sábado, 8 de agosto de 2015

MANOEL DE BARROS – POETA RURAL



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
BREVÍSSIMA ANTOLOGIA DO AUTOR:

 
LÍNGUAS

Contenho vocação pra não saber línguas cultas. Sou capaz de entender as abelhas do que alemão.
Eu domino os instintos primitivos.

A única língua que estudei com força foi a
portuguesa.
Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.
A língua dos índios Guatós é murmura: é como se
ao dentro de suas palavras corresse um rio entre
pedras.

A língua dos Guaranis é gárrula: para eles é muito
mais importante o rumor das palavras do que o
sentido que elas tenham.
Usam trinados até na dor.

Na língua dos Guanás há sempre uma sombra do
charco em que vivem.
Mas é língua matinal.
Há nos seus termos réstias de um sol infantil.
Entendo ainda o idioma inconversável das pedras.
É aquele idioma que melhor abrange o silêncio das
palavras.
Sei também a linguagem dos pássaros – é só cantar.

(BARROS, M. Ensaios fotográficos.
Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 17, 18 )



O fazedor de amanhecer
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

BIOGRAFIA:
Manoel de Barros é um poeta mato-grossense, ligado às t4endências pós-modernistas da literatura brasileira. Nasceu em Cuiabá, mas sua família, quando ele era ainda muito criança, estabeleceu-se numa fazenda no município de Corumbá.
Quando jovem, estudou em Campo Grande e depois no Rio de Janeiro, tendo-se formado bacharel em Direito. Ligou-se, primeiramente ao decadentismo francês, de modo especial a Rimbaud. Foi essencialmente poeta. Durante certo tempo, ligou-se ao Partido Comunista, com o qual veio a romper relações mais tarde. Viveu algum tempo no exterior, primeiramente na Bolívia e no Peru, a seguir, viveu um ano nos Estados Unidos, em Nova Yorque.
Na década de 1960, voltou para sua fazenda, dedicando-se à literatura e à pecuária. Embora tenha uma produção literária consistente, por longo tempo viveu desconhecido do grande público leitor. O literato Millôr Fernandes foi o impulsionador de sua obra.
Depois desse fato, tornou-se apreciado nos círculos literários do Brasil e de Portugal. Parte de sua obra foi traduzida para o espanhol e para o francês, principalmente. Veio a falecer em 2014, aos 97 anos de idade.
Foi poeta fecundo, como se pode concluir pela quantidade de livros que escreveu. Segue a lista de suas obras:
1.   Poemas concebidos sem Pecado - 1937
2.   Face imóvel - 1942
3.   Poesias  - 1956
4.   Compêndio para uso dos pássaros - 1960
5.   Gramática expositiva do chão  - 1966
6.   Matéria de poesia - 1974
7.   Arranjos para assobio -1980
8.   Livro de pré-coisas - 1985
9.   O guardador das águas - 1989
10.        Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda - 1990
11.        Concerto a céu aberto para solos de aves - 1993
12.        O livro das ignorãças - 1993
13.        Livro sobre nada - 1996
14.        Das Buch der Unwissenheiten – Ed. da ver. alemã Akzente - 1996
15.        Retrato do artista quando coisa - 1998
16.        Ensaios fotográficos - 2000
17.        Exercícios de ser criança - 2000
18.        Encantador de palavras - Edição portuguesa - 2000
19.        O fazedor de amanhecer - 2001
20.        Tratado geral das grandezas do ínfimo - 2001
21.        Águas - 2001
22.        Para encontrar o azul eu uso pássaros - 2003
23.        Cantigas para um passarinho à toa - 2003
24.        Les paroles sans limite - Edição francesa - 2003
25.        Todo lo que no invento es falso - Antologia na Espanha - 2003
26.        Poemas Rupestres - 2004
27.        Riba del dessemblat. Antologia poètica — Ed. catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor) - 2005
28.        Memórias inventadas I - 2005
29.        Memórias inventadas II - 2006
30.        Memórias inventadas III - 2007
31.        Menino do Mato - 2010
32.        Poesia Completa - 2010
33.        Escritos em verbal de ave - 2011
34.        Portas de Pedro Viana - 2013