quinta-feira, 31 de julho de 2014

DIONÍSIO OU BACO: O DEUS DO ÊXTASE E DO ENTUSIASMO - DIONYSUS OR BACCHUS : THE GOD OF ECSTASY AND ENTHUSIASM

       

     

     Dionísio, em grego Διόνυσος (Diónysos) é palavra sem etimologia definida. Talvez o teônimo seja um composto do genitivo Διο(ς) - (Dio(s) - nome do céu em trácio e de Νῦσα (Nysa), filho, de onde Dionísio seria “o filho do céu”. Quanto a Baco, em grego Βάκκχος (Bákkhos) e seus vários derivados como Βάκχη (Bákkhe), Bacante e o verbo Βακχεύειν (bakkheúein) «ser tomado de um delírio sagrado”, também não possuem um étimo seguro. (...)


     Três outros epítetos de Dionísio, Iaco, Brômio e Zagreu merecem igualmente um ligeiro comentário. Iaco, em grego ¢Ιακχος (Íakkhos), é um avatar de Dionísio. Via-se nele o deus que conduzia a procissão dos Iniciados nos Mistérios de Elêusis e que era identificado misticamente com Baco. Etimologicamente Iaco vem de ἱακχή (Iakkhé), “grande grito”. Trata-se, em princípio, de uma exclamação ritual, de que nasceu a ideia da presença, no cortejo dos Iniciados, de um daímon (gênio), o místico Iaco (o Iaco dos Mistérios), que projetava, de certa forma, a alma coletiva e a expressão de entusiasmo de que era tomada, como antegozo da iniciação, a multidão dos peregrinos em marcha para Elêusis. Daímon de Deméter, Iaco era o arkheguétes, o introdutor dos mistérios, como o denomina, com justiça, Estrabão. Na comédia de Aristófanes, As Rãs, 316sqq., o Coro dos Iniciados continua a invocá-lo na outra vida, como seu guia e corifeu.
Dionysus - Louvre

         BRÔMIO, em grego βρόμιος (Brômios), é um dos epítetos mais frequentes de Dionísio dos hinos que imitam os cantos litúrgicos entoados em seu culto. Do ponto de vista etimológico, βρόμιος (Brômios) se prende a βρόμος (Brómos), “esclarecimento, frêmito, ruído surdo e prolongado” cuja fonte é o verbo βρέμειν (Brémein), “fremir, agitar-se”, donde Brômio é o “ruidoso, o fremente, o palpitante”, significação que se harmoniza perfeitamente com a agitação e o tremor, acompanhados de estertores e surdos rugidos, que assinalavam o estado de transe com a presença do deus que se apossou de seus adoradores.
         ZAGREU, em grego Ζαγρεύς (Dzagreús), é um dos nomes pelos quais é chamado deus do êxtase e do entusiasmo no mundo mediterrâneo e particularmente, ao que parece, na Ilha de Creta. Talvez o deus designe uma divindade, que, por força de analogias de seu culto com o de Dionísio, com este se tenha confundido, em época difícil de precisar. Tendo-se tornado um dos nomes de Dioniso místico, e tendo permanecido religiosamente mais fiel ao Dioniso arcaico do antigo mundo insular, jamais se assimilou de todo ao “segundo Dioniso”, que, conforme se verá, era filho de Sêmele. (...)
      
DIONÍSIO ZAGREU

         Dionísio é o deus da μεταμόρφωσις (metamórphosis), quer dizer, o deus da transformação. Antes de chegarmos lá, uma ligeira explicação de ordem histórica.
         Até a década de 50, muitos pensavam e escreviam que Dionísio, deus importado, possivelmente da Trácia, havia chegado à Hélade quando muito lá pelo século IX a. C., uma vez que seu primeiro aparecimento teria sido na Ilíada, VI, 130-140, no famoso episódio de Licurgo, narrado por Diomedes. Este herói conta como Licurgo, filho de Drias e rei dos edônios, na Trácia, perseguiu a Dioniso e suas nutrizes até o monte Nisa.  Essas lançaram por terra seus tirsos e fugiram; o deus, ainda adolescente, mas já possuído da loucura sagrada, da mania, apavorado com as ameaças do rei, lançou-se ao mar, onde foi acolhido por Tétis. Os deuses, todavia, se encarregaram da vingança e Zeus cegou o rei dos edônios.
         Diga-se, logo, que a perseguição a Dionísio, sob a perspectiva mítica, faz parte de um rito iniciático e catártico: a purificação pela água. Este é um dos temas bem atestados em quase todas as culturas primitivas. O episódio da perseguição aparece em determinados momentos das festas e cerimônias a que o filho de Sêmele presidia. (...)
         A perseguição de Dionísio por Licurgo insere-se e sintetiza, de outro lado, a perseguição à vítima sacrifical, rito em que o deus se apresenta, por vezes, em forma de touro ou de bode. Foi assim que Penteu, vítima da μανία (manía), da loucura sagrada, como se há de assinalar, desejando acorrentar o deus, o vê sob a forma de touro, que não é outra coisa senão o próprio Dioniso dissimulado pela marca:
         Tu que me guias parece que tens um aspecto de touro.
         Creio que nasceram cornos em tua cabeça.
         Eras, anteriormente, um animal feroz?
         Eis que te transformaste em touro!
         (Eurípides, Bacantes, 920-922)
BACANTE

         As perseguições a Dioniso pelos piratas etruscos ou por Perseu, que, com seus soldados, precipitou o deus e suas “mulheres-do-mar” no fundo do pântano de Lerna, se inscrevem na mesma linha de raciocínio.
         Se, porém, se analisar a perseguição de Licurgo e de Penteu sob um ângulo mais político, poder-se-á ver em ambas, e a esse respeito se falará um pouco mais adiante, uma séria e longa oposição à penetração do culto de Dioniso na pólis aristocrática da Grécia antiga.
         Viu-se que o deus do êxtase e do entusiasmo, até mais ou menos a década de 50, era considerado como uma divindade que chegara tardiamente à Hélade. Pois bem, a partir de 1952, as coisas se modificaram: é que a decifração de uma parte dos hieróglifos cretomicênicos por Michael Ventris (...) demonstrou que o deus já estava presente desde o século XIV ou XII a. C. (...)
         Um deus importado não penetra na Grécia sem um batismo de ordem mítica. Consoante o sincretismo órfico-dionisíaco, dos amores de Zeus e Perséfone nasceu o primeiro Dioniso, chamado mais comumente de Zagreu. Preferido do pai dos deuses e dos homens, estava destinado a sucedê-lo no governo do mundo, mas o destino decidiu o contrário. Para proteger o filho dos ciúmes de sua esposa Hera, Zeus confiou-o aos cuidados de Apolo e dos Curetes, que o esconderam nas florestas do Parnaso. Hera, mesmo assim, descobriu o paradeiro do jovem deus e encarregou os Titãs de raptá-lo e matá-lo.
         Com o rosto polvilhado de gesso, a fim de não se darem a conhecer, os Titãs atraíram o pequenino Zagreu com brinquedos místicos: assinhos, pião, carrapeta, “crepundia” e espelho. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lhe as carnes num caldeirão e as devoraram. Zeus fulminou os Titãs e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados: o bem e o mal. A nossa parte titânica é a matriz do mal, mas, como os Titãs haviam devorado a Dioniso, a este se deve o que existe de bom em cada um de nós. Na "atração, morte e cozimento" de Zagreu há vários indícios de ritos iniciáticos. Diga-se logo, que, sendo um deus, Dioniso propriamente não morre, pois que o mesmo renasce do próprio coração. A morte, desse modo, não afeta a imortalidade do filho de Zeus, onde provém, certamente, sua identificação com Osíris o "morto imortal" e com o imortal deus da morte, Plutão. Destarte, a "morte" de Dioniso nada mais é que uma Catábase (na mitologia grega era a descida aos infernos) seguida, de Imediato, de uma anábase.
         De saída, cobrir o rosto com pó de gesso ou com cinzas é um rito arcaico de iniciação: os neófitos, como assinala Mircea Eliade, cobriam as faces com pó de gesso ou cinza para se assemelharem aos eídola, aos fantasmas, o que traduz a morte ritual. Em Atenas, durante os mistérios de Sabázio, "este outro Dioniso", um dos ritos iniciáticos consistia em aspergir os neófitos com pó ou com gesso. Demóstenes (384-322 a. c.), o maior orador da Hélade, em seu universalmente famoso discurso, A Oração da Coroa, 259, desdenha de seu adversário Ésquines, afirmando que o mesmo, para ajudar a mãe, que se ocupava de magia, ungia os iniciados com argila e farelo. Diga-se, aliás, de passagem, que por etimologia popular, se associou (titanos), "gesso", com (Titânes), "Titãs", o que de qualquer forma patenteia o complexo místico-ritual.
         Quanto aos brinquedos, que são verdadeiros símbolos de iniciação, demarcando a idade infantil, por oposição aos sofrimentos da adolescência, que àquela se seguem, são atestados em muitas culturas. As crepundia, quer dizer, argolas de marfim ou pequenos chocalhos, que se colocavam no pescoço das crianças, os ossinhos e o pião tinham um sentido preciso: não existe teleté, isto é, cerimônia de iniciação, sem "determinados ruídos". Um deus se atraía e se atrai com flauta e tambores. Acrescente-se também que crepundia e ossinhos possuíam um decisivo poder apotropaico, pois repeliam influências malignas e demoníacas. Lúcio Apuleio, nascido por volta de 125 d.e.c., que foi um verdadeiro colecionador de iniciações no segundo século de nossa era e que se vangloriava de ser iniciado nos mistérios de Dioniso, fala de objetos misteriosos, usados por iniciados: a esses objetos o escritor dá o nome de crepundia. O espelho, a partir do qual, especulando, vemos o que somos e o que não somos, objeto muito comum em ritos iniciáticos, tem, entre muitas finalidades que se lhe atribuem, a de captar com a imagem, que nele se reflete, a alma do refletido. Olhando-se no espelho, Zagreu tornou-se presa fácil dos Titãs. (...)
       
SÊMELE
      Zagreu voltou à vida. Atena, outros dizem que Deméter, salvou-lhe o coração que ainda palpitava. Engolindo-o, a princesa tebana Sêmele tornou-se grávida do segundo Dioniso. O mito possui muitas variantes, principalmente aquela segundo a qual fora Zeus quem engolira o coração do filho, antes de fecundar Sêmele. A respeito de Sêmele diga-se logo que se trata de uma avatar de uma Grande Mãe, que, decaída, porque substituída em função de grandes sincretismos operados no seio da religião grega, se tornou uma simples princesa tebana, irmã de Agave, Ino e Autônoe, todas filhas do legendário herói do ciclo tebano, Cadmo, e de Harmonia.
         A Etimologia de Σεμέλη e (Seméle), Semelô, frígio (dzemelô), postulada por P. Kretschmer, com oriunda do traco-frígio, com o significado de "terra", é hoje normalmente aceita.
         Tendo pois, engolido o coração de Zagreu ou fecundada por Zeus, Sêmele ficou grávida do Segundo Dioniso, Hera, no entanto, estava vigilante. Ao ter conhecimento das relações amorosas de Sêmele com o esposo, resolveu eliminá-la. Transformando-se na ama da princesa tebana, aconselhou-a a pedir ao amante que se lhe apresentasse em todo o seu esplendor. O deus advertiu a Sêmele de que semelhante pedido lhe seria funesto, uma vez que um mortal, revestido de matéria, não tem estrutura para suportar a epifania de um deus imortal.
         Mas, como havia jurado pelas águas do rio Estige jamais contrariar-lhe os desejos, Zeus apresentou-se-lhe com seus raios e trovões. O palácio da princesa se incendiou e esta morreu carbonizada. O feto, o futuro Dioniso, foi salvo por gesto dramático do pai dos deuses e dos homens: Zeus recolheu apressadamente do ventre da amante o fruto inacabado de seus amores e colocou-o em sua coxa, até que se completasse a gestação normal.
         Tão logo nasceu o filho de Zeus, Hermes, o recolheu e levou-o, às escondidas, para a corte de Átamas, rei beócio de Queronéia, casado com a irmã de Sêmele, Ino, a quem o menino foi entregue. Irritada com a acolhida ao filho adulterino do esposo, hera enlouqueceu o casal. Ino lançou seu filho caçula, Melicertes, num caldeirão de água fervendo, enquanto Átamas, com um venábulo, matava o mais velho, Learco, tendo-o confundido com um veado. Ino, em seguida, atirou-se ao mar com o cadáver de Melicertes e Átamas foi banido da Beócia. Temendo novo estratagema de Hera, Zeus transformou o filho em bode e manou que Hermes o levasse, dessa feita, para o monte Nisa, onde foi confiado aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros, que lá habitavam numa gruta profunda. (...)
         Através de um fragmento de Plutarco, concernente às antigas festas beócias da Δαίδαλα (Daídala) "Dédalas", com honra de Hera, ficamos sabendo que, em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes ao de Dioniso. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A verdadeira muralha que separava os dois cultos era certamente consequência das características muito diferentes desse par antitético: de um lado Hera, a teléia, a saber, a protetora dos casamentos, de outro, Dioniso, o deus das orgias, dos "desregramentos". O mais sério é que tanto as orgias dionisíacas como as práticas coletivas das mulheres de Plateias, em homenagem a Hera Teléia, tinham por cenário o monte Citerão, o que inevitavelmente contribuía para açular os ânimos dos adeptos de uma e de outra divindade e aumentar a tradicional rivalidade entre os dois imortais do Olimpo.(...).
          Dioniso somente fez seu aparecimento solene e "oficial" na pólis de Atenas, assim como na literatura grega e, por conseguinte, na mitologia, a partir do século VI a. C. por que tão tardiamente, se, como se disse, o filho de Zeus e Sêmele já aparece "atestado" lá pelo século XIV a. C.? A explicação não parece difícil. Dioniso é um deus essencialmente agrário, deus da vegetação, deus das potências geradoras e, por isso mesmo, permaneceu por longos séculos confinado no campo. É que Atenas, até os fins do século VII a. C., foi dominada pelos Eupátridas, os bem-nascidos, os nobres, que, sendo os únicos que se podiam armar, eram igualmente os únicos que podiam defender a pólis, tornando-se esta propriedade dos mesmos. Assim, o governo, as terras, o sacerdócio, a justiça sob forma temística (expressa pela "vontade divina") somente a eles, aos Eupátridas, pertenciam de direito e de fato. Senhores de tudo, eram também senhores da religião. Seus deuses Olímpicos e patriarcais (Zeus, Apolo, Posídon, Ares, Atena...), projeção de segue regime político, em troca de hecatombes e de renovados sacrifícios, mantinham-lhes a pólis e o status que. A Pólis e seus Eupátridas eram politicamente guardados pelos imortais do Olimpo.
         Somente no século VI a. C. com o enfraquecimento militar e, por consequente, político dos Eupátridas, balançados pela criação do sistema monetário (a terra até então era a forma principal de riqueza), pelo vertiginoso desenvolvimento do comércio, pelo descontentamento popular - a revolução era iminente, segundo expressa o grande Sólon em seus Iambos e Elegias - e sobretudo pela constituição do mesmo legislador, com sua famosa  σεισάχθεια (seisákhtheia), inclusive acerca da reforma solonina, quando se lançaram em Atenas as primeiras sementes da democracia, é que o povo começou a ter certos direitos na pólis. As sementes da democracia frutificaram-se rapidamente, como é sabido, e de Sólon, passando por Pisístrato e depois por Clístenes, Efialtes e Péricles, a árvore cresceu e o povo teve, afinal, uma vasta sombra onde refugiar-se. Sua voz soberana se fez ouvir: era a ekklesía, a assembleia do povo. Com o povo e a democracia, Dioniso, de tarso em punho, seguido de suas Mênades ou Bacantes, suas sacerdotisas e acólitas, fez sua entrada triunfal na polis de Atenas.(...)
         A respeito dessa oposição feita à penetração do culto de Dioniso na Grécia escreveu Mircea Eliade: "qualquer que seja a história da penetração do culto dionisíaco na Grécia, os mitos e os fragmentos mitológicos que aludem à oposição encontrada têm uma significação mais profunda: eles nos informam ao mesmo tempo da experiência religiosa dionisíaca e da estrutura específica do deus. Dioniso devia provocar resistência e perseguição, pois a experiência religiosa, que suscitava, punha em risco todo um estilo de vida e um universo de valores. Tratava-se, sem dúvida, da supremacia ameaçada da religião olímpica e de suas instituições. Mas a oposição denunciava ainda um drama mais íntimo, e que aliás está abundantemente atestado na história das religiões: a resistência contra toda experiência religiosa absoluta, que só pode efetuar-se, negando-se o resto (seja qual for o nome que se lhe dê: equilíbrio, personalidade, consciência, razão, etc.)".
         Poderia parecer estranho que um deus tão perseguido e tão distante dos demais deuses olímpicos tenha sido tão festejado na Hélade e sobretudo em Atenas, a pólis que sempre buscou o equilíbrio apolíneo. Talvez se possa explicar o fenômeno levando-se em consideração dois fatos incontestáveis: a política de Pisístrato e, de modo particular, o esvaziamento e a transformação do conteúdo dionisíaco de algumas das festas que celebravam o deus do êxtase e do entusiasmo.
         Na realidade, a política de Pisístrato (605-527 a. C.), que tanto fez por Atenas e por seu povo, buscou com afinco o nivelamento das classes sociais e a conciliação dos diversos cultos, tentando realizar uma verdadeira confraternização entre os deuses. Pois bem, foi a partir principalmente desse tirano que em Atenas se celebravam quatro grandes festas em honra do deus do vinho: Dionísias Rurais, Lenéias, Dionísias Urbanas ou Grandes Dionísias e Antestérias. (...)
         Dioniso é o deus da metamórphosis, o deus da transformação. Um dos mais profundos conhecedores da tragédia grega. A. Lesky, é taxativo a esse respeito: "O elemento básico da religião dionisíaca é a transformação. O homem arrebatado pelo deus, transportado para seu reino por meio do êxtase, é diferente do que era no mundo quotidiano".
         Assim, se essa "transformação" operada no homo dionysíacus pelo êxtase e pelo inexoravelmente a romper com todos os interditos de ordem política, social e "religiosa", ela, ipso facto, ia de encontro aos postulados da pólis, mesmo "democrática" e dos deuses olímpicos, que lhe serviam de respaldo. Ora, se a tragédia é uma liturgia e um verdadeiro apêndice da religião grega, como admiti-la, se o deus do Teatro, na ótica da pólis, é exatamente o "contestador religioso" da religião política dessa mesma pólis? (...)
         Devotos de Dioniso, após a dança vertiginosa (...), caíam semidesfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo de  κστασις (ékstasis) “estase” . O sair de si implicava um mergulho de Dioniso em seu adorador através do  νθουσιασμός (enthusiasmós), “entusiasmo”. O homem, simples mortal, νθρωπος (ánthropos), em êxtase e entusiasmo (entusiasmado = possuído pelo deus), comungando com a imortalidade, torna-se νήρ (anér), isto é, herói, um varão que ultrapassou o μέτρον (métron), a medida de cada um. Tendo ultrapassado sua medida mortal, o νήρ, o herói transforma-se em  ποκρίτης (hypocrités), aquele que responde em êxtase e entusiasmo, a saber, o ator.
         A ultrapassagem do métron pelo hypocrités se configura como ϐρις (hýbris), um descomedimento, uma “démesure”, uma violência, feita a si próprio e aos deuses imortais, o que desencadeia a νέμεσις, a punição pela injustiça praticada, o ciúme divino: o hypocrités, o νήρ torna-se êmulo dos deuses o que vai provocar a τη (áte), a cegueira da razão; tudo quanto o hypocrités fizer, daqui para diante e terá que fazê-lo, realizá-lo-á contra si mesmo. Mais um passo e fechar-se-ão sobre ele as garras da Μορα (Moîra), o destino cego.
         No fundo, a tragédia grega, como encenação religiosa, é o suplício do leito de Procusto contra todas as “démesures”.

     Foi assim que a tragédia de Dioniso, esse deus cuja experiência religiosa punha em risco todo um “estilo de vida e um universo de valores”, exatamente porque, entranhado no homem pelo êxtase e entusiasmo, abolia a distância entre o mortal e os imortais, pôde ser aceita na pólis dos deuses olímpicos. “Desdionizada” em seu conteúdo, “punida” em sua essência e exorcizada por Apolo, a tragédia se tornou mais apolínea que dionisíaca. Despindo-se de Dioniso e revestindo-se da indumentária solar e patriarcal de Apolo, pôde ser tranquilamente agasalhada como liturgia.
         A quarta grande festa dionisíaca e a mais antiga delas, consoante o historiador Tucídides (460-395 a. C. aproximadamente), eram as  νθεστήρια (Anthestéria), isto é, a festa das flores, que se celebravam nos dias 11, 12 e 13 do mês Antestérion, fins de fevereiro, inícios de março. Trata-se, como o próprio nome expressa, de uma festa primaveril, em que se aguardava, portanto, a nova brotação, o rejuvenescimento  da natureza.
Embora nessas festas Dioniso imperasse inteiro, havendo, por conseguinte, a quebra de todos os interditos, o Estado sempre os tolerou, uma vez que toda a ruptura com tabus de ordem política, social e sexual visava não apenas à imprescindível fecundidade e à fertilidade, mas era algo que atingia tão-somente o mundo da sensibilidade, sem chegar à reflexão como a tragédia.
         O primeiro dia das Antestérias denominava-se πιθοίγια (Pithoiguía), vocábulo proveniente de πίθος (píthos), “tonel”,e oygnýnai “abrir”: abriam-se os tonéis de terracota em que se guardava o vinho da colheita de outono, e transportavam-nos até um Santuário de Dioniso no Lénaion, que só se abria por ocasião dessas festas da primavera. (...)... dava-se início à bebedeira sagrada... também os escravos participavam dessa confraternização porque uma das características fundamentais de Dioniso, “deus do povo”, é sua universalidade social.(...)
         Alguns monumentos se baseiam nas festas de Dioniso, que eram, como as de Demeter, destinadas a agradecer aos deuses os benefícios da terra. Os ritos observados durante a procissão se prendiam à lenda do deus. Numeroso bando de meninos, coroados de heras e segurando pâmpanos, corria e dançava diante da imagem do deus, colocado num berço de pâmpanos e circundado de máscaras trágicas e cômicas. Em torno, traziam-se vasos, tirsos, grinaldas, tambores, faixas, e, atrás do carro, vinham os autores, os poetas, os cantores, os músicos de toda espécie, os dançarinos, todos os que, no exercício da sua arte, precisam de inspiração, cuja fonte era considerado o vinho. Quando a procissão chegava ao fim, começavam as representações teatrais e os combates literários em honra de Dioniso, cujas festas sempre se realizavam no outono.
         Essas festas revestiram-se, aliás, de caráter bastante diferente, segundo os países e as localidades em que se celebraram. Parece que em Roma, deram lugar a cenas de desenfreada licenciosidade, e foram até seguidas de assassínios, pois o senado se viu obrigado a aboli-las; mas como os iniciados nos mistérios de Dioniso eram ao mesmo tempo acusados de formar uma associação secreta, de caráter político, é difícil conhecer exatamente a verdade sobre essa misteriosa questão. Na Grécia, as festas de Dioniso tinham originariamente um caráter exclusivamente campestre. "Outrora diz Plutarco, celebravam-se as festas de Dioniso com formas simples, que não excluíam a alegria: trazia-se à cabeça uma bilha cheia de vinho e coroada de pâmpanos; depois vinha um bode sustentando um cesto de figos, e finalmente o falo, símbolo da fertilidade; mas tudo isso caiu em desuso e foi esquecido."
         Um luxo desenfreado acompanhou mais tarde as festas de Dioniso, que em várias cidades, e notadamente em Alexandria, se celebravam com a maior magnificência. Ateneu nos legou uma curiosa descrição da grande procissão dionisíaca, que se realizou nesta última cidade, sob o reinado de Ptolomeu Filometor.
         "A divisão dionisíaca era precedida de silenos, uns cobertos de mantos de púrpura escura, outros de mantos de púrpura clara. Eram seguidos de sátiros trazendo archotes de folhas de hera, de ouro.
         "Depois deles, surgiam Vitórias tendo asas de ouro. Traziam elas fogões para a queima de perfumes, com seis cúbitos, ornados de ramos dourados de hera. Essas Vitórias tinham túnicas cujos tecidos representavam diversas figuras de animais, e estavam ornadas do mais luxuoso atavio de ouro.
         "Seguia-se-lhes um altar duplo, de seis cúbitos, guarnecido de uma folhagem de hera, de ouro, e em torno do qual corria uma grinalda de pâmpano de ouro, presa com faixas de uma mistura branca. Atrás, vinham cento e vinte meninos, cobertos de túnicas de púrpura, trazendo incenso, mirra e açafrão em bacias de ouro. Depois, avançavam quarenta sátiros cingidos de coroas de hera feitas de duro. Seguravam com a mão outra coroa igualmente de ouro. Tinham o corpo pintado de púrpura e de outras cores: dois silenos, de clâmides de cor de púrpura, traziam calçados brancos. Um deles trazia um chapéu e um pequeno caduceu de ouro, o outro segurava um clarim. Entre eles marchava um homem de quatro cúbitos de altura, em vestes de ator trágico com uma máscara e uma cornucópia de ouro.
         "Atrás deles, vinha uma mulher de belíssimo porte, ricamente ornada de ouro e prata: com uma das mãos trazia uma coroa de perses, com a outra uma palma. Depois dela, vinham as quatro Estações, bem ornadas, trazendo cada uma os frutos que lhe são próprios: seguia-se-lhes, carregado, um altar de ouro. Passaram, então, outros sátiros coroados de hera de ouro e vestidos de púrpura. Traziam um vaso de ouro para vinho. O poeta Filisco, sacerdote de Dioniso, e todas as pessoas ligadas, pela sua profissão, ao culto desse deus, vinham depois Em seguida, traziam-se os tripés análogos ao de Delfos, prêmios destinados aos atletas. O que estava reservado aos adolescentes tinha nove cúbitos de altura, e o que se destinava aos homens feitos tinha doze”.
         "Veio depois um carro de quatro rodas, puxado por cento e oitenta homens, trazendo uma estátua de Dioniso, a fazer uma libação com uma taça de ouro. Tinha esse Dioniso uma túnica rastejante e por cima dela um manto de tecido transparente, e outra veste de púrpura bordada de ouro”.
         "No carro. e diante de Dioniso, havia uma cratera da Lacônia, um tripé e taças de ouro. Formara-se, em torno dele, um berço com pâmpanos, hera, e outras folhagens. donde pendiam coroas, grinaldas, tirsos, tambores, faixas. máscaras trágicas, cômicas e satíricas. No carro viajavam também os sacerdotes, as sacerdotisas e as mulheres que traziam os crivos. Passaram, em seguida, as lídias, de cabelos esparsos, e coroadas umas com serpentes, outras com teixos, vinhas e heras; empunhavam estes punhais, aquelas serpentes”.
         "Depois delas, vinha outro carro de quatro rodas, com uma largura de oito cúbitos, puxado por sessenta homens e trazendo, sentada, a figura de Nisa, revestida de uma túnica amarela bordada de ouro e de um sobretudo da Lacônia. A figura levantava-se artificialmente, sem que ninguém a tocasse: vertia leite de uma taça e tornava a sentar-se. Segurava com a mão esquerda um tirso, em torno do qual estavam enroladas umas faixas. A testa achava-se coroada de hera e de uvas de ouro, enriquecidas de pedras preciosas. Sombreava-a também uma folhagem. Nos quatro cantos do carro haviam sido colocados archotes de ouro”.
         "Em seguida, foi a vez de outro carro de vinte cúbitos, puxado por trezentos homens. Havia-se construído nele um lagar cheio de uvas. Sessenta sátiros pisavam-nas, cantando ao som da flauta a canção do espremedor. Sileno presidia a tudo e o vinho doce corria ao longo do caminho”.
         "Esse carro era seguido de outro puxado por sessenta homens, trazendo um odre feito de pele de leopardo. Era acompanhado de cento e vinte sátiros e silenos, todos coroados e empunhando vasos e taças de ouro. Ao lado, via-se imensa cratera de prata ornada de animais esculpidos em relevo e rodeada de um cordão de ouro enriquecido por pedras preciosas. Depois vinham dez grandes bacias e dezesseis crateras de prata, uma grande mesa de prata de doze cúbitos e outras trinta de seis cúbitos, quatro tripés um dos quais de prata maciça, e os demais enriquecidos de pedras preciosas, vinte e seis urnas, dezesseis ânforas semelhantes às das Panatenéias e cento e sessenta vasos para refrescar o vinho. Todo esse vasilhame era de prata ; o de ouro seguia-se: em primeiro lugar quatro crateras com belas figuras em relevo, grandes tripés e um bufê enriquecido de pedras preciosas. cálices, urnas e um altar”.
         "Mil e seiscentos meninos vinham depois, vestidos de túnicas alvas e coroados de hera ou de folhas de pinheiro. Traziam taças de ouro e prata: os vinhos tinham sido preparados de maneira que os que se achavam presentes no estádio pudessem apreciar-lhe a doçura. Em seguida, aparecia um carro contendo o leito de Sêmele, seguido de outro carro, representando uma gruta profunda coberta de hera e rodeada de ninfas coroadas de ouro. Jorravam daí duas fontes, uma de leite, outra de vinho, e do alto saíam pombas e rolas, com fitas presas às patinhas, de maneira que, tentando voar, pudessem ser agarradas pelos espectadores”.
         "A seguir, vimos a representação de Dioniso no seu regresso da Índia. O deus, sentado num elefante, estava vestido de um manto de púrpura, coroado de hera, e segurando na mão um tirso de ouro. Na sua frente, e sobre o pescoço do elefante, estava um satirozinho coroado de ramos de pinheiro. Quinhentas jovens vestidas de túnicas de púrpura e com a cabeça coroada de folhas de pinheiro, caminhavam após dele e eram, por sua vez, seguidas de cento e vinte sátiros armados. Cinco grupos de burros montados por silenos e sátiros coroados eram seguidos de vinte e quatro carros puxados por elefantes”.
         Havia, depois, sessenta carros puxados, cada um, por dois bodes, oito atrelagens de dois avestruzes, sete de cervos, e todos os carros estavam montados por meninos trazendo um tirso e cobertos de vestes de tecido de ouro. Os carros puxados por camelos, que se seguiam, vinham em fileiras de três e estavam seguidos por outros puxados por burricos e trazendo as tendas das nações estrangeiras. Acompanhavam-nos mulheres índias, na qualidade de cativas. Seguidas dos etíopes que traziam os presentes, seiscentos dentes de elefante, dois mil troncos de ébano, e sessenta crateras de ouro e prata. Depois, surgiam dois caçadores, trazendo lanças de ouro, os quais abriam uma marcha de dos mil e quatrocentos cães da Índia ou da Hircânia, conduzidos por cento e cinquenta homens trazendo árvores das quais pendiam todas as espécies de animais selvagens e aves: em gaiolas, viam-se papagaios, pavões, galinhas de Angola, faisões e inúmeras outras aves da Etiópia.
DIONYSUS

         "Vinham depois os bandos de animais, entre os quais se notavam cento e trinta carneiros da Etiópia, trezentos da Arábia, vinte e seis bois brancos da Índia, oito da Etiópia, um grande urso branco, catorze leopardos, dezesseis panteras, quatro linces, três ursozinhos, uma girafa, um rinoceronte da Etiópia”.
         "Finalmente, num carro de quatro rodas, vinha Dioniso, representado no momento em que se salvou no altar de Reia, quando estava sendo perseguido por Hera. Príapo estava ao seu lado. Esse carro era seguido de mulheres ricamente vestidas e magnificamente ornadas, as quais personificavam as cidades gregas das costas da Ásia e traziam, todas, coroas de ouro."
         Sintetizando algumas das ideias expostas na obra célebre de Walter Otto, Dionysos, Mircea Eliade mostrou que o filho de Sêmele é realmente o deus da metamórphosis interna e externamente: bem mais que todos os imortais do Olimpo, "Dioniso assombra pela multiplicidade e pela novidade de suas transformações. Ele está sempre em movimento; penetra em todos os lugares, em todas as terras, em todos os povos, em todos os meios religiosos, pronto para associar-se a divindades diversas, até antagônicas (...) Dionísio é certamente o único deus grego que, revelando-se sob diferentes aspectos, deslumbra e atrai tanto os camponeses quanto as elites intelectuais, políticos e contemplativos, ascetas e os que se entregam a orgias. A embriaguez, o erotismo, a fertilidade universal, mas também as experiências inesquecíveis provocadas pela chegada periódica dos mortos, ou pela mania, pela imersão no inconsciente animal ou pelo êxtase do enthusiasmós - todos esses terrores e revelações surgem de uma única fonte: a presença do deus. O seu modo de ser exprime a unidade paradoxal da vida e da morte. É por essa razão que Dioniso constitui um tipo de divindade radicalmente diversa dos Olímpicos". Walter Otto mostrou bem como o deus do Teatro é capaz de múltiplas hierofanias: surge de repente e desaparece misteriosamente. Nas Agriônias, as festas solenes que se celebravam em sua honra na cidade Beócia de Queronéia, as mulheres, num dado momento, procurando-o por toda parte, voltavam com a notícia de que o deus havia regressado para junto das Musas. Mergulhava no lado de Lerna ou no mar e reaparecia, como no segundo dia das Antestérias, sobre uma embarcação. Todos esses desaparecimentos periódicos e hirofanias tinham por escopo mostrar que Dioniso é um deus da vegetação e, com efeito, suas festas mais populares se realizavam em função do calendário Agrícola. Como a semente, o deus morre para dar novos frutos. Todas essas ocultações e retornos, aparecimentos e ausências súbitas, traduzem o surgimento e o desaparecimento da vida, o ciclo da vida e da morte e, por fim, sua unidade.
         Foi exatamente como deus da vegetação, da vida e da morte, que Dioniso celebrou um solene hieròs gámos com Ariadne, em torno de cuja união com o deus, na ilha de Naxos, se teceram narrativas romanescas. Uma delas se relaciona com o retorno de Teseu a Atenas, após eliminar o Minotauro. Tendo ajudado o herói ático a escapar do Labirinto de Cnossos, Ariadne, apaixonada pelo filho de Egeu, fugiu com ele. Quando o navio ateniense fez escala na ilha de Naxos, Teseu a abandonou, adormecida na praia, por amor a outra mulher. Diz-se ainda que foi em obediência a uma ordem dos deuses, que não lhe permitiram desposá-la. Embora em prantos, quando viu o navio de velas desfraldadas já fora da barra, logo se consolou com a chegada intempestiva de Dionísio e seu cortejo de Sátiros e Mênades. Fascinado pela beleza da jovem cretense, desposou-a e levou-a consigo para o Olimpo. Como presente de núpcias, deu-lhe um diadema de ouro, cinzelado por Hefesto. Quando o casal chegou à mansão dos imortais, o diadema foi transformado em constelação. (...)
         De um ponto de vista simbólico, o deus da mania e da orgia configura a ruptura das inibições, das repressões e dos recalques. Na feliz expressão de Defradas, Dioniso "simboliza as forças obscuras que emergem do inconsciente, pois que se trata de uma divindade que preside à liberação provocada pela embriaguez, por todas as formas de embriaguez, a que se apossa dos que bebem, a que se apodera das multidões arrastadas pelo fascínio da dança e da música e até mesmo a embriaguez da loucura com que o deus pune aqueles que lhe desprezam o culto". Desse modo, Dioniso retrataria as forças de dissolução da personalidade: a regressão às forças caóticas e primordiais da vida, provocadas pela orgia e a submersão da consciência no magma do inconsciente.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. ( P. 113-140)