sábado, 12 de abril de 2014

LITERATURA FRANCESA - MARCEL PROUST – HOMOAFETIVIDADE E LITERATURA




MARCEL PROUST

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust – (1871-1922) – Proust foi um ilustre romancista francês que se notabilizou pela publicação da famosa obra “À la Recherche du Temps Perdu”, publicada em sete partes entre 1913 e 1922.
Nascera da prestigiosa família Proust, ainda mais importante o fato de seu pai, Adrien Proust, ser renomado professor na Faculdade de Medina. Isso proporcionou-lhe uma infância sem preocupações e 
Sempre teve sérios problemas de saúde que se agravaram com a perda dos pais. Sofria de asma desde a infância. Era homoafetivo e se reconhecia como tal e tratou abertamente da própria problemática e de seus pares em relação à aceitação por parte da sociedade. Era protegido pela mãe.
O pai exigia-lhe uma profissão. Passou, então, a trabalhar na Bibliothèque Mazarine como voluntário. Fez grande esforço para exercer suas funções, sempre com grandes problemas de saúde. Conseguiu uma licença por doença e por fim uma aposentadoria.
Viveu na casa dos pais até a morte deles. Em 1903, seu irmão casou-se e abandonou o apartamento da família. No mesmo ano, perdeu o pai. Por fim, em 1905, faleceu sua mãe, protetora e amada. 
Porém, ela deixou-lhe uma herança considerável. Essa perda, no entanto foi avassaladora, agravando-lhe ainda mais os problemas de saúde que desde sempre enfrentara. Foi-se tornando cada vez mais recluso, até que nos últimos três anos confinou-se no próprio quarto. Dormia durante o dia todo e escrevia pela noite. Faleceu em 18 de novembro de 1922 em consequência de uma pneumonia. Seu corpo foi enterrado no cemitério Père Lachaise, em Paris.
OBRAS
Les Plaisirs et les Jours (Calmann-Lévy, 1896);
La Bible d’Amiens (Mercure de France, 1904) ;
La Mort des Cathédrales (Le Figaro, 1904) ;
Sésame et les Lys (1906) ;
Pastiches et Mélanges (NRF, 1919);
Chroniques (1927);
Jean Santeuil (1952);
Contre Sainte-Beuve (1954);
Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009);
Porém, sua grande obra é Em Busca do Tempo Perdido, que se divide em sete partes:
1.   No Caminho de Swann (Grasset, 1913)
         - Parte 1: Combray
         - Parte 2: Um Amor de Swann
         - Parte 3: Nome de Terras: A Nome
2.   À Sombra das Raparigas em Flor (1918)
         - Em Torno da Senhora Swann
         - Nome de Terras: A Terra
3.   O Caminho de Guermantes (1921-1922)
4.   Sodoma e Gomorra (1922-1923)
5.    A Prisioneira (1923)
6.    A Fugitiva (Albertine Desaparecida - 1925)
7.   O Tempo Redescoberto (1927)


Comentários sobre a obra de Proust:

1.   Carlos Augusto Silva
Professor e crítico literário

Poderá mesmo um livro mudar a vida de um leitor? Pode mesmo uma obra de arte ter papel preponderante na modificação da concepção de pensamento a respeito da realidade na qual se vive? Poderá ela reconfigurar nossa maneira de se portar com as pessoas, de refletir sobre as atitudes, de conceber a realidade?
Essas são questões antigas quando o tema da querela é a criação artística. Serve para quê? Afinal, debruçar-se sobre um livro, postar-se diante de um quadro, sentar-se por duas horas numa poltrona às vezes desconfortável de teatro para ver a representação de algo que, grosso modo, não é verdade; buscar significado em movimentos sincronizados que nada mais possam ter além de beleza; ver algo além da utilidade em uma construção arquitetônica, é uma experiência válida para a consolidação de uma visão renovada da realidade? Se seguirmos José Saramago ou Oscar Wilde, a resposta é não. Para o português, a literatura para nada serve, mas pondera, numa entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, perguntando após dar sua polêmica resposta: “Mas para quê os pássaros cantam?”. O dandy irlandês, em seu prefácio ao romance O Retrato de Dorian Gray , é enfático: “Toda arte é absolutamente inútil”.
Evidentemente não podemos ser simplistas na interpretação dessas sentenças.  São complexas, pois tratam de uma coisa complexa e advêm de pessoas igualmente complexas. Penso que tanto Saramago quanto Wilde, ao dizerem que a arte não serve para nada, dizem que ela serve para tudo. Ela é livre. Seria como questionar um filósofo a respeito do bordão conhecido a respeito da filosofia: “A Filosofia é uma coisa com a qual e sem a qual o mundo continua tal e qual.” Um filósofo provavelmente diria: “Ao menos ela não é escrava de ninguém, é complicado apegarmo-nos aos conceitos de utilidade de um mundo em crise de valores como o nosso.”
Essa pergunta parece desnecessária a um acadêmico de um curso de ciências humanas _ se seguirmos à risca os estereótipos a que são submetidos esses estudantes _, ou a um apreciador da Literatura, do teatro, da dança... Mas é muito pertinente quando se trata de um aventureiro pelos caminhos da apreciação estética, por alguém que vez ou outra pega um romance para passar o tempo, ou um poema para presentear a namorada, ou vai a um espetáculo antes da boêmia para encenar-se cult , já que arte é, no imaginário coletivo, ainda _ pela dificuldade de acesso e pelo clima de superioridade que a burguesia vazia imprime no ar _, uma coisa para aristocratas. Esses, que não formam o público cativo (ou cativado) da arte, com certeza fariam a si mesmos essa pergunta se parados diante das duas mil e quinhentas paginas do romance Em Busca do tempo Perdido: “Para que perder (ou investir) tanto tempo lendo isso, num mundo com tantas possibilidades de informação rápida e automática, mastigada, digerida, pronta para ser usada em minhas conversas de bar, nas quais tentarei forjar minha posição de burguês intelectualizado?” Ou, “por que ler esse? Somando as páginas, nesse tempo poderia ler, no mínimo, outros dez livros importantes. Dá, por exemplo, para se ler três vezes Ulisses?”
De fato, essa pergunta seria feita, é feita, constantemente. Em contrapartida, hoje em dia é mais necessário do que nunca conhecer Marcel Proust e seu Em Busca do Tempo Perdido. Com ele podemos correr atrás da verdade perdida, esquecida, da qual sabemos cada vez menos.
Em relação a Saramago e Wilde, Proust está na outra ponta da corda. Para ele, literatura não só serve para alguma coisa, como é a única possibilidade de conceber vida em um sentido completo, verdadeiro e genuíno. Ele nos diz no último volume dos sete que compõe a obra:... captar, fixar, revelar-nos a realidade longe da qual vivemos. Essa realidade que corremos o risco de viver sem conhecer,[...] que está presente em todos os homens e não apenas nos artistas. Mas não a veem porque não a tentam desvendar, e assim seu passado se entulha de clichês inúteis porque não revelados pela inteligência. Só pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que vê outrem de seu universo que não é o nosso. Graças à arte, em vez de contemplar um só mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se. Esse trabalho do artista, de buscar sob a matéria, sob a experiência, as palavras, algo diferente, é exatamente o inverso do que realiza o hábito, amontoando sob nossas impressões os objetos práticos a que erradamente chamamos vida.
Percorrer as duas mil e quinhentas paginas distribuídas em sete romances pode parecer uma tarefa cansativa, árdua, pesada, tediosa. Mas não. De fato, não. Proust fala de leitores de sua obra que não seriam seus leitores, mas sim leitores de si mesmos. Pretendia com ela oferecer a eles um instrumento óptico com o qual lhes fosse possível adquirirem modos de se lerem, de se conhecerem, de se perceberem. O conceito de utilidade fica por demais patético diante das aventadas sobre nossa alma que o livro opera, implacável em sua função de nos revelar a verdade por trás de cada gesto ou olhar, ocasiões domésticas, sentimentais ou fatos Históricos.
Ser um leitor de Proust é, antes de qualquer coisa, mergulhar numa experiência de singular beleza. São frases torrenciais, longas. Reflexões profundas, parágrafos de três, quatro, às vezes cinco páginas, nos quais o tema pode ser o mais prosaico, comum e corriqueiro, mas que ele transforma em algo de inacreditável, de maravilhoso, de relevante, como tudo, para a recuperação da verdade perdida no Tempo. Gilles Deleuze, filósofo compatriota de Proust, chega, em sua obra clássica dos estudos proustianos, Proust e os Signos, à conclusão de que o tema do romance não é o tempo, mas sim a verdade, o aprendizado dos signos, guardados na taça de chá, na sonata de Vinteuil, nas paixões da adolescência, nas crises de ciúme, nas variedades de desejo, de vertentes de sensualidade, de amores paternos, maternos, fraternais.
A vida inteira cabe na busca do tempo perdido, e se renova, sempre, incessante, a cada instante de leitura, releitura, reencontro com nossos sentimentos perdidos, (re)vistos nas personagens, estranhas, mas que nos parecem próximas, com as quais percebemos tantas afinidades, e temos tantas repulsas, revoltas, por vermos nelas a nós mesmos, nossas histórias de intimidade, jamais reveladas a alguém, claras, diáfanas, e temerosos, mas encantados por tamanha carga definitiva de vida, entregamo-nos a um momento raro nos dias de hoje, nos quais Proust é mais que conveniente.
Se no tempo nos movimentamos, se nos instantes caminhamos rumo ao conhecimento ou ao desconhecimento de nós mesmos, é nessa paisagem definida e sinuosa que Proust pretende se (nos) resgatar, colher, como lírios, antigos, porém renovados pela busca, pelo olhar artístico forte para restaurar um instante que parecia desimportante quando baralhado a tantos outros. O instante da rememoração é essencial para o francês. Para ele não se pode saber e viver ao mesmo tempo, pois no momento do viver estamos demasiado ocupados, identificados, sugados pelas percepções falsamente reais do dia-a-dia. Depois, na recordação, podemos filtrar, tirar das situações as pérolas capazes de nos salvar do ciclo do hábito, que faz com que o garoto não perceba seu quarto em Combray, e cuja ausência não o deixa sentir-se à vontade no quarto de Balbec, região litorânea na qual passa as suas primeiras férias do romance na companhia da avó, cuja ausência se fará dolorosa, densamente doída no retorno à Balbec, aí já sem ela, então falecida, na qual se operará o encontro definitivo com o vazio, produzido, tecido, configurado pelo tempo, que, junto com sua avó, arrastou, ou tentou arrastar, o sentimento que os fazia próximos _ não percebido em sua real dimensão por Marcel quando estava ela viva, mas visto em sua totalidade depois de ela morta _, mas que resiste, pois é salvo pela arte, que o reporta ao presente, transformado palavra, transformado beleza, transformado literatura. Arte.
É atual alguns livros que pretendem uma abordagem de auto-ajuda, contrária à do romance, à de Proust, à da verdadeira Literatura, trazendo a ideia de que Marcel Proust tem fórmulas prontas para operar na vida de seu público a tal mudança prometida pela maioria, ou talvez pela totalidade de seus leitores. É um engano maldoso, talvez mal intencionado, que encontra contorno de justificação na atualidade, na qual o vazio coletivo e a indisposição de empreitadas como as que Proust realizou, procura fórmulas, receitas. Não é essa a proposta de Marcel (narrador [?]), nem a de Proust. Se ele pode mudar a sua vida, não é através de formulas, ou de “como”, ou “de que maneira”. Assim não é porque não há fórmula. Não há receita. Não há roteiro. É um livro através do qual você poderá ler a si mesmo, encontrar-se nas paisagens, recordações que se fazem vivas por via da memória. Proust poderá mudar a sua vida na medida em que, mergulhado na leitura, parta você, enquanto leitor de si mesmo, no encontro de seu tempo perdido , de seus signos perdidos, e assim aprenda, por via do olhar proustiano, ou o mais próximo possível disso, a observar, através da arte e de suas próprias sensibilidades, encontrar, nos fatos, por menores que sejam, as verdades que só um olhar proustiano pode nos oferecer.
O autor francês não resolve problemas, nem passa a mão em nossas frontes, muito menos dá palavras de consolo. Ao contrário, instiga-nos a nos levantar da cadeira do hábito, na qual estamos acostumados a nos sentar diariamente, esquivando-nos de nossas partes não apetecíveis aos pensamentos acomodados e covardes, periféricos porque deficientes, incapazes, inconsequentes, não decifrados pela inteligência . De modo algum ele facilita nossa vida. Não é esse seu objetivo, a arte tem mais a meta de desarrumar o ordenado para nos por a buscar novos modelos para a composição da realidade, do que o de deixar tudo como está.
Sobra-nos motivos para ler Proust. Walter Benjamin nos diz de um desejo de felicidade que permearia todo o Em busca do tempo perdido , divide essa felicidade em hino e elegia; hino é o novo, o sem precedentes; a elegia é o que se renova, como a Veneza, que surge do tropeção, ou a Combray, que surge do chá. E para os leitores é a felicidade do encontro, ou reencontro de si mesmo, a felicidade de se ver cúmplice da mais profunda intimidade, da mais visceral realidade, que transcende, tudo o que desprezamos em prol de uma postura realista, como disse Antônio Cândido, em seu ensaio "Realidade e Realismo" (Via Marcel Proust), contido no volume Recortes, no qual diz que
Se considerarmos realismo as modalidades modernas, que se definiram no século XIX e vieram até nós, veremos que eles tendem a uma fidelidade documentária que privilegia a representação objetiva do momento presente da narrativa. No entanto, mesmo dentro do realismo, os textos de maior alcance procuram algo mais geral, que pode ser a razão oculta sob a aparência dos fatos narrados ou das coisas descritas, e pode ser a lei destes fatos na sequência do tempo. Isso leva a uma conclusão paradoxal: que talvez a realidade se encontre mais em elementos que transcendem a aparência dos fatos e coisas descritas do que neles mesmos. E o realismo, estritamente concebido como representação mimética do mundo, pode não ser o melhor condutor da realidade.
Antônio Cândido dá a Proust estatus de criador da supra-realidade, do real mais do que real, da verdade apontada por Deleuze, da ponte entre memória involuntária e aprendizado dos signos, da verdade que se sugere viva.
O livro A Técnica do Romance em Marcel Proust , do crítico Álvaro Lins, tem como meta defender a tese de que uma leitura completa de Em busca do tempo perdido só pode ser feita se lido e relido em seguida, como que introjetando na leitura a estrutura circular do romance. Ou seja, depois de uma primeira viagem, podemos ver, numa segunda, a verdadeira concepção de tempo, de memória como recuperação do mesmo e do modo como esta procura se dá na mente do narrador, e na estrutura ficcional do romance. Se pensarmos na dimensão da obra, veremos que o autor não pretendia realmente facilitar a vida de ninguém, nem fornecer fórmulas fáceis.
Proust pode mudar nossa vida, desde que mudemos com ele, e nos tornemos algo diferentes do que hoje impera em nossa sociedade desprovida de tanto sentido. Proust muda a vida de seus leitores, mas exige do leitor de hoje uma mudança prévia.
Por tudo isso, que é somente a ponta do imenso iceberg proustiano, vale a pena, na companhia deste francês que transformava tudo em que punha os olhos, arte, irmos atrás do tempo perdido, da verdade perdida, ou, como quer Benjamin, da felicidade perdida, sempre (re) encontrada, viva, verdadeira, plena, como cada uma das frases longas, profundas, densas de tempo, gravadas na eternidade da beleza, da humanidade, da arte de Marcel Proust, que conosco, pode sim, mudar tudo, e fazer-nos ver nossa vida, a verdadeira vida, a vida enfim descoberta e esclarecida, a única vida realmente vivida.
2.   Principal obra de Marcel Proust é relançada no Brasil
CASSIANO ELEK MACHADO
Folha de S.Paulo
A "busca" continua, agora remodelada. A grande catedral literária francesa, "Em Busca do Tempo Perdido", está de cara nova nas livrarias brasileiras.  Originalmente dividida em sete volumes, a obra-prima que Marcel Proust escreveu entre 1907 e 1922, ano de sua morte, ganha uma nova edição no Brasil, desta vez em três tomos.  O conteúdo muda pouco. O projeto traz a mesma tradução que a Ediouro havia lançado em 1992, a cargo do poeta carioca Fernando Py, que apenas revisou seu próprio trabalho, agora embalado em uma caixa de papelão roxa com o dizer "Em Busca do Tempo Perdido - Obra Completa".
A empreitada vale registro ainda assim. Antes desse lançamento, há dez anos, o mercado brasileiro só tinha uma versão nacional de "À la Recherche du Temps Perdu", nome original da obra.  A primeira, publicada no início dos anos 50 pela antiga editora Globo (antes sediada em Porto Alegre), havia sido feita em dez mãos (e que mãos!).
O poeta Mario Quintana traduzira "No Caminho de Swann", "À Sombra das Raparigas em Flor", "O Caminho de Guermantes" e "Sodoma e Gomorra", para só então passar a bola.  O quinto volume, "A Prisioneira", ficou a cargo de Manuel Bandeira em parceria com Lourdes Sousa de Alencar.
Carlos Drummond de Andrade, com "A Fugitiva", e Lúcia Miguel Pereira, com "O Tempo Redescoberto", completaram a empreitada da primeira versão nacional.
Desde então, mesmo 15 anos depois que os direitos autorais da obra caíram em domínio público, a única tradução foi a de Py, o único até aqui a fazer o trabalho todo.
Se a primeira tradução ganha em prestígio (e no estofo literário dos tradutores, que vez ou outra vem à tona), o trabalho do poeta carioca, que já traduziu mais de 30 livros -incluindo o inacabado romance proustiano "Jean Santeuil" e a grande biografia do autor, de Georges Painter- tem algumas vantagens.
Proust morreu antes de concluir a publicação da obra, e não chegou a fazer a revisão final nem dos livros que editou em vida.
A primeira edição crítica saiu na França em 1954. Py usou a que, na época em que traduziu pela primeira vez a "Recherche", era considerada a versão definitiva, a feita em 1987 pela Gallimard.
As mudanças promovidas pelo tradutor da Ediouro são visíveis já nos títulos. Como anotou o articulista da Folha Arthur Nestrovski, em texto sobre a primeira edição de Py, de 1992, foi feliz "a decisão de abandonar a lusitana "Sombra das Raparigas" pela sombra mais brasileira das "Moças em Flor'" -em referência ao novo nome do segundo volume: "À Sombra das Moças em Flor".
"O Tempo Redescoberto", outro exemplo, virou "O Tempo Recuperado". Os sete volumes foram distribuídos no modelo 3-2-3. Os três primeiros livros no volume 1, os dois seguintes no 2 e assim por diante.
Ensaísmo sobre Proust Além do lançamento da Ediouro, o proustianismo brasileiro também tem novidade na área ensaística. A coleção Ensaios Transversais, da editora Escrituras, lançou recentemente o livro "O Desconcerto do Mundo", de Carlos Felipe Moisés.
No trabalho, o ensaísta, poeta e tradutor faz, em um dos 16 ensaios do livro, uma reflexão crítica sobre o livro de estreia de Proust, "Les Plaisirs et les Jours" (Os Prazeres e os Dias), que o escritor lançou em 1896, aos 25 anos, e que até hoje não ganhou tradução no Brasil. É aguardar.
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
De: Marcel Proust
Tradução: Fernando Py
Editora: Ediouro (caixa com os três volumes, totalizando 2.444 páginas)



 “Entendendo Proust” e “Em Busca do Tempo Perdido”
         CARLOS RUSSO JR.
Resenha
ENTENDENDO PROUST” é um trabalho inovador, voltado a facilitar a leitura daqueles que desejam iniciar-se em Proust, assim como fornecer bases para discussão de determinados temas centrais da obra, justamente quando comemoramos cem anos da edição de “A Caminho de Swann”, o primeiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido”.
Prefácio- Dedicado a traçar o panorama do livro, principia contando de que maneira tornei-me um leitor de Proust, após diversas tentativas interrompidas nas primeiras páginas de “A Caminho de Swann”. As trilhas que desbravei para decodificar uma leitura inicialmente difícil, lenta, que é parte do próprio estilo proustiano.
Traçamos a identificação de “Em Busca do Tempo Perdido” com o Impressionismo, que, a partir da pintura, forneceu a base para o desenvolvimento da música de um Debussy, assim como para escritores como Proust. Uma nova forma de simbolizar os homens e a natureza – a partir da percepção causada no seu autor. Proust, que tinha a convicção da transitoriedade das associações entre os homens, de suas  personalidades, das intermitências de nossos corações, lançou mão desta técnica que lhe permitia descrever ou rememorar justamente os instantâneos a serem figurados por meio da escrita, dentro de um universo físico e psicológico sempre em mudança.
Convido os leitores a penetrar no universo deste escritor único, detentor de uma sensibilidade refinada, de erudição e memórias privilegiadas e que possuiu o dom de transformar seu romance numa verdadeira epopeia da alma, velejando pelos mais diversos oceanos da existência, mesmo porque, por todos eles, Proust navega. Um Proust que é um subversivo, um revoltado, possuidor de um perigoso gênio cômico, e ele o emprega para destruir, uma a uma, todas as máximas e preconceitos sociais de seu tempo e que, em seu cerne, são os mesmos que a humanidade, cem anos após, ainda os encarna, talvez sob a forma de avatares.
Para o desenvolvimento da trama, criei um personagem, André Jammes, um misto de repórter e crítico literário. Ele estabelece um processo de “entrevistas” com Proust, cujo objetivo é facilitar o caminho  para que os futuros leitores de “Em Busca do Tempo Perdido” remetam-se à obra original e tornem-se “leitores de si mesmos”.
Importa ressaltar que meu personagem busca, com todo o denodo expor a “essência” dos conceitos proustianos. Ou seja, Proust fala por si e pela boca de André, que também emite conceitos, implicitamente buscando a contemporaneidade do cerne de “Em Busca do Tempo Perdido”.
Nosso trabalho foi subdividido em oito capítulos. Os três primeiros são dedicados ao plano geral da obra, em que são definidos os principais atores, suas ações e os panoramas do romance. Os capítulos seguintes apresentam temáticas específicas.
Capítulo I- “Um Romance Circular”- A relação entre André Jammes e Proust é desenvolvida e uma introdução geral ao “Tempo Perdido” assim como ao “Tempo Recuperado” é realizada;  busca-se esclarecer os novos leitores a respeito do estilo proustiano e da modernidade de um romance de novo tipo, um romance semi-autobiográfico, onde o passado é rememorado a partir de impulsos do inconsciente, num tempo que é, não somente uma seta a indicar o futuro, mas também circular, próprio da inserção do homem na “psicologia do tempo”.
Capítulo II- “Personagens e os Alicerces de uma Catedral”- Muitos leitores se decepcionam num primeiro contato com “Em Busca do Tempo Perdido” porque estão acostumados a buscar na leitura tradicional a lógica de cada personagem. Acontece que em Proust, as personagens preservam, sim, uma lógica, mas ela é interna, um fio condutor de sua psiquê, dentro da “multiplicidade de seus eus”.
Os principais personagens do conjunto da obra são apresentados ao leitor, com as suas máscaras sociais, diferentes e múltiplas, suas “personnas” se transformam no decorrer do Tempo. As ações se encadeiam em complexas redes planejadas e construídas numa obra de imenso fôlego, com a precisão e rigor arquitetural, tais quais os necessários para o erguimento de uma catedral gótica.
Capítulo III- “Ambientação e Crítica Social”- Proust vivenciou tanto o clima de decadência do “fin-de- siècle” quanto o da “belle époque”, e o seu romance insere-se nessas diferentes conjunturas.
Na economia, as crises cíclicas do capitalismo deram a tônica das décadas finais do século XIX. O momento histórico que marca a ascensão social de uma burguesia arrivista e parasitária é fruto das conquistas coloniais e da supremacia do capital financeiro sobre a produção, em que também uma aristocracia decadente, que perdera seus feudos, luta pela sua absorção social.
Coincidindo com as grandes descobertas científicas e com inovações tecnológicas, que propiciaram mudanças revolucionárias nos mais diferentes aspectos da vida humana, um novo ciclo de expansão e desenvolvimento ocorreria na transição para o século XX.
Na política e nas relações sociais, o sentimento geral não acompanhou a euforia das descobertas. Proust viveu nessas épocas de transição e crise em que os homens sentem a falta do ar e têm pressa em alcançar uma saída. A ansiedade é permanente e esse clima terá seu reflexo tanto na filosofia quanto nas artes. Dentro desse ambiente em que os conflitos se arrastam, surgem lado a lado a intolerância racial, a luta por novas conquistas coloniais; o patriotismo, o militarismo; as divisões da sociedade em ideologias que cada vez mais determinam atitudes. Até que se desemboca na grande hecatombe que foi a Primeira Guerra Mundial.
Dentro desse panorama geral foi escrito “Em Busca do Tempo Perdido” e em todas essas questões Proust procura, não nos grandes movimentos sociais, mas dentro dos seres humanos, no mais profundo da alma, respostas e “verdades”.
Capítulos temáticos:
Capítulo IV- “A Vida e a Morte”- O que é a adolescência? quando termina? quando se transforma em juventude? Essas fases da vida são sempre repletas de ambiguidades e disfarces. Quando é mesmo que nos metamorfoseamos em adultos? É tão curta essa radiosa manhã, em que também o sexo é descoberto.
Atingiremos a maturidade quando o Tempo desenvolve todo o seu poder de conduzir nossos corpos e espíritos à decadência, que se instala em nós sorrateira e lentamente. As relações amorosas com o passar do tempo, sob a crisálida de dores e carinhos, tornam invisíveis ao amante as piores  metamorfoses da criatura amada, o quanto aquele corpo teve tempo de envelhecer e mudar. Quando, finalmente, a maturidade é conscientemente aceita,  tem como resultado tornar a maioria das pessoas menos exigentes.
A morte, somente quando nos é próxima, assume sua realidade. De certa forma, nossos mortos continuam vivendo em nós. Nesse culto da dor por nossos mortos, votamos uma idolatria ao que eles amaram, mas a morte de quem se ama é muito complicada, pois significa a morte de cada uma das diferentes personalidades assumidas dentro de nós mesmos.
Por outro lado, somente a morte, ao romper todas as nossa ligações com a vida e as coisas, é a única capaz de nos curar do desejo eterno e onipresente de imortalidade, portanto, oferece-nos a total liberdade, que é a própria morte.
Capítulo V- “Os Sonhos, os Múltiplos “Eus” e seus sentires- Proust estudou como ninguém até então o fizera os estados de sono, dos sonhos e de vigília, assim como a dissociação dos estados da alma e a multiplicidade de nossas personalidades, e, logicamente dos seus mutáveis sentires.
“Em Busca do Tempo Perdido” assemelha a vida a um sonho e este à própria vida. A leitura  do  livro nos enleva, somos possuídos pela  sensação de caminharmos lentamente através das clareiras de uma floresta encantada. Um sonhar caminhando, dessas espécies de viagens das quais demoramos como que uma eternidade para nos livrar e conseguir despertar; quando retornamos ao mundo real, damo-nos conta de que o sonho ainda não terminou, pois nosso universo, tal qual um sonho, segue dentro de nós. “Em Busca do Tempo Perdido”, ao lado da memória involuntária de que é tecido, traz a marca indelével dos sonhos e dos pesadelos de seu Narrador, e, por que não, de seu criador.
A dissociação, essa multiplicidade dos “eus “de um indivíduo, para Proust não é apenas um fenômeno normal da personalidade, mas fundamental da vida dos seres humanos.
Capítulo VI – “As Insatisfações do Amor”- Os personagens proustianos são arrastados por um torvelinho de paixões, veladas ou declaradas.  Paixões em que o amor se manifesta nas suas diferentes formas, muitas vezes apenas platônica, outras, com os prazeres do sexo.
No mundo proustiano, o amor que sentimos por uma pessoa é quase que uma obra exclusiva nossa. O acaso nos faz encontrar uma pessoa que espelhará esse afeto e cuja personalidade se moldará ao nosso amor; mas esse processo ocorre exclusivamente em nosso próprio espírito. Na impossibilidade de o amor ser compartilhado, comportamo-nos como Narciso e amamos a ninfa Ecco, fruto de nosso próprio ego.
O ciúme, decorrente da posse ou do desejo da posse, com as torturas e aflições com que Proust concebe seus personagens, funciona como uma ideia fixa, conduzindo o amante a procurar mentiras e traições em quaisquer atitudes, tornando o amor um sofrer poucas vezes apaziguado. Os personagens são confinados em mundos solitários, onde as paixões sempre se transformam em tormentos, em um inferno em que só se é capaz de amar o que não se possui ou o que se teme perder. A paz somente pode ser alcançada no esquecimento e no sonho, ou na fuga para novos amores em que  os ciclos serão recriados.
Capítulo VII- “As Diferentes Facetas do Sexo”- No sexo não existe nenhuma moral a ser seguida e os comportamentos humanos são moldados pelas paixões e pelos padrões sociais. O escritor, dentro de sua extrema perspicácia, explicita os preconceitos e atitudes ligadas ao sexo, abandonando a hipocrisia social. Os personagens proustianos expõem suas facetas sexuais como algumas plantas que sagazmente abrem seus órgãos genitais aos insetos polinizadores, sem pudor, sem vergonha, mas com receio da punição. O homossexualismo se cercava de disfarces, revestia-se de diversas formas e engendrava culpas.
A temática, que se inicia pelas cocotes e pelas prostitutas de bordel, caminha para o homossexualismo masculino e feminino, tanto para aqueles que navegam na bissexualidade, quanto para os outros, cuja prática homoafetiva é quase que um sacerdócio. Proust não exclui de seu romance a prática do sadomasoquismo e ele o faz, quer como uma forma de prazer “vicioso”, quer como recurso estético melodramático.
Capítulo VIII- “O Tempo, a Memória e o Processo Criativo-  Essa temática representa o alfa e o ômega da obra proustiana. Trataremos do Tempo, das transformações que seu decorrer provoca nos corpos e nas mentes das pessoas, assim como em todos os objetos que sejam frutos do homem ou da natureza. O Espírito que, reagindo às destruições que o Tempo produz, busca esconderijos nos templos do Inconsciente e lá deposita, como reminiscências vivas, parcelas do tempo vivido.
Proust diferencia dois compartimentos distintos da Memória. Aquele que nos traz, através da inteligência, figuras estáticas do passado, tal qual um álbum de fotografias; um outro, a Memória Involuntária em que as lembranças guardadas no subconsciente podem ser recuperadas. Um processo de reviver, no presente, como frutos do acaso, sensações que trazem impressões vividas no passado, um  fio condutor da “psicologia do tempo” e da “psicologia do espírito” de Proust.

Essa temática sintetiza uma obra de arte que possui a lógica do inconsciente e encontra sua melhor expressão dentro da linguagem própria dos símbolos.