quinta-feira, 5 de março de 2015

FEMINISMO E DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara 
Há quem afirme que o primeiro sistema coletivo de organização das sociedades humanas começou por um processo de matriarcado. Tanto a sucessão quanto o poder estavam vinculados à mãe. Assim, as divindades primitivas gregas mais antigas relacionavam-se com Gaia, Geia, Gea (Γαα, γ). Gaia é a mãe-terra, que gera e nutre todos os seres vivos, protege-os enquanto vivos, abençoa todas as gestações e, por fim, acolhe as cinzas de todos os mortos,  Gé (γ), a terra física, é a mãe da geografia e dos astros. .
O homem, o macho da espécie, cultuava a mulher como aquela que tinha o dom de gerar, de reproduzir a vida, sem suspeitar de que tinha papel fundamental nesse processo. Por isso, sujeitava-se às suas ordens e leis, protegia-a, e lutava para prover-lhe o sustento, juntamente com a prole.
Somente com a domesticação dos animais foram desvendandos os mistérios da vida e da existência. Como os machos, para ele, não se reproduziam, passou a devorá-los todos. Então, chegou a descobrir o papel do macho na reprodução, processo que incluía ele mesmo no sistema. Rebanho em que não havia machos não se reproduzia.
Até esse momento, as sociedades eram matriarcais: como entre as abelhas, as formigas e os cupins, havia uma rainha que exercia o poder absoluto, sendo que a transmissão de bens e nomes se dava pelo lado feminino.
Com o desvendar de seu papel no processo reprodutivo, o homem depôs a mulher de sua função de poder nas comunidades e, gradativamente, se foram criando os patriarcados, com todas as consequências sociais daí decorrentes, originando o machismo que impera nos grupos sociais humanos.
Até meados do século XX, o homem, macho da espécie, era geralmente quem provia as necessidades materiais do grupo familiar. Isso lhe conferia poder sobre a mulher e os filhos. Desde as comunidades gregas até a sociedade romana, com seu paterfamílias, ou chefe do clã,  até todas as sociedades medievais, e mesmo, depois, as feudalistas, os grupos humanos seguiam esse molde patriarcal, que se reproduzia em toda parte.
No século XIX, com o surgimento da sociedade industrial, a multiplicação das fábricas exigiu cada vez mais braços para o trabalho. Primeiramente, houve modificação na legislação feudalista, que agregava o cidadão à gleba em que trabalhava. Houve uma enorme liberação de servos da gleba que, abandonando os campos, juntavam-se aos aglomerados industriais, criando enormes cortiços, nos arredores das grandes cidades.
Assim mesmo, com a necessidade do aumento de produção, essa mão-de-obra não era suficiente para atender à voracidade do novo sistema. Com a escassez de braços, intensificaram-se as exigências por maiores salários e se criaram cada vez mais leis trabalhistas, conferindo direitos aos trabalhadores, como limitações na quantidade de horas diárias de trabalho, benefícios aos filhos, segurança contra acidentes e tantos outros. Era uma questão de baixa oferta de operários e alta demanda de vagas novas a cada dia.
Foi então que se descobriu o filão da mão-de-obra feminina. Mas havia uma gama enorme de preconceitos em relação à mulher. Era considerado um ser menos capaz, fisicamente mais fraco, portanto, menos apto ao trabalho. Além do mais, havia toda uma perspectiva machista em relação aos maridos. Enciumados, não desejavam que suas esposas trabalhassem em ambientes onde estivessem expostas a outros homens.
Os mentores da nova proposta valeram-se do crescente desejo de emancipação da mulher. Juntaram-se aos movimentos feministas. A publicidade foi minando as resistências de grupos mais conservadores. Aos poucos, foram criando áreas específicas de atuação feminina. O processo foi-se expandindo.
Havia imensas vantagens na presença da mulher no processo produtivo. Primeiramente, como não era provedora do lar, aceitava trabalhar por salários muito inferiores aos dos homens. Isso diminuía a pressão masculina por aumentos salariais.
Gradativamente, a participação da mulher no processo produtivo se intensificou de tal maneira, que atingiu a todas as profissões e a todas as áreas, os salários se foram uniformizando mais, sendo, hoje, quase impossível haver uma mulher que não trabalhe fora de sua residência ou não almeje a uma profissão.
Em nossos dias, criaram-se tantas necessidades, muitas delas supérfluas, que a imprensa e a publicidade reforçaram tanto, o que exige cada vez mais disponibilidade financeira dos indivíduos e das famílias. Desenvolveram-se, por outro lado, formas de dar conta dos filhos, como creches e escolas de funcionamento integral.
É lógico que todo esse processo teve sérias influências no feminismo. Por um lado, com a independência financeira, deixou a mulher muito menos dependente de seu companheiro. Por outro lado, para o aprimoramento profissional, houve a necessidade de um aumento considerável da escolaridade feminina, o que teve uma profunda influência também em suas concepções da existência e da si mesma, como de seu papel nos grupos sociais. Isso tornou-a menos influenciável, menos manipulável.
O que surgiu como um processo de manipulação, acabou por beneficiar, de modo geral, as mulheres. Não é mais possível retornar ao que era há um século atrás. A transformação é irreversível.

A mulher é hoje muito mais senhora de si, muito mais independente, tanto em relação ao marido, quanto no que tange à própria comunidade humana. Há males que vêm para bem. Feliz dia internacional da mulher!