quinta-feira, 17 de julho de 2014

TROIA HISTÓRICA – TROIA MÍTICA -- HISTORICAL TROY - TROY MYTHICAL



PRIMEIRAMENTE A TROIA HISTÓRICA


“A esplendorosa civilização micênica, que, lato sensu, se estendeu do século XVI ao XII a. C., e cuja expansão colonizadora já havia atingido o litoral asiático, culminou com a histórica Guerra de Troia.
Deixemos claro o que se entende por civilização micênica, também conhecida por civilização heládica. O termo micênica provém de Micenas (Μυκήνες), centro civilizatório reduzido hoje a um campo arqueológico, situado cera de 90 km de Atenas. O termo heládica origina-se do nome λλάς (Helás), genitivo  λλάδος (Heládos) pelo qual os gregos denominavam a Grécia, também conhecida como Hélade.
A Guerra de Troia “Dez anos míticos” de um assédio sangrento teriam posto fim à gloriosa Ílion ou Troia. Hodiernamente não se põe mais em dúvida na apenas a existência de Troia, que deve ter sido uma superposição de cidadelas muito importantes, desde o terceiro milênio até o século XII a. C., mas sobretudo a sua destruição histórica pelos aqueus, primeiros gregos a habitarem o Mediterrâneo, os quais foram chamados por Homero de dânaos.

Ruínas de Micenas

O primeiro passo para o descobrimento da ‘Troia homérica’ foi dado por Heinrich Schliemann, que, a partir de 1870, fazendo escavações na colina de Hissarlik, na atual Turquia, a noroeste da Ásia Menor, encontrou várias cidades sobrepostas, nada menos que sete, a que seu extraordinário ajudante, o arqueólogo Wilhelm Dörpfeld, acrescentou mais duas. Schliemann, a princípio, pensou que a Troia II fosse a Homérica, mas a experiência e a cultura de Dörpfeld fizeram-no inclinar-se para a Troia VI, que possuía restos de cerâmica muitíssimo semelhantes à de Micenas e Tirinto. Por este e outros indícios conclui-se que a Troia VI fora erigida em 1900 a. C., por um povo sem dúvida proveniente também do mundo indo-europeu para a Ásia Menor. Cultivando a cerâmica mínia, esse povo não apenas mantinha um comércio ativo com os micênicos, mas, o que é mais importante, devia ter um possível parentesco com os primeiros gregos.
Trata-se, segundo toas as probabilidades, dos hititas. Cercada por magnífica muralha, Troia VI era uma cidade opulenta, cuja prosperidade se baseava na fertilidade de seu solo, na pecuária e na criação de cavalos. Os troianos são comumente chamados por Homero de ‘domadores de cavalos’, como atesta o último verso da Ilíada, em que o maior dos heróis de Troia recebe este epíteto:
- Assim, eles (os Troianos) fizeram os funerais de Heitor, domador de cavalos. (Il., XXIV, 804).
As escavações em Ílion ou Troia terminaram sob a direção de W. Blegen e, consoante o grande mestre da Universidade de Cincinati, Troia VI foi destruída por um tremor de terra, seguindo-lhe, sem nenhuma solução de continuidade nem de cultura, embora sem a opulência da anterior Troia VIIa. com todas as possibilidades de ser a cidade de Príamo, a Troia homérica, a Troia histórica. Aliás, alguns outros fatos rigorosamente históricos, relacionados por Page, confirmam a historicidade da Guerra de Troia. Há registros hititas de uma aliança de cidades da Ásia Menor, entre as quais aparece Ílion ou Troia, contra uma coligação de reinos aqueus, ~ pelo século XIII a. C., exatamente no momento do grande poderio de Micenas, e, coincidentemente, da destruição de Ílion que deve ter-se processado ~ enter 1230 e 1225 a. C., segundo os arqueólogos americanos, com uma diferença de poucos decênios em relação à data tradicional da Guerra de Troia. Esta, consoante o geógrafo e philologus, alexandrino do século III a. C., Eratóstenes de Cirene fora em 1183 a. C.
Ruínas de Troia


A Ilíada funde, pois, o fausto de Troia VI com a ruína da Troia VIIa. Com a VI, que trouxera consigo o cavalo, se dera início a uma civilização diferente da anterior. Troia VIII que ainda se sobrepôs à Troia VIIa, culturalmente nada apresenta de importante e Troia IX é de uma data muito tardia.
Discutem-se ainda as causas dessa guerra. Uma vasta operação de pilhagem ou uma bem planejada operação de expansão imperialista, para se apossar de vastos domínios territoriais no Mediterrâneo Oriental e assegurar o monopólio aqueu de um grande e rico empório? Na realidade, é grande o número de objetos micênicos encontrados nas margens do Mediterrâneo, o que atesta a sua expansão comercial. Para o expansivo comércio helênico, não bastavam, porém, as ‘praças’ conquistadas no Mediterrâneo Oriental. Avançaram também em direção ao Egito, com o qual mantiveram excelentes relações comerciais.
Descobrimentos arqueológicos demonstraram inúmeros objetos egípcios chegados à Grécia nos séculos XIV e XIII a. C. e, em contrapartida, desenterram-se no país dos Faraós numerosos vasos micênicos, principalmente em Tell-el-Amarna, a célebre Akhetaton, a efêmera capital do ‘herético’ :Akhnaton ou Amenófis IV. Disputaram com o Egito e os hititas, já em decadência, as praças da Síria e da Fenícia. Penetrando pelo interior, chegaram até Jericó...
Os aqueus, por conseguinte, não se satisfizeram com a ocupação de Creta, Rodes e Chipre, mas conquistaram estabelecimentos comerciais em toda costa do Mediterrâneo Oriental, desde Tróada até o Egito e isto sem falar em sua ‘expansão ocidental’, que atingiu, comprovadamente, Tarento e Siracusa. Ora, um tal império marítimo haveria, mais cedo ou mais tarde, chocar-se com interesses de outros povos. E foi exatamente o que aconteceu. Os micênicos, que já se haviam instalado em Mileto e Cólofon e tinham e Troia um excelente cliente, para a qual vendiam punhais de bronze, pontas de flecha, mármore e objetos de marfim e sobretudo vasos, acabaram chocando-se com o império hitita e com o reino vassalo de Asuwa. Daí, possivelmente, a supracitada coligação de vinte e duas cidades da Ásia Menor, entre as quais se alinhava Troia, contra os aqueus. Essa é, em síntese, a tese de Denys Page.

GRÉCIA ANTIGA

Pierre Lévêque, apoiado em outros autores, julga que seria um método muito estranho o empregado pelos aqueus, para ampliar seu negócio: destruir precisamente uma cidade que com eles mantinha um comércio ativo e regular. Opina o ilustre Professor de Besançon que a Guerra e a consequente  destruição de Ílion se deveram simplesmente ‘a uma gigantesca operação de pilhagem’. É mister, no entanto, não esquecer que a riquíssima cidadela de Troia (as escavações o mostram), no momento, fazia parte de uma coligação contra os micênicos. Estes, astutamente, teriam aproveitado a oportunidade para destruir o inimigo e confiscar-lhe as riquezas.
De qualquer forma, a Guerra de Troia foi o canto de cisne do ‘império’ aqueu. A derradeira expedição em que heróis destemidos se consagraram para impor-se no Mediterrâneo Oriental. Tudo não teria passado de mais uma gesta, certamente heroica, não fora a epopeia homérica, que imortalizou o arrojo e o arrebatamento de Aquiles, a astúcia e a ‘nostalgia’ de Ulisses, a fidelidade de Penélope, a dignidade de Heitor e a ternura de Andrômaca!
Mais um pouco e as trevas dóricas descerão sobre a Hélade.
A civilização micênica havia, pois, atingido seu clímax, quando lá pelos inícios do século XII a. C. chegaram à Hélade as últimas levas de invasores indo-europeus tradicionalmente denominados dórios. É inteiramente impossível, todavia, localizar no tempo um movimento que se processou lentamente ao longo dos séculos. Uma coisa, porém, parece indiscutível: o incêndio de Hatusa, a capital do império hitita, na Ásia Menor, com o consequente desmoronamento deste mesmo império; (Os hititas eram um povo indo-europeu que fundou um império poderoso na Anatólia no II milênio a. C. que se estendia até a Mesopotâmia e à Palestina.) a ameaça que pesou sobre o Egito por parte dos povos do mar, contida com dificuldade por Ramsés III, bem como a destruição dos grades centros da civilização micênica, seguida de uma completa ruptura e desagregação política, religiosa e cultural do mundo aqueu, devem-se à erupção violenta dos dóricos.
Partindo do Danúbio e da Ilíria (A Ilíria era uma nação que habitava as regiões que iniciavam na Macedônia Balcânica), esses ‘gregos’ já conhecedores do ferro, aguerridos e violentos, penetraram em vagas sucessivas pelo Epiro e, através da Macedônia e da Tessália, lograram apossar-se, grosso modo, de toda a Grécia continental, bem como de várias ilhas, principalmente de Creta, chegando até Rodes.
Dessa grande calamidade sobraram, ao que parece, as ilhas de Eubeia, Chipre e Ática, com sua Atenas eterna, talvez deixada de lado pela pobreza de seu pequeno território.
Ao apagar das luzes do século XI a. C, chegou ao fim a catástrofe que submergiu toda a civilização micênica.
Exatamente como as invasões dóricas, as migrações aqueias, jônicas e eólicas, fugindo ao vencedor, se fizeram paulatinamente, no tempo e no espaço, em direção à Ásia Menor. Essas migrações, é bom acentuar, que já haviam começado em plena época micênica, bem antes portanto das invasões dóricas e que prosseguiram durante e por causa das mesmas, tiveram continuidade por motivos outros, sobretudo de ordem política e econômica, até o século IX a. C.
Assim, a época da provável ‘composição’ da Ilíada (século IX a. C), a Grécia da Ásia, reduzida a um esquema muito simples, apresenta-se seccionada em três zonas étnicas: ao norte, a Eólida, com as ilhas de Tênedos e Lesbos; ao centro, a Jônia, com as grandes cidades de Mileto, Cólofon, Focéia, Éfeso e as ilhas de Samos e Quios; ao sul, a Dórida, com as cidades de Halicarnasso, Cnido e as ilhas de Cos e Rodes.
As invasões dóricas, do ponto de vista mítico, coincidem com o chamado Retorno dos Heraclidas, isto é, lato sensu, todos os filhoas e descendentes de Héracles até a geração mais remota, mas, no mito, denominam-se Heraclidas particularmente os filhos do herói com Dejanira e os descendentes destes que colonizaram o Peloponeso, conforme este quadro genealógico:
Héracles------------------------------------------Dejanira
êHilo, Ctesipo, Gleno, Hodites e Macária   ê
   ¯
Cleodeu
   ¯
Aristômaco
   ¯
Têmeno
Após a morte trágica de Héracles no monte Eta e sua gloriosa apoteose, os filhos fugiram do Peloponeso, temendo a cólera de seu primo Euristeu, que impusera ao herói os célebres Doze Trabalhos. Após uma curta permanência na corte do rei Cêix, em Traquine, refugiaram-se em Atenas, onde Teseu, sem recear a pressão e as ameaças de Euristeu, lhes deu hospitalidade. Este declarou guerra aos atenienses, mas na batalha perdeu os cinco filhos. Perseguido por Hilo, Euristeu foi morto junto aos Rochedos Cirônicos, no Istmo de Corinto. A vitória, de acordo com a previsão do oráculo, se deveu ao sacrifício de uma das filhas de Héracles, Macária, que se ofereceu voluntariamente para morrer pelo bom êxito de Atenas e dos Heraclidas contra o despotismo de Euristeu.
HÉRACLES E O LEÃO DE NEEMEIA

Com o desaparecimento deste e dos filhos, Hilo com seus irmãos e descendentes e apoderou-se do Peloponeso. Ao cabo de um ano, porém, uma peste se abateu sobre a região e o oráculo revelou que a mesma era consequência da cólera divina, porque os Heraclidas haviam retornado antes do tempo fixado pela Moîra. Obedientes, voltaram para a Ática, fixando-se na planície de Maratona.
Desejoso, porém, de regressar à pátria, Hilo, a essa época, já casado com Íole, outrora concubina de seu pai, e ao qual os irmãos consideravam como o verdadeiro herdeiro da tradição paterna, voltou a consultar o oráculo de Delfos. A Pítia lhe respondeu que a aspiração dos Heraclidas só poderia ser alcançada ‘após a terceira colheita’.
À frente dos seus, ‘após a terceira colheita’, Hilo avançou contra o Peloponeso, mas se chocou com as tropas de Équemo, rei de Tégea, cunhado dos Dioscuros, de Helena e de Clitemnestra. Tendo- desafiado para um combate singular, Hilo foi vencido e morto. Seu neto Aristômaco voltou a consultar a Pítia que lhe respondeu:
Sacerdotisa de Delfos, profetizava os oráculos(1891),



‘Os deuses te darão a vitória, se atacares pela via estreita’. Aristômaco interpretou que a ‘via estreita’ era o istmo de Corinto. Atacou novamente a Équemo, mas foi morto e, mais uma vez, os Heraclidas foram vencidos. Têmeno, filho de Aristômaco, e bisneto de Hilo, fez mais uma tentativa junto de Apolo. Este se limitou a repetir e renovar as respostas anteriores. Têmeno obsevou à Pítia que seu pai e bisavô, tendo seguido escrupulosamente a determinação do oráculo,foram vencidos e mortos.
Replicou-lhe Apolo que a culpa havia sido deles, que não haviam sabido interpretar corretamente o oráculo: ‘por terceira colheita se deveria entender terceira geração e, por ‘via estreita’ a via do mar e os estreitos entre a costa da Grécia continental e a do Peloponeso.’
Têmeno formava com seus irmãos a terceira geração após Hilo e, tendo compreendido agora o oráculo, pôs-se a construir uma verdadeira frota em Naupacto, na costa da Lócrida, mas a morte do adivinho Carno por um dos Heraclidas fez que uma imensa tempestade dispersasse a frota e houve uma fome tão grande, que todos debandaram.
Mais uma consulta a Apolo. O deus respondeu que as calamidades se deviam ao assassinato de Carno e que qa vitória dependia do banimento do homicida por dez anos e de um ‘guia de três olhos’. O assassino foi expulso e, um dia, apareceu no acampamento dos descendentes de Héracles ‘um ser de três olhos’: um caolho montado num cavalo. Esse caolho era Óxilo, rei da Élida, de onde fora expulso por um ano, por causa de um homicídio involuntário.
O rei se dispôs a guiá-los, desde que tivesse o apoio dos mesmos, para recuperar o trono. Travada a batalha, a vitória, desta feita, foi da ‘terceira geração. O rei do Peloponeso, Tisâmeno, filho de Orestes, foi morto e suas tropas destroçadas. O Peloponeso foi, a partir de então, dividido em três reinos básicos: Argólida, Lacônia r Messênia. A Élida teve seu rei Óxilo de volta e a Arcádia permaneceu nas mãos de seus primitivos habitantes. Um século após a morte de Héracles, seus descendentes voltaram ao Peloponeso.
O retorno dos Heraclidas reflete as lutas sangrentas travadas pelos invasores dórios contra os aqueus e o auxílio que àqueles foi prestado ‘por guias’ e chefes de um clã aqueu no exílio.
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Com as invasões dórias houve, já disse, uma completa ruptura e desagregação política, social, religiosa e cultural do mundo aqueu.
Durante séculos se afirmou que os dórios havia ‘criado’ na Hélade duas novidades de importância capital: a metalurgia do ferro e a cerâmica geométrica e que a conquista do Peloponeso se devera à superioridade das armas de ferro dórias sobre o armamento de bronze dos aqueus. Quanto ao ferro, não foi mesmo ‘inventado’ nem tampouco usado pela vez primeira pelos dórios. A metalurgia do ferro já se conhecia bem antes na Anatólia e seu monopólio pertencia aos hititas. Com a ruína do império centrado em Hatusa, o uso do ferro se difundiu pela Palestina e Creta, depois pela Grécia, possivelmente, isso sim pelos dórios. A cerâmica geométrica, que predominou na Hélade de ~ 1100 a 750 a. C., não é também criação dória: surgiu, na realidade, da arte micênica e, coincidentemente, alcançou seu maior esplendor em terras não dominadas pelos dórios: Atenas e a ilha de Chipre.
“As grandes ‘novidades’ dórias foram no plano social e religioso. Fortemente organizadas em torno de seus chefes militares, os invasores estavam ainda muito presos e ligados à primitiva e belicosa sociedade indo-europeia. Reinava entre eles uma patrilinhagem feroz, dada a superioridade do homem como guerreiro. Houve, nesse sentido, um retrocesso muito sério em relação aos reinos aqueus, onde a mulher, mercê da influência matrilinear cretense, gozava de uma liberdade, de uma estima e de um respeito, que nunca mais ela terá, ao menos na Grécia continental.
Vivendo em comunidades, indissoluvelmente ligados pela camaradagem bélica, os homens prolongavam na vida diária essa convivência íntima, própria da guerra em que estavam de contínuo empenhados. Desse modus vivendi originaram-se, certamente, dois hábitos, que se hão de perpetuar no helenismo: a nudez do atleta e a pederastia. (...)

A TROIA MITOLÓGICA

Falou-se da Ílion histórica, de uma guerra histórica, mas existe também uma Troia mítica, com sua guerra gigantesca de dez anos. Tudo começou com o rapto de Helena, mulher de Menelau, um dos filhos amaldiçoados de Atreu. Vamos mostrar o mito e suas consequências, desde os primórdios.
Tétis (Thetis), que é preciso não confundir com a titânida Tétis (Tethýs), era a mais bela das nereidas, filha do Velho do Mar, Nereu, e de Dóris. Zeus e Posídon queriam conquistá-la, mas um oráculo de Têmis revelou que o filho nascido do enlace da nereida com um dos dois seria mais poderoso que o pai.
De imediato, os dois deuses desistiram de seu intento e, para afastar qualquer ameaça, apressaram-se em conseguir para ela um marido mortal. Outros mitógrafos atribuem o oráculo a Prometeu, que havia predito que o filho de Zeus e Tétis se tornaria o senhor do mundo, após destronar o pai.
O centauro Quirão, sem perda de tempo, começou a orientar seu discípulo Peleu no sentido de conquistar a filha imortal de Nereu. Apesar de todas as sucessivas metamorfoses de Tétis, o que é próprio das divindades do mar, , em fogo, água, vento, árvore, pássaro, tigre, leão, serpente e, por fim, em verga, Peleu, orientado por Quirão, a segurou firmemente e a deusa, embora contra a vontade, deu-se por vencida.
Para as bodas solenes de Tétis e Peleu, no monte Pélion, compareceram rodos os deuses. As musas cantaram o epitalâmio e todos os imortais ofereceram lembranças aos noivos. Entre as ais apreciadas e notáveis destacam-se uma lança de carvalho, dádiva de Quirão, e o presente de Posídon, dois cavalos imortais, Bálio e Xanto, os mesmos que na Guerra de Troia, serão atrelados ao carro do bravo Aquiles.
O casamento do discípulo de Quirão com a filha de Nereu foi um desastre. Já haviam tido seis filhos, mas, na ânsia de imortalizá-los, Tétis sempre acabava por matá-los. Assim foi, até que Peleu lhe tomou das mãos o sétimo, o caçula Aquiles, no momento em que a nereida, na tentativa de imortalizá-lo, segurava-o pelo calcanhar direito, o temperava ao fogo.
Outra versão assevera que Tétis, segurando-lhe o mesmo calcanhar, o mergulhava nas perigosas águas  do rio infernal Estige, que tinham o dom de tornar invulnerável tudo o que nelas fosse introduzido. Na realidade, Aquiles era invulnerável, menos o calcanhar por onde a mãe o segurou...
CASAMENTO DE PELEU E TÉTIS - ROTTENHAMMER

Tétis, inconformada com a atitude do marido, a quem, aliás, não amava, o abandonou para sempre. Embora confiando ao pai o filho caçula, jamais deixou de ajudá-lo e protegê-lo por todos os meios a seu alcance, como se pode ver através de toda a Ilíada. A Moîra, porém, tem os seus desígnios e Aquiles perecerá muito jovem, exatamente pelo calcanhar não temperado pelo fogo ou não banhado pelas águas do Estige.
De qualquer forma, foi durante as núpcias de Tétis e Peleu que Éris, a Discórdia, com certeza ‘convidada a não comparecer’ ao monte Pélion, deixou cair ente os deuses a maçã de ouro, o Pomo da Discórdia, destinado à mais bela das três deusas ali presentes: Hera, Atená e Afrodite. In continenti se levantou uma grande disputa e altercação entre as três. Não se atrevendo nenhum dos deuses a assumir responsabilidade da escolha, Zeus encarregou Hermes de conduzir as três imortais ao monte Ida, na Ásia Menor, onde seriam julgadas pelo ‘pastor Páris ou Alexandre.
Antes de lhe conhecer a decisão, uma palavra sobre o extenso mito do pastor do monte Ida. Páris ou Alexandre era o filho caçula de Príamo, rei de Troia, e de sua esposa Hécuba. Esta, nos últimos dias de gravidez, sonhou que estava dando à luz uma tocha que incendiava a cidade.
Príamo consultou se filho bastardo Ésaco e obteve como resposta que o nascituro seria a ruína de Ílion. O rei, por isso mesmo, mandou matar a criança, tão logo nasceu, mas Hécuba o entregou ao pastor Agesilau, para que o expusesse o monte Ida. O servo assim fez, mas, regressando cinco dias depois, encontrou uma ursa amamentando o menino.
Impressionado, Agesilau o recolheu e criou ou, segundo uma variante, o entregou aos pastores do Ida, para que o fizessem. Páris cresceu forte e belo, tornando-se um pegureiro corajoso, que defendia o gado contra os ladrões e os animais selvagens, recebendo, por isso mesmo o nome de Alexandre, isto é, ‘o protetor dos homens’, e, numa interpretação mais popular e mítica, ‘o que protege’ o rebanho ou ‘o homem protegido’, por não ter perecido no Monte Ida.
HELENA E PÁRIS

Certo dia, os servidores de Príamo foram buscar no rebanho, que Alexandre guardava, um touro pelo qual o pastor tinha particular estima. Inconformado com o fato de que o animal seria o prêmio do vencedor dos Jogos Fúnebres em memória do filho de Príamo, quer dizer, em honra do próprio Páris, que os pais reputavam morto, o valente zagal seguiu os servidores do rei, resolvido a participar do certame e recuperar seu animal favorito.
Alexandre participou das provas e venceu-as todas, competindo contra os próprios irmãos, que não sabiam quem era ele. Deífobo, um deles, irritado, quis matá-lo com a espada, mas o vencedor refugiou-se no altar de Zeus. Sua irmã, a profetisa Cassandra, o reconheceu e Príamo, feliz por ter reencontrado o filho, que julgava morto, acolheu-o e deu-lhe o lugar que lhe cabia no palácio real.
HELENA
Pois bem, foi a este Páris, quando ainda era pastor, que Zeus enviou Hermes com as três deusas que disputavam, com sua beleza, a maçã de ouro, a grande provocação de Éris, a Discórdia. Ao ver as divindades, o pastor teve medo e quis fugir, mas Hermes o persuadiu a funcionar como árbitro, em nome da vontade de Zeus.
As imortais expuseram então seus argumentos e defenderam sua própria causa e candidatura, oferecendo-lhe cada uma sua proteção e dons particulares se fosse por ele declarada vitoriosa.
Hera prometeu-lhe, se vencedora, o império da Ásia; Atená, a sabedoria e a vitória em todos os combates; Afrodite assegurava-lhe tão-somente o amor da mulher mais bela do mundo: Helena, mulher de Menelau, rainha de Esparta. Alexandre decidiu que a mais bela das três era Afrodite.
Até o dia desse julgamento fatídico, que provocará a Guerra de Troia, Páris amava a ninfa do Ida, chamada Enone. Conhecedora do futuro e hábil curandeira, ambos dons de Apolo, tudo fez para que Páris não a abandonasse. Ao ver que suas previsões e súplicas eram inúteis, disse-lhe, na despedida, que se fosse ferido, voltasse, pois só ela poderia curá-lo.
Da cidadela de Ílion, m companhia de Enéias, partiu Alexandre para Esparta, em busca de Helena. Heleno e Cassandra, filhos de Príamo, e ambos portadores de poderes divinatórios (manteía) previram o desfecho trágico da aventura, mas ninguém lhes deu ouvido.
No Peloponeso, Páris e Enéias foram acolhidos pelos Dioscuros, Castor e Pólux, irmãos de Helena, que os conduziram ao palácio real. Menelau os recebeu dentro das normas da sagrada hospitalidade e lhes apresentou Helena. Dias depois, tendo sido chamado a Creta, para assistir aos funerais de seu padrasto Catreu, o rei entregou os hóspedes à solicitude da esposa. Bem mais rápido do que se esperava, a rainha foi conquistada por Páris: era jovem belo, cercava-o o fausto oriental e tinha a ajuda indispensável de Afrodite. Helena, apaixonada, reuniu todos os tesouros que pôde e fugiu com Alexandre, levando várias escravas, inclusive a cativa Etra, mãe de Teseu, mas deixando em Esparta a filha Hermíona, com apenas nove anos. Regressando a Troia, Páris foi bem acolhido e toda a casa real, não obstante as terríveis profecias de Cassandra.
Sabedor de sua desgraça por Íris, mensageira dos imortais, o monarca voltou apressadamente a Esparta e, para tentar resolver pacificamente o grave problema, Menelau e Ulisses foram como embaixadores a Ílion. Reclamaram Helena e os tesouros carregados pelo casal. Páris se recusou devolver tanto Helena quanto os tesouros e ainda tentou convencer os troianos a matarem o rei de Esparta, que foi salvo por Antenor, companheiro e prudente conselheiro do velho Príamo. Com a recusa de Páris e sua traição a Menelau, a guerra se tornou inevitável.
Reunidos todos os reis e heróis, que haviam prestado juramento de solidariedade a Tíndaro, por ocasião do casamento de Helena,de que já se falou, deu-se início aos preparativos da grande expedição contra Troia.
Consultado o oráculo de Delfos acerca da oportunidade de se iniciar uma expedição militar contra Ílion, aquele respondeu que se oferecesse a Atená Prónoia, Atená ‘Providência’ porque era preciso tê-la in bono animo, um colar que Afrodite outrora dera a Helena.
MENELAU

Hera pôs-se, de imediato, ao lado de Menelau e tudo fez para reunir os heróis aqueus contra Páris, seu inimigo pessoal. É curioso, aliás como os deuses se dividiram, militarmente, nessa refrega, tendo cada um, evidentemente, seus motivos e interesses pessoais. Se ao lado dos helenos se aliaram Atená, Hera, Tétis, Posídon e Hefesto, nas fileiras troianas pelejavam Afrodite, Ares, Apolo e Ártemis.
Alguns deles foram até mesmo feridos em combate como Ares e Afrodite. Tem-se, não raro, a impressão, na leitura da Ilíada, de que a Guerra de Troia, em determinados momentos, foi mais uma teomaquia, uma luta de deuses, do que uma andromaquia, um confronto de heróis. Zeus posicionou-se como árbitro, não de todo isento: dependia, por vezes, do tom da voz feminina que lhe chegasse aos ouvidos... Em todo caso, pesava os destinos, confundindo-se muitas vezes, com a própria Moîra e, no fundo, sabedor de que a vitória final seria dos aqueus, soube retardá-la, para dar-lhe um brilho maior.
Concluída a digressão, é mister voltar aos preparativos para a sangrenta seara de Ares. Não foi fácil convocar alguns dos chefes e heróis indispensáveis para a vitória dos gregos. É o caso, entre outros, de Aquiles, sem cuja presença, consoante a profecia de Calcas, Troia não poderia ser conquistada. É que o herói fora escondido pela própria mãe. Tendo ciência de que o fim de Troia coincidiria com a morte do filho, Tétis vestiu-o com hábitos femininos e o conduziu para a corte do rei Licomedes, na ilha de Ciros, onde o herói passou a viver disfarçado no meio das filhas do rei com o nome de Pirra, Istoé, ruiva, porque o herói tinha cabelos loiro-avermelhados. Sob esse disfarce feminino, Aquiles se uniu a uma das princesas, Deidamia, e deu-lhe um filho, Neoptólemo, o mesmo que, mais tarde tomará o nome de Pirro.
Tendo conhecimento do esconderijo do filho de Tétis, Calcas o revelou aos atridas, que enviaram Ulisses e Diomedes para buscá-lo. Mesmo assim o maior dos heróis aqueus teve uma oportunidade de escolha, pois Tétis preveniu o filho do destino que o aguardava: se fosse a Troia, teria uma fama retumbante, mas sua vida seria breve; se, ao contrário, ficasse, viveria por longo tempo, mas sem glória.
Aquiles escolheu a vida breve e gloriosa. O historiador latino Caio Salústio Crispo (86~35 a. C.) muitos séculos depois, ainda faria ecoar a opção de Aquiles: ... et quoniam uita ipsa, qua fruimur, breuis est, , memoriam nostri quam maxume longa, efficere... (De Coni. Cat. 1,3) ‘e já que a vida que desfrutamos é breve, devemos fazer por deixar de nós a mais longa memória’. E Marco Túlio Cícero (106-40 a. C.) parece ter-lhe completado o sentido: Breue enim tempus aetatis, satis longum est ad bene honesteque uiuendum (De Sem., 19,70): ‘Curto, na verdade, é o tempo de nossa vida, mas é bastante longo para se viver bem e honradamente’.
Congregados, por fim, os grandes heróis, Aquiles, Ulisses, Ajax, Filoctetes, Diomedes, Agamênon, Menelau, Nestor... os aqueus partiram para Tróada. Apaziguada, como já se relatou, a cólera de Ártemis em Aulis, a gigantesca frota aqueia chegou a seu destino. Eram, ao todo, conforme o Catálogo das Naus Il., II494-769, mil cento e noventa e três naus! Nos dois primeiros cantos da Ilíada o combate propriamente ainda não começara, no terceiro ainda existia uma possibilidade de se resolver a grave situação, sem grande derramamento de sangue: a proposta foi do próprio Páris, que sugeriu um combate singular entre o ofendido, Menelau, e o ofensor, ele, Páris. Com o vencedor ficariam Helena e os tesouros. Travou-se a luta entre os heróis e, quando Menelau estava prestes a liquidar a Páris, Afrodite interveio. Envolveu o triano num manto de nuvens e o transportou para os braços de Helena, aliás o campo de batalha predileto de Alexandre, que, como herói e guerreiro, deixa muito a desejar! Agamênon reclamou a vitória de Menelau, mas nada conseguiu.
Houve, a seguir, um pequeno intervalo de tréguas, que foram logo rompidas por um aliado dos troianos, o lício Pândaro, que atirou uma seta contra Menelau. A partir desse momento começou realmente a cruenta refrega pela posse de Ílion, que só foi tomada e destruída após a morte de seu ínclito herói Heitor e, assim mesmo, graças a um genial estratagema inspirado por Atená, materializado por Epeu e que ‘um dia o divino Ulisses introduziu na cidadela, pejado de guerreiros que saquearam Ílion.’ Trata-se do Cavalo de Troia. A grande cidade grega já aparece no canto VIII da Odisseia pelos lábios do aedo Demódoco, e que foi magnificamente desenvolvida e enriquecida sete séculos depois no canto 2 da Eneida do mais inspirado poeta latino Públio Virgílio Marão (79-19 a. C.).
Fingindo uma retirada, canta Homero na Odisseia (VIII, 500-520), pela voz de Demódoco, parte dos aqueus, após incendiar as tendas, embarcou em suas naus, enquanto outros sentavam-se silenciosos em torno de Ulisses, dentro do cavalo, que os troianos haviam arrastado para dentro de Ílion. Grande era a querela dos vassalos de Príamo a respeito do que fazer com o gigantesco simulacro de madeira.
Três eram as propostas: abrir-lhe o bojo com o bronze; arremessá-lo do cimo dos rochedos ou poupar o grande simulacro como oferta propiciatória aos deuses. A terceira foi a vencedora, ‘porque era destino da cidade que fosse arruinada, quando tivesse dentro o grande cavalo de madeira, onde se escondiam todos os mais valentes dos argivos, que levavam aos troianos carnificina e morte. E o aedo cantava como os filhos aqueus, após saírem do cavalo e deixarem o bojo do monstro, destruíram Troia.’
Foram dez anos de ódio, de terror, de lágrimas, de vilania e de bravura indomável, de morte e de carnificina. No fim, tudo acabou. Ílion era um monte de cinzas e de pedras calcinadas. Milhares de heróis, bravos e destemidos, transformaram Troia num silencioso dormitório de mortos.
Aquiles, cujo destino estava traçado, foi morto ingloriamente por uma flecha disparada por Páris, que, escondido atrás da estátua de Apolo, o alvejou. A flecha, guiada pelo deus, atingiu o herói na única parte vulnerável do corpo, o calcanhar direito. Mas também o raptor de Helena estava com seus momentos cronometrados pela Moîra: foi mortalmente ferido por uma flecha de Filoctetes. Procurou desesperadamente o auxílio de Enone, a ninfa que ele abandonara no Monte Ida, pois somente ela poderia curá-lo. Enone, a princípio, se recusou atendê-lo, ainda amargurada com a ingratidão e infidelidade de Páris. Quando, por fim, resolveu socorrê-lo, era tarde demais.

ESPARTA

Após a morte de Alexandre, Helena se casou com Deífobo, também filho de Príamo e de Hécuba. Menelau, porém, foi ao encalço do casal e liquidou Deífobo. Quando levantou a espada para matar Helena, esta se lhe mostrou seminua e ressurgiram no rei de Esparta as chamas do antigo amor! Certamente, ao levantar a espada para descarregá-la na esposa infiel, Menelau estava irritado com o peso o capacete empenahachado de crinas e outros enfeites que lhe cobriam a cabeça... o retorno do casal, agora reconciliado, foi uma odisseia. Tempestades, naufrágios, calmarias, fome e uma permanência forçada de cinco anos no Egito marcaram-lhe o difícil regresso. Finalmente, após oito anos de sofrimentos, abriram-se de novo para o rei Menelau e a rainha Helena as altas porás do palácio de Esparta, onde Telêmaco, filho de Ulisses, em suas peregrinações em busca do pai, irá encontrá-los felizes e sorridentes!
Nestas alturas dos acontecimentos, os deuses já se haviam esquecido de Troia, perpetuando no Olimpio, sua imortalidade com o néctar e a ambrosia num sorriso interminável!
Menelau, apesar de na Ilíada e mesmo nos Poemas Cíclicos, não ter sido nenhum modelo de heroísmo e de apresentar-se como personagem apagada, indecisa e sem personalidade, mereceu, já em idade avançada, ser transportado em vida ara a Ilha dos Bem Aventurados. Um ‘prêmio’ dos imortais, talvez por ter sido genro de Zeus ou por sua rigorosa e pacífica fidelidade conjugal... Helena, por motivos que se dirão logo a seguir, teria ficado por aqui mesmo, em seus santuários, até mesmo porque, numa sociedade acentuadamente patrilinear, como a enfocada por Homero, uma mulher, embora filha de Zeus, dificilmente chegaria à Ilha de Avalon! Existe, porém, a variante mais tardia, segundo a qual a linda Helena se teria casado com Aquiles (post mortem) e o casal estaria vivendo no meio de festins na Ilha Branca, no mar Negro, na foz do rio Danúbio.
Falo-se, neste capítulo, no Rapto de Helena. Tal fato merece um ligeiro comentário. Helena não foi raptada apenas uma vez, mas duas. O mito da esposa de Menelau é deveras confuso e complexo. Inúmeras variantes posteriores a Homero parecem encobrir o sentido primitivo do mitologema. Filha de Zeus e de Leda, na epopeia homérica, seu pai ‘humano’ era Tíndaro e seus irmãos os Dioscuros, Castor e Pólux, e uma irmã Clitemnestra. Muito cedo, todavia, Helena tornou-se filha de Zeus e de Nêmesis. Esta, para fugir à tenaz perseguição de Zeus, símbolo da fecundação, percorreu o mundo inteiro, tomando todas as formas possíveis, até que, cansada, no outono, se metamorfoseou em gansa. O deus se transformou em cisne e a ela se uniu, em Ramnunte, perto de Maratona, na Ática.
Em consequência dessa união, Nêmesis pôs um ovo que foi escondido num bosque sagrado, ‘a semente guardada no seio da terra’. O ovo, encontrado por um pastor, foi entregue a Leda. Esta o guardou num cesto e, no tempo devido, nasceu Helena, que Leda criou como sua própria filha. A tradição que faz de Leda mãe de Helena narra o fato de maneira análoga: para evitar que Leda lhe escapasse, certamente também metamorfoseada em gansa, Zeus, sob a mesma forma de cisne, fê-la pôr um ovo, de que nasceu Helena. Segundo oura versão, eram dois ovos: de um nasceram Helena e Pólux que foram imortalizados pelo pai; do outro, Castor e Clitemnestra, ambos ‘mortais’.
Pois bem, esta personagem mítica especial, Helena, foi raptada, uma primeira vez, pelo herói ateniense Teseu, que a conduziu a Afidna, na Ática e a confiou a sua mãe Etra. Mas quando Teseu e seu amigo inseparável, Pirítoo, desceram ao Hades (morada dos mortos),para raptar Perséfone, deusa essencialmente da vegetação, os Dioscuros atacaram Afidna, levando de volta sua irmã e como cativa a mãe de Teseu, Etra, que, como já se viu, foi conduzida para Troia por Helena, quando do seu segundo rapto por Páris.
Ora, todos os fatos acima narrados acerca do nascimento da rainha de Esparta, sempre tendo, de um lado, por pai um deus da fecundação e por matriz um ovo, e, de outro, as fugas constantes de ‘suas mães’, Nêmesis e Leda e ‘seus raptos’  por Teseu e Páris, parecem levar a uma só conclusão: Helena teria sido primitivamente uma deusa ctônia e, por conseguinte, uma deusa da vegetação , uma guardiã dos ovos, das sementes depositadas no seio da terra. Como tal. Uma vítima destinada ao rapto. Com o tempo, ‘a deusa Helena’ suplantada por outras divindades da vegetação mais importantes, teria caído no esquecimento e passado à classe das heroínas, fato comum e bem atestado na mitologia.
Na realidade, o rapto de deusas, Perséfone, ‘Helena’; de heroínas, caso de Europa, Leda ou das Sabinas... fazem parte integrante não somente de um ritual de, mas também de um rito da vegetação, como ainda se pode observar em culturas primitivas. Normalmente, o rapto se consuma no outono, ‘quando trabalhos agrícolas estão terminados’, os celeiros estão cheios e é, portanto, o momento de se pensar e preparar a próxima colheita.
Na Grécia, no segundo ato do casamento, denominado pompé, ‘ação de conduzir’, a noiva, seguida de uma procissão alegre e festiva, é levada ou por arautos ou pelo marido, da casa paterna para seu novo lar. Não podendo penetrar com seus próprios pés na nova habitação, porque o fogo sagrado do lar ainda não fora aceso, a noiva simula uma fuga e começa a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a acompanham. O marido terá de raptá-la e com ela nos braços atravessa a porta com todo cuidado para que os pés da esposa não toquem a soleira.
No casamento romano, muitíssimo semelhante ao grego, não por imitação ou sincretismo, mas pela origem comum indo-europeia dos dois povos, repete-se o mesmo ritual. A segunda parte, denominada deductio in domum, ação de conduzir ao lar, quando o cortejo para em frente à casa do marido, a noiva simula a fuga e, raptada pelo marido, transpõe nos braços do mesmo a soleira.
O mundo moderno, embora tenha esquecido o valor iniciático e a sacralidade da fertilização do ritual do rapto da esposa, ainda, por vezes, sem o saber, o relembra. As noivas, ao menos as mais ‘dietéticas’, têm ou ‘tinham’ o direito de ser transportadas nos braços ‘hercúleos’ do marido para dentro do novo lar ou do quarto da primeira noite de núpcias!
Na expressão de Joseph L. Henderson, ‘O casamento pode considerar-se um rito de iniciação em que homem e mulher têm que submeter-se mutuamente. Em algumas sociedades, todavia, o homem compensa sua submissão ‘raptando’ ritualmente a noiva, como fazem os dyaks da Malaia e Bornéu. Hoje em dia existe uma reminiscência dessa prática no fato de o noivo cruzar a soleira da porta com a noiva nos braços.’
Na realidade, como acrescenta ainda o mesmo Joseph L. Henderson, ‘independentemente do medo neurótico de que as mães ou pais invisíveis podem estar espreitando atrás do véu do matrimônio, até mesmo um jovem normal pode sentir-se apreensivo com o rito matrimonial. O casamento é essencialmente um rito de iniciação da mulher, em que o homem há de sentir-se tudo, menos um herói conquistador. Por isso mesmo, não surpreende que se encontrem em sociedades tribais ritos compensadores de semelhante temor como o rapto e a violação da noiva.’”

(BRANDÃO 2002, p. 97/114)