terça-feira, 5 de janeiro de 2016

OS ANTIGOS ROMANOS E SEU GOSTO ESPECIAL EM BRINCAR COM PALAVRAS

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
O povo romano tinha um prazer especial em lidar com as palavras. Herdaram a gramática que os gregos antigos forjaram e com ela construíram um idioma e uma literatura incomparáveis.
Sofisticaram o uso da linguagem. Tinham uma habilidade rara em trabalhar a sentença. Há exemplos abundantes disso. Veja-se o seguinte: “Intelligenti pauca”. A locução inicia com o dativo singular do substantivo latino da terceira declinação cujo nominativo singular é intelligēns, sendo o genitivo correspondente intelligentis. Esse dativo singular intelligenti pode ser traduzido em língua portuguesa como ao inteligente. Já a forma pauca corresponde ao acusativo plural neutro do adjetivo do primeiro grau paucus, a, um (paucus, pauca, paucum), as formas correspondentes ao nominativo singular masculino, feminino e neutro do adjetivo que em português pode ser traduzido por pouco ou pouca. Como se trata de um acusativo plural, dependendo do substantivo que modifica, pode significar poucos ou poucas.
Ora, essa locução pode, então, ser traduzida, emblematicamente, como Inteligente poucas (ou poucos). Caberia, assim, ao leitor intérprete complementar a locução para fazer sentido. Geralmente, traduz-se a locução como: Ao inteligente, bastam poucas informações (ou poucos dados). Também se pode traduzir assim: “Ao inteligente bastam poucas palavras.”
Há na cultura latina numerosos exemplos desse jogo linguístico. Outro exemplo bastante conhecido é: “Festina lente.” Este é um oximoro, isto é, uma figura que trabalha com termos de significados opostos para estabelecer um significado intermediário entre os dois termos. Geralmente se atribui sua criação ao culto imperador Augusto César.
A locução inicia com a forma imperativa do verbo latino regular da primeira conjugação festino, -as, -avi, -atum, are  (festino, festinasfestinavifestinatum, festinare) cuja tradução mais comum é apressar-se. Essa forma correspondente à segunda pessoa do singular pode ser traduzida por apressa-te. Seguida da forma adverbial do modificador do verbo lente, poderia corresponder em oximoro português “Apressa-te lentamente.”
Desse modo, o modificador adverbial lentamente moderaria o sentido do imperativo apressa-te. O significado resultante seria: Faz tudo o mais rapidamente possível que puderes, mas não o faças tão depressa que o faças mal.
Dessas locuções chegaram à sofisticação dos palíndromos, que são construções linguísticas que podem ser lidas em diversas direções. Assim, certas palavras ou frases podem ser lidas da mesma forma de trás para frente. Forma-se o termo palíndromo de elementos gregos: PALIN (πάλιν) de novo, para trás e  DROMOS (δρóμος). Seria uma palavra cuja leitura seria a mesma tanto para frete como para trás.
Isso pode ocorrer tanto com palavras quanto com frases. Assim, em português, acontece com a  palavra sopapos. Acontece também com frases como: Socorram-me! Subi no ônibus em Marrocos! Mas, os romanos foram mais adiante. Chegaram a um palíndromo em que um quadrado formado de diversas palavras podia ser lido em todos os sentidos.

Embora a tradução desse palíndromo seja objeto de diversas discussões, afirmando alguns críticos que a versão tradicional é forçada, a maioria dos filólogos aceitam-na como possível: SATOR, AREPO, TENET, OPERA ROTAS, seria “o semeador, com o seu carro, mantém com destreza as rodas”, que não é muito clara. Há uma outra, talvez mais plausível, que é a seguinte: “O semeador Arepo, sustenta o trabalho rotineiramente”
Esse palíndromo original foi encontrado nas ruínas da cidade de Pompeia, soterrada pelo Vesúvio. Se não corresponde a uma verdadeira frase latina, é muito bem elaborado. Como costumam afirmar os italianos: "Se non è vero, è ben trovato."
Há muitos outros palíndromos como o aquele em forma de cruz, também em latim, do período latino cristão:

Esse gosto especial romano pelo jogo com as palavras legou-nos um enorme repertório de exemplos com as mesmas características dos aqui apresentados.