado vegetal.
     Porém, o jovem herói decide socializar seu achado, dividindo-o com os anciãos de Uruk a sua conquista. Acontece que, no caminho de casa, uma serpente aquática rouba-lhe a flor sagrada e para sempre perde a imortalidade.

Bibliografia:
BOTTÉRO, Jean. La Mésopotamie (il État Une Fois la Mésopotamie). Paris: Gallimard, 1993.
CAPLICE, Richard. Introduction to Akkadian. Rome: Biblical Institute Press, 1988.
HOOKER, J.T. (eds.)  Lendo o Passado – Do Cuneiforme ao Alfabeto. A História da Escrita Antiga. Rio de Janeiro: Melhoramentos/Edusp, 1996.
KRAMER, Samuel Noah. La História empieza en Sumer. Barcelona: Orbis, 1985.
SANDARS, N. K. A epopéia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

ZILBERMAN, Regina. Nos princípios da epopéia: Gilgamesh. In: BAKOS, Margaret Marchiori; POZZER, Katia Maria Paim. JORNADA DE ESTUDOS DO ORIENTE ANTIGO: LÍNGUAS ESCRITAS E IMAGINÁRIAS, 3., 1997, Porto Alegre. Anais … trabalho 4. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 58.