sexta-feira, 4 de novembro de 2016

MARAVILHAS PRODUZIDAS EM NOSSAS ESCOLAS II


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Ainda de minha visita de deslumbramento à escola municipal Anselmo Dias Lopes.
Entrava eu na sala de aula da pré-escola quando me deparei com uma publicação de criança que ainda não escreve. A professora Marcely Mendes reproduziu o texto da aluna como ele foi falado pela autora. Afinal, a escrita é uma invenção muito recente na história da humanidade: coisa de 5 a 3 mil anos, dependendo do povo. Digo recente, porque o homo sapiens, grupo a que pertencemos, surgiu por volta de 200 mil anos passados.
Pois o texto da criança tinha o seguinte título:

BRANCA DE NEVE E A MAÇÃ ENVENENOSA
Que título fantástico!
Alguém dirá: Mas envenenosa não consta no dicionário. É verdade. E daí? Criar neologismos é genial. Nossas crianças são geniais. O prefixo EN adicionado ao radical VENENO, leva a ENVENENO, ENVENENAR. Portanto,liga-se ao ato de colocar veneno,ou seja, que é perigoso. O sufixo -OSA, adicionado ao mesmo radical VENENO, produz o termo VENENOSA, cujo sentido básico é: que tem veneno ou tem a propriedade de envenenar; tóxico.
Ora, envenenosa é tudo isso junto: significa o ato de colocar veneno; mas também significa algo que contém veneno, logo, que é perigoso.
Aqui é preciso lembrar a origem da escrita. O povo mais próximo de nossa cultura que começou a escrever foram os gregos. Os gregos antigos não tinham uma norma padronizada de escrever. Homero, Hesíodo, Pitágoras e Sócrates não escreviam do mesmo modo. Não havia uma ortografia uniforme. Cada um grafava suas palavras como acreditasse possível de ser lida e interpretada pelos leitores. Não havia uma gramática.
Veja-se que Homero viveu no século IX a. C.; Hesíodo, no século VIII; Pitágoras, no século VI e Sócrates, no século V. Já Dionísio da Trácia, que foi o primeiro a preocupar-se com uma padronização da língua grega, viveu apenas no século II a. C. Pois nessa época os gregos, através de Alexandre Magno, haviam conquistado parte da Europa, todo o Oriente próximo e parte da Ásia.
Assim, sendo o idioma grego falado por nações tão diversas e tão distantes umas das outras, diversificou-se grandemente. Dionísio concluiu que o idioma se estava corrompendo e elaborou a primeira gramática da língua grega.
A essa gramática, seguiram-se outras. Depois, os romanos, mudaram seu idioma rudimentar aos moldes dessa gramática e a sofisticaram.
Nessa trilha, surgiram as línguas de exclusão. Dentro de cada idioma surgiu um dialeto próprio das classes mais favorecidas. Quem dominasse esse dialeto distinguia-se dos demais. Os outros eram ignorantes e incultos. Aristóteles, não era grego no sentido estrito da palavra em seu tempo, era macedônio, filho de Pausânias, médico pessoal do rei Filipe da Macedônia. 
Pois o grande filósofo macedônio provocou risos e deboches quando foi para Atenas, estudar na Academia de Platão, onde permaneceu por vinte anos.
Pois, com o passar dos séculos, essa exclusão pelo idioma sofisticou-se cada vez mais. 
Veja-se nossa criança. Esqueçamos o dicionário e encantemo-nos diante de seu termo ENVENENOSA.
Alguém diria: Então, para que ensinar gramática, se todos os dialetos informam igualmente e não são nem melhores, nem piores do que os outros?
Essa é uma falácia. De fato, todos os dialetos e todos os idiomas são igualmente importantes como meios de comunicar, armazenar e transmitir a cultura de uma geração para outra de um povo para outro, para permitir a comunicação entre os seres humanos.
Acontece que o conhecimento do dialeto oficial da língua é uma forma de inclusão. Não dar esse conhecimento aos já excluídos significa excluí-los ainda mais. Esse cartão de visitas vai ser a veste com que eles se vão mostrar para galgar os degraus que a sociedade criou para ascender às funções sociais mais privilegiadas.
Viva a palavra ENVENENOSA!