domingo, 13 de abril de 2014

AS ARTES E O PACTO DEMONÍACO

Jean-Paul Laurens - MARGS

Doch nur vor einem ist mir bang:
Die Zeit ist kurz, die Kunst is lang
[Só de um temor vos darei parte;
É curto o tempo, é longa a arte]
Johann Wolfgang von Goethe
Mefistófeles, em Fausto I

         O pacto demoníaco habita o imaginário de muitas comunidades e civilizações e originou umas tantas obras artísticas e tantíssimas obras literárias. O ser maligno ou divindade do mal é conhecido no cristianismo como diabo ou demônio. Também há uma personagem bíblica do anjo decaído conhecido par Lúcifer, o anjo que se teria revoltado contra o Senhor, querendo igualar-se a ele. Sendo o mais luminoso anjo do céu, teria sido condenado a ser o anjo das trevas.
         Atribui-se a influentes personagens da história e da literatura pactos com o demônio. Em troca de algum favor especial, teriam negociado a própria alma com as divindades infernais.
         Uma dessas personificações da entidade do mal, na Idade Média, é Mefistófeles. Estava à procura de espíritos incautos, espreitando-os e tentando-os para capturar-lhes as almas em troca de favores momentâneos.
         Na literatura, ele aparece em obras de importantes autores como Goethe, Marlowe e Wilde. Talvez a personagem mais importante nessa área seja a pessoa do Dr. Fausto. Trata-se de uma lenda germânica, baseada na pessoa de um médico, mago e alquimista conhecido como Dr. Johannes Georg Faust, que teria vivida entre 1480 e 1540.
         Teria ele nascido em Knittlingen, onde se encontra hoje o Faust-Museum. Trata-se de uma pequena cidade, com população de pouco mais de sete mil habitantes, situada ao sul da Alemanha, no estado de Baden-Württemberg. Na Cracóvia, teria estudado magia, em seu tempo uma cadeira acadêmica regular.  
         Segundo Ricardo Sérgio e o site www.ricardosergio.net", esta seria a história de Faustus: Magister Georgius Sabelius Faustus, como ele mesmo se apresentava, viveu na Alemanha entre o final do século XV e começo do século XVI. Dr. Fausto era um estudioso das Ciências Ocultas, assumia publicamente a sua condição de feiticeiro. Ganhava o seu sustento praticando magia, fazendo horóscopos, vidências e produzindo fenômenos "sobrenaturais". De modo que, é possível que ele tenha realmente tentado alguma comunicação com o demônio, a fim de obter mais conhecimento sobre as Ciências Ocultas.
         Na época, era crença popular de que os estudiosos dessa ciência, eram quase sempre signatários de pactos com o diabo. Portanto, se vivo já suspeitavam dele, quando morreu, de maneira violenta e causa misteriosa, virou lenda. E a lenda do Dr. Fausto e seu pacto com o demônio, espalhou-se rapidamente pela Alemanha.
         Em 1857, Johann Spiess, livreiro e escritor de Frankfurt, compilou tudo quanto se acreditava e dizia acerca do Dr. Fausto, em um livro de 227 páginas, conhecido por Romance Faustiano ou Faustbuch (O Livro de Fausto); cujo enredo contava como Fausto se vendeu ao diabo, as extraordinárias aventuras que viveu, a magia que praticava, e por fim a sua morte e castigo. Surgia a primeira narrativa literária sobre a lenda do Dr. Fausto. Pesquisadores afirmam que o texto tem um fundo moralista, ou seja, propaganda luterana para doutrinação.
         Em 1589, dois anos depois da publicação de Spiess, o escritor e dramaturgo inglês (precursor de Shakespeare) Christopher Marlowe (1564-1593) transforma a primeira versão literária em peça teatral, com o título de A História Trágica do Doutor Fausto, que estreou com grande sucesso em 1594. A peça só foi publicada em 1604 (onze anos após a morte de Marlowe). Christopher Marlowe deu lustro estético à obra. Resgatou a dignidade do personagem distinguindo-o do personagem histórico e das lendas populares a que este deu origem; mas conservou a punição de Fausto, que na cena final desce ao inferno, porém em um clima muito mais trágico, de grande impacto junto ao público da época.
         Coube a outro alemão, Wolfgang Von Goethe, em 1808, três séculos depois da morte do misterioso ocultista, salvar o atormentado sábio, com a versão intitulada Fausto. Drama em verso que levou trinta anos para ser elaborado. Foi a obra de sua vida. Goethe, em sua versão, não mantém a cena final tradicional; troca o trágico pelo de dramático: Fausto em vez de ser punido no inferno é resgatado, na última hora, por anjos que enganam Mefistófeles e levam a alma do sábio para o céu.
         Em 1943, Thomas Mann publica sua versão com o título de Doutor Fausto. É uma versão fora das raízes do mito. O personagem Fausto encarna um músico. O pacto dispensa os demônios, e o inferno vem na forma da sífilis que mata o protagonista.
         O poeta português Fernando Pessoa deixou inconclusa a sua versão do mito, cujo título era Primeiro Fausto, à qual se dedicou durante boa parte da vida. Segundo o próprio poeta, a obra fala do embate entre a inteligência – representada por Fausto – e a vida.
         Na música, o mito de Fausto foi tema de obras de Wagner, Schumann, Liszt, Berlioz e Gounod. ®Sérgio.
         Outra obra literária que se sustenta na mesma temática de um pacto diabólico é o romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Grey. Publicado pela primeira vez em 1891, depois de ser publicado em capítulos de folhetim na revista Lippincott’s em 1890, causou controvérsia no público leitor.
         Trata da vida de Dorian, jovem simpático elegante, cuja beleza fascinou o tanto pintor Basil Hallward que decidiu representá-lo em uma pintura. Lord Henry Wotton amigo do pintor, corrompe o jovem, apresentando-lhe a vida londrina fútil
         Dorian faz um pacto com o demo para ficar eternamente jovem enquanto o retrato pintado por Basil vai envelhecendo constantemente, enquanto o jovem aproveita a vida desregradamente, chegando mesmo ao crime.
         Além dessas obras abordando o pacto diabólico há um poema do Famoso poeta russo Alexander Pushkin, escrito em 1826, intitulado Faust, em que se destaca um notável diálogo entre Fausto e Mefistófeles.

         Também o dramaturgo Christian Dietrich Grabbe compôs, em 1836, sob o espírito do Sturm und Drang, uma tragédia intitulada Don Juan und Faust.
          No século XX, o poeta francês Paul Valéry escreveu a uma peça de teatro que deixou inconclusa, intitulada Mon Faust. Mesmo Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, é acusado pelos seus opositores de enriquecer através de um pacto diabólico.