quinta-feira, 24 de abril de 2014

ESTUDO COMPARATIVO ENTRE LÍNGUA INDÍGENA DO SUL DO BRASIL E LÍNGUAS DE ORIGEM EUROPEIA - TRABALHO APRESENTADO NA UNIVERSIDADE DE ALCALÁ - ESPANHA -


AS RELAÇÕES SUJEITO-PREDICADO-OBJETO NA VOZ MÉDIA: UMA APROXIMAÇÃO ENTRE O IDIOMA INDÍGENA KAINGANG E A LÍNGUA PORTUGUESA
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara – (FURG) – osc@vetorial.net

1. Introdução
O objetivo desta comunicação é analisar as relações enunciativas entre sujeito, predicado e objeto, na voz média específica do antigo grego e do sânscrito, e demonstrar a presença dessa voz na língua Kaingang, um idioma falado por tribos indígenas do sul do Brasil. Não tem, a voz média, um correspondente formal nessa língua indígena, como, de modo geral, não o tem nas línguas modernas.
Esta primeira exposição atém-se mais especificamente à voz média em si mesma. A segunda exposição vai dedicar-se mais especificamente à voz média nos verbos da língua Kaingang. Já a terceira exposição vai analisar a presença e a função da voz média na narrativa mitológica dos índios kaingangues. 
O que caracteriza o médio é o fato de ele definir o sujeito como interior ao processo, junto com o objeto. O que a identifica é que a ocorrência do sujeito e do objeto, na sua dimensão média, não está apenas entre a voz ativa e a passiva, mas está também entre o sujeito e o mundo. Aponta, portanto, para uma dimensão dêitica.
Voltamo-nos para as línguas indígenas instigados pelo fato de a universidade na
qual trabalhamos ter iniciado um processo de integração com grupos indígenas de nossa região, abrindo os cursos da instituição para formar profissionais oriundos desses povos.
Iniciamos, então, um projeto visando a estudar o idioma dessa tribo e a estabelecer uma relação desse com a língua portuguesa. 
Nosso ponto de partida foi o estudo da voz média porque comungamos com os proponentes de uma teoria que afirma ter sido essa a primeira voz verbal utilizada pela humanidade nos primórdios dos idiomas. 
Partimos de textos já coletados por outros autores fundados na literatura oral. Estamos na fase inicial do projeto. Na fase seguinte, ampliaremos o corpus, coletando textos atuais, uma vez que os indígenas já produzem textos escritos em seu idioma.

2. Aspectos teóricos sobre a voz média
As vozes, ativa e passiva, sob o nome de ação e paixão, já são mencionadas no Órganon de Aristóteles, no livro das Categorias. Algumas vezes, essas categorias são também chamadas de classes.
O termo ação da língua portuguesa provém do verbo latino ago. Do tempo supino actum, originou-se o termo ato e seu correlato ação. Daí surge a relação ativa entre o verbo e o sujeito. Aparece a manifestação e o conceito de sujeito com dupla significação: o sujeito sintático, regendo o predicado, e o sujeito empírico, agindo sobre o mundo e sobre o outro. Nessa voz, o sujeito empírico assume a consciência de sua ação sobre o mundo.
A expressão gramatical passivo/a provém do verbo latino patior. Desse verbo originaram-se os termos paixão e passivo. Dele deriva-se também a concepção de voz passiva, em que o sujeito suporta a ação verbal.
Por outro lado, nesta voz aparece a manifestação da ação do mundo ou do outro sobre o sujeito sintático: aparece a consciência da ação do mundo ou do outro sobre o indivíduo, sujeito empírico. Novamente uma relação dêitica, isto é, entre a linguagem e os fatos do mundo que ela expressa. Essa voz, a passiva, no entanto, tem surgimento posterior à voz média e à ativa na maioria das línguas.
Hoje há estudiosos que se voltam novamente para o estudo da voz média. Alguns afirmam que, no surgimento da linguagem humana, ela foi a voz verbal original (que deu origem às demais), e fundamentam seus postulados nos estudos e análises do surgimento da linguagem na criança, realizados pela Psicologia Experimental.
Segundo os pressupostos de alguns estudos, a criança inicia sua inserção no uso da linguagem não se distinguindo do mundo que a cerca: nem dos objetos, nem dos outros seres humanos. A voz verbal característica da criança nessa fase da aquisição da linguagem seria a voz média. Nós, lingüistas, devemos fazer mais análises dessa fase da aquisição da linguagem para averiguarmos se de fato isso ocorre.
Para filósofos e antropólogos como Sproviero, essa era a voz verbal fundamental nos primórdios do surgimento da linguagem no homem. Na fase inicial da formação do homem que Sproviero denomina de infância da humanidade, o homem não tinha ainda consciência de si e do universo como ontologicamente distintos. Nesse sentido, sobre a voz média, ele afirma:
E o ponto fundamental é a tese desenvolvida pelo pensador alemão Schöfer. Ele é de opinião de que houve uma fase em que havia somente o médio: ativo e passivo seriam análises do médio. O médio indicaria portanto a fase da consciência não destacada do mundo, isto é, o homem e o mundo não se separavam, integravam o mesmo todo e a linguagem exprimia essa relação integral (Idem, ibidem, 1997, p. 3).

De acordo com esse raciocínio, o conceito de voz média está relacionado com a própria evolução do ser humano e ligado à formação histórica da consciência do indivíduo acerca de si próprio, e de suas relações com o mundo que o cerca e de suas relações intersubjetivas de identidade e alteridade.
Na mesma linha de pensamento, a formação da língua latina mantém traços da voz média que se manifestam de modo claro na categoria dos verbos denominados depoentes. Porém, nessa língua, já fica claro o processo de apagamento dessa voz, pois não há nesse idioma uma forma gramatical específica para a expressão dela. Esse processo de apagamento se consuma nas línguas modernas com a extinção total de uma categoria morfológica para marcá-la.
No entanto, como veremos mais adiante, apesar do apagamento morfológico, sempre e em todos os idiomas, como afirma nossa hipótese, se manteve a voz média em sua dimensão semântica. Houve, portanto, um abandono das marcas formais na morfologia dos idiomas, mas a voz média continua existindo pelo menos em alguns verbos de todos os idiomas.
No surgimento das primeiras gramáticas houve um processo de descaminho no tratamento dos idiomas. A gramática do idioma sânscrito de Panini e a gramática grega de Dionísio da Trácia, por razões diferentes, têm caráter fortemente normativo.
Enquanto os sacerdotes indianos estavam preocupados com o efeito sagrado dos rituais, em que um desvio de linguagem podia implicar a nulidade dos efeitos do ato litúrgico; os gregos se preocupavam com o processo de mudança lingüístico, considerando a mudança decorrente da expansão do número de usuários como corrupção da língua.
Desse ponto histórico em diante, cada vez mais o indivíduo passou a pertencer menos à comunidade e mais ao universo, ao império:
O que foi a filosofia, senão um esforço constante para consumar a ponte homem-mundo. Tanto é assim que sempre encontramos uma dificuldade de distinguir homem-mundo e, na dimensão epistemológica, a distinção sujeito/objeto, não excluímos do objeto o próprio eu do sujeito, que está presente em todos os atos do conhecimento: eu me conheço ao conhecer... Já o eu, enquanto sujeito ontológico, se distingue do mundo... (Idem, ibidem, p. 5).

Essa marca de relação sujeito–objeto na ação, segundo algumas correntes da psicologia, desapareceu como uma forma fixa, morfológica, na linguagem, mas permanece no inconsciente e se manifesta na enunciação. 
O filósofo da linguagem Émile Benveniste, em sua obra Problemas de Lingüística Geral, tomo I, desenvolve um artigo intitulado Ativo e médio no verbo, datado de 1950. Nele o autor aborda a particularidade da distinção entre voz ativa e voz medial nas línguas indo-européias, usando o conceito de diátese:
Toda forma verbal finita pertence necessariamente a uma ou outra diátese, e mesmo certas formas nominais do verbo (infinitos, particípios) igualmente se submetem. Equivale a dizer que tempo, modo, pessoa, número têm uma expressão diferente no ativo e no médio. (BENVENISTE, 1976, p. 184).

O filósofo francês não define explicitamente o conceito de diátese. No entanto, a partir da aproximação do campo da Medicina, é possível inferir uma relação entre a posição dele e a que apresentamos aqui. 
No texto de Benveniste o termo diátese é empregado para referir uma predisposição orgânica de alguns indivíduos a certas doenças. Semelhantemente aos organismos humanos, há uma característica imanente dos verbos, que os faz selecionar argumentos de tal forma que, no caso específico da voz média, veicule-se a informação de que o agente verbal efetua algo se afetando direta e concomitantemente. Assim, tem-se como exemplo nascer, verbo cujo significado além do espectro ativo: nascer é, para o sujeito, passar a integrar o mundo e interagir com ele; ainda que, em uma primeira instância, ele não pratique a ação ou controle-a, nascer é uma ação que afeta o sujeito em sua relação com a realidade, no dar-se conta da própria existência.

3. As relações médias entre sujeito, objeto e mundo
Como se pode observar, ao tomar-se como exemplo, no verbo nascer destaca-se o caráter filosófico da re-ligação do homem com o mundo. A categoria “voz” é a diátese fundamental do sujeito no verbo, conforme Benveniste. O homem transforma, modifica o mundo no mesmo instante em que transforma a si próprio: eis o princípio intrínseco à compreensão da voz média. O homem cumpre algo que se cumpre nele (idem, ibidem, p. 188). 
Em seu estudo, Benveniste dedica-se a distinguir as relações entre sujeito e processo na voz média por oposição à voz ativa. Desse modo, o linguista e filósofo destaca que, na voz ativa, os verbos marcam processos que se efetuam a partir do sujeito e fora dele, como em soprar. Tendência distinta se marca na voz média, uma vez que os verbos apontam a processos dos quais o sujeito é a sede e fica, portanto, no interior do processo. Será a transitividade verbal o elemento indispensável à conversão do médio ao ativo.
A voz passiva é compreendida por Benveniste como uma transformação histórica da voz média. O sujeito que primeiramente era visto como atuando no mundo pela intenção de atuar sobre si próprio passa, na voz passiva, a ser atuado pelo mundo. O agente converte-se em paciente.
Uma diferenciação entre duas modalidades de diátese é examinada ao final de Ativo e médio no verbo. Considerando-se a posição ocupada pelo sujeito quanto ao processo expresso pelo verbo, haveria para a voz ativa uma noção de diátese externa, enquanto que para a voz média haveria uma diátese interna. Por conseguinte, a diátese soma-se, na proposta de Benveniste, às categorias de pessoa e de número para delimitar o que chama de campo posicional do sujeito, isto é, o modo como o sujeito situa-se em relação ao processo verbal.
A contribuição deste trabalho de Benveniste está, parece-nos, no fato de que são apresentadas evidências lingüísticas para a compreensão da voz média, ainda que muitos gramáticos tenham-na associado a uma mera marca do interesse do sujeito quanto ao processo. Suportada pela língua, a marca medial supostamente tem seu valor na oposição à voz ativa – oposição esta que fragiliza o princípio de que a voz média se explica pela intervenção de fatores extralingüísticos. O homem está na língua e, assim sendo, o estudo da voz média é mais uma comprovação disso. . 
Voltando à nossa posição inicial, as línguas, desde as antigas, mantêm algumas formas que marcam a voz média, preservando laços dessa relação sujeito-mundo. Exemplo claro e rico dessa voz havia já no latim, nas formas dos verbos depoentes. O interessante é que muitos desses verbos chegaram ao português e fazem-se presentes ainda, embora nosso idioma não tenha, para isso, uma marca morfológica. Vejamos alguns exemplos. 
Verbo depoente é aquele que tem uma forma passiva e significado ativo. Um dos mais usados é loquor, falar. Sempre que falo, falo também para mim mesmo. Ao mesmo tempo em que falo para o outro, sou também destinatário da minha própria fala.
Outro verbo depoente é patior, sofrer, padecer. Há uma profunda dimensão de relação suejito-verbo-objeto expressa por esse verbo, pois a ação de sofrer recai sempre sobre o sujeito que sofre. E sofrer não é sempre sinônimo de padecer, embora essa dimensão sempre acompanhe o processo em sua profundidade. Sofrer transformação pode conter muito de positivo, mas é sempre desalojar-se. Há uma idéia de perda também, portanto.
O verbo patior contém, dentro de um conjunto mais amplo e complexo de significações, o conceito de paixão através do pretérito perfeito (passus sum). Daí se origina o adjetivo passional que evoca duplicidade de apego e dor. Além disso, traz uma dimensão relacional entre sujeito, predicado e duplo objeto, enquanto o sujeito, quando sofre pela dor alheia, tem o outro como objeto indireto (quem sofre, sofre por alguém) e a si mesmo como objeto reflexivo do próprio sofrer, o que faz parte da dimensão depoente do verbo e que não tem marca morfológica na língua portuguesa.
Voltando à língua latina, a forma verbal meditari é morfologicamente passiva, mas com dimensão média. Não se trata da forma ativa meditare, que já contém uma dimensão média, mas a passiva meditari manifesta uma relação medial mais intensa, pois a voz média não está apenas no meio entre a passiva e a ativa, mas está no meio entre o sujeito e o mundo. A predicação de meditari é meditar-se a si mesmo enquanto inserido no mundo.
Estas formas de manifestação da voz média não permanecem exclusivas à linguagem filosófica, nem são características apenas das línguas clássicas. Pelo contrário, estão presentes na linguagem de todo dia, em muitos tipos de expressões, como também fazem parte dos textos literários. 
Um exemplo claro do português do Brasil, na linguagem coloquial, é o dativo ético, em que aparecem expressões como Me morreu o gato, Agora me acontece mais essa ou Não é que ela me foi embora. Essas expressões mostram claramente a presença da voz média em nosso idioma. A diátese verbal, na mesma medida em que atinge o objeto, afeta concomitante o sujeito. 
Em Me morreu o gato, como nos demais exemplos, está clara a afetação do sujeito pela relação do predicado com o objeto. Não são, porém, apenas marcas negativas de perda. Podem ocorrer situações em que o sujeito recebe da relação verbo objeto, uma afetação de carga positiva, como é o caso do exemplo a seguir: Não é que ele me ganha o prêmio.
Ampliando o corpus de pesquisa, nosso grupo agora, em estudos que se encontram ainda em fase preliminar, constata que também na língua kaingang ocorre um processo semelhante no que tange à voz média. 
Tomamos o léxico e sentenças da língua Kaingang e investigamos neles a voz média. Atualmente, estamos ampliando o corpus de textos com a finalidade de aprofundar nossas pesquisas. O processo é lento devido à distância entre nossa universidade e as comunidades indígenas, bem como, devido a uma resistência inicial dos indivíduos, provocada pelos conflitos históricos do processo civilizatório, em narrar mitos ligados a sua cultura. 
Na fase inicial de estudos em que nos encontramos, tudo aponta para uma grande semelhança com o que ocorre nas línguas européias em geral. Como na língua diátese interna manifesta a própria essência epistemológica do ser humano que não se pode distanciar do mundo que observa, descreve e analisa, pois é indissociável dele.
Essa separação é apenas ontológica: olhar para o homem sujeito dissociado do universo, objeto da observação, é apenas um processo didático. Homem, universo e linguagem fazem parte de um todo que só pode ser concebido numa visão apodítica universal.
Em kaingang também existem verbos que, pela própria diátese interna, são médios, isto é, têm como objeto o mesmo referente do sujeito. Analisamos verbos como mur ou munmur (nascer), mỹ kaga (sofrer, padecer) gỹm ke (morrer, apagar), fénhféj (brotar), kagãg (adoecer), os quais claramente manifestam a voz média.
Em mur, a ação de nascer parte de sujeito e recai sobre ele. Sobre o sujeito que nasce recai a ação do próprio nascer. O mesmo ocorre com os demais verbos acima relacionados: as ações de sofrer em mỹ kaga, de morrer, apagar em gỹm ke, de brotar em  fénhféj e de adoecer em kagãg são exemplos que deixam evidente que também na língua indígena ocorre o mesmo fenômeno, o mesmo processa das línguas européias. Esses verbos contêm, em sua dimensão semântica, a diátese média, isto é, são médios por sua própria natureza sintático-semântica.

4. Conclusão
A análise acima parece permitir-nos concluir que a voz média faz parte da estrutura profunda de todos os idiomas. Parece pertencer à diátese específica de alguns verbos que em sua dimensão semântico-formal estão ligados a fenômenos fundamentais ligados à própria existência humana e ao desenvolvimento da nossa espécie no processo histórico que nos formou e nos caracteriza.
É, portanto, relevante investigar mais profundamente a presença e o desenvolvimento da voz média na linguagem dos indígenas de hoje, na região sul do Brasil. Isso permitirá um entendimento mais profundo da linguagem e do próprio homem.
Referências bibliográficas
BENVENISTE(1976), Émile. Ativo e médio no verbo. In: Problemas de Lingüística Geral. Tomo I. São Paulo: Ed. Nacional, Ed. da Universidade de São Paulo.
CAMACHO(2008), Roberto Gomes.Em defesa da categoria de voz média no português. In: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010244502003000100004&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em 10/8/2008.
MIRA MATEUS(2003), Maria Helena et. al. Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho.
SPROVIERO(2008), Mário Bruno. Linguagem e consciência: a voz média. In: http://www.hottopos.com/mirand3/linguage.htm. . Acesso em 10/8/2008.