quarta-feira, 9 de abril de 2014

LITERATURA IRLANDESA - JAMES JOYCE


JAMES JOYCE – (1882-1941)
         Foi um extraordinário contista, romancista e poeta irlandês. Teve profunda influência na literatura do mundo inteiro.

OBRAS:
         POESIA: Música de Câmera (1907);
         CONTOS: Dublinenses (1914);
         ROMANCES: Retrato do Artista Quando Jovem (1916);
                               Ulisses (1922);
                               Finnegans Wake (1939).
         Joyce viveu grande parte de sua vida fora da Irlanda, mas foi sua experiência irlandesa que ficou marcada em todos os seus livros. Seus contos, já pelo título, contêm as marcas que a capital irlandesa e seus costumes deixaram na alma do autor. Refletem as saudades e mágoas que trazia da própria pátria.
         Teve uma vida bastante atribulado. Primeiramente foi a falência financeira do pai, importante homem de comércio. Depois, foi a morte da mãe, ocasião em que teve de abandonar o curso de medicina que fazia em Paris.
         Juntou-se com Nora Barnacle, que foi sua companheira pelo resto de seus anos. O casal foge para a Áustria-Hungria, fixando-se primeiramente onde hoje é a Croácia e depois transferindo-se para o Triste, região que atualmente pertence à Itália. Dedica-se, nesse período ao ensino de língua inglesa. É nessa época que começa o importante trabalho de sua carreira literária.
         No final da primeira grande guerra mundial, muda-se primeiro para Zurique e depois para Paris. No período em que vivia na Suiça aparece-lhe uma doença nos olhos, iridite, doença ocular que consiste basicamente em inflamação da Iris. Em Paris, conclui suas obras mais importantes: Ulisses e Finnegans Wake.
         ULISSES (comentários) – maravilhoso romance em que toda a ação se passa em um único dia, o dia 16 de junho de 1904. Foi um marco do modernismo inglês. É uma espécie de fluxo de consciência do autor, repleto de paródias, de chistes na apresentação das personagens. Joyce trabalhou nessa obra entre os anos de 1914 e 1921. Começou a narrativa no Trieste, continuou em Zurique e concluiu-a em Paris.
         O autor toma como base a Odisseia de Homero. O Odisseu grego é rei da lendária Ítaca, sua esposa é Penélope e seu filho chama-se Telêmaco. Ulisses (Odisseu) é Leopold Boom, Penélope é Molly Bloom e Stephen Dedalus, filho do casal irlandês é Telêmaco. Os dez anos do herói grego, reduzem-se a 18 horas de Leopold, das 8h da manhã do dia 16 de junho de 1904 às 2h da madrugada do dia seguinte. São 18 capítulos, um para cada hora do percurso histórico dessa odisseia, enquanto a narrativa épica grega tem 24 capítulos.
         A obra de Joyce é uma rica paródia da Odisseia do magnífico poeta grego clássico do século IX a. C, Homero. Leopold Bloom é um agente publicitário da cidade de Dublin, capital da Irlanda. Para o narrador irlandês, o que mais interessa são os conflitos psicológicos das personagens. Embora mantenham alguma semelhança, as personagens de Joyce diferenciam-se substancialmente das de Homero.
         Ulisses é um rei. Leopold Bloom é um protótipo do homem da classe média de Dublin. Joyce descreve-o como um desajeitado, chegando mesmo a ser engraçado, no entanto é homem reflexivo e coloquial. Penélope é a própria imagem da mulher inquebrantavelmente fiel, Molly Bloom é uma mulher adúltera. Telêmaco é um jovem príncipe herdeiro do trono que parte pelo mundo à procura do pai. Stephen Dedalus é um jovem erudito.
         No romance de Joyce, é Leopold que procura o filho Stephen Dedalus, enquanto Molly trai o marido. Portanto, não há uma paráfrase de Homero, mas uma subversão do sentido da obra original. Muda-se o cenário: na Grécia, trata-se da família da corte real; na Irlanda, a família comum da classe média, em que ocorrem mesmo as traições femininas.
         FINNEGANS WAKE (comentários) – precioso romance de James Joyce, também sua última obra, publicado em 1939. Trata-se agora de romance experimental. É tremendamente difícil de ser traduzido. O próprio autor despendeu 17 anos de trabalho para realizar esta obra.
         Nesse romance, o autor trabalha com o sonho em seus extremos limites e mesmo com a loucura e o delírio. O livro não se funda na lógica humana. O autor trabalha com as palavras e os trocadilhos. Isso é uma tortura para os tradutores, pois não usa os trocadilhos comuns da linguagem. Pelo contrário, cria trocadilhos novos  todo instante.
         O leitor tem de aprender com o autor a criar sentidos. Emprega relações cruzando idiomas, mais de oito idiomas diferentes. Isso instiga o leitor a procurar leituras novas, sempre novas do mesmo texto. Emprega uma linguagem em que os signos não apontam para o mundo. Fragmenta os signos, que reordenados constroem sempre novas possibilidades de sentidos, nunca únicos. São verdadeiros feixes de possibilidades, que, nas traduções multiplicam-se ainda mais, a partir dos novos signos selecionados pelo tradutor, num processo interminável.
         As personagens se fundem e se confundem entre elas e com a própria paisagem. Expandem-se  as personagens até tornarem-se a humanidade toda.
         O entrecho parece girar em torno de um crime de natureza sexual e incestuosa. O criminoso é julgado, condenado, morto, enterrado e ressuscita. Mas essa ressurreição se dá através de seu filho bom, que toma seu lugar.
         Há cenas de desejo incestuoso de irmãos pela irmã. A ma, ao envelhecer é abandonada. A narrativa assemelha-se a um discurso bêbado em que se misturam à batalha de Waterloo, discussões filosóficas, narrativas históricas, muitas piadas, passagens bíblicas, invocações muçulmanas a Alá, e textos literários, sem que haja lógica temporal alguma.
         Parece um eterno retorno de loucuras em que as personagens parecem evocar a tipos mutantes que apelam a argumentos filosóficos que podem ser sempre mudados em outros com que o leitor pode estabelecer novas leituras e interpretações sempre inusitadas. Ninguém nunca pode dizer desta obra que a leitura é esta ou aquela.