domingo, 6 de novembro de 2016

EMPREGO DA VÍRGULA



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Aprendi com um velho e sábio frade capuchinho, que me orientava nas minhas produções textuais, quando eu não tinha mais do que doze ou treze anos, que todas as regras do emprego da vírgula se reduzem a duas. É apenas uma questão de simplificação e raciocínio.
Dizia-me o velhinho frei Irineu, com o cenho frisado, por entre as barbas longas e os cabelos alvos cortados em forma de auréola: As regras para o emprego da vírgula são apenas duas e muito lógicas: 


REGRA NÚMERO 1
Emprega-se a vírgula para separar ideias justapostas.

REGRA NÚMERO 2
Emprega-se ainda a vírgula para separar ideias intercaladas, ou deslocadas de sua ordem de posição na estrutura frasal.

Exemplificando:

REGRA NÚMERO 1

Ideias justapostas são aquelas que vêm uma ao lado da outra, podendo ser representadas por palavras, expressões ou mesmo por frases. Podem ocorrer sujeitos justapostos: Pedro, Maria, João e Antônio chegaram. Podem ser objetos diretos justapostos: Compramos cadernos, canetas, livros e borrachas.
Assim, sempre que se seguem palavras que tenham a mesma função, devem ser separadas por vírgula. Desse modo, também, quando se seguem ideias representadas por frases, devem separar-se por vírgula. O dia começava, o sol brilhava no horizonte, os pássaros distribuíam sua alegria pelos ares e tudo se tornava encantador e alvissareiro. Veja-se que é o mesmo princípio da justaposição, que justifica a separação de um elemento do outro, pelo emprego de vírgula.

REGRA NÚMERO 2

Exemplificando: A estrutura frasal canônica da língua portuguesa é: sujeito, predicado, objetos e seus atributos e circunstâncias. Isso não significa que não haja outras distribuições diferentes e possíveis dos elementos frasais. Essa é, no entanto, a distribuição não marcada dos componentes da frase. Os atributos e circunstâncias devem acompanhar os componentes a que se referem.
Assim, quando alguma explicação ou intervenção qualquer se interpuser à sequência de um pensamento na sentença, deve ela ser separada por vírgula, no começo e no final. Veja-se o caso: Napoleão, imperador da França, morreu no exílio. Ou, Napoleão, que foi imperador da França, morreu no exílio. Tem-se a primeira sentença: Napoleão foi imperador da França. Intercalada está: Napoleão morreu no exílio.
Esse princípio serve também para justificar qualquer alteração da ordem de distribuição dos elementos na sentença. Veja-se o exemplo que segue: Na sociedade moderna, os privilégios não se sustentam mais. A expressão “na sociedade moderna” é um modificador adverbial, devendo acompanhar o verbo e não precedê-lo, como ocorre neste exemplo.
Podem-se tomar todas as regras apresentadas nas diversas gramáticas e chegar-se-á à conclusão de que todas elas se reduzem a um desses dois princípios apresentados anteriormente. Parece-me que o esforço didático dos gramáticos, em vez de facilitar, exige do aprendiz a memorização de um enorme conjunto de regras, que provoca a sensação de nunca lembrar todas, causando uma enorme insegurança. A simplificação do velho frade, já de há muito desaparecido, foi-me de grande utilidade em toda a minha carreira acadêmica e literária.