quinta-feira, 11 de maio de 2017

TRANSPORTE TERRESTRE POR TRAÇÃO ANIMAL NO ANTIGO RIO GRANDE DO SUL

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Desde os primórdios de sua história, o Estado do Rio Grande do Sul, por sua configuração geográfica, foi um estado prioritariamente agrícola. Associada à agricultura, também a extração da madeira foi uma das atividades primitivas do estado.
Porém, somente na segunda metade do século XX é que o transporte passou a ser feito por trens e caminhões. Até então, por mais de duzentos anos, tudo o que se produzia era transportado por tração animal. Esse meio de transporte foi favorecido pela abundância de gado bovino na região.
É sabido que tanto bois quanto cavalos não são nativos em toda a América do Sul. Nosso maior mamífero era a anta. Porém, ocorreu a implantação das missões jesuítas espanholas no noroeste do estado, região que antes dos meados do século XVIII pertencia à coroa de Espanha. Introduziram-se , então, largamente as espécies bovina e, em menos quantidade, a equina, para auxiliar na alimentação e no trabalho humanos. Assim, na segunda metade do século XVIII, quando as missões foram destruídas, criou-se, pela força e instinto da natureza, um rebanho selvagem de imensas proporções.
Daí se originou a cultura do gado e o transporte por tração animal no estado. Treinavam-se bois e construíram-se estradas rudimentares. Confeccionaram-se carretas e todo o transporte era feito por elas. Produtos agrícolas como grãos e tubérculos eram transportados das regiões produtoras para os centros urbanos pela tração basicamente bovina, pois o boi é mais forte e resistente que seu concorrente, o cavalo. Durante o conflito Farroupilha, éramos conhecidos como a República das Carretas.
O cavalo tinha maior emprego no transporte humano, seja como montaria, seja como força de transporte de carroças e carruagens, uma vez que era mais veloz que o boi. Porém, o boi era preferido para o transporte de pesadas cargas, pois é mais resistente e robusto.
Havia transportadores que possuíam centenas de bois, e viviam da atividade de abastecer os centros urbanos e, ao mesmo tempo, de levar ao interior os produtos da cidade. Para isso, formavam-se parelhas de bois. aqui chamadas de juntas, que se atrelavam um ao outro por instrumentos específicos.
Os apetrechos de unir, ou jungir os bois mais empregados por aqui eram os jugos e as cangas. O jugo era um instrumento entalhado em madeira que prendia um animal ao outro pelos chifres. Um tento (pequeno cordão) feito de couro amarrava firmemente o jugo aos cornos de cada boi. Veja-se a imagem do jugo:
Bois unidos por jugo:

A canga também servia para atrelar um animal ao outro. Porém, a diferença entre ela e o jugo era  o se modo de fixação. Ela se fixava ao cangote  (pescoço) dos bois, através de dois pinos de madeira chamados de canzis. (canzil, no singular). Esses canzis tinham entalhes aos quais se amarrava um tento de couro ou um pedaço de corda, conhecido como brocha, para que a canga não se desprendesse do pescoço do boi. A imagem a seguir é de uma canga com os quatro canzis. O furo do centro era para passar o cabeçalho da carreta:

Segue a imagem de bois atrelados por uma canga:




Bois unidos por canga:

Quando a carga era muito grande ou muito pesada, usavam-se muitas juntas ou parelhas de bois:

O jugo e a canga tinham a mesma função. Alguns defendiam o uso da canga porque, estando atrelada ao pescoço e ao peito dos animais, conferia-lhes mais força.
Meu avô paterno dedicava-se, além da criação de animais, também ao transporte agrícola. Tinha mais de uma centena de bois de transporte.e muitas carretas. A primeira profissão de meu pai, quando menino, era a de carreteiro. Ele me fala de cargas tão pesadas que eram necessárias até vinte juntas de bois para transportá-las.
Eles dedicavam-se também à extração de madeira. Havia a madeira mais leve que se destinava aos fogões. Essa já ia cortada em pequenas achas. Mas a que se destinava às madeireiras eram toras enormes para a confecção de tábuas, que tinham de ser grandes para não prejudicar o produto final. Essas exigiam muitos bois para seu transporte.
Bois e cavalos eram usados para arar os campos. Arando o solo com bois:

Arando a terra com cavalos. Os cavalos são mais velozes, porém, menos resistentes:


Vejam-se as diferenças ente os cascos dos cavalos e dos bois:
casco de cavalo
casco de cavalo ferrado

casco de boi> Não é possível ferrar porque é mais fino e sensível

Os cavalos recebem uma proteção de ferro pregada aos cascos com agravos que ajudam muito para evitar ferimentos às patas do animal. O que permite isso é que as patas não possuem o formato de pé, mas são semelhantes a uma unha. Possuem uma parte externa lateral insensível como a unha. No processo primitivo, alisava-se o casco, cortando ou lixando as partes salientes e depois pregava-se com cravos o ferro ao casco. Veja-se imagem abaixo:

Enquanto os bois possuem cascos seccionados em dois e o revestimento é bem mais frágil e menos espesso. Assim, um cravo atingiria o tecido vivo e, em vez de proteger, provocaria um ferimento.
O que prejudica muito os cascos bovinos são os pedregulhos das estradas que ferem os tecidos provocando mesmo, muitas vezes, sangramentos.
Os carreteiros,   quando as distâncias eram longas, e também devido à lentidão dos bois, não conseguiam chegar a seus destinos em apenas um dia. Então, destrelavam os bois, soltavam-nos nos campos vizinhos para se alimentarem. Como as carretas possuíam apenas um eixo, encostavam a parte traseira no solo e ficava um abrigo debaixo para o carreteiro. Acendia, então, uma pequena fogueira para se aquecer e cozer o alimento. É daí que proveio o arroz de carreteiro, feito em panela de ferro, que carregavam consigo. Tinham ima trempe: três hastes de ferro ligadas por um anel. Cravavam as hastes no solo e em que penduravam a panela sobre a fogueira. Depois, enrolavam-se no poncho e dormiam sob a carreta. Geralmente, levavam consigo cachorros companheiros. Era comum viajarem em comboios, por causa dos salteadores. 
Um instrumento, que hoje seria considerado cruel, era usado para açoitar os bois a fim de que andassem mais rápidos. Consistia em uma longa vara de bambú com um prego afiado na ponta. Era conhecido como aguilhada ou aguilhão. Dava-se uma fincada de prego na parte superior da cocha, próxima ao rabo. Daí o nome picanha: que levava picada.
Boiadeiros com aguilhadas:
Outro instrumento de açoite era o relho: um cabo de madeira e uma açoiteira de couro na extremidade: 

Alguns gaúchos do campo eram e são cruéis, talvez levados a isso por muitos anos de revoluções e guerras. Mas, cada vez mais cultua-se o bom trato aos animais, até porque, com a mecanização dos campos e das lavouras, cada vez se usa menos o animal para o trabalho. Os animais são usados mais para o culto das tradições.