quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É COMO SE FÔRAMOS ESTRANHOS...

  
   O José jogava cartas... entrei... não me reconheceu... é o Luizinho da tia Noêmia, disse eu...ele não me conhecia pelo meu nome, eu sou Oscar Luiz, ... Como tu tá mudado...Ele, um olho vazado por arma de caça, com uma prótese de muitos anos, rústica e mal conservada, meio gordo... o rosto macilento... maltrapilho, embora as construções de sua propriedade rural mostrassem alguma prosperidade... uma serraria rústica... uma olaria... alguns caminhões, três ou quatro automóveis... muitos galpões e material de construção... estendi-lhe a mão que apertou, frouxamente, sem afeto... continuou jogando com o parceiro que sequer respondeu ao meu cumprimento... despedi-me... saí pela porta que continuava entreaberta como a havia encontrado... Em outros tempos, haveria abraços e surpresa... convite para um café... falaria dos empreendimentos... hoje, nada... nada... meu coração pesava como uma mala de pedras... e tirei-me dali... lento... desolado... decepcionado... Fui construindo uma explicação... mamãe me contava que tia Rosinha não tivera filhos... não tinha acontecido... ganharam o José... naquele tempo eu sabia de quem... uma gente pobre... era um guri meio grande... talvez cinco ou seis anos... sei lá... um pouco mais... um pouco menos... não dá para esclarecer hoje... Os tios não eram ricos... uma pequena área rural... o tio vendia frutas... lenha... carvão... cada coisa no seu tempo... um pouco sovina... nos domingos, vendia palha de milho pra cigarro, sentado sob a árvore, na porteira... tinha uma poupança... todos achavam que era grande... primeiro, deixava o dinheiro na mão de prósperos comerciantes de Pelotas... depois, foi a Caixa... quando a velha morreu... tinha uma mixaria... alguém teria roubado? Ou era coisa pequena mesmo, de todo sempre?... E o José foi-se criando como os demais primos, sem diferença dos de sangue... Mas ele prosperou... o velho morreu... a velha também... caduca, coitada... ele tinha casado... alguns filhos... olaria... madeireira... rico não era, mas podia enfrentar a vida com alguma tranquilidade... e foi ficando... distante... calado... mais triste... os amigos do local... e eu, por outros caminhos... agora, que pena! Distantes... muito diferente do que já fora...