segunda-feira, 30 de março de 2015

O MISTERIOSO UNIVERSO DOS CUPINS

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Costumamos detestar os cupins pelos danos que eles nos causam, porém, se observarmos mais detalhadamente a organização de suas comunidades, pelo menos vamos aprender a admirá-los. Os meninos criados no campo, muito cedo entram em contato com eles.
A primeira constatação vai ser a presença de montículos de barro, muito duros, espalhados pelos campos. Esses são os ninhos subterrâneos dos cupins. O Morales, o encarregado de matar formigas no campo em que eu residia, foi que me apresentou a eles. Ele tinha sérias limitações mentais. Não dava para outra coisa.
Mas quanta sensibilidade para o mundo animal. Tomou uma faca que tinha sempre presa à cinta e cortou uma fatia de barro duro. Os animaizinhos brancos, quase transparentes, principiaram um trabalho imediato de reconstrução. Pareciam programados. Ele sabia tudo desses insetos. Com a faca, foi direto aos aposentos da rainha: um minhocão enorme, meio inerte e branco como os demais. O velho me disse que ela não fazia nada. Somente punha ovos aos milhares. Todos trabalhavam para mantê-la com um alimento especial, além de sustentarem também as larvas provenientes dos ovos que eclodiam. Santo e sábio Morales, contigo muito aprendi das coisas e da vida. Ele era extremamente honesto.
Depois estudei bastante sobre esses bichos. Foi então que mais me encantei. Eles são insetos. Classificam-se, cientificamente como pertencentes ao reino Animalia, filo Arthropoda, classe Insecta e ordem Isoptera. Em Portugal, são conhecidos como térmites, em espanhol são chamados de termes.
cupins soldados

Eles vivem numa interessante sociedade de castas. Seu sistema administrativo é monárquico, de organização matriarcal. Assim a rainha comanda a comunidade toda. Os cupins são animais gregários. Grex, gregis, em latim, é um termo que significa rebanho. Portanto, são seres organizados em comunidades. São divididos em castas, conforme a função de cada grupo.
Eles se modificam, morfologicamente, de acordo com a função especializada que desempenham. Assim, não podem mudar de função facilmente. Compõem, desse modo, uma comunidade em que as castas interdependem umas das outras.

A rainha do cupinzeiro vive com o rei, com quem se acasala tantas vezes quantas exigirem as necessidades de reprodução. e põe em torno de 84 mil ovos diariamente. Uma rainha pode viver de 25 a 50 anos.
Ao nascer, o cupim já tem a forma física do inseto adulto. Sua evolução se dá por sucessivas trocas de pele. Quando cresce, a pele se rompe. Sob ela, aparece uma de dimensões maiores.

Os operários destinam–se à construção do cupinzeiro, alimentação das larvas, do rei e da rainha e dos membros das outras castas, bem como da busca de matéria vegetal para o consumo da comunidade toda. Também são responsáveis pela limpeza do ambiente, pela remoção dos mortos e todos os cuidados com os ovos.
Os soldados protegem a comunidade dos ataques de invasores. São dois tipos: os primeiros são aparelhados de grandes mandíbulas com que ferem os inimigos, e os outros são dotados de uma bolsa da qual esguicham um líquido nocivo e pegajoso. Há comunidades em que os mesmos indivíduos são capacitados para ambas as funções. Operários e soldados são cupins cegos e não alados. Os cupins comuns vivem por volta de dois ou três meses apenas.
O rei e a rainha compõem a casta de primeira ordem e são responsáveis pela reprodução da espécie. A rainha tem a função específica de procriar. O ventre dela entumece e desova e vai aumentando de volume durante a vida toda. O rei apenas fecunda a rinha, quando necessário.
Os ovos ficam incubados, sob os cuidados dos operários por duas semanas. As ninfas são uma casta intermediárias que, por duas semanas, alimentam-se de uma especiaria regurgitada pelos operários.
cupinzeiros no campo

As aleluias são uma casta de reprodutores, masculinos e femininos, que aguardam uma possível morte do rei ou da rainha para substituí-los. São alados e aparecem fora do ninho quando da implantação de novas comunidades.
Os operários e soldados compõem-se de machos e fêmeas sexualmente estéreis. Ao iniciar o verão, grupos de aleluias partem do ninho, aos pares, com a missão de formarem novas colônias. Assim que encontram um lugar propício, acasalam-se e formam uma nova comunidade, embora a fêmea, a princípio tenha o corpo e o tamanho de um cupim comum. Porém, imediatamente, opera-se uma transformação morfológica em seu organismo. Desenvolve-se aumentando grandemente de volume.

Os cupinzeiros contribuem de maneira decisiva para a melhoria do meio ambiente, de todo o ecossistema. Plantas próximas aos ninhos desses animais desenvolvem-se melhor e mais rapidamente. Eles incorporam ao solo nutrientes importantes como o nitrogênio e o fósforo, aumentando sensivelmente a fertilidade. 
raínha com cupins operários

Ocorre que o excessivo desenvolvimento urbano tomou-lhes o espaço necessário para a sobrevivência. Então, de há séculos, eles se foram incorporando ao ambiente urbano. Como sealimentam basicamente de celulose, atacam o madeiramento dos prédios, os móveis e, já de há algum tempo, algumas espécies têm atacado até mesmo certas estruturas de concreto. armado. Como os pássaros, seus principais predadores, têm diminuído em quantidade e espécies, eles multiplicam-se cada vez mais incontrolavelmente. 
Temos que encontrar um meio de controlá-los, a fim de que não destruam nossas residências e móveis, mas, de tal forma que, ao destri-los, não nos envenenemos. Por outra, precisamos garantir a sobrevivência deles, para gozar dos benefícios que eles trazem ao ecossistema.