quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O PROBLEMA DA CRIMEIA – PORTA DA RÚSSIA PARA A EUROPA MEDITERRÂNEA



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
A Crimeia, depois de sucessivas invasões de todo o tipo durante milênios, no século XVIII, foi anexada ao Império Russo, pelo generalíssimo Suvorov, durante o reinado de Catarina II, da Rússia.
Nesse período, iniciou-se a construção da cidade de Sebastopol, o mais importante complexo portuário militar e comercial do Mar Negro. Daí por diante, sempre esteve ligada aos russos. Com suas praias de clima relativamente quente, o local passou a ser um importante destino de turismo para os russos.
O mais importante, porém, é sua posição estratégica. O porto de Sebastopol, junto do qual está uma das mais poderosas bases militares navais de toda as Rússia, tem posição fundamental no acesso ao Mediterrâneo e é a única capaz de receber toda a frota russa do Mar Negro. Para os especialistas, a Rússia não quer deixar Mediterrâneo sob influência dos EUA. Acontece que Sebastopol é o porto mais importante do Mar Negro. Esse mar liga-se ao Mediterrâneo, sendo um acesso direto dos russos à Europa. É, por isso, de extrema importância, tanto comercialmente quanto militarmente falando.
Stalin já tinha compreendido essa dimensão. Por sucessivos anos de seu longo governo (1927-1953) transferiu cidadãos russos para a região. Desse modo, quando houve recentemente o plebiscito entre o povo da Crimeia, a grande maioria optou por fazer parte da atual Rússia, pois, com o fim da União Soviética, no governo de Mikhail Gorbachev, a região se tornara independente, sendo mesmo, parte dela anexada à Ucrânia.
A Rússia está cercada em grande parte por mares: na fronteira norte limita-se com o Ártico, a frota do norte tem grandes desafios no inverno, pois as rotas para o Atlântico são longas. Também possui fronteira no Mar Báltico, onde está São Petersburgo (Leningrado, no período comunista), porém, aí as distâncias são longas.
Por sua vez, na região do Mediterrâneo, isso só é possível a partir da região que se limita com o Mar Negro. Para a política externa russa, o Mar Mediterrâneo exerce um papel importante. Em meados de 2013, também foi restabelecida uma esquadra permanente no Mediterrâneo. Os russos não querem entregar essa região à Marinha americana.
A Ucrânia afirma que, após a dissolução da União Soviética, os navios nos portos de sua região pertenciam ao país. Houve um acordo e parte da frota foi dada aos ucranianos – na maioria navios que, de qualquer forma, já estavam velhos, desatualizados e avariados.
Porém, nos últimos anos, a Rússia modernizou sua frota. Acontece que, Sebastopol não se tornou somente a principal base da frota russa do Mar Negro, mas também da Marinha ucraniana. Elas se encontram ali, lado a lado. Se a Ucrânia rescindisse o contrato sobre a base e expulsasse os russos, a frota do Mar Negro teria um problema. Essa é uma razão fundamental para os europeus desejarem uma forte aliança com a Ucrânia. Ora, os ucranianos somente poderiam fazer frente aos russos com apoio de europeus e americanos. No entanto, esses todos estão ao alcance dos poderosos mísseis nucleares de Moscou.
A Rússia, como o maior produtor de petróleo e gás de todo o mundo, ameaça desabastecer tanto a Ucrânia quanto a própria Europa, ainda mais neste momento em que os russos estabeleceram um acordo de fornecimento de combustíveis fósseis para a China. Veja-se a enorme importância que a Crimeia tem para a Rússia, tanto em termos econômicos quanto em termo militares. Critica-se Putin, porém, não se pode esquecer que ele defende os interesses russos.
Essa é uma questão que nos chega filtrada pelos meios de comunicação americanos e europeus, cujo discurso esconde seus interesses na região e acusa os russos de truculentos e invasores. Escondem eles que invadiram constantemente o Oriente Médio, de modo especial o Iraque, pelos mesmos interesses econômicos e militares e não o fizeram com menor grau de truculência.